Entre cravos, discursos e encenações de circunstância, mais um aniversário do 25 de Abril passou como um déjà vu bem...
Entre cravos, discursos e encenações de circunstância, mais um aniversário do 25 de Abril passou como um déjà vu bem ensaiado: tudo no lugar, tudo previsível, tudo estranhamente gasto.
A esquerda, outrora pujante na produção cultural e na oferta política, parece hoje uma máquina cansada, repetindo palavras de ordem como quem cumpre um ritual burocrático.
Já não propõe, apenas administra símbolos. Já não inquieta, acomoda-se.
E, no entanto, continua a falar como se fosse a última guardiã de uma democracia permanentemente ameaçada.
Do outro lado, a direita mais histérica não ajuda. Entre aplausos institucionais e os habituais acessos de retórica inflamada do seu líder, continua a provar em cada ocasião a sua pouca preparação para o desempenho de funções de Estado, convivendo mal com a responsabilidade, preferindo o dramatismo fácil à construção de uma alternativa séria e funcional.
Há ali ecos de ignorância histórica e uma tentação caudilhista que dispensa subtileza e, frequentemente, também bom senso.
Saúde-se, ao menos desta vez, esta ignorância do Chega:
– graças à auto suficiência própria dos néscios, recuperaram um antigo símbolo da luta gay pela dignidade e visibilidade, exibindo um dos símbolos mais antigos da auto-identificação gay, os cravos verdes, propostos pela inteligência heróica de Oscar Wilde.
André Ventura e Oscar Wilde na mesma luta? A ironia derruba sempre pela demonstração do ridículo.
Pelo meio, o país mediático insiste em retratar um “país oficial” que pouco dialoga com o país real. Um país snobe, fechado sobre si mesmo, que celebra o popular representado pelo niilismo de um Toy, enquanto verdadeiramente o desdenha, que revisita fantasmas como as FP25 em versões cinematográficas discutíveis, enquanto se agarra a referências culturais cada vez mais estreitas.
No Parlamento, episódios quase caricaturais: intervenções inflamadas, zelo jurídico performativo, figuras que se levam demasiado a sério num palco onde o público já mudou de canal.
Porque o país real dá pouca ou muito pouca importância a um Pedro Delgado Alves derrotado na esfera pública menos no excesso. Não é preciso andar muito longe – basta ir até ao Lumiar, em Lisboa, que os eleitores de lá certamente explicam porque lhe viraram eles as costas, no único sítio onde esse gesto verdadeiramente conta: na urna de voto.
E projetos simbólicos – como a projectada disputa sobre onde instalar um centro interpretativo do 25A- elevados a batalhas de destino nacional.
Novidades? Nenhuma.
E talvez isso diga tudo. A democracia portuguesa, com todos os seus tiques e cansaços, continua a funcionar — mais por inércia do que por inspiração.
Ainda assim, há liberdade, há ruas cheias, há vozes diversas. Talvez seja pouco entusiasmante para os viciados no fenómeno político.
Mas, convenhamos, continua a ser preferível ao contrário.
Viva a nossa Liberdade!