
Mário Carneiro
A imprensa internacional (em particular o Financial Times) sublinha uma relevante decisão das autoridades dos Emirados Árabes Unidos (EAU): a de retirar o apoio aos seus jovens que pretendam prosseguir os estudos frequentando as universidades do Reino Unido (RU). A partir de agora, cessam as bolsas de estudo que os EAU garantiam aos seus nacionais e os estabelecimentos de ensino superior do Reino Unido entram para uma espécie de ‘lista negra’. Em junho passado, o ministro com a tutela do ensino superior dos EAU tinha feito publicar uma lista global das universidades nas quais o programa de bolsas teria aplicação segundo critérios de excelência: apenas os estudos em escolas de elevado desempenho seriam apoiados. A ausência de universidades do RU da lista provocou alguma estranheza já que o país alberga algumas das mais conceituadas do mundo. A explicação chega agora e não deixa margem para dúvidas: não foi por descuido nem distração que essas escolas não estão na lista, mas porque as autoridades dos EAU receiam que os seus jovens sejam radicalizados pelo extremismo islâmico nas universidades britânicas. (Diga-se, a nível de curiosidade, que até universidades israelitas são elegíveis para estudos universitários apoiados pelas mesmas bolsas que os EAU retiram agora ao RU).
Na imprensa nacional (no caso, no Nascer do Sol) lemos que pode estar muito próximo um tempo em que as coleções dos museus virão a depender da sensibilidade de minorias que podem, inclusivamente, vetar a exposição de obras de arte.
Duas histórias com um ponto de contato: o que ainda há poucos anos serviria para enredo de deliciosa comédia é hoje matéria doutrinal que não nos deve dar vontade nenhuma de rir.
Se as insuspeitas autoridades de um país árabe, de maioria sunita, evitam que os seus estudantes frequentem universidades europeias, por as classificarem como “viveiros de radicalização”, qual o tipo de cegueira que nos impede de ver o que está a acontecer?
Ou andarão os “nossos” olhos demasiado ocupados a procurar detetar fontes de pequeno melindre em qualquer obra de arte que possam ferir suscetibilidades avulsas?
A estranha ditadura das minorias vai fazendo o seu caminho auxiliada por silêncios (alguns cúmplices e outros de estupefação) e perante a indiferença dos que não antecipam a evidência de que, no seu final (e se triunfar), será todo um modelo de civilização que cederá a um aglomerado de barbáries diversas, disconexas e sem articulação.
Um amontoado de conceitos, regras, interditos e proibições tão desgarrado quanto são distintas as pressões que impuseram cada um deles.

Mário Carneiro
Passou entre os pingos da chuva, mesmo se ela nos molha sem nos darmos conta, uma publicação no conceituado British Medical Journal (BMJ) em meados deste mês de dezembro. O ensaio contava com a colaboração e/ou anuência científica de mais de duas dezenas de membros da comunidade académica das Universidades de Cambridge e Bristol e da Escola Médica de Brighton e Sussex.
Disseram, escreveram e assinaram estes estudiosos que a expressão “mutilação genital feminina” é “estigmatizante” e que deveria, com vantagem, ser substituída por “práticas genitais femininas” para levar em conta “a complexidade cultural”, para não usar “estereótipos racializados” e por ser “mais inclusiva”.
Vão mais longe e acrescentam que as leis que banem a mutilação genital feminina deveriam ser consideradas prejudiciais e “perpetuadoras do estigma sobre as comunidades migrantes” e consideram que a oposição à prática desse crime (a mutilação genital feminina é ilegal no Reino Unido há 40 anos) se baseia em “narrativas sensacionalistas” que visam “amplificar o pensamento dominante”.
Os autores do ensaio defendem, aliás, que a legislação dos países ocidentais que bane a mutilação genital feminina “objetiviza as meninas e mulheres como vítimas passivas” e “marginaliza as populações migrantes acentuando as divisões sociais”.
No mesmo Reino Unido foi recentemente barrada uma iniciativa legislativa que visava impedir os casamentos consanguíneos (muitas vezes entre primos direitos) e, em vez disso, o NHS (o SNS inglês) começou a contratar parteiras especializadas para situações de nascimentos de crianças fruto desses casamentos. O Reino Unido vive ainda com um problema social crescente resultantes do número crescente e descontrolado de casamentos forçados com nubentes abaixo dos 17 anos.
Tudo isto se passa à nossa vista, no nosso espaço cultural e com um silêncio assustador por parte de que nos habituou a estar na ruidosa linha da frente de outras causas que envolvem os direitos humanos e, em particular, os das crianças, meninas e mulheres.
Não tenho dúvidas de que, mais cedo do que tarde, o que hoje nos parece uma aberração (lá longe nas ilhas britânicas) irá aparecer como um direito adquirido (e mais perto da nossa porta).
Durante anos (décadas?) manteve-se a discussão em torno do conceito da “Europa fortaleza”: o bloco que se encontrava na contraditória encruzilhada entres os seus elevados ideais humanitários e as políticas migratórias restritivas.
Hoje olha-se para o exemplo que chega do Reino Unido e ocorre a imagem da fortaleza que foi tomada e que tolera que os tais “ideais humanitários” cedam a valores civilizacionais que os contrariam. E percebemos que isto é só o princípio…
Bom Ano Novo!