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Mário Carneiro

CONSIDERAÇÕES SOBRE “MOMENTO” E “GRAUS DE INDIGNAÇÃO”

Mário Carneiro

Sejamos claros, para começar: quem se movimente nos meios jornalísticos, nos últimos seis anos, só poderá dizer que é a primeira vez que ouve falar de “uma história esquisita” envolvendo o nome de Cotrim de Figueiredo se for muito mal informado ou, em alternativa, perfeitamente hipócrita. Isso não dá chancela de verídica à notícia que, desde ontem, ensombra o percurso do candidato a Belém mas faz uma inicial separação de águas que auxilia qualquer análise minimamente séria do caso.

Nada me move contra nenhum dos “dois lados” desta questão: nem contra a mulher que aponta o dedo ao candidato nem contra o candidato que se defende da acusação. Mas, por outro lado, tudo me move contra quem me quer fazer passar por idiota e, manifestamente, neste caso, há uma das duas partes que o tenta. Sem querer definir quem fala verdade nesta história (em rigor, só perante factos e nunca por causa de meras alegações o conseguiria), não posso deixar de avaliar alguns dos dados disponíveis.

O que me leva à questão do momento. Existirá inocência na coincidência entre o timing de uma acusação de assédio sexual e o instante político em que ela é feita (na última semana de uma campanha eleitoral e visando um dos candidatos)?

À boleia do princípio da inocência, e supondo que a alegação é falsa, ela dificilmente poderia ter maior eficácia como arma de “campanha negra”. A poucos dias de sermos chamados às urnas, o candidato deixa de conseguir passar a sua mensagem, dificilmente evita perguntas complicadas por parte dos jornalistas, corre o risco de ver cair sobre si uma espécie de efeito ‘Me Too’ e ainda deixa pendente a hipótese de (na eventualidade de ser eleito) não ser a sua campanha mas antes o seu mandato como Presidente da República a ser perseguido por este caso, sobretudo a partir do momento em que Cotrim de Figueiredo seja coerente com aquilo que ontem afirmou e processe criminalmente a autora da acusação. E sobre isso é bom que não seja ingénuo ou se fie na falta de memória: será recordado sobejas vezes de que, quando sentiu a sua honorabilidade atacada, anunciou que iria recorrer aos tribunais.

Mas a acusação pode também ser verdadeira: é bom não perder essa hipótese de vista. Nesse caso, como afastar a ideia de que ela é oportunística no momento? É um exercício fácil e quase de senso comum: não é necessário ouvir uma assembleia de especialistas para sermos sensíveis ao efeito de ‘trigger’ que pode ter para alguém que se sente alvo de um crime ao ver o presumível autor a seguir, indiferentemente, a sua vida. Agora, imagine-se que o mesmo é candidato a uma função de relevo…

Devo, aliás, recordar que quando era Donald Trump que estava na mira das notícias, por conta de acusações não muito diferentes, e num momento com algumas similitudes (era também candidato a presidente), não me lembro de tantas reações lusitanas a tentar desacreditar o testemunho de quem o acusava.

O que me leva à segunda questão, que enunciei no título e que é a dos “graus de indignação”.

Em março do ano passado, uma denúncia anónima precipitou uma crise política, a queda de um Governo e a convocação de eleições antecipadas. Gastaram-se rios de tinta em notícias, centenas de horas de debate televisivo e milhares de posts em todas as redes sociais. O tom geral era o de indignação em relação às suspeitas postas a circular por uma denúncia anónima que era valorizada quase como um libelo acusatório.

Nem um ano depois, há uma acusação assinada – uma acusação assinada! – (repito e sublinho para que se entenda bem o antagonismo do conceito face ao de denúncia anónima) e a primeira barragem de reações é de desvalorização da mesma.

Não sei se Inês Bichão vai conseguir provar o que afirma, mas uma coisa já provou: que, por muito que nos sintamos uma metrópole do século XXI, continuamos a ser um vilarejo medieval, onde um “bufo” que não dá o rosto é um justiceiro e uma pessoa que se expõe na denúncia do que alega ser um crime é um alvo a abater.

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Publicado em 13 janeiro de 2026
Mário Carneiro

A NORMALIZAÇÃO DA ABERRAÇÃO

Mário Carneiro

Passou entre os pingos da chuva, mesmo se ela nos molha sem nos darmos conta, uma publicação no conceituado British Medical Journal (BMJ) em meados deste mês de dezembro. O ensaio contava com a colaboração e/ou anuência científica de mais de duas dezenas de membros da comunidade académica das Universidades de Cambridge e Bristol e da Escola Médica de Brighton e Sussex.

Disseram, escreveram e assinaram estes estudiosos que a expressão “mutilação genital feminina” é “estigmatizante” e que deveria, com vantagem, ser substituída por “práticas genitais femininas” para levar em conta “a complexidade cultural”, para não usar “estereótipos racializados” e por ser “mais inclusiva”.

Vão mais longe e acrescentam que as leis que banem a mutilação genital feminina deveriam ser consideradas prejudiciais e “perpetuadoras do estigma sobre as comunidades migrantes” e consideram que a oposição à prática desse crime (a mutilação genital feminina é ilegal no Reino Unido há 40 anos) se baseia em “narrativas sensacionalistas” que visam “amplificar o pensamento dominante”.

Os autores do ensaio defendem, aliás, que a legislação dos países ocidentais que bane a mutilação genital feminina “objetiviza as meninas e mulheres como vítimas passivas” e “marginaliza as populações migrantes acentuando as divisões sociais”.

No mesmo Reino Unido foi recentemente barrada uma iniciativa legislativa que visava impedir os casamentos consanguíneos (muitas vezes entre primos direitos) e, em vez disso, o NHS (o SNS inglês) começou a contratar parteiras especializadas para situações de nascimentos de crianças fruto desses casamentos. O Reino Unido vive ainda com um problema social crescente resultantes do número crescente e descontrolado de casamentos forçados com nubentes abaixo dos 17 anos.

Tudo isto se passa à nossa vista, no nosso espaço cultural e com um silêncio assustador por parte de que nos habituou a estar na ruidosa linha da frente de outras causas que envolvem os direitos humanos e, em particular, os das crianças, meninas e mulheres.

Não tenho dúvidas de que, mais cedo do que tarde, o que hoje nos parece uma aberração (lá longe nas ilhas britânicas) irá aparecer como um direito adquirido (e mais perto da nossa porta).

Durante anos (décadas?) manteve-se a discussão em torno do conceito da “Europa fortaleza”: o bloco que se encontrava na contraditória encruzilhada entres os seus elevados ideais humanitários e as políticas migratórias restritivas.

Hoje olha-se para o exemplo que chega do Reino Unido e ocorre a imagem da fortaleza que foi tomada e que tolera que os tais “ideais humanitários” cedam a valores civilizacionais que os contrariam. E percebemos que isto é só o princípio…

Bom Ano Novo!

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Publicado em 01 janeiro de 2026