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Carlos Reis

MUDAR DE POVO?

Carlos Reis

Nada que saibamos politicamente de Espanha nos poderá surpreender.

E tudo o que ouvimos de lá deve servir-nos como aviso preventivo, aquilo que os norte-americanos chamam de “cautionary tale”.

As recentes declarações da mulher de Pablo Iglesias, eurodeputada do Podemos e líder da extrema esquerda espanhola, Irene Montero, proferidas num comício em Saragoça e divulgadas pelos media espanhóis, dificilmente poderiam ser mais claras quanto ao objectivo inconfessado, pelo governo espanhol, da anunciada regularização de emergência de meio milhão de imigrantes.

Irene Montero ao afirmar que, depois da regularização, o objetivo será o de avançar para a nacionalidade e para o direito de voto dos imigrantes, e ao celebrar explicitamente a ideia de “varrer de fachos e racistas este país” através desse processo, Montero deixou cair qualquer véu de ambiguidade política.

Afinal a motivação da extrema esquerda europeia com a sua reivindicação de open borders (fronteiras abertas) é sobretudo instrumental.

Não se trata apenas do discurso panfletário sobre direitos humanos ou integração social: trata-se mesmo de uma estratégia de poder.

A máscara caiu e só uma comunicação social portuguesa complacente e cúmplice pode tentar fazer ignorar isto dos portugueses.

Durante anos, lá e cá, a esquerda radical negou com indignação que a imigração pudesse ser encarada como instrumento eleitoral. Quem levantava essa hipótese era imediatamente rechaçado, acusado de conspiracionismo, ou de aderir à chamada teoria da “grande substituição”.

Ora, quando a líder da esquerda radical espanhola assume, sem rodeios, que quer alterar a composição do eleitorado para substituir politicamente uma parte da população por outra, o que está em causa já não é teoria, mas prática política assumida.

Como não consegue ganhar eleições com o voto dos espanhóis actuais, há assim que substituí-los por novos espanhóis, administrativamente fabricados.

Não nos surpreendamos pois que a nossa extrema-esquerda, desacreditada e reduzida a mínimos históricos, comece a exigir em breve o alargamento massivo e indiscriminado ao direito de voto da enorme massa de migrantes  que alterou demográficamente Portugal de rajada, nos recentes anos.

Para o efeito usarão de todos os truques retóricos e falsos paralelismos.

Começarão certamente devagar e passo a passo.

Tentarão convencer e captar o comentariado pelo apelo à lusofonia, como se o direito de voto numa democracia estabelecida e consolidada como a nossa, pudesse ser reciprocamente garantido em democracias incipientes, falhadas ou intermitentes como algumas da CPLP.

Certamente Rui Tavares e a sua agremiação do Livre traçarão paralelismos históricos como o da reivindicação do sufrágio feminino, defendendo o direito de voto de imigrantes sem nacionalidade, ou até mesmo de nacionais de outros países.

É a redução de Portugal a um mero lugar.

Ora além de abusiva, esta reivindicação da extrema esquerda é reveladora de uma lógica instrumental: o voto deixa de ser o culminar de um processo de pertença cívica e passa a ser uma ferramenta para reconfigurar a correlação de forças.

A imigração surge, assim, não como fenómeno social complexo a gerir com equilíbrio, mas como matéria-prima eleitoral ao serviço de um projeto ideológico.

É neste ponto que as identidades nacionais se tornam o alvo. Não por acaso, Irene Montero fala em “reemplazo”, ainda que o tente revestir de ironia. A mensagem é simples: a comunidade política existente é um obstáculo a remover, não um património a preservar.

Quando a esquerda radical assume que quer mudar o povo para ganhar eleições, confirma precisamente aquilo que durante tanto tempo disse ser uma invenção dos seus adversários.

Como não ganham com este povo há que substitui-lo por outro.

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Publicado em 02 fevereiro de 2026
Carlos Reis

VOTO SEGURO

Carlos Reis

Nas próximas eleições presidenciais votarei em António José Seguro.

Faço-o de forma racional, consciente e deliberada, por considerar que este é um voto em defesa da estabilidade política, do regular funcionamento das instituições e da defesa de um certo sentido de serenidade e decência, imprescindível à nossa vida colectiva. 

Este não é um voto ideológico, nem um voto de esquerda ou de direita. 

Muito menos representa qualquer reavaliação positiva do Partido Socialista, cuja ação política passada e presente merece uma apreciação profundamente negativa e crítica. 

Como militante do PSD, com 38 anos de militância, nunca poderia, nem poderei, apoiar projetos que tenham como objetivo a destruição do meu partido ou a sua substituição no sistema político português.

Simplesmente não voto em quem quer matar o PSD. 

O meu voto também não sustentará ambições messiânicas nem projetos presidencialistas. Essas conceções são, aliás, a antítese do pensamento e da ação de Francisco Sá Carneiro, que perdeu tragicamente a vida explicando aos portugueses que a democracia representativa e funcional é incompatível com a presença de um Presidente que concentre em si as decisões políticas do país, subjugando governos e maiorias parlamentares aos seus interesses, ou caprichos pessoais.

O que está em causa nesta eleição é, precisamente, a escolha de um Chefe de Estado — árbitro, moderador e garante institucional — e não a eleição de um homem providencial. 

A Constituição é clara quanto aos limites e responsabilidades do cargo, e esses limites devem ser respeitados.

Nestas eleições os eleitores da AD têm um dever acrescido na defesa da estabilidade política. Portugal não pode viver em permanente sobressalto, com eleições todos os anos e crises políticas todas as semanas.

Por essas razões, o meu voto é Seguro.

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Publicado em 26 janeiro de 2026
Carlos Reis

AS MAIORIAS PRESIDENCIAIS NÃO EXISTEM

Carlos Reis

Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais são politicamente inequívocos.

A vitória clara de António José Seguro é sobretudo o resultado de um mérito pessoal que se traduziu numa coligação de eleitores, muito mais ampla que a força eleitoral própria do PS.

Em contraste, André Ventura revelou consolidação eleitoral, não conseguindo ir além do patamar já alcançado nas últimas legislativas, ficando agora a cerca de 120 mil votos desse resultado. 

A leitura política é simples: dos dois candidatos, um candidato somou apoios, o outro apenas repetiu.

Estes são os dados de partida para a segunda volta, que deve ser entendida como aquilo que constitucional e politicamente é: uma nova eleição, com outra dinâmica, outros incentivos e um novo quadro de decisão para os eleitores. 

E, ao contrário do que uma análise mais apressada e simplista poderá sugerir, esta dinâmica não se organizará necessariamente em torno do tradicional binómio esquerda-direita. 

Dadas as personalidades em confronto, as suas biografias e as idiossincrasias das suas respetivas ambições, o verdadeiro dilema que se colocará aos eleitores será o de considerarem desta vez, neste acto eleitoral, como mais decisiva a escolha entre a defesa da estabilidade institucional ou o risco da introdução de um fator permanente de instabilidade nos próximos anos.

Importa recordar um dado essencial do nosso regime: quem governa é o Governo. O Presidente da República não governa. Contudo, pode condicionar, bloquear e, em casos extremos, impedir a governação. 

É neste plano que deve ser feita a avaliação, em particular pelos eleitores da AD.

Neste contexto, a opção da direção do PSD de não se envolver ativamente na disputa presidencial, no quadro da segunda volta, é politicamente prudente. No quadro constitucional vigente, as maiorias presidenciais não existem, dissolvem-se no dia seguinte à eleição. 

As maiorias que contam são as maiorias parlamentares. Por isso, a prioridade estratégica do PSD (e do CDS), deve ser a de assegurar a estabilidade governativa, o cumprimento do seu Programa, e a apresentação de resultados concretos das suas políticas durante a actual legislatura.

Para Portugal resolver os seus problemas neste quadro internacional complexo e difícil, não lhe pode começar por adicionar novas e sucessivas crises políticas. 

Portugal não pode simplesmente ter eleições todos os anos. 

A decisão quanto ao nosso futuro está agora nas nossas mãos.

Carlos Reis

UM SILÊNCIO ULTRAJANTE

Carlos Reis

O levantamento popular que por estes dias atravessa o Irão não é um mero sobressalto conjuntural. 

É o grito de um povo, reprimido por décadas de opressão exercida por um regime teocrático entrincheirado e cruel, que governa pelo medo, pela violência, e pelo aviltamento sistemático da dignidade humana. 

Um regime que durante 47 anos arruinou uma antiga e florescente nação ficou reduzida a foco da desestabilização do Médio Oriente. 

Um regime que, com a excepção do petróleo e dos pistachios, pouco mais exporta do que a sua rede de proxy’s e agentes do terrorismo.

Um regime ao serviço do mal, inimigo ajuramentado de todos os esforços de paz arduamente tentados na região, entre os povos de Abraão. 

Este regime, que justifica o seu poder por se reclamar de divino, assenta assim na perpetuação da crueldade como método e no terror como instrumento. 

Nesta ditadura teocrática em que a autoridade do Líder Supremo dispensa o consentimento do povo, o tempo foi acumulando gerações inteiras marcadas por sucessivas camadas de frustrações. 

Não deixa por isso de ser assombrosa a coragem das mulheres iranianas, que, por estes dias, chegou aos picos da heroicidade, enfrentando no seu país o espectro das prisões arbitrárias, da tortura, e das execuções públicas, com o simples desvelar dos seus cabelos. 

E enfrentando tudo isto, sem outro poder que não o da sua dignidade. E, denuncie-se, sem qualquer auxílio do poder mediático internacional, mais uma vez surdo, mudo e atrasado, como quase sempre, quando se depara perante qualquer centelha de irrupção de revolta, em cenários que toma invariavelmente por inamovíveis. 

Cairá esta ditadura? Ainda não sabemos. 

Mas notável já é que estes dias tenham acontecido. E que estes dias tenham despontado pela revolta das mulheres contra a sua submissão.

Porque no centro desta revolta estão mesmo elas. Não estão as potências, não está o “inimigo sionista”, não estamos nós, europeus, não estão as feministas ocidentais, não estão flotilhas, nem está a esquerda pacifista internacional. 

Estão apenas as mulheres persas. As mulheres que recusam continuar a ser corpos tutelados pelo Estado, símbolos de uma moral imposta à força, vidas confinadas a um estatuto de menoridade cívica. 

Ao retirarem o véu, ao ocuparem o espaço público, ao enfrentarem a repressão, estas mulheres não lutam apenas pelos seus direitos. 

Estão a erguer um manifesto vivo, exigindo aquilo que é elementar e que é direito natural dado por Deus em qualquer país, em qualquer lugar: liberdade, justiça e futuro.

Perante esta coragem o silêncio da esquerda radical ocidental tornou-se insuportavelmente nítido. 

Tão empenhada num estafado anti-ocidentalismo e tão consumida pelo seu ódio obsessivo a Israel, esta esquerda escolhe fechar os olhos.

Denuncia, com razão ou sem ela, as falhas das democracias liberais, ergue flotilhas de indignação, mas cala-se quando um regime teocrático esmaga mulheres em nome de Deus. 

Esta hipocrisia não é neutra: é uma forma de cumplicidade.

Porque defender a liberdade não pode ser um exercício seletivo. A luta das mulheres iranianas interpela-nos a todos. Exige solidariedade clara, sem relativismos culturais nem cálculos ideológicos. 

Porque não há causa progressista possível quando se abandona quem arrisca a vida para ser livre.

Cada grito de liberdade no Irão é hoje um espelho da hipocrisia moral daqueles que, por aqui, só não se calam quando o tema é a Palestina.

Carlos Reis

A VENEZUELA NÃO PODE SER TRAÍDA DE NOVO

Carlos Reis

A Venezuela não é hoje uma ditadura por acidente nem por deriva ideológica: é-o por necessidade de sobrevivência de uma elite que transformou o Estado num instrumento privado de saque. 

O regime de Nicolás Maduro assenta no nepotismo, na corrupção sistémica e numa oligarquia que só existe porque controla, sem alternância possível, todos os centros reais de poder. 

Para esse círculo, a democracia não é uma ameaça abstracta — é uma sentença de prisão.

É por isso que qualquer transição democrática seja vista pela clique de Caracas como um cenário intolerável. A resposta tem sido a militarização do regime, a compra de lealdades e a alienação acelerada dos recursos nacionais. A cooptação das Forças Armadas para o narco-negócio e a criação de instituições paralelas num labirinto institucional servem um único objectivo: impedir que o voto tenha consequências.

Diosdado Cabello, número dois do chavismo, simboliza este sistema. 

Após a derrota eleitoral de 2015, o regime esvaziou o parlamento legítimo e criou uma assembleia fictícia para contornar a vontade popular. Em torno de Cabello, como em torno de Maduro, consolidou-se um denso emaranhado familiar: ministérios, impostos, diplomacia e contratos públicos transformaram-se em negócios de clã. Casos de corrupção internacional e ligações ao narcotráfico não são desvios, mas parte integrante do modelo.

O mesmo padrão marcou o legado de Hugo Chávez. Apesar da retórica revolucionária, a sua família construiu um feudo político e acumulou uma fortuna colossal, sobretudo através do controlo directo da indústria petrolífera. Desde 1999, centenas de milhares de milhões de dólares em receitas foram desviados, enquanto a PDVSA era destruída por incompetência e pilhagem.

O resultado está à vista: colapso económico, hiperinflação histórica, fome, ruptura dos serviços básicos e um êxodo em massa. Um país com as maiores reservas de petróleo do mundo foi reduzido à miséria absoluta.

A chamada “Revolução Bolivariana” apresentada no seu alvor como um projecto de justiça social, mas sim um esquema de apropriação predatória. A tragédia venezuelana não é apenas económica ou humanitária — é o produto lógico de um regime que prefere destruir um país a perder o poder.

Com esta gente, que roubou o poder a seguir às eleições de julho de 2024, não pode haver transição. 

É bom que a administração dos Estados Unidos da América entregue imediatamente o poder a quem os venezuelanos confiaram em 2024. 

Não o fazer será trair a Venezuela.

Carlos Reis

A ESCOLHA DA ESTABILIDADE

Carlos Reis

No próximo ano, o nosso país enfrentará um conjunto exigente de desafios, fortemente condicionados por um contexto internacional marcado pela incerteza económica, por tensões geopolíticas persistentes, conflitos regionais, transições energéticas aceleradas e rápidas transformações tecnológicas.

Estes fatores externos terão impactos diretos na economia, nos preços, nas cadeias de abastecimento, no comércio internacional e na segurança, exigindo respostas ponderadas, responsáveis e estratégicas.

No plano interno, será decisivo reforçar a coesão social, promover um crescimento económico sustentável, combater desigualdades e, depois de anos de descaso socialista, assegurar serviços públicos efectivamente eficazes e capazes de responder às necessidades reais dos cidadãos.

A competitividade das nossas cidades e empresas, a criação de emprego qualificado e a atração de investimento dependerão, em larga medida, da nossa capacidade de adaptação a um mundo mais instável e competitivo.

É neste enquadramento que a estabilidade assume uma importância fundamental.

Estabilidade política e institucional, económica e social, não é um fim em si mesma, mas sim a base indispensável do nosso trabalho coletivo.

É ela que permite planear a médio e longo prazo, gerar confiança nos cidadãos, nos investidores e nos parceiros internacionais, e garantir que as reformas necessárias são concretizadas com diálogo, responsabilidade e sentido de futuro.

Mas valorizar a estabilidade não significa imobilismo.

Pelo contrário, significa criar um ambiente seguro para a mudança, a inovação e o progresso. Só com cooperação, compromisso e com uma visão partilhada conseguiremos transformar os desafios do próximo ano em oportunidades para um país mais justo, resiliente e próspero.

E essa estabilidade depende muito de nós – designadamente, saber escolher um Chefe de Estado que seja promotor da estabilidade política e das instituições.

E deixarmos de andar de crise em crise, enredados pelo ruído fátuo dos media.

Darmos o nosso melhor, mas darmos também oportunidade a quem quer dar o seu melhor por todos nós.

Esta é a nossa escolha.

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Publicado em 29 dezembro de 2025
Carlos Reis

NÃO NOS TIREM O NATAL!

Carlos Reis

O Natal, mais do que uma data do calendário, é um marco civilizacional. Representa uma herança espiritual, cultural e simbólica que moldou a Europa durante séculos.

O seu progressivo esvaziamento do espaço público não é um acaso nem um simples reflexo da secularização. É um sintoma de algo mais profundo e inquietante:

  • A rendição cultural de sociedades tão inseguras da sua identidade, que se dispõem a abdicar das suas raízes para evitar qualquer conflito.

Em nome de uma ideia distorcida de inclusão, multiplicam-se decisões que apagam referências cristãs, substituem símbolos históricos por neutralidades artificiais e tratam a tradição maioritária como um embaraço a esconder.

Entre nós, os idiotas úteis, sempre reconfortados pelo silêncio imbecil dos cobardes, começam já a antever a oportunidade de interditar o Natal no espaço público e nas instituições.

É o caso de uma junta de freguesia em Lisboa (Arroios) que assim que mudou de composição política (liderada agora pela coligação da esquerda radical com o PS) decidiu transformar o tradicional Mercado de Natal em “Mercado Comunitário de Inverno”, assim procurando eliminar o Natal da esfera pública.

Pior ainda, um Agrupamento Escolar em Pinhal Novo, Palmela, proibiu os cenários de Natal nas fotografias das crianças.

Estas e outras decisões foram tomadas pela calada e de sopetão, sem participação da população, num caso, ou dos pais das crianças, no outro.

Contando sempre com a indiferença do comentariado e dos referentes da Opinião Pública.

Mas o que os idiotas úteis não entendem é que, ao contrário do que justificam, esta autolimitação não nasce de um diálogo genuíno entre culturas, mas da pressão de minorias cada vez mais vocais, que aprenderam a usar a linguagem dos direitos, para condicionar o espaço comum.

O resultado não é coexistência, mas assimetria: uma cultura que se cala para não ofender, enquanto outras se afirmam em crescendo, e sem pudor.

Defender o Natal não é atacar ninguém.

Pelo contrário, defender o Natal é afirmar que a tolerância não pode ser construída sobre a renúncia unilateral. Porque uma sociedade que abdica dos seus símbolos fundadores perde o fio da sua narrativa coletiva e abre espaço ao vazio identitário, facilmente preenchido pelo ressentimento, móbil dos radicalismos.

A diversidade verdadeira exige raízes firmes, não uma planície cultural rasa onde tudo é permitido, exceto aquilo que nos trouxe até aqui.

Basta olhar para Londres, Berlim, Bruxelas e tantas cidades ocidentais, e olharmos para o que lá se passa, para assistirmos a um verdadeiro terrorismo de rua contra o Natal.

Este é o ponto a que nós, europeus, estamos a chegar: em lugar do Natal, a Jihad, em lugar do presépio, as bandeiras da Palestina e do Hamas, em lugar dos cânticos, a invasão de manifestações ruidosas.

A defesa da nossa civilização faz-se agora. Faz-se aqui, na nossa Europa.

Se a Europa deixar de reconhecer o Natal como parte legítima da sua identidade, não estará a ser mais aberta. Pelo contrário, estará apenas a confessar, perante o Mundo, a sua decadência e fragilidade.

Uma decadência que os outros leem como medo, irmão da vergonha.

E uma civilização que tem vergonha de si própria dificilmente conseguirá defender os valores que diz querer proteger.

Não nos tirem o Natal!

Carlos Reis

UMA GREVE PARCIAL

Carlos Reis

A recente Greve Geral voltou a expor fraturas profundas na sociedade, algumas antigas, outras agravadas pelo contexto económico e político atual.

Por um lado, esta Greve Geral corresponde a uma tradição enraizada da nossa Democracia, fruto da influência conservadora e retrógrada, embora a esvair-se ao longo dos anos, do Partido Comunista no mundo laboral.

Basta referir que das 11 greves gerais realizadas na nossa Democracia, 9 delas foram convocadas contra governos liderados pelo PSD. Aliás, com excepção dos breves governos liderados por Francisco Sá Carneiro e Pedro Santana Lopes, todos os primeiros ministros do PSD tiveram de enfrentar greves gerais (Francisco Pinto Balsemão, Aníbal Cavaco Silva, José Manuel Durão Barroso e Pedro Passos Coelho).

Em contraste, nos oito anos de costismo socialista não houve uma única Greve Geral.

Uma parcialidade evidente de atuação das centrais sindicais.  

Mas há uma outra fractura na sociedade portuguesa, mais nefasta do que a fractura esquerda/direita: 

  • A divisão entre trabalhadores do setor público e do setor privado que se tornou particularmente visível durante a última Greve Geral. 

No setor público a adesão foi amplamente mediática, e impactante ao nível da impossibilitação prática de muitos, que querendo trabalhar, não o puderam fazer, por não terem forma de se deslocar para o trabalho.

A este respeito importa denunciar que a politização recorrente da actividade das empresas de transportes constitui, cada vez mais, um obstáculo para a liberdade dos seus utentes, na maioria trabalhadores.

Nenhum país pode deixar-se capturar por qualquer força organizada de bloqueio. Mas entre nós, a persistência deste problema no nosso país é também um sintoma de ineficiência e de injustiça real no funcionamento da nossa democracia.

Já no setor privado a participação na Greve Geral foi mais difusa e quase irrelevante em termos de alcance económico.

O país, grosso modo, funcionou. 

Esta assimetria entre público e privado levanta assim uma questão central: pode uma greve geral cumprir plenamente o seu suposto papel quando as realidades são tão distintas e os interesses nem sempre são convergentes?

Nesta greve tivemos mesmo o paradoxo de a clara maioria dos grevistas serem aqueles a quem a reforma laboral contestada se não irá aplicar.

Acresce a isto uma politização excessiva de um debate que, paradoxalmente, ainda não teve início formal no espaço próprio da Concertação Social.

Antes mesmo de qualquer análise aprofundada em sede de concertação social, posições rígidas foram cristalizadas no espaço público, transformando um tema complexo num confronto essencialmente partidário, onde os partidos de esquerda querem recuperar agora nos piquetes tudo o que perderam nas urnas de voto. 

Mas isto prejudica todos. 

Este ruído político não só dificulta soluções equilibradas como fragiliza os próprios mecanismos de diálogo social, que deveriam ser o primeiro instrumento para discutir reformas estruturais, salários e condições de trabalho.

Tudo isto ocorre num momento particularmente exigente para as economias europeias. A desaceleração do crescimento, a pressão inflacionista persistente, o envelhecimento demográfico e a necessidade imperiosa das transições energética e digital colocam desafios sem precedentes a todos os países europeus.

Responder a estes problemas exige coesão social, confiança institucional e capacidade de compromisso.

As greves são direitos e instrumentos legítimos de reivindicação, mas perdem eficácia quando se tornam substitutos do diálogo ou quando aprofundam divisões já existentes.

Num contexto europeu particularmente frágil, mais do que slogans ou trincheiras políticas, impõe-se um debate sério, informado e inclusivo sobre o futuro do trabalho e da economia.

E não serão greves parciais, ditas gerais, que resolverão o desafio do crescimento económico, dos salários e rendimentos.

Carlos Reis

UMA CAMPANHA FEITA DE FRASES FEITAS

Carlos Reis

As eleições presidenciais portuguesas chegam num momento decisivo, mas a pré-campanha e os debates têm deixado um sentimento de desilusão. Num tempo que exige clareza, visão estratégica e coragem política, assistimos a tácticas, micro-polémicas e discussões estéreis. 

Falta ao debate público a profundidade necessária para enfrentar um país que, nos próximos cinco a dez anos, terá de se reposicionar num mundo em rápida mutação.

Os debates (que constituem o principal meio de campanha) em vez de iluminarem o país, revelaram, até aqui, demasiados candidatos presos a frases feitas, enredados por moderadores viciados em tricas sem visão.

Num tempo em que Portugal precisa de clareza e coragem intelectual, recebe, na maioria dos casos, teatro político de baixa intensidade.

Nesse sentido, o assassinato de Francisco Sá Carneiro, de que assinalámos 45 anos, veio assinalar uma ironia cada vez mais taciturna, sempre que nos exasperamos com a lentidão do país que queremos ser.   

Entretanto, o mundo move-se depressa. A nova estratégia geopolítica americana, que pressiona a Europa a assumir responsabilidade pela sua segurança e estabilidade, anuncia um tempo de convulsão. 

Isto obriga Portugal a repensar prioridades. 

Se os actuais governos democráticos europeus mais influentes enfrentarem, já a partir do próximo ano, uma queda em estilo dominó — cenário delirante há meia dúzia anos, mas agora cada vez mais angustiante, quanto mais se vai tornando plausível — a margem de manobra nacional poderá encolher, exigindo, portanto, um Presidente capaz de interpretar o momento e agir como âncora constitucional de estabilidade.

Vivemos num momento colectivo em que precisamos de clareza estratégica. 

E é precisamente aqui que a escolha do Presidente ganha importância acrescida: – um Presidente que incentive, mas que deixe o Governo governar, que não confunda influência com intriga, que não se preste a exercícios vácuos de ociosa vaidade pessoal, que não dissolva legislaturas ao ritmo destes últimos anos, que seja respeitado dando-se ao respeito.

Em suma, um Presidente preparado e com noção firme e clara dos interesses nacionais. 

Portugal terá de lidar nos próximos anos com desafios estruturais: modernização económica, deter a pressão migratória, responder ao declínio demográfico, disputar a competitividade tecnológica, assegurar a sustentabilidade energética e reconstruir a confiança num sistema político fatigado.

Perante este futuro incerto, o papel do próximo Presidente é mesmo decisivo.

Por isso estas eleições deveriam ser um debate sobre o futuro de Portugal e não um concurso de candidatos a prémio-carreira. 

O país merece — e precisa — de alguém que compreenda o momento histórico e que tenha ambição para Portugal. Não apenas ambição para si. 

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