Frase do dia

  • “Às vezes, dou por mim a perguntar como não valorizamos o que temos de bom: o futebol português”, António Salvador, após a vitória histórica do SC Braga frente o Bétis
  • “Às vezes, dou por mim a perguntar como não valorizamos o que temos de bom: o futebol português”, António Salvador, após a vitória histórica do SC Braga frente o Bétis
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Jorge Morais

Trouxe dos meus anos em Inglaterra uma consciência muito prosaica do papel da Família Real na vida dos ingleses. Essa...

Trouxe dos meus anos em Inglaterra uma consciência muito prosaica do papel da Família Real na vida dos ingleses. Essa consciência tem-se aprofundado ao longo do tempo, mercê da minha relação profissional com a cultura inglesa e do meu contacto permanente com o dia-a-dia da ilha. Não tenho, por isso, ilusões latinas quanto às consequências da queda do rapaz York nas malhas epsteinianas – como as não tive aquando da queda do rapaz Sussex na cama das suplentes de Los Angeles, nem aquando da queda da jovem Spencer nos braços de Al-Fayed e no regaço dos tabloides.

A Europa meridional (perdoem-me a generalização) tem da Monarquia uma ideia formada em séculos de cultura católica, pontuados por conflitos entre o poder religioso, o poder real, o poder da nobreza e aquilo a que chamamos poder local, com mecanismos muito frágeis e erráticos de consulta ao homem comum. A figura do Rei, para o europeu do Sul, é algo que ficou para trás no processo histórico, e apenas se admite como resquício cénico de um tempo em que o povoléu carregava a albarda (Bordalo Pinheiro gravou bem essa imagem, no século XIX).

O percurso histórico e a memória cultural da Monarquia inglesa são totalmente distintos. A Realeza, o Parlamento e a comunhão eclesial anglicana (cuja origem remonta ao século VI e cuja independência de Roma foi confirmada no século XVI) compõem o Establishment, a base harmónica em que os poderes se limitam mutuamente e à qual se agregam, cada um em sua função, a aristocracia (hoje reduzida em grande medida a um papel protocolar e social), a administração pública (o Civil Service que mantém “a máquina” em funcionamento), a City, as modernas Guildas e conglomerados económicos, os Colégios autónomos e a livre Imprensa. O Rei é em Inglaterra o protetor desta árvore frondosa – o protetor, não o dono ou senhor. A consulta popular mergulha as suas raízes nos Conselhos de Anciãos dos Reis anglo-saxões e nas Magnæ Cartæ do século XIII. O Parlamento inglês está convocado regularmente desde 1327 – uma diferença substancial das Cortes meridionais, reunidas a bel-prazer dos Soberanos e geralmente destinadas a agravar a carga fiscal.

Há na tradição inglesa uma pequena cerimónia simbólica que diz tudo sobre a relação do Rei com a nação. No dia da abertura oficial do Parlamento, um emissário real dirige-se à Casa dos Comuns, mas a porta é-lhe fechada na cara. Ele bate então três vezes com o Black Rod e só depois é admitido, apenas para anunciar que o Rei se encontra na Câmara dos Pares e convida os Comuns a juntarem-se-lhe. O Rei está proibido de entrar na sala dos eleitos do povo. Esta edificante alegoria, que ciclicamente sublinha a independência do Parlamento, vem de 1642, quando Carlos I tentou invadir a Câmara para prender cinco parlamentares, incorrendo assim em grave violação constitucional. Uma vez sem exemplo. E sem êxito na tentativa.

Entre o Rei e o povo inglês estabeleceu-se, ao longo dos séculos, uma relação que não aceita abuso ou negligência. O povo, desde há muito tempo, legisla através das Câmaras parlamentares e governa através dos Gabinetes resultantes de eleições livres. O Rei e a Família Real são apenas a representação simbólica da família inglesa – evoluindo nos costumes, nas práticas oficiais e até nos deveres públicos, nisso acompanhando a vida real. As mitologias principescas (as Dianas deste mundo), os escândalos e extravagâncias dos ‘royals’ são a espuma que se desvanece numa tradição que resiste. E ela resiste porque se transforma e se ajusta à evolução da vida do povo.

Príncipes caídos em desgraça há-os em quantidade na história inglesa. ‘Royals’ que sucumbem à lascívia, que trocam o Reino por uma noite escaldante, que são encontrados a trair, a roubar e a desonrar o título – encontramo-los em todas as páginas dos anais da vida inglesa. São a telenovela nacional favorita a seguir a Coronation Street. Nada de novo debaixo do Sol. Se a Monarquia inglesa tremesse de cada vez que um York qualquer dorme com o harém de um qualquer Epstein, ter-se-ia desmoronado há muitos séculos.

É normal que perante uma sucessão de escândalos, sobretudo se envolvem o uso indevido de meios que à nação pertencem, a Monarquia tenha de adequar-se a novas regras, novas exigências. Fá-lo-á sem pestanejar. Tem-no feito, em anos recentes, com a redefinição das funções reais, com a redução dos ‘royals’ de serviço a um número razoável, com o pagamento de impostos e tantas outras decisões que vão adaptando a Instituição Real à vida real dos ingleses e às suas expectativas.

Do “caso Andrew” nada mais resultará, estou certo, do que a espuma dos dias – ainda que venha a alimentar por muito tempo a telenovela. É mesmo possível que, pela dignidade com que o Rei Carlos e a Família Real têm enfrentado a tempestade, a Monarquia saia prestigiada deste episódio escabroso. Há dias, ao telefone com um amigo em Inglaterra, ouvi com um sorriso o seu comentário: “Pobre Carlos, que não merecia as dores de cabeça que lhe dão!”. E no comum dos lares ingleses, à hora dos feijões na torrada, virá como sempre à mesa a velha caneca de chá gravada com a cara de Camilla ou William e a velha Union Jack. “Poor darlings”.

Os meus pacientes leitores terão notado que não me referi uma única vez à Grã-Bretanha ou ao Reino Unido – mas apenas a Inglaterra. Disso falaremos noutro dia, que esta já vai longa.