
Miguel Relvas*
A política detesta vazios. Quando um governo perde iniciativa ou transmite sinais de hesitação, alguém ocupa inevitavelmente esse espaço. É precisamente isso que parece estar a acontecer hoje em Portugal.
António José Seguro percebeu que Luís Montenegro atravessa um momento politicamente delicado. As sondagens apertam, a reconstrução das regiões afetadas pelos incêndios continua longe da velocidade desejável e aproxima-se um verão que poderá voltar a testar a capacidade de resposta do Estado. Nesse contexto, Belém decidiu subir o tom.
Até aqui, nada de particularmente inesperado. A Presidência da República sempre exerceu influência sobre o sistema político. O problema não está na existência dessa influência, mas na forma como ela é exercida.
A magistratura de influência, tantas vezes invocada por António José Seguro, exige prudência, discrição e equilíbrio institucional. Não vive de exposições públicas sucessivas nem de intervenções que possam ser entendidas como formas de pressão política direta sobre o governo.
Há uma realidade que o centro-direita começa agora a redescobrir: os Presidentes da República não existem para proteger executivos. Protegem, antes de mais, a estabilidade do sistema — e também a relevância do próprio cargo. Seguro parece cada vez menos interessado em limitar-se ao papel de árbitro.
A dúvida é saber até onde esta dinâmica poderá evoluir. Quando chegar o Orçamento do Estado ou se o verão trouxer nova pressão associada aos incêndios, continuará Belém nesta trajetória? Porque existe uma fronteira sensível entre condicionar politicamente um governo e começar a governar a partir da Presidência.
Entretanto, o executivo também não está isento de responsabilidades. O caso do SIRESP e as tensões no Ministério da Administração Interna revelam um problema mais profundo: demasiada preocupação com a gestão da imagem e insuficiente atenção à capacidade operacional do Estado.
Os cidadãos não vivem de narrativas políticas. Querem apenas ter a certeza de que, perante uma emergência, o sistema funciona. E esse continua a ser o verdadeiro défice português: um Estado que comunica muito, mas que continua demasiadas vezes a funcionar pouco.
Portugal mudará verdadeiramente no dia em que a competência deixar de depender das crises e a previsibilidade do Estado deixar de ser uma exceção. Sem propaganda. Sem dramatização. E sem precisar de uma tragédia para descobrir que nada estava, afinal, preparado.
*resumo da responsabilidade do 24Horas da participação do autor no programa ‘CNN Fim de Tarde’