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José Paulo Fafe

JÁ CHEGA, DR. VENTURA...

José Paulo Fafe

Conheci bem o dr. Mário Soares – desde que nasci, aliás. O facto de meus Pais serem seus amigos próximos, permitiu-me conviver de perto e desde muito cedo com o casal Soares, de quem fui visita de casa, com quem passei férias, com quem viajei e percorri muitos quilómetros por esse país fora.

Mais do que líder do PS, primeiro-ministro, ou até Presidente da República, o dr. Soares sempre foi para mim, fruto da relação que existia entre as nossas duas famílias, ‘o Mário’, sem prévio ‘tio’ ou ‘sotôr’, sendo exatamente assim, pelo seu nome próprio, que sempre o tratei e o vi.

Nem sempre concordei com ele, bem antes pelo contrário, cheguei mesmo, talvez até algumas vezes exageradamente e pisando ‘linhas’ que hoje certamente me absteria de pisar, a criticá-lo duramente, a atacá-lo, e a colocar-me, sempre que podia, na trincheira contrária à sua  – a que não terá sido alheio o facto de, pese embora a diferença de idades e a fortíssima amizade que o unia a meu Pai, tivéssemos cortado relações ao longo de mais de 20 anos, tendo-as apenas reatado algum tempo depois de ele ter deixado o Palácio de Belém.

Vem tudo isto a propósito de há pouco, por obra e graça de um daqueles ‘zappings’ de fim de noite, ter visto o dr. André Ventura, em plena Assembleia da República, recorrer a um dos velhos e estafados embustes que, vai para 50 anos, alguém resolveu inventar sobre o dr. Soares, no caso, atribuir-lhe o desejo de ver os colonos portugueses atirados aos tubarões.

Não sendo propriamente – nem de perto, nem de longe – fã do dr. Ventura, confesso que, porventura por alguma deformação profissional, já aprendi em não alinhar naquele frenético afã ostracizante com que muitos o olham, muito menos a ‘empurrá-lo’ para fora das quatro linhas de um regime de que, por muito que não o queira, ele faz parte e onde cresceu e se fortaleceu.

 

Aprendi, volto a referir que possivelmente por essa tal ‘deformação profissional’, a ser condescendente com muitos daqueles ‘números’

 

Aprendi, volto a referir que possivelmente por essa tal ‘deformação profissional’, a ser condescendente com muitos daqueles ‘números’ idealizados e protagonizados pelo dr. Ventura, que irritam tanta gente, mas que, no fundo, mais não são do que o ‘eco’ de uma multidão silenciosa que, até agora impávida, mas cada dia menos serena, assiste ao definhamento e ao abastardamento de um sistema em que cada vez menos se revê.

Mas tudo na vida tem um limite. E desta vez, quando o dr. Ventura afirma alto e bom som em pleno parlamento, que o dr. Soares defendeu que os colonos portugueses deviam ser atirados aos tubarões, definitivamente o líder do Chega ‘passou o ponto’. E passou-o, porque se há coisa que o dr. Ventura não é, é estupido – muito menos néscio. Antes pelo contrário, o dr. Ventura é suficientemente inteligente para saber que, por muito que não tenha com ele privado, ou sido seu ‘contemporâneo’ político, o dr. Soares nunca diria tamanha alarvidade.

Volto a dizer que o dr. Ventura ‘passou o ponto’, algo que um político tem de ter cuidado em não fazer, sob pena de poder ‘embarcar’ numa espiral inconsequente, perigosa, e suicida, que mais tarde ou mais cedo, se virará contra si. E eu, pese embora, repito, não sendo fã do dr. Ventura, não gostaria de ouvi-lo um dia destes dar eco a mais um daqueles embustes que há mais de meio-século uns quaisquer farsantes inventaram sobre o dr. Soares – ou que ele pisara a bandeira nacional numa manifestação, ou que tinha um luxuoso e espampanante palácio em Versailles.

O dr. Ventura que me desculpe, mas às vezes já chega…

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Publicado em 18 setembro de 2025
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