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Alexrandre Fonseca

Atrair talento jovem na era da Inteligência Artificial

Alexrandre Fonseca

As empresas estão a transformar-se tecnologicamente a uma velocidade sem precedentes. Mas estarão a evoluir com a mesma rapidez na forma como atraem, desenvolvem e retêm o talento das novas gerações?

A Inteligência Artificial está a redesenhar o mundo do trabalho, não apenas pela automatização de tarefas ou pela criação de novas profissões, mas também pela transformação silenciosa da pirâmide demográfica das organizações. Durante décadas, as empresas assentaram numa estrutura relativamente previsível, com muitos profissionais jovens na base, a aprender e a executar tarefas operacionais, e um número progressivamente menor de colaboradores experientes nos níveis superiores. Hoje, este modelo começa a ser colocado em causa.

Com a IA a assumir funções tradicionalmente desempenhadas por profissionais em início de carreira, desde a análise de informação à produção de conteúdos, programação ou apoio administrativo, as empresas podem sentir-se tentadas a reduzir o recrutamento de perfis juniores. O resultado poderá ser uma pirâmide organizacional mais estreita na base, com consequências profundas para a renovação de competências, a transmissão de conhecimento e a formação dos líderes do futuro. Afinal, se deixarmos de contratar jovens porque a tecnologia consegue executar parte das suas tarefas, onde iremos encontrar os profissionais experientes de amanhã?

Mas esta transformação tecnológica coincide com outra mudança igualmente estrutural…a evolução das expectativas das novas gerações relativamente ao trabalho.

Para muitos jovens entre os 20 e os 35 anos, o emprego deixou de ser o centro absoluto do projeto de vida. A progressão hierárquica, a estabilidade contratual ou o prestígio de uma grande organização já não são, isoladamente, argumentos suficientes para atrair talento. A flexibilidade, a autonomia, o propósito, a aprendizagem contínua e a possibilidade de conciliar ambições profissionais com experiências pessoais ganharam uma relevância crescente.

Não significa que os jovens sejam menos ambiciosos. Significa, sobretudo, que a ambição mudou de forma. O sucesso já não se mede exclusivamente pelo cargo alcançado, pelo número de horas trabalhadas ou pela dimensão da equipa liderada. Mede-se também pela liberdade de escolha, pela qualidade de vida e pela capacidade de construir um percurso profissional que não comprometa outras dimensões da existência.

É precisamente aqui que surge um dos maiores paradoxos do mercado de trabalho atual. Enquanto as empresas procuram talento jovem, digital, criativo, adaptável e capaz de acelerar a transformação tecnológica, continuam frequentemente a oferecer modelos de trabalho concebidos para gerações anteriores, com horários rígidos, processos antiquados, estruturas hierárquicas pesadas e progressões de carreira lentas e pouco transparentes.

Esta incompatibilidade torna-se particularmente evidente em funções que exigem presença física, horários definidos ou maior intensidade operacional. Setores como a indústria, a logística, o retalho, a hotelaria ou determinados serviços enfrentam desafios acrescidos para captar profissionais jovens. Nem todas as atividades permitem teletrabalho ou flexibilidade total, mas isso não pode servir de justificação para a ausência de inovação nos modelos de gestão de pessoas e da motivação dos trabalhadores.

Repensar horários, promover maior previsibilidade, criar percursos de desenvolvimento acelerado, reconhecer competências, definir e comunicar valores e propósito, ou oferecer experiências profissionais enriquecedoras são caminhos possíveis. A flexibilidade não tem de significar, trabalhar a partir de qualquer lugar. Pode significar maior capacidade de influenciar quando, como e em que condições se trabalha.

Neste contexto, a IA pode representar tanto uma ameaça como uma oportunidade. Se for utilizada exclusivamente como instrumento de redução de custos e substituição de pessoas, poderá agravar a dificuldade de integração dos jovens no mercado de trabalho. Mas, se for encarada como uma ferramenta de capacitação, poderá permitir que profissionais menos experientes assumam responsabilidades mais relevantes, aprendam mais depressa e contribuam com maior valor desde o início das suas carreiras.

O verdadeiro desafio das organizações não será, por isso, apenas tecnológico. Será profundamente humano e cultural. As empresas terão de compreender que já não basta selecionar os melhores candidatos. É necessário construir propostas de valor suficientemente relevantes para que esses candidatos queiram entrar, permanecer e crescer. E isso exige liderança diferente, confiança, investimento no desenvolvimento e coragem para questionar práticas que durante décadas foram consideradas inalteráveis.

 

A vantagem competitiva não pertencerá necessariamente às empresas que adotarem mais rapidamente a Inteligência Artificial, mas àquelas que conseguirem combinar inteligência tecnológica com inteligência humana.

 

Num mercado em que a tecnologia transforma as funções e as novas gerações redefinem o significado do trabalho, a vantagem competitiva não pertencerá necessariamente às empresas que adotarem mais rapidamente a Inteligência Artificial, mas àquelas que conseguirem combinar inteligência tecnológica com inteligência humana.

O maior risco para as organizações não é que os jovens deixem de se identificar com as organizações, mas sim que não queiram trabalhar nos modelos laborais ultrapassados e acima de tudo, em organizações sem um propósito claro, assumido e bem comunicado. E talvez a pergunta mais importante já não seja como convencer os jovens a adaptarem-se às empresas, mas sim até que ponto estão as empresas dispostas a transformar-se para continuar a merecer o talento das novas gerações.

 

Alexandre Fonseca é empresário, gestor e Business Advisor, administrador do TagusPark e presidente do Conselho Estratégico da Economia Digital da CIP

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Publicado em 30 outubro de 2026

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