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Paulo Abreu

CABO VERDE: ANTENA 1 SEM PERDÃO

Paulo Abreu

Há decisões editoriais difíceis de entender. E depois há a opção da Antena 1 de ignorar o Cabo Verde-Espanha desta segunda-feira, um jogo que ficará para sempre na história do futebol cabo-verdiano e, muito provavelmente, também deste Mundial.

Falamos da estreia absoluta de Cabo Verde numa fase final do Campeonato do Mundo. Não foi um jogo qualquer. Foi o primeiro passo de uma nação que, durante décadas, sonhou chegar a este palco. E logo diante da Espanha, campeã da Europa, uma das grandes favoritas ao título. Resultado? Um surpreendente 0-0, que deixou comentadores, adeptos e especialistas de boca aberta. Menos da Antena 1.

A rádio pública portuguesa, financiada por todos os contribuintes e detentora de um orçamento que faz corar muitas estações privadas, decidiu que este acontecimento histórico não merecia transmissão. Uma escolha editorial que oscila entre a falta de visão estratégica e a simples incapacidade de perceber o que é relevante.

Durante anos, ouvimos falar da importância da CPLP, dos laços históricos com os PALOP, da responsabilidade especial de Portugal para com os países de língua portuguesa. Discursos, conferências, cimeiras, fotografias de família e declarações políticas cheias de fraternidade lusófona. Tudo muito bonito. Mas quando Cabo Verde vive o maior momento da sua história futebolística, a nossa rádio teve outros afazeres. Afinal, para que serve o serviço público?

Se a resposta for apenas transmitir aquilo que já toda a gente transmite, então talvez seja altura de rever o conceito. Porque um serviço público digno desse nome deveria ser precisamente aquele que reconhece a importância de acontecimentos que vão para além do óbvio, que representam comunidades, histórias e identidades que fazem parte da realidade portuguesa.

E mesmo admitindo que a sensibilidade cultural não chegava para justificar a transmissão, talvez o argumento comercial fosse suficientemente claro. Ou também passou despercebido que vivem em Portugal centenas de milhares de cabo-verdianos e luso-descendentes? Ou que o interesse por este jogo ultrapassava largamente as fronteiras do país?

É aqui que a ironia se torna inevitável. A Antena 1, tantas vezes pronta a reivindicar a sua missão pública, conseguiu ficar de fora precisamente quando essa missão fazia mais sentido. Enquanto o mundo descobria Cabo Verde, a rádio pública portuguesa parecia empenhada em não descobrir nada.

No final, o empate ficou para a história. Cabo Verde ganhou respeito internacional. A Espanha perdeu dois pontos. E a Antena 1 perdeu uma oportunidade rara de mostrar que compreende o país real e a comunidade lusófona de que tanto gosta de falar – os especiais não são argumento.

A CPLP, pelos vistos, continua a ficar muito melhor nos discursos do que na programação.

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Publicado em 16 junho de 2026

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