Com novo Presidente da República chegará, como sempre, um novo léxico. Muda a música, mas a letra é a mesma...
Com novo Presidente da República chegará, como sempre, um novo léxico. Muda a música, mas a letra é a mesma modinha. António José, velho conhecedor de adágios indolentes, já nos habituou a estas ginásticas de salão. Foi ele que inventou a “abstenção violenta”, essa tourada sem touro contra o primeiro Orçamento de Estado de Passos Coelho. Ficámos todos a aplaudir o capote, esquecidos de perguntar pelo animal.
Não estranharemos, pois, que surja um “veto funcional”. A lei não trazia manual de instruções. O Presidente tentou ligá-la à tomada da Constituição, mas faltava-lhe uma peça. Não veta. Afina. É como aquele tio que não critica o cozido, apenas diz que o grão precisava de estágio.
Ou a “Prevenção Preventiva”. Um gato escaldado do Constitucional tem medo da água fria do Diário da República. Em vez de vetar a lei incauta, manda-a primeiro à Faculdade de Direito, como quem leva o tractor ao mecânico antes da lavoura. Depois, conforme os ventos e as marés do Terreiro do Paço, logo decide se a envia ao Tribunal Constitucional ou se a deixa a pastar.
E que dizer do “Consenso Marginal”? Uma aliança de partidos que, somados, não enchem uma carrinha de nove lugares, mas proclamam unanimidade com a solenidade de um Concílio. A democracia vira assembleia de condomínio, onde três vizinhos decidem pintar o prédio de verde-alface e chamam-lhe pacto estrutural.
Por fim, a “Carta Perene”. Mensagem à Assembleia que nunca acaba. Vai chegando aos bocados, como feno distribuído em tempo de seca. Um parágrafo hoje, outro no próximo equinócio. Só no fim do segundo mandato se percebe a frase inteira.
No fundo, este dicionário seguro-português serve para uma coisa antiga: aparar as arestas do real. Diz-se “funcional” para não dizer “impotente”. Diz-se “consenso” para evitar “irrelevância”. Diz-se “Chefe de Estado” e a cabeça acaba por pensar do Rei. No Rei Momo, decerto.