
Jorge Morais
Nunca deixarei de me surpreender com os truques congeminados pelos meus estimados concidadãos para trabalharem ainda um bocadinho menos.
Acabo agora de encontrar na caixa do e-correio mais uma manifestação desse engenho inventivo: sob o eufemístico título “Maximizar os Dias de Descanso”, o meu amável correspondente fornece-me uma lista completa de “feriados, pontes e fins-de-semana prolongados para aproveitar no próximo ano” – um rol deleitoso de “várias oportunidades para criar” dias extra de sorna.
A antecedência cautelar de quatro meses com que esta cábula é fornecida dar-me-á tempo para esgaravatar todos os recantos obscuros do calendário e acrescentar à lista dourada algum feriado municipal ou marco confessional que porventura lhe tenha escapado. A antecipação é justificada com uma imbatível lógica laboral: “As férias de 2026 terminaram para muitos e, por isso, nada melhor do que começar já a pensar nas próximas…”. Tomei devida nota das reticências.
E as alegrias surgem no primeiro dia de 2027: “como calha a uma sexta-feira”, indica o meu generoso correspondente, “começa logo o ano com um fim-de-semana prolongado”. Boa. E a seguir vem a terça-feira de Carnaval e o sábio conselho: “se tirar a segunda (dia 8) de férias, fica com um fim-de-semana de quatro dias”. O mesmo em 26 de Março, Sexta-Feira Santa. E melhor ainda em 27 de Maio, dia do Corpo de Deus, que “é uma quinta” (tal como 10 de Junho, Dia de Portugal), bastando “tirar a sexta” para ganhar umas mini-férias. O maravilhoso método de “fazer ponte” aplica-se também a 5 de Outubro, terça-feira, dia da instauração da República. Menos trabalhoso ainda é o dia de Todos os Santos, 1 de Novembro, que cai numa segunda-feira, pelo que (explica o meu prevenido correspondente), “sem fazer nada, já tem mais um fim de semana prolongado” no papo. Mas o melhor, mesmo, está nos feriados que “calham a uma quarta-feira”, como o dia da Restauração (1 de Dezembro) e o da Imaculada Conceição (8 de Dezembro): basta sacrificar dois dias de férias na segunda e na terça para conquistar uma escapadinha de quase uma semana. Uau.
Infelizmente, lamenta o meu inconsolável correspondente, “ao olhar para estas datas há quatro feriados que não constam na lista”: são os ingratos 25 de Abril, 1.º de Maio, 15 de Agosto e o dia de Natal, que caem ingloriamente em fins-de-semana. Não há direito.
Agradeço ao meu esforçado correspondente a trabalheira que teve a explicar-me como trabalhar menos. Rapaz, só por isso já merecias mais um dia de papo para o ar.
Acabo também de encontrar na caixa do e-correio a circular do Eurostat com os valores nominais do PIB per capita na União Europeia. Média geral: 41.600 euros anuais. Espanha, 34.210. França, 43.350. Alemanha, 53.520. Portugal: 28.390 euros.
Uns desmancha-prazeres, estes europeus.

Jorge Morais
Tem-se discutido, com algum calor e muita ingenuidade, a proibição dos chamados ‘smartphones’ nas escolas. O bruaá voltou na última semana, com a promulgação presidencial que alarga as restrições até ao 9º ano de escolaridade.
Por uma razão meramente metodológica, li com paciência os argumentos de quem defende a “liberdade na sala de aula” a bem da “cidadania digital”. Mas nem um só me convenceu: antes de tudo, a escola não é um parlamento; depois, a preocupação com a “cidadania digital” transformou-se num bonito embrulho para o consumismo em que a indústria dos ‘gadgets’ nos vem escravizando.
O debate chegou a Portugal há três ou quatro semestres mas tem barbas na União Europeia, que vem há anos questionando a relação dos jovens com as tecnologias digitais. Universidades, ‘thinktanks’ e instituições da especialidade têm analisado o problema ao microscópio, sopesando e submetendo ao fogo do contraditório todas as alegações – mesmo aquelas que usam a palavra “proibição” como anátema grosso e primário.
Está hoje pacificamente estabelecido que os ‘smartphones’, longe de serem as inocentes “ferramentas de apoio pedagógico” que a indústria propagandeia, são simples fonte de distração profunda, ansiedade e isolamento social. A UNESCO, após uma década de investigação, apela a uma “pausa digital” perante o impacto negativo no desempenho escolar e no bem-estar emocional dos estudantes.
Inúmeros países europeus adotaram regras draconianas: a França, que em 2018 foi pioneira ao banir telemóveis no ensino básico, estendeu recentemente a proibição total aos alunos do ensino secundário; nos Países Baixos, o veto a ‘smartphones’, ‘tablets’ e relógios “inteligentes”entrou em vigor de forma abrangente para escolas primárias e secundárias; as escolas italianas e húngaras exigem a recolha dos aparelhos à entrada do recinto escolar; na Alemanha, onde não há leis federais sobre a matéria, vários Estados e muitas escolas seguem as recomendações da UNESCO; a Polónia e a República Checa anunciaram também restrições rigorosas; e aqui mesmo ao lado da União Europeia, a livre Inglaterra avançou com regulamentação proibindo o uso de telemóveis em todas as escolas durante todo o dia letivo (não apenas no tempo de aulas, mas também nos intervalos e períodos de almoço).
Mais do que uma rejeição da “modernidade”, a interdição de ‘smartphones’ na União Europeia filia-se numa política de saúde pública e de salvaguarda da sanidade educacional
Parece que chamar a isto “proibição” desperta velhos papões. Mas os resultados falam por si: maior concentração mental nas aulas, socialização natural durante os intervalos, ambientes escolares mais calmos, maior atividade física: o regresso a padrões humanos. Mais do que uma rejeição da “modernidade”, a interdição de ‘smartphones’ na União Europeia filia-se numa política de saúde pública e de salvaguarda da sanidade educacional.
Nem percebo que, em Portugal, seja necessário um “período de adaptação” até Janeiro de 2027 para – diz o diploma – “preparar alunos, professores e famílias para a aplicação integral das novas regras”. Adaptação a quê? Grande número de escolas já tinha adotado voluntariamente a interdição de ‘smartphones’ até ao 3º ciclo sem precisar de “preparação” especial. Bastou carregar no botão e desligar a maldita coisa.

Jorge Morais
Estava totalmente ignorante da existência de substâncias perfluoroalquílicas (ou mesmo de substâncias polifluoroalquílicas) até há poucos dias, quando a Comissão Europeia m’as denunciou como “químicos eternos”. Obrigado, querida Ursula, por me resgatares do obscurantismo molecular em que andava.
Fiquei então a saber que os escritórios de Bruxelas decidiram declarar guerra àquelas substâncias, por possuírem ligações químicas de carbono e flúor extremamente fortes, quase impossíveis de quebrar de forma natural, que não se degradam no meio ambiente e se acumulam no solo, na água, nos animais e no corpo humano para todo o sempre. As malvadas.
Num primeiro momento supus que esta santa guerra seria ferida com tubos de ensaio, retortas, béqueres, erlenmeyers, provetas, pipetas, buretas ou bicos de bunsen por cientistas desinfetados no meio asséptico dos laboratórios. Mas não. O combate terá lugar à mesa das nossas refeições, nas nossas barbas, nas nossas mãos.
Numa primeira fase, a Comissão anda de olho nas caixas em que se embalam os alimentos de take-away, do hambúrguer à pizza, da salada russa ao shawarma, do caldo verde ao arroz de cenoura, que passam a obedecer a limites máximos “muito apertados”. O nobre objetivo é evitar que a gordura e a humidade da comida atravessem a embalagem, contaminando assim a humanidade inteira.
Depois, usando uma malha cada vez mais fina, os inspetores passarão a controlar pacotinhos de açúcar, sachês de maionese e de ketchup, embalagens de pipocas para micro-ondas e sacos de padaria. Num delírio ponto-de-rebuçado, entrará então em vigor o PPWR – “Regulamento Relativo às Embalagens e aos Resíduos de Embalagens” para os leigos – visando eliminar das nossas vidas as embalagens de uso único e proceder à transição (“obrigatória”, avisam os escritórios de Bruxelas, de sobrolho carregado) para “modelos reutilizáveis”.
Nessa fase sublime de purificação, daqui a uns quatro anos, as normas de manuseamento de consumíveis passam a proibir embalagens descartáveis no interior dos estabelecimentos, devendo os restaurantes “exigir aos fabricantes certificados de conformidade ecológica para garantir que as novas caixas não contêm químicos restritos”.
Na modalidade take-away (cito) “a comida deve ser transferida para o recipiente do cliente sem que o utensílio toque nas bordas”. E (volto a citar) “os funcionários devem lavar ou desinfetar as mãos obrigatoriamente logo após tocarem na caixa fornecida pelo cliente e antes de prepararem o pedido seguinte”.
Cereja (asséptica) no topo deste bolo burocrático: “um sistema harmonizado de rótulos das embalagens deverá entrar em vigor em 2028, com o objetivo de facilitar a reciclagem e reduzir custos para a indústria”.
Pela bitola comunitária, devia ter morrido há muitos anos, afogado em químicos perenes, quando emborcava fish and chips embrulhados em papel de jornal no take-away de Pimlico Road
Sinceramente, não sei como consegui sobreviver até hoje. Pela bitola comunitária, devia ter morrido há muitos anos, afogado em químicos perenes, quando emborcava fish and chips embrulhados em papel de jornal no take-away de Pimlico Road, os dedos pingando gordura e os lombos de bacalhau fresco tresandando a óleo de rotativa e a notícias frescas.
Não fazia a menor ideia, querida Ursula.

Jorge Morais
A música ouve-se à distância, há um cheiro a polvo assado no ar. Em torno das barraquinhas dos artesãos fervilha um frenesi de basbaques, uns comprando outros só vendo, e o homem das cadeiras de verga tem aqui o seu dia de sorte grande. O carrossel desenrola uma montanha russa de frisson, gritinhos de namoradas misturando-se no terreiro com o pregão do homem dos panos crus e a banha da cobra do espanhol do presunto. O menino está embevecido no carrinho colorido, o avô não via tanta animação desde o ano passado. É Agosto. A festa chegou à aldeia.
Por esse Portugal fora, terreola que se preze celebra o seu Verão. Para o emigrante que veio matar saudades do fogareiro, para a família da Reboleira que está de folga nas brenhas, para o aldeão espantado com tanto carro reluzente, é dia de excessos e abraços, de saúdes a isto e àquilo. Nas casas, mesmo naquelas onde todo o ano se contam os cêntimos, há hoje fartura e porta aberta. E até a santinha do orago, que passou trezentos e sessenta dias a dormitar na capela deserta, é agora festejada como amiga íntima e sai à rua toda vestida de lantejoulas no seu andor de pau pintado.
Desapareceram as Teresas e as Amélias e quem hoje catrapisca os moços durante o bailarico são Vanessas e Andreias de iphone na mão a digitar no whatsapp
Bem entendido, a festa de hoje não é igual à festa dos nossos dias de meninos. Nem podia ser. O Zé da Anica, que em rapaz deitava os foguetes e ensaiava o rancho, está agora entrevado num lar e já não dá acordo de arraial. O Ti Nabiças está a fazer tijolo há muitos anos. E a mulher de armas que vinha ao volante da sua carrinha com os aparelhos de som que faziam curto-circuito foi substituída pela consola digital que debita os acompanhamentos e estabiliza os baixos sem ninguém lhe tocar. Desapareceram as Teresas e as Amélias e quem hoje catrapisca os moços durante o bailarico são Vanessas e Andreias de iphone na mão a digitar no whatsapp. Mas na hora da verdade a festa volta a ser a mesma, parada no tempo de um lugar parado, reminiscente de um eco que vibra na pele do tambor da tuna, no balcão da cerveja artesanal e no bigode do dj. Até os alemães da autocaravana se deixam levar pela marcha.
Atrás do palco, o cantor da noite afina a voz com uma sandes de couratos e uma mini. E o chinfrim do povo em festa eleva aos céus um divino acorde de vida, paradoxal e denso, como uma antífona pagã ecoando no olimpo dos simples.

Jorge Morais
No final da II Guerra Mundial, com os Aliados vitoriosos e o Eixo em escombros pelo chão da Europa, a Oposição portuguesa profetizava a rápida decomposição do Estado Novo. Tudo parecia prenunciar esse desfecho – a desgraça dos regimes amigos, a subalternidade de uma sociedade periférica, a ascensão das ideias democráticas – e muitos viam no semblante fechado de Salazar o embaraço da Situação perante o novo mapa político continental.
Sabemos hoje que o Estado Novo sobreviveu afinal três décadas redondas a essa morte anunciada, ainda que remando contra a poderosa maré ocidental. Soçobrou por fim em 1974. Mas a antinomia que começou a devorá-lo por dentro no final da guerra tinha a sua verdadeira explicação na economia: mais do que o colapso do Eixo, foi o conflito entre modelos económicos que determinou o início do declínio do regime.
Era uma equação impossível: para sobreviver com razoável segurança, o Estado Novo tinha de enveredar pela alínea do desenvolvimento; mas o desenvolvimento acarretaria inevitavelmente o abandono dos padrões com que o próprio regime se definia.
Este paradoxo estava patente à vista desarmada logo em 1944, quando o Subsecretário de Estado do Comércio e Indústria, Ferreira Dias, apresentou a sua Proposta de Lei do Fomento e Reorganização Industrial – “uma necessidade da Nação que é forçoso satisfazer em nome do legítimo direito de viver”, como ele defendia no preâmbulo.
Logo se viu como seria difícil conciliar as tensões no seio do regime quanto ao rumo a seguir: à diversificação industrial de Ferreira Dias e dos tecnocratas europeístas opunha-se o ainda poderoso partido rural. Ezequiel de Campos, relator do parecer da Câmara Corporativa sobre a Proposta de Lei, contrapunha como soluções “a intensificação agrícola”, “a ruralização do povoamento” e “uma ampliação muito grande do plano de obras de hidráulica agrícola”. Com isto esperava-se reter no sector primário uma boa parte da população, “para continuar a haver gente e para não decair a taxa de reprodução”, como frisava Ezequiel de Campos. O mesmo relator explicava candidamente o seu temor: “a indústria chamará às vilas e às cidades e aos novos núcleos de trabalho fabril notável quinhão de gente rural”.
O Estado Novo não chegou a resolver a equação. O projeto de Ferreira Dias foi aprovado em Março de 1945, um mês antes da queda da Alemanha, mas as tensões entre modelos mantiveram-se durante décadas, agravadas pelo beco sem saída da questão ultramarina. Os três grandes Planos de Fomento do pós-guerra (1953, 1959 e 1968) resolveram problemas estruturais antigos e lançaram algumas grandes obras, mas não lograram conciliar o modesto desenvolvimento com a fixação das populações no Interior.
Mais de 8 milhões de portugueses vivem hoje a menos de 50 quilómetros da costa, acotovelando-se nos hipermercados e vegetando nas gaiolas de cimento armado.
Outros países europeus conseguiram vitalizar a economia em grandes polos alternativos às metrópoles, e com isso obtiveram uma razoável grelha demográfica. Nós, pelo contrário, perdemos em ambas as mãos: a industrialização não se realizou verdadeiramente e a “ruralização do povoamento” fracassou em toda a linha. Ainda nos anos 50 começou o êxodo das populações do Interior para o Litoral, atraídas não apenas pelos escassos focos industriais mas sobretudo pelo comércio florescente e pelos serviços em crescimento. Essa migração interna não parou desde então de aumentar, a ponto de mais de 8 milhões de portugueses viverem hoje a menos de 50 quilómetros da costa, acotovelando-se nos hipermercados e vegetando nas gaiolas de cimento armado.
Muitos dos nossos problemas atuais – na habitação, na educação, na saúde – nasceram aí, em 1945, nesse momento em que ficámos a meio do cruzamento, sem coragem para industrializar e sem tino para salvar onde mais doía. Hoje vivemos no paradoxo: não alcançámos o desenvolvimento e perdemos o campo.
Só se salvaram as boas intenções, de que está o inferno cheio.

Jorge Morais
Reler o que os escritores estrangeiros escreveram sobre Portugal e os portugueses de há trezentos anos não é, paradoxalmente, fazer uma viagem no tempo: é verificar como tão pouco mudou no essencial dos comportamentos.
Mais do que aos nossos próprios autores, devemos a viajantes de outros países europeus que nos visitaram ao longo do século 18 um retrato crítico da sociedade portuguesa de então. Ganhava fôlego a moderna Literatura de Viagens – e entre o pitoresco e o pedagógico, são peças valiosíssimas os relatos de jornada por Portugal de Carl Ruders, Alexander Dalrymple e James Murphy, o informe de Charles Dumouriez sobre o “Estado Presente do Reino de Portugal”, as “Cartas” de Arthur Costigan, o “Panorama de Lisboa” de Joseph Carrère ou o saboroso “Journal” de William Beckford. Por junto compõem uma fotografia impiedosa do Portugal de entre 1774 e 1802.
Cada um escrevendo consoante a sua sensibilidade e formação, todos são concordes no retrato de alguns dos costumes da alta sociedade lisboeta, costumes que os primos menos abonados da parvónia tudo faziam por imitar ‘alla scala’. E de todos o mais bizarro era o empenho que o peralta desses tempos punha nas suas cocheiras e estábulos. Podia faltar o dinheiro para tudo – para pagar aos muitos criados, para honrar compromissos perante o agiota, para manter a casa aquecida no Inverno, para os quitutes da mesa ou para o mestre-escola dos meninos. Só não podia faltar dinheiro para cavalos e carruagens.
De coche, de berlinda, de sege ou de caleche vis-a-vis, o janota lisboeta fazia profissão de mostrar-se aos papalvos, ainda que no bolso não lhe sobrassem três réis de cobre para mandar cantar um cego. Só aos cocheiros, boleeiros e moços de estrebaria trazia nas palminhas, pois deles dependiam a saúde do equídeo, o espampanante do bólide e a perícia da pilotagem.
No Portugal do século 18, podia faltar o dinheiro para tudo – menos para cavalos e carruagens. Encontramos este padrão, trezentos anos depois, numa certa classe de peralvilhos que têm nos automóveis a sua bitola social
É inevitável que encontremos este padrão, trezentos anos depois, numa certa classe de peralvilhos que têm nos automóveis a sua bitola social. Com uma diferença substancial sobre os deslumbrados do século 18: os coches “topo de gama” de hoje quase nunca pertencem a quem neles se exibe. O verdadeiro proprietário é a sociedade financeira que lhes faz arrotar uma nota preta pelo aluguer de longa duração. Ou são mantidos pelo Erário para usufruto de ministros, secretários e subsecretários de Estado, directores-gerais, autarcas, gestores de empresas públicas, administradores de instituições oficiais e uma miríade de outros passageiros da vida que não podem deslocar-se a menos de 200 cavalos-vapor, em cabine climatizada e estofos de couro.
Nesta floresta de carros “de serviço” (um eufemismo genial) contratados a empréstimo ou ‘leasing’ para fruição volátil, dei há dias com a exceção digna de encómio. Refiro-me ao presidente da Câmara Municipal de Constância, o Sr. Sérgio Oliveira, que usou o seu automóvel oficial, não como caleche para se passear ou mostrar, mas como autêntico burrinho de trabalho – a ponto de a montada ter alcançado a provecta idade de 24 anos e a marca de 600 mil quilómetros de estrada feita. Cansado da labuta a sério, o velho Audi teve de ser abatido ao ativo e substituído por um modelo idêntico. Simplesmente, em vez de alimentar o negócio dos ‘leasings’, empréstimos a prazo e outras variantes ruinosas, o Sr. Oliveira pagou o carrinho a pronto por 33 mil euros para ser propriedade do Município e estar ao seu serviço por mais 600 mil quilómetros.
Com autarcas como o Sr. Oliveira não faziam farinha os peralvilhos e os negociantes de seges de há 300 anos. Nem fazem os de agora.

Jorge Morais
Ao contrário dos povos setentrionais, mais adeptos do concreto, os meridionais deliciam-se na fantasia. O rigor, a pontualidade e o gosto da exatidão que encontramos nuns tem o contraponto na divagação, no aleatório e no vago dos outros. E se a fantasia favorece as artes, já quando se trata da administração das coisas terrenas fica o meridional em desvantagem.
A vida pública portuguesa está dominada por um estribilho de metáforas que, se dão colorido à ausência de ideias, em nada ajudam a governar-nos com acerto.
Isto vê-se na linguagem.
A vida pública portuguesa, por exemplo, está dominada por um estribilho de metáforas que, se dão colorido à ausência de ideias, em nada ajudam a governar-nos com acerto. Animam o parlapié das horas vagas, mas afastam-nos inexoravelmente da realidade.
Esta queda para a linguagem figurada, avessa às palavras factuais e ao que elas exatamente querem significar, tem as suas consequências na vida prática: falar por interposta metáfora pode ser muito engraçado, mas não é com figuras de retórica que se compram os melões.
A lábia metafórica e a alusão rebuscada, de tanto abusarmos delas, chegam a substituir por completo a simples noção das coisas. Entram depois no linguajar corrente e são repetidas como achado genial – à mesa do café, nas conversas de amigos, nas mensagens das redes sociais, até ganharem foro de verdade pública e subirem aos altares dos debates televisivos. Não nos damos conta, mas de metáfora em metáfora já nos encontramos a anos-luz da realidade palpável.
Falamos, por exemplo, de “pôr o país a andar para a frente”, como se Portugal tivesse pernas. Evitamos com isso explicar exatamente o que queremos dizer, ficando no ar apenas uma imagem difusa de movimento.
Falamos, por exemplo, de “alavancar o progresso”, como se fôssemos Arquimedes. Evitamos assim especificar o que entendemos por “progresso”, ideia ambígua até ser concretizada.
A uma coisa incomum chamamos “fora da caixa”, como se a vida fosse feita de cartão. E aquilo que nos é confortável designamos por “a minha praia”, como se fôssemos banheiros.
Já houve tempo em que os nossos políticos se propunham “construir o socialismo”, como se ele fosse um prédio em obra e nós os empreiteiros. Hoje falamos mais em “reinventar o futuro”, como se o presente fosse um cartório de registo de patentes.
Errar tornou-se “dar um tiro no pé”, como se estivéssemos numa cena de caça na Baixa Baviera. E ultrapassar o aceitável é hoje “pisar as linhas vermelhas”, como se a vida em comunidade se gerisse por círculos de giz caucasiano.
Algo que anda de boca em boca tem o nome de “viral”, como se ouvir e contar fosse uma pandemia. E aos temas do dia chamamos agora “bolha mediática”, como se as notícias fossem uma doença da pele.
No meio de tanta metáfora, hipérbole e eufemismo, não surpreende que ao desejo de ganhar um desafio de bola chamem “o sonho”. O que nos sobra em lírica escasseia-nos em juízo.

Jorge Morais
Só agora soube que morreu o Tóino de Janas, o maior e mais sábio caminheiro da freguesia de Colares. Cheguei um dia a dar-lhe boleia, na subida para o Penedo, mas o Tóino estava nitidamente fora do seu mundo: não era para ele esta coisa estranha de ficar sentado num carro enquanto a paisagem corria lá fora. Caminhar, caminhar sempre, de manhã à noite, com o seu passo decidido, palmilhando Colares metro a metro – este era o seu destino. Cruzava-me com ele no Banzão, no Rodízio, no Mucifal, em Fontanelas, na Assafora, em Gouveia, nas Azenhas, em Almoçageme ou na Janas que lhe deu o cognome, mas dizem-me que era visto também em Torres Vedras, até na Cova da Piedade, sempre andando, fazendo continência a quem passava, silhueta magra, na cabeça um boné de bivaque da Corporação de Bombeiros, nas mãos um raminho de árvore que acarinhava como um ceptro de rei. ¿Qual o significado e o sentido das suas constantes caminhadas? Vá-se lá saber! Alma boa, às vezes deixava papelinhos nas caixas do correio a desejar boa saúde aos moradores. Eram as rifas do Tóino. A freguesia retribuía em géneros: casa de pasto por onde passasse punha-lhe logo prato na mesa; e festa, feira ou romaria em que aparecesse celebrava com banda e foguetes este andarilho da tradição saloia, agora desaparecido aos 75 anos de idade.
Lembrei-me do Sr. Serra, outro louco com juízo. Reformado, fez-se um ícone da noite lisboeta ao passar horas a acenar aos carros que passavam na Avenida Fontes Pereira de Melo. Foi assim que João Manuel Serra se tornou “o senhor do adeus”. Chuva ou bom tempo, lá estava ele ao pé do Sheraton, fato completo, sobretudo e cachecol branco, acenando boa-viagem e recebendo em troca buzinadelas de quem, compreendendo a sua mensagem ou apenas aceitando entrar naquela invulgar comunicação, justificava afinal a última profissão do Sr. Serra, falecido em Novembro de 2010, aos 79 anos. E a Fontes Pereira de Melo voltou a ser uma avenida com carros e nada mais.
Havia na sua alegada loucura uma sabedoria, uma premonição e uma consciência que nós só estávamos preparados para aceitar como parábola
E lembrei-me do “Homem das Rosas”, que nos anos 70 percorria o Chiado, a Baixa e a Avenida da Liberdade sobraçando um enorme ramo de flores, distribuindo boas-noites, versos e piropos como quem chega ao baile de máscaras da vida com uma mensagem de galanteio. E lembrei-me do Licas, que espantava as noites do Maxime e do Ritz Club com a sua extravagância de saltos altos e o seu grito de guerra vanguardista: acordai!
Havia em todos estes homens a loucura da lucidez. Um esquadrinhava por nós o território dos nossos passos; outro lembrava-nos que o diálogo é possível, mesmo no meio do caos; outro celebrava com rosas o encanto da paixão; outro mostrava-nos com uma antecedência de décadas o que seria o nosso amanhã. Chamavam-lhes loucos, mas havia na sua alegada loucura uma sabedoria, uma premonição e uma consciência que nós, os não loucos mas talvez mais loucos do que eles, só estávamos preparados para aceitar como parábola.
E lembrei-me da canção que dizia “São os loucos de Lisboa / Que nos fazem duvidar / Que a Terra gira ao contrário / E os rios nascem no mar”.

Jorge Morais
Já chegou ou estará a chegar ao Parlamento uma petição para que seja ali discutida a tentativa de apropriação exclusiva de um naco da Serra da Arrábida, na Península de Setúbal. O elevado número de subscritores (quase dez mil) garante à partida que o hemiciclo se ocupará do tema. Como é sabido, está em causa a pretensão de uma empresa familiar de impedir o acesso do mortal comum a um conjunto de matas e praias da zona, reivindicando em tribunal a posse absoluta de montanha, areais, caminhos e acessos incluídos no perímetro da Comenda de Mouguelas – obviamente para no futuro ali montar um negócio turístico restrito, à maneira dos negócios já conseguidos por outros na região da Comporta.
A Comenda, como o povo abreviadamente a designa, pertenceu historicamente à Ordem de Sant’Iago da Espada, que tinha a sua cabeça na vizinha Palmela. Vasco da Gama chegou a ser usufrutuário e os nossos Reis ali reuniram Conselho. Com a extinção das Ordens, em 1834, a propriedade passou para o Estado, que dela abriu mão em 1872 para a vender ao então Embaixador da França em Portugal, o Conde Armand. Foi seu filho, Abel Armand, quem em 1903 encomendou ao arquiteto Raul Lino o desenho da bela Casa da Comenda, que ao longo do século XX recebeu visitantes célebres. Com o dinheiro ganho na venda de gaiolas de cimento na Margem Sul, o empreiteiro Xavier de Lima comprou a Comenda em 1988. Três décadas depois, em 2019, os herdeiros do construtor venderam-na por 16 milhões de euros à imobiliária Seven Properties, controlada pela família luso-paquistanesa Mirpuri.
Cedo se tornou óbvio que os novos donos da Comenda não estavam ali por amor à Serra-Mãe. Hoje aqui e amanhã ali, começaram a surgir vedações de arame farpado, valas e portões limitando a entrada nos 600 hectares que compõem a propriedade. O atrevimento da família da Seven Properties chegou ao ponto de impedir o acesso à capela de São Luís da Serra, onde o povo de Setúbal ia em romaria pelo Domingo de Pascoela, e de vedar o parque de Albarquel. Em vão o Instituto da Conservação da Natureza e o Ministério do Ambiente tentaram que fosse respeitado o Plano de Ordenamento do Parque Natural da Arrábida. Sem fiscalização, a Seven Properties faz o que quer.
Surge agora o ‘coup de grâce’: os novos proprietários da Comenda requerem, por via judicial, o reconhecimento de cinco praias da zona da Comenda como “propriedade privada”. O Estado e a Agência Portuguesa do Ambiente contestam a pretensão, e à cautela os dez mil signatários da petição levam o caso ao Poder Legislativo.
E é precisamente com base nas leis que, na minha modesta opinião, a questão deve ser resolvida de uma vez por todas, tomando as praias por ponta da meada.
Tanto o Decreto Real de 31 de Dezembro de 1864 (que instituiu formalmente o conceito de Domínio Público Marítimo e retirou as águas do mar, os portos, os leitos e as praias do comércio privado), como o Decreto de 16 de Agosto de 1971 (que definiu a “Reserva da Serra da Arrábida”) e o Decreto-Lei de 28 de Julho de 1976 (que criou o Parque Natural da Arrábida para “salvaguardar os valores científicos, culturais e paisagísticos da Serra”) são claríssimos: a Comenda, as suas veredas e os seus areais não podem ser sacrificados aos negócios familiares da Seven Properties.
E como é pouco provável que a pressão imobiliária se desvaneça com simples protestos ou recomendações pias, a solução óbvia impõe-se por si: exproprie-se a Comenda por invocação de utilidade pública, pague-se aos Mirpuri os 16 milhões que eles lá gastaram e entregue-se a Casa de Raul Lino e os 600 hectares do parque à gestão conjunta dos Ministérios do Ambiente e da Cultura.
Para grandes males, grandes remédios.

Jorge Morais
Morreu o Major Oak – o carvalho maior da floresta de Sherwood. Não se sabe ao certo que idade tinha: apenas que já deitava sombra quando, no final do século XII, Robin Hood por ali passarinhava com os seus compinchas. Andava triste desde há uns tempos, começou a murchar e nesta Primavera já não deu folha. Sherwood e todo o Condado de Nottingham choram a sua triste morte, ainda que o choro vá muito além de Nottinghamshire e da própria Inglaterra: as aventuras de Robin Hood correram mundo ao longo do último meio milénio e fazem hoje parte da cultura universal.
A lenda é magistral: um bom malandro que rouba aos maus para dar aos pobres, um amigo leal que defende Ricardo Coração de Leão contra o mano usurpador, um amante dedicado que tudo faz para pôr um sorriso nos lábios da bela amada. A figura perfeita da bondade, da coragem altruísta e do galanteio amoroso.
É bem possível que Robin Hood tenha existido. Ou que tenham existido vários Robins que, duzentos anos depois do seu tempo, acabaram fundidos num só boneco ficcional. Que importa? É a figura que interessa, no seu recorte aventureiro, na sua cavalgada juvenil, na sua entrega aos nobres ideais da cavalaria que inspiraram os trovadores medievais. Pois foi pela poesia que ele primeiro se imortalizou, muito antes de Walter Scott lhe ter dado circulação massiva através da vulgata romântica de Sir Wilfred Ivanhoe.
Em Portugal, Robin Hood foi desde sempre conhecido dos letrados que estudaram a poesia trovadoresca, mas só chegou à arraia miúda no século XIX, quando por cá se popularizaram as traduções da saga de Ivanhoe e o romance histórico ganhou fôlego com Herculano. Chamámos-lhe então Robim dos Bosques, talvez pelo contágio fonético de Hood com Wood. O bosque era a sua casa, é certo; mas com maior rigor lhe chamaríamos Robim do Capuz, ainda que não tivesse a mesma graça.
Desde então, gerações e gerações de rapazinhos sonhadores idealizaram para si um destino heróico como o de Robin de Sherwood, combatendo a malvadez dos usurpadores desta vida, amando as Maids Marian mais à mão de semear e emulando as ceias fraternas com os companheiros de armas à sombra do Major Oak e sob a bênção do Frade Tuck de Copmanhurst, sempre gorducho nas ilustrações de cordel. Também eu, vendo-me Errol Flynn ao espelho, tive uma espada “à Robin Hood” para travar escaramuças em que bati João Sem Terra aos pontos. Sonhar não custa, especialmente quando se tem oito anos de idade.
A lenda do bom malandro continua viva, mas já o mesmo não poderá dizer-se do carvalho maior de Sherwood. O mais amargo em tudo isto é que a árvore multisecular nem sequer morreu de velhice: feneceu sacrificada pelos próprios admiradores, que ao longo dos tempos, de tanto a visitarem, compactaram de tal modo o solo em volta que a água das chuvas deixou de chegar às raízes, privando-a de nutrientes.
Eis como, à lenda inspiradora de Robin Hood e do amor que salva, podemos hoje juntar uma moraleja prática sobre o amor que mata: a metáfora da multidão que asfixia.