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Carlos Reis

DEIXEM A MÚSICA SER LIVRE

Carlos Reis

Foi uma campanha barulhenta, intoxicante, massiva e agressiva.

Durante quase um ano entrou esta campanha pelos nossos media, sobretudo nas cadeias de televisão públicas membros da EBU (isto é, financiadas directa ou indirectamente pelos impostos dos contribuintes europeus) por formas tudo menos subtis, para que Israel e os seus músicos e cantores fossem expulsos da Eurovisão.

Cinco países decidiram boicotar mesmo o festival, não participando em protesto.

Nada de novo: também nos anos 60 muitos na Europa apelaram ao boicote a Portugal, então sob o regime de Salazar, e à Espanha, então sob o regime de Franco.

Curioso: se Portugal tivesse sido impedido de participar, nunca a Simone de Oliveira teria cantado a Desfolhada nem Fernando Tordo teria cantado uma canção subversiva como a Tourada, e José Carlos Ary dos Santos talvez nunca tivesse escrito algumas das letras mais fortes e belas da nossa música.

Estas campanhas odiosas de boicotes culturais acabam por ser instrumentos cegos e estúpidos ao serviço da mediocridade.

A classificação de Israel na final do Festival Eurovisão da Canção devia obrigar muitos comentadores europeus a reverem a narrativa dominante dos últimos meses.

Apesar de uma campanha política e mediática sem precedentes, Israel terminou em segundo lugar entre 37 países participantes.

E isto não foi um detalhe estatístico: foram 343 pontos, dos quais 220 atribuídos pelo público europeu.

Numa Europa saturada de palavras de ordem, boicotes e pressões ideológicas, milhões de espectadores fizeram aquilo que as elites culturais aparentemente já desaprenderam: votaram livremente. E o resultado foi inequívoco. Seis países atribuíram a pontuação máxima a Israel no televoto. Vinte e dois júris nacionais colocaram a canção israelita na sua tabela classificativa. O júri polaco atribuiu-lhe mesmo os 12 pontos máximos.

E Portugal atribuiu 12 pontos do televoto a Israel dando assim uma bofetada de luva branca a quem nomeou o júri português, e aos respectivos nomeados, que lhe deram 0 pontos.

A prestação da RTP nesta edição do Eurofestival foi particularmente miserável.

Ansiosa por seguir as pisadas da TVE espanhola de adesão ao boicote, mas não o sentindo poder fazer, auto-boicotou a sua participação, apagando o mais que pôde os rapazes alentejanos dos Bandidos do Cante, que fogem aos cânones preferidos de uma determinada elite urbana, que gostaria muito mais de uns Fado Bixa ou qualquer produto assim de “género”.

Portanto, certamente para satisfação da RTP, Portugal, representado pelos Bandidos do Cante, não se qualificou para a final.

Em todo o caso, parabéns aos Bandidos do Cante perante a sua integridade e lealdade ao público.

A BBC britânica também fez o que pôde para derrotar a participação de Israel. O seu júri atribuiu-lhe 0 pontos. Em compensação a participação britânica acabou em último lugar, apenas com 1 ponto de misericórdia.

Ainda assim, parte da imprensa europeia preferiu apresentar o resultado desta edição do Eurofestival como uma “derrota” israelita. É revelador. Quando um segundo lugar esmagadoramente validado pelo público é transformado artificialmente numa derrota política, já não estamos perante jornalismo cultural ou análise musical.

Estamos perante activismo disfarçado de comentário.

Mas apesar disto, Israel ultrapassou 33 concorrentes. O público europeu separou a música da militância e recusou alinhar numa lógica de exclusão colectiva.

A Eurovisão de 2026 mostrou algo importante: a tentativa de silenciar Israel produziu precisamente o efeito contrário.

E talvez isso explique o incómodo de tantos comentadores perante um resultado que não conseguiram controlar.

Tempos tristes estes em que as elites europeias estão embrenhadas num wokismo tão cego.

Deixem as pessoas ouvir e escolher as músicas e os artistas que preferem.

Deixem os europeus voltar a ser mais livres, prósperos e felizes.

Parabéns, pois, a Israel e aos seus músicos e artistas.

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Publicado em 18 maio de 2026
Carlos Reis

UM REINO DESUNIDO

Carlos Reis

Os resultados mais recentes das eleições autárquicas no Reino Unido sugerem mais do que um simples voto de protesto: indiciam uma reconfiguração espectacular, mas consistente, do centenário sistema partidário britânico.

A erosão simultânea do apoio aos dois partidos tradicionais — Trabalhista e Conservador — abre espaço a formações alternativas e a candidaturas independentes que capitalizam o descontentamento com a política centralizada e, frequentemente, distante das realidades locais. Este fenómeno não é novo, mas ganha agora densidade suficiente para levantar a hipótese de uma fragmentação duradoura do bipartidarismo que marcou a política britânica desde o início do século XX.

O Labour praticamente implodiu nestas eleições locais. O ódio e a raiva popular são hoje palpáveis e sobretudo dirigidos contra Kier Starmer, responsabilizado por todos os males do país.

E os Tories, embora tivessem logrado evitar a catástrofe paralela que lhes era vaticinada, ainda não conseguiram dar a volta ao declínio em que caíram após a sua queda do poder, e a memória ainda fresca do seu fracasso governativo traduzido em 5 primeiros-ministros sucessivos.

A sua esperança é agora a sua líder Kemi Badenoch, cada vez mais admirada e popular, e em quem os tories apostam tudo durante os próximos dois anos e meio, para recuperar o seu lugar de governo.

Seja como for o que se sente é um país paralisado, em crise e em frustração, semelhante ao que viveu nos anos 70, antes da ascensão de Margaret Tatcher.

Para já, a nível local, os eleitores parecem privilegiar pragmatismo e proximidade, penalizando estruturas partidárias percecionadas como rígidas ou desligadas dos assuntos locais. Essa tendência poderá traduzir-se, já a médio prazo, numa maior volatilidade eleitoral também em eleições nacionais, com impactos diretos na governabilidade e na formação de maiorias estáveis, juntando uma crise política a uma crise social.

Paralelamente, o debate sobre o modelo multicultural britânico regressa ao centro da discussão pública. Aquilo que durante anos foi apresentado como um exemplo de coexistência bem-sucedida enfrenta hoje críticas crescentes, sobretudo quando associado à perceção de fragmentação social e à dificuldade de construção de uma identidade comum.

A distinção entre multiculturalismo, enquanto valorização da diversidade, apresentada como um valor em si mesma, e um “multinacionalismo” de facto, onde comunidades vivem de forma paralela, tornou-se um ponto sensível, mesmo insuportável nalgumas regiões.

Contudo, reduzir a leitura destes resultados a uma rejeição linear da diversidade seria simplista. O que emerge, sobretudo à direita do Labour, é antes uma exigência de maior coesão nacional, integração efetiva das minorias e reciprocidade cívica dos imigrantes.

Muito simplesmente, se o sistema partidário não conseguir traduzir essas preocupações em políticas firmes e credíveis, continuará a abrir espaço a alternativas que prometem respostas mais diretas — ainda que nem sempre mais sólidas.

É este o desafio que representa a aparentemente inevitável ascensão do Reform de Nigel Farage.

Os britânicos que votaram vitoriosamente no Brexit para terem o seu país de volta, acordam agora para a realidade de já não terem o mesmo país.

O que vão eles fazer com isto?

E nós, não temos nada a aprender com o que se passa com o nosso aliado mais antigo?

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Publicado em 11 maio de 2026
Carlos Reis

PORTUGAL NÃO PODE CONTAR COM O CHEGA

Carlos Reis

As recentes posições e zig-zags do Chega sobre a reforma do Código Laboral expõem uma preocupante incoerência política e uma gritante falta de sentido de responsabilidade.

E são, objetivamente, um ato de traição aos seus eleitores de direita, desiludidos com a super-estrutura socialista, ainda hoje dominante no país, encravado por uma codificação legal herdada de oito anos de governação, que não o deixa progredir e impede mais liberdade económica aos agentes produtivos e mais segurança jurídica a quem quer investir e criar.

Num momento em que Portugal necessita de reformas estruturais sérias para aumentar a produtividade, atrair investimento e melhorar os salários reais, o partido Chega, sob a gritaria constante do seu líder, opta por “propostas” de forte ruído mediático, mas economicamente insustentáveis.

O exemplo mais flagrante é a proposta de redução da idade da reforma, uma medida que, a ser aplicada sem sustentação demográfica e financeira, colocaria uma pressão insuportável sobre a Segurança Social. Num país envelhecido, com baixa taxa de natalidade e ainda com níveis de produtividade abaixo da média europeia, esta ideia não é apenas irrealista – é potencialmente destrutiva para as contas públicas e para as futuras gerações.

Isto não é sequer uma proposta: é um slogan.

Um slogan que, se por absurdo, fosse vertido pelo Parlamento em lei, rebentaria com o país.

Assim, ao invés de contribuir para um debate sério sobre a modernização do mercado de trabalho (incluindo maior flexibilidade, qualificação da força laboral e incentivos à inovação) o Chega revela uma postura errática que dificulta qualquer convergência séria e reformista.

Esta inconsistência afasta-o de uma possível e credível articulação com forças como o Partido Social Democrata, a Iniciativa Liberal ou o CDS – Partido Popular, de modo a organizar politicamente a atual maioria de Centro e Direita, aritmeticamente constituinte.

Portugal precisa de uma agenda reformista sólida, capaz de gerar crescimento económico sustentável e melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e libertar de tantos sacrifícios, as nossas classes médias.

Mas isso exige responsabilidade, coerência e visão estratégica – atributos que, infelizmente, até este momento, salvo uma ou outra questão casuística, o Chega ainda não demonstrou possuir de forma consistente.

São 60 deputados, que por muito frenesim e barulho que façam, não se podem contar para construir algo de sério e duradouro.

Quem votou no Chega deveria pensar nisto.

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Publicado em 04 maio de 2026
Carlos Reis

E NOVIDADES?

Carlos Reis

Entre cravos, discursos e encenações de circunstância, mais um aniversário do 25 de Abril passou como um déjà vu bem ensaiado: tudo no lugar, tudo previsível, tudo estranhamente gasto.

A esquerda, outrora pujante na produção cultural e na oferta política, parece hoje uma máquina cansada, repetindo palavras de ordem como quem cumpre um ritual burocrático.

Já não propõe, apenas administra símbolos. Já não inquieta, acomoda-se.

E, no entanto, continua a falar como se fosse a última guardiã de uma democracia permanentemente ameaçada.

Do outro lado, a direita mais histérica não ajuda. Entre aplausos institucionais e os habituais acessos de retórica inflamada do seu líder, continua a provar em cada ocasião a sua pouca preparação para o desempenho de funções de Estado, convivendo mal com a responsabilidade, preferindo o dramatismo fácil à construção de uma alternativa séria e funcional.

Há ali ecos de ignorância histórica e uma tentação caudilhista que dispensa subtileza e, frequentemente, também bom senso.

Saúde-se, ao menos desta vez, esta ignorância do Chega:

– graças à auto suficiência própria dos néscios, recuperaram um antigo símbolo da luta gay pela dignidade e visibilidade, exibindo um dos símbolos mais antigos da auto-identificação gay, os cravos verdes, propostos pela inteligência heróica de Oscar Wilde.

André Ventura e Oscar Wilde na mesma luta? A ironia derruba sempre pela demonstração do ridículo.

Pelo meio, o país mediático insiste em retratar um “país oficial” que pouco dialoga com o país real. Um país snobe, fechado sobre si mesmo, que celebra o popular representado pelo niilismo de um Toy, enquanto verdadeiramente o desdenha, que revisita fantasmas como as FP25 em versões cinematográficas discutíveis, enquanto se agarra a referências culturais cada vez mais estreitas.

No Parlamento, episódios quase caricaturais: intervenções inflamadas, zelo jurídico performativo, figuras que se levam demasiado a sério num palco onde o público já mudou de canal.

Porque o país real dá pouca ou muito pouca importância a um Pedro Delgado Alves derrotado na esfera pública menos no excesso. Não é preciso andar muito longe – basta ir até ao Lumiar, em Lisboa, que os eleitores de lá certamente explicam porque lhe viraram eles as costas, no único sítio onde esse gesto verdadeiramente conta: na urna de voto.

E projetos simbólicos – como a projectada disputa sobre onde instalar um centro interpretativo do 25A- elevados a batalhas de destino nacional.

Novidades? Nenhuma.

E talvez isso diga tudo. A democracia portuguesa, com todos os seus tiques e cansaços, continua a funcionar — mais por inércia do que por inspiração.

Ainda assim, há liberdade, há ruas cheias, há vozes diversas. Talvez seja pouco entusiasmante para os viciados no fenómeno político.

Mas, convenhamos, continua a ser preferível ao contrário.

Viva a nossa Liberdade!

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Publicado em 27 abril de 2026
Carlos Reis

EZEQUIEL REDUZIDO A UM TAKE DO PULP FICTION

Carlos Reis

No teatro trágico da política internacional, a guerra no Médio Oriente tornou-se mais um capítulo de uma encenação desastrosa, onde a estratégia cede lugar ao improviso e a diplomacia é substituída por bravatas de conferência de imprensa.

No centro deste palco, a Administração de Donald Trump parece ter optado por uma abordagem digna de um guião rejeitado de Hollywood: simplista, ruidosa e perigosamente desligada da realidade.

Enquanto a região arde, as decisões emanadas de Washington revelam uma combinação inquietante de ignorância histórica e oportunismo político.

Alianças são tratadas como descartáveis, compromissos internacionais como meras sugestões, e a complexidade do conflito como um detalhe aborrecido a ignorar. O resultado? Um agravamento das tensões e uma erosão da credibilidade diplomática dos Estados Unidos sem um único ganho de causa que se tenha visto até ao momento.

No Líbano o Hezbollah continua a sobreviver, por muito que os israelitas fustiguem as suas áreas. Em Gaza os resquícios das forças do Hamas continuam po desarmar e controlam ainda as populações. No Iémen os Hutis representam o país perante o mundo, na mais estranha das conclusões de uma guerra civil. No Golfo as Monarquias sentem que os acordos celebrados com os americanos não as seguram.

A verdade é que até agora não houve qualquer mudança de regime no Irão, que continua a ser uma tirania teocratica  governada pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC)e pelos Basij (uma milícia paramilitar voluntária subordinada à IRGC, que continua a infernizar o quotidiano dos iranianos, desde o controlo dos preços no Bazar até ao tamanho do cabelo das raparigas e colocação do lenço).

Esta semana serão enforcados mais quatro jovens. Uma delas uma rapariga.

Mas entretanto confunde-se tudo isto com um circo.

Mas talvez o momento mais caricatural deste espetáculo tenha sido a retórica de Trump dirigida ao Papa. Entre críticas absurdas e ataques despropositados, assistiu-se a uma tentativa quase burlesca de instrumentalizar a religião. O problema é que, naquela Administração, até a Bíblia parece ser um acessório de cena: salmos e versículos citados com a convicção de quem claramente nunca os leu, ou pior, de quem os confunde com diálogos de Pulp Fiction.

A fé transformada em adereço, a moral reduzida a slogan.

No fim, sobra uma sensação desconfortável: a de que, por trás do ruído e da encenação, há consequências reais. E essas, ao contrário das frases decoradas, não podem ser apagadas nem reescritas.

A verdade é que Ezequiel alertou para o perigo da destruição de Jerusalém e admoestou aqueles que escarneciam dos outros em sua aparente glória.

Não era um palhaço.

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Publicado em 20 abril de 2026
Carlos Reis

GANHÁMOS TODOS

Carlos Reis

A derrota eleitoral de Viktor Orbán e do seu partido (Fidesz)constitui uma das mais marcantes reviravoltas políticas na Europa contemporânea.

Poucos antecipavam um resultado tão claro e inequívoco, o que explica a sensação de surpresa – e até de alívio – que atravessa não só a Hungria, mas também o espaço europeu.

Importa, contudo, reconhecer que, apesar das suas derivas iliberais e dos erros acumulados ao longo dos últimos anos, Orbán teve a dignidade institucional de aceitar pacificamente o veredicto das urnas. Num tempo em que líderes conservadores ou de extrema direita usam o Playbook de Donald Trump recusando aceitar qualquer derrota eleitoral, este gesto não é irrelevante – pelo contrário retira força a alguns dos inimigos internos das democracias.

Outra comparação favorável a Orbán, mas que em bom rigor constitui um atestado da força das democracias europeias, é a existência de eleições livres e justas.

Por isso Vladimir Putin nunca aceitou a livre expressão eleitoral da soberania ucraniana. Se Putin nunca arriscará fazer eleições livres e justas no seu país, como é que ele o poderia aceitar noutros países vizinhos? Apenas a dissuasão da força da NATO o tem impedido de fazer com outros o mesmo que fez (com insucesso) na Ucrânia.

Apesar da similitude de Orbán e Putin, alguém imagina este a submeter-se ao escrutínio junto do seu povo?

A verdade é que a Europa, e as suas alianças, bem como as suas instituições confederais, são uma barreira efectiva contra os adversários internos e externos das democracias.

Mas os tempos são difíceis para todos.

Esta mudança política surge num contexto social e económico exigente. A Hungria enfrenta pressões inflacionistas, desafios estruturais, e um desgaste evidente do modelo de governação anterior. Sendo uma nação antiga e orgulhosa, a Hungria mostrou que não aceita ser instrumentalizada como Cavalo de Troia de interesses externos, nomeadamente russos.

A memória histórica pesa: os húngaros não esqueceram a repressão soviética de 1956, um marco traumático da sua luta pela soberania.

O novo Governo húngaro terá agora uma responsabilidade acrescida: responder a problemas concretos – recuperar a economia e restaurar a concorrência, acabando com a corrupção e desmantelando as redes de nepotismo alimentadas pelo Fidesz, restaurar a coesão social num país muito dividido e desigual, restaurar os serviços públicos, em situação de pré-colapso – evitando a tentação de se perder em guerras culturais estéreis.

A vitória eleitoral abre uma janela de oportunidade, mas também eleva as expectativas.

No plano internacional, o impacto é imediato. A posição húngara no seio europeu tenderá a alinhar-se mais claramente com os seus parceiros, o que reforçará naturalmente o apoio à Ucrânia. Num momento crítico, a resistência ucraniana ganha assim um novo alento, com o fim de uma liderança que, reiteradamente, dificultou consensos europeus.

A democracia ganhou na Hungria. A Hungria ganhou. A Europa ganhou. Ganhámos todos.

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Publicado em 13 abril de 2026
Carlos Reis

UMA PÁSCOA DIFÍCIL

Carlos Reis

A actual guerra no Médio Oriente apresenta uma estranheza difícil de ignorar: não se percebem, com nitidez estratégica, os seus objetivos finais, em particular do lado norte-americano.

Não há uma doutrina clara de vitória, nem um desfecho político inteligível. A intervenção parece oscilar entre contenção, demonstração de força e gestão de equilíbrios regionais, mas sem um fim definido — o que, em termos clássicos de estratégia, constitui uma anomalia.

Recorde-se Sun Tzu: “A suprema arte da guerra é subjugar o inimigo sem combater.” Mais ainda, toda a sua obra pressupõe clareza de objetivos, economia de meios e coerência entre fins e instrumentos. Ora, o que hoje se observa é, precisamente, o inverso: uma ação prolongada, difusa e sem teleologia evidente.

Este padrão levanta uma questão mais profunda sobre a conduta da atual Administração dos Estados Unidos no quadro das Relações Internacionais.

Do ponto de vista moral, a seletividade da ação externa é perturbadora. Enquanto se mobilizam recursos num teatro de guerra complexo, povos como os da Venezuela ou do Irão permanecem entregues à continuidade de regimes que os oprimem há décadas, sem que se vislumbre uma estratégia eficaz de mudança. A defesa dos valores democráticos surge, assim, fragmentada e, por vezes, contraditória, por uma Administração que fala a várias vozes, até essas vozes simplesmente desistirem da sua própria incapacidade em mudar esses regimes.

Para países europeus de média dimensão, como Portugal, a margem de manobra é reduzida. A arquitetura de alianças — em particular com os Estados Unidos — não é apenas conjuntural; é estrutural. Rompê-la seria desestabilizar o próprio projeto europeu que construímos ao longo de décadas. Mas criticá-la frontalmente, ainda que com razão, seria um gesto diplomático simultaneamente corajoso e inútil: nada mudaria em Washington, e apenas fragilizaria a posição externa portuguesa.

Que fazer, então? Talvez a resposta esteja simbolicamente representada na célebre escultura dos “três macacos sábios”, no Santuário Tōshō-gū, no Japão: Mizaru, o macaco sábio que não vê o mal; Kikazaru, o macaco sábio que não ouve o mal; e Iwazaru, o macaco sábio que não fala do mal.

Originalmente um ensinamento ético shinto, a sua leitura contemporânea aproxima-se perigosamente de uma atitude de resignação: ver, ouvir e calar.

Talvez seja esse o dilema europeu atual: entre a lucidez crítica e a prudência estratégica, resta muitas vezes o silêncio — não por virtude, mas por necessidade.

Uma Páscoa difícil, esta.

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Publicado em 06 abril de 2026
Carlos Reis

INDECISÃO E CONFUSÃO. E FALTA DE CLAREZA MORAL

Carlos Reis

A evolução recente do conflito no Médio Oriente projeta sinais inquietantes de confusão, mesmo desnorte e um derrotismo semeado e regado pela Comunicação Social, que não podemos mais ignorar.

Mais do que um confronto regional, estamos perante um teste à coesão política, moral e estratégica das democracias liberais.

Desde logo, torna-se visível uma preocupante fractura no seio da NATO.

A divergência entre os Estados Unidos, muito acicatada por um presidente grosseiro, injusto e meramente transacional, e vários aliados europeus, quanto ao posicionamento e à resposta ao conflito, revela não apenas diferenças táticas, mas uma erosão da unidade dos membros da Aliança, que, durante décadas, sustentou a primazia ocidental num quadro de relativa estabilidade internacional.

Paralelamente, assiste-se a um desinteresse crescente (quando não hostilidade aberta) das opiniões públicas, em particular a própria opinião pública americana, relativamente a novas intervenções militares no Médio Oriente, que depois dos falhanços morais do Iraque e do Afeganistão, vêm agora apenas como aventuras imprudentes, independentemente da justificação possível de cada uma.

Este retraimento, fruto de um derrotismo auto-imposto, fragiliza a capacidade dissuasora americana e ocidental.

A coincidência temporal entre um presidente transacional e narcisista como Trump e um Primeiro-Ministro que se vê a si mesmo como Rei de Israel, não apenas da terra soberana que o Direito e a Comunidade Internacional lhe reconhecem desde 1948 e 1967, mas também da futura nova terra de Sião que ele ambiciona arrancar entre a confusão dos tempos recentes, tanto pode vir ser o triunfo inusitado de uma nova era de paz, como a queda final no abismo.

Gazificar o Sul do Líbano, simplificar demograficamente a Cisjordânia, repartida apenas entre a população muçulmana e a dos colonatos judaicos, afastando dessa terra os últimos vestígios de cristandade, como se tem verificado, perante a completa indiferença do Ocidente, em Taybeh, a última aldeia inteiramente cristã na Cisjordânia, cujos ataques de colonos, incluindo incêndios a carros e intimidação próximo à Igreja de São Jorge, se verificam com a autorização do governo de fanáticos de Benjamin Netanyahu, que igualmente deixou de reconhecer legalmente a equivalência das escolas cristãs da Cisjordânia, primeiro passo para a erradicação cultural futura da cristandade na região.

Na sua opção de ficar sozinho e de contar apenas com os Estados Unidos, Israel vê a Europa como a América a vê: ruas hostis, governos europeus cada vez mais dependentes de porções de eleitorado muçulmano, e uma realidade geopolítica em declínio.

Perante isto, no plano simbólico e civilizacional, a proibição do Patriarca Latino de Jerusalém de celebrar o Domingo de Ramos nos Lugares Santos constitui um sinal profundamente perturbador.

Tal episódio não é apenas religioso: representa uma limitação da liberdade de culto num espaço historicamente central para o cristianismo, colocando em causa a proteção das minorias e o equilíbrio inter-religioso.

Mais inquietante ainda é o redobrar de políticas de anexação na Cisjordânia e o surgimento de ambições semelhantes no sul do Líbano.

Estes movimentos, a confirmarem-se, ameaçam comprometer qualquer solução baseada sequer num resquício de aparência de Direito Internacional e agravar tensões já explosivas.

Em conjunto, estes sinais apontam para um cenário de crescente instabilidade, onde o enfraquecimento das alianças, o cansaço das democracias e a radicalização no terreno podem redefinir, de forma duradoura, o equilíbrio entre o Ocidente e o Médio Oriente.

Oxalá que os americanos, depois desta sua intervenção, não traiam de novo o povo do Irão, que ainda há poucos meses se levantou nas ruas do seu país exigindo liberdade, pagando o preço em milhares de mortos.

Se os americanos se meteram ali só uma coisa os fará resgatar moralmente aos olhos das pessoas: mudar aquele regime. Libertar aquele povo.

Só mesmo isso justifica este último mês de indecisão e este medo irreal de assumir de vez uma meia dúzia de ilhas desabitadas no Golfo, e uns 30 kms de costa, para manter livre uma via de comércio internacional.

Tempos de véspera estes.

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Publicado em 30 março de 2026
Carlos Reis

O DIREITO INTERNACIONAL É INCOMPATÍVEL COM A INDECÊNCIA

Carlos Reis

Num momento em que a generalidade do Mundo volta a invocar o Direito Internacional para condenar o início de mais um conflito militar no Médio Oriente, desta vez envolvendo os Estados Unidos e Israel contra o Irão, impõe-se uma reflexão incómoda, mas necessária: a seletividade moral com que esse mesmo Direito tem sido aplicado.

Condenar a guerra é não só legítimo, como indispensável. A Guerra não é a solução correta para a resolução dos diferendos entre as nações.

Mas condenar (pela enésima vez) Israel e os Estados Unidos, desta feita a propósito dos seus ataques e bombardeamentos ao Irão, ignorando no entanto décadas de violações sistemáticas do Direito Internacional por parte do regime iraniano é, no mínimo, intelectualmente desonesto.

O Irão não é um ator qualquer no sistema internacional. Trata-se de uma das ditaduras mais repressivas da atualidade e constitucionalmente vinculada à eliminação do único país soberano e judaico do mundo e assumidamente expansionista, invocando como seu direito, o seu armamento nuclear.

O seu historial inclui o apoio a milícias armadas, a desestabilização de Estados soberanos e a repressão brutal do seu próprio povo. Durante anos, essas ações foram sendo relativizadas, quando não convenientemente ignoradas por muitos dos que hoje erguem a bandeira do Direito Internacional.

É precisamente aqui que reside a hipocrisia: invocar normas jurídicas universais apenas quando convém, transformando o Direito Internacional num instrumento político circunstancial.

Ora, o Direito não pode ser um escudo para regimes que o violam de forma reiterada. Caso contrário, perde a sua autoridade moral e transforma-se num mero argumento retórico.

A paz que o regime iraniano oferece — dentro e fora das suas fronteiras — é uma paz assente no medo, na repressão e no silêncio forçado. Uma paz de cemitérios. Basta perguntar aos cidadãos iranianos que, repetidamente, arriscam tudo para exigir liberdade.

Se o Direito Internacional pretende ser levado a sério, deve ser aplicado com coerência. Caso contrário, não passa de um reflexo das conveniências de quem o invoca.

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Publicado em 23 março de 2026
Carlos Reis

A IRONIA AMARGA DA VIDA E MORTE DE JÜRGEN HABERMAS

Carlos Reis

A morte de Jürgen Habermas (18.06.1929–14.03.2026) assinala o desaparecimento de uma das últimas grandes figuras da filosofia pública europeia.

Herdeiro direto da tradição da Escola de Frankfurt, Jürgen Habermas procurou preservar o impulso emancipatório do pensamento marxista ao mesmo tempo que o reconciliava com os fundamentos do liberalismo democrático.

A sua teoria da ação comunicativa e a defesa de uma esfera pública racional constituíram talvez a mais sofisticada tentativa contemporânea de justificar normativamente a democracia liberal sem abdicar da crítica estrutural às formas de poder e dominação.

Jürgen Habermas acreditava que a razão não estava condenada ao instrumentalismo denunciado pelos seus predecessores. Pelo contrário, na própria linguagem residiria um potencial de entendimento mútuo capaz de sustentar instituições democráticas mais legítimas. Assim, a tradição marxista, frequentemente associada a projetos revolucionários ou a leituras economicistas da história, encontrava na sua obra uma reformulação deliberativa: a emancipação não como ruptura violenta, mas como aprofundamento discursivo da democracia.

Contudo, permanece uma questão que a própria Teoria Crítica nos ensina a colocar. Se todo o edifício teórico deve permanecer exposto ao escrutínio crítico das condições históricas que o produzem, até que ponto a obra de Jürgen Habermas pode escapar ao mesmo processo de desconstrução que ela própria legitimou? Aplicada a si mesma, a crítica tende a operar sucessivos cortes epistemológicos, revelando contingências, pressupostos e limites que gradualmente reduzem a pretensão de universalidade de qualquer teoria.

Talvez resida aqui uma das ironias mais profundas da tradição crítica: o seu poder emancipador nasce precisamente da capacidade de minar as certezas que procura fundamentar. Nesse movimento contínuo de revisão, a filosofia corre o risco de produzir uma espécie de autodesgaste conceptual, onde cada nova camada crítica parece diminuir aquilo que julgávamos ser — ou compreender — sobre nós próprios.

Ainda assim, é possível que Jürgen Habermas tenha compreendido melhor do que ninguém esse paradoxo: que a razão só permanece viva enquanto aceita a possibilidade permanente da sua própria revisão.

Em suma, Jurgen Habermas supera o cogito, ergo sum de Descartes ao mudar o foco da filosofia da consciência para a filosofia da linguagem e da ação comunicativa, mudando o foco do “eu penso” para o “nós comunicamos”; logo existimos.

Talvez a crítica seja severamente injusta para uma mente tão brilhante como esta que a nossa civilização agora perde, mas é um facto inelutável que é nas ruínas intelectuais da Escola de Frankfurt que encontramos a caixa preta do colapso da Europa, enquanto projecto civilizacional de emancipação e liberdade, que aceitou e construiu o seu próprio cânone.

De certa forma, com a morte física de Habermas, foi atestado também o óbito da nossa Europa Ocidental…

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Publicado em 16 março de 2026
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