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Carlos Reis

A IRONIA AMARGA DA VIDA E MORTE DE JÜRGEN HABERMAS

Carlos Reis

A morte de Jürgen Habermas (18.06.1929–14.03.2026) assinala o desaparecimento de uma das últimas grandes figuras da filosofia pública europeia.

Herdeiro direto da tradição da Escola de Frankfurt, Jürgen Habermas procurou preservar o impulso emancipatório do pensamento marxista ao mesmo tempo que o reconciliava com os fundamentos do liberalismo democrático.

A sua teoria da ação comunicativa e a defesa de uma esfera pública racional constituíram talvez a mais sofisticada tentativa contemporânea de justificar normativamente a democracia liberal sem abdicar da crítica estrutural às formas de poder e dominação.

Jürgen Habermas acreditava que a razão não estava condenada ao instrumentalismo denunciado pelos seus predecessores. Pelo contrário, na própria linguagem residiria um potencial de entendimento mútuo capaz de sustentar instituições democráticas mais legítimas. Assim, a tradição marxista, frequentemente associada a projetos revolucionários ou a leituras economicistas da história, encontrava na sua obra uma reformulação deliberativa: a emancipação não como ruptura violenta, mas como aprofundamento discursivo da democracia.

Contudo, permanece uma questão que a própria Teoria Crítica nos ensina a colocar. Se todo o edifício teórico deve permanecer exposto ao escrutínio crítico das condições históricas que o produzem, até que ponto a obra de Jürgen Habermas pode escapar ao mesmo processo de desconstrução que ela própria legitimou? Aplicada a si mesma, a crítica tende a operar sucessivos cortes epistemológicos, revelando contingências, pressupostos e limites que gradualmente reduzem a pretensão de universalidade de qualquer teoria.

Talvez resida aqui uma das ironias mais profundas da tradição crítica: o seu poder emancipador nasce precisamente da capacidade de minar as certezas que procura fundamentar. Nesse movimento contínuo de revisão, a filosofia corre o risco de produzir uma espécie de autodesgaste conceptual, onde cada nova camada crítica parece diminuir aquilo que julgávamos ser — ou compreender — sobre nós próprios.

Ainda assim, é possível que Jürgen Habermas tenha compreendido melhor do que ninguém esse paradoxo: que a razão só permanece viva enquanto aceita a possibilidade permanente da sua própria revisão.

Em suma, Jurgen Habermas supera o cogito, ergo sum de Descartes ao mudar o foco da filosofia da consciência para a filosofia da linguagem e da ação comunicativa, mudando o foco do “eu penso” para o “nós comunicamos”; logo existimos.

Talvez a crítica seja severamente injusta para uma mente tão brilhante como esta que a nossa civilização agora perde, mas é um facto inelutável que é nas ruínas intelectuais da Escola de Frankfurt que encontramos a caixa preta do colapso da Europa, enquanto projecto civilizacional de emancipação e liberdade, que aceitou e construiu o seu próprio cânone.

De certa forma, com a morte física de Habermas, foi atestado também o óbito da nossa Europa Ocidental…

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Publicado em 16 março de 2026
Carlos Reis

A RIQUEZA DAS NAÇÕES, HOJE

Carlos Reis

Adam Smith (1723–1790) foi um economista e filósofo escocês, pioneiro no campo da Economia Política e figura-chave do Iluminismo Escocês.

Por muitos considerado como o “pai da economia” ou o “pai do capitalismo”, ele é sobretudo conhecido por duas obras clássicas: “A Teoria dos Sentimentos Morais” (1759) e “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações” (1776). Esta última, frequentemente abreviada como ”A Riqueza das Nações” é considerada a sua obra-prima, marcando o início da moderna erudição econômica como um sistema abrangente e uma disciplina académica, de per si.

A Riqueza das Nações, uma obra viria a tornar-se um dos textos fundadores da economia moderna. Duzentos e cinquenta anos depois, o livro permanece hoje uma referência incontornável para compreender a organização das sociedades contemporâneas, em particular nas economias europeias e ocidentais.

Smith recusa-se a explicar a distribuição de riqueza e poder em termos de vontade divina e, em vez disso, recorre a fatores naturais, políticos, sociais, econômicos, legais, ambientais e tecnológicos, bem como às interações entre eles.

A sua obra destaca-se pela sua contribuição para a teoria económica, particularmente na exposição do conceito de vantagem absoluta.

Smith procurou explicar de que forma as nações geram prosperidade. A sua análise centrou-se no funcionamento dos mercados, na divisão do trabalho e no papel do interesse individual como motor da actividade económica. A célebre metáfora da “mão invisível” sintetiza a ideia de que, em determinadas condições, a busca do benefício próprio pode contribuir para resultados benéficos para a colectividade. Esta visão marcou profundamente o desenvolvimento do pensamento liberal e influenciou a forma como os Estados passaram a encarar o comércio, a produção e a regulação económica.

Ao longo dos séculos XIX e XX, muitos dos princípios discutidos por Smith foram incorporados na construção das economias de mercado que hoje caracterizam grande parte do mundo ocidental.

A defesa da concorrência, a importância da produtividade e a valorização da iniciativa individual tornaram-se pilares das políticas económicas e do funcionamento das instituições.

Contudo, a actualidade de A Riqueza das Nações não reside apenas na sua influência histórica. Num contexto marcado pela globalização, pela transformação tecnológica e por novos debates sobre desigualdade e o papel do Estado, o legado de Adam Smith continua a suscitar reflexão. A sua obra recorda que a prosperidade económica resulta de um equilíbrio delicado entre liberdade económica, instituições sólidas e responsabilidade social.

Celebrar os 250 anos deste livro é, por isso, mais do que assinalar uma data editorial. É reconhecer a persistência de um conjunto de ideias que continuam a moldar o debate económico e político das sociedades contemporâneas.

Num mundo que por vezes parece estar virado de pernas para o ar, interessa sempre voltar aos clássicos.

Carlos Reis

FINALMENTE, O INÍCIO DO FIM

Carlos Reis

A ordem geopolítica internacional poderá estar perante uma inflexão histórica: a possibilidade real do fim de quase cinco décadas da República Islâmica do Irão.

Fundado em 1979 sob a promessa de justiça social e independência nacional, o regime rapidamente se consolidou como uma teocracia repressiva, assente na vigilância permanente, na compressão sistemática das liberdades civis e na eliminação violenta da dissidência.

A sua longevidade nunca resultou de consenso popular, mas da combinação entre repressão interna, instrumentalização religiosa e uma calculada perfídia diplomática que explorou as hesitações do exterior.

Hoje, sinais acumulados evidenciam uma sociedade iraniana exausta e simultaneamente preparada para a mudança.

Das mulheres à juventude urbana, dos pequenos comerciantes às minorias étnicas e religiosas, cresce a convicção de que o futuro do país não pode continuar refém de um aparelho político que responde às reivindicações sociais com prisões, execuções e força letal.

Denúncias recentes de organizações de direitos humanos apontam para mais de 40 mil mortos apenas no último mês, vítimas da repressão estatal contra o seu próprio povo — um dado que torna moralmente insustentável a invocação abstrata do Direito Internacional como escudo protetor de quem viola, de forma sistemática, os princípios mais elementares da humanidade.

Num eventual cenário de transição, a saída de cena de Ali Khamenei dificilmente suscitará nostalgia histórica. Para muitos iranianos, representará antes o fim de um ciclo marcado pelo medo e pela estagnação — e o início, finalmente possível, de um alívio coletivo há muito adiado.

A equação é muito simples: só haverá paz na região, desde o Mediterrâneo ao Eufrates, desde as montanhas do Curdistão ao Mar Vermelho, com o fim efectivo do regime despótico iraniano. E esse fim passa pela sua obliteração militar.

Porque o lugar desta ditadura é no caixote do lixo da história.

E a Pérsia milenar merece reencontrar-se com as suas tradições, o seu sol e o seu glorioso leão.

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Publicado em 02 março de 2026
Carlos Reis

AINDA ESTÁ NAS NOSSAS MÃOS

Carlos Reis

A quase coincidência, este ano, entre o início da Quaresma cristã e o Ramadão islâmico expôs um contraste simbólico que muitos europeus já vinham pressentindo: enquanto o mês sagrado muçulmano foi amplamente assinalado nas grandes cidades europeias ocidentais por muitas instituições públicas, meios de comunicação e responsáveis políticos, entre nós a entrada no tempo quaresmal passou quase despercebida no espaço público.

Não se trata de negar a liberdade religiosa nem o legítimo reconhecimento da diversidade, mas de interrogar o significado cultural desta assimetria.

Em várias cidades europeias multiplicam-se mesquitas, celebrações públicas do Ramadão e sinais visíveis de uma presença islâmica crescente. Mas paralelamente observa-se uma descristianização acelerada:  prática religiosa residual, igrejas encerradas ou desconsagradas, com muitas transformadas sem uso benemérito, acabando algumas em teatros, bares ou discotecas, perda de referências simbólicas, de rituais públicos cristãos, outrora estruturantes das comunidades.

Este duplo movimento alimenta a perceção, em amplos segmentos da população, de erosão identitária e de enfraquecimento do sentido de comunidade histórica.

A par disso, os discursos oficiais insistem num horizonte de crise permanente: catástrofes climáticas, inverno demográfico, dependência energética, fragilidade estratégica perante novos blocos geopolíticos.

A migração em larga escala, proveniente maioritariamente de regiões periféricas não cristãs, acrescenta complexidade a sociedades já culturalmente fragmentadas.

Muitos cidadãos sentem que os poderes públicos revelam indiferença — ou incapacidade — na preservação da herança civilizacional europeia, o que é frequentemente interpretado como incompetência ou simples cedência estratégica.

Estaremos na antecâmara de um colapso civilizacional?

A história aconselha prudência. A Europa cristã sobreviveu a guerras religiosas, invasões, revoluções e totalitarismos. A questão decisiva não é a da diversidade em si, mas a capacidade de afirmar uma identidade cultural coesa e efectivamente maioritária, confiante e aberta. Viva!

Se houver vontade política e renovação cultural, talvez este momento seja menos um epílogo, e mais um ponto de inflexão.

Ainda está nas nossas mãos!

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Carlos Reis

GIRABOLHOS, UMA HISTÓRIA EXEMPLAR DO COSTISMO

Carlos Reis

Coimbra e as suas populações pagaram por estes dias o preço da decisão ideológica que lhe foi imposta por António Costa e pela extrema-esquerda que o alcandorou ao poder.

Com efeito, em 2016, Portugal cometeu um erro estratégico grave e, pior do que isso, deliberado: o cancelamento da Barragem de Girabolhos.

Este empreendimento integrava o Plano Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroelétrico (PNBEPH), lançado em 2007.

Na altura, a concessão foi atribuída à Endesa, que avançou com estudos, procedimentos administrativos e trabalhos preparatórios, assumindo encargos iniciais no terreno.

Contudo, em abril de 2016, já sob o Governo liderado por António Costa (PS), foi anunciada uma reavaliação do plano hidroelétrico nacional. Na sequência dessa revisão, o governo de António Costa decidiu cancelar a construção de algumas barragens, justificando a decisão com “alterações no contexto energético, ambiental e económico que tornariam os projetos menos justificáveis nos termos previstos inicialmente”.

O tal “contexto” resumia-se apenas a duas variáveis: a primeira, a militância histórica anti-barragens do lobby ambiental, que se opõe, por sistema a qualquer nova obra de engenharia hidroeléctrica. Não fora a persistência do bom senso e a razão comprovada de muitos técnicos e a determinação de alguns governantes e hoje as populações de Coimbra e do Baixo Mondego ainda estariam sujeitas à violência e aos prejuízos sazonais da desregulação de um rio que foi durante séculos indestrinçavelmente ligado ao desenvolvimento urbano da região de Coimbra e da exploração das terras mais valiosas de Portugal.

Esta variável encontraria na Geringonça e numa das suas protagonistas, Catarina Martins, a variável do cancelamento: como as barragens eram coisas do passado perante a “questão climática” e os rios teriam de ser “renaturalizados” nesse novo tempo, o plano de regularização do Mondego ficou por concluir e Girabolhos ficou cancelada.

Uma obra já concessionada, com trabalhos preparatórios iniciados e acessos em curso, foi assim interrompida por decisão política. Não por falta de estudos, não por falta de necessidade, mas por imposição ideológica, em nome de um ambientalismo de slogan e de um radicalismo que confundiu governação com propaganda.

O resultado está agora à vista. A bacia do Mondego e a região de Coimbra ficaram mais expostas às cheias e aos caudais extremos, sem um instrumento decisivo de regularização e controlo.

Num tempo em que se fala tanto de alterações climáticas e de eventos meteorológicos mais violentos, cancelar uma infraestrutura pensada para aumentar a segurança das populações foi, no mínimo, uma irresponsabilidade histórica.

Além disso, perdeu-se uma oportunidade relevante de aproveitamento hidroelétrico e de gestão racional da água. Não se tratava apenas de “betão”: tratava-se de proteção civil, de segurança hídrica, de capacidade energética e de planeamento sério para décadas.

O projeto abrangia território dos concelhos de Seia e Fornos de Algodres, no distrito da Guarda, e de Nelas e Mangualde, no distrito de Viseu.

Seria uma barragem de retenção de água, com vários usos, mas com o principal de controle de cheias.

Em vez disso, escolheu-se a fragilidade e o improviso.

E é aqui que importa exigir responsabilidades políticas. Catarina Martins, que na altura exigia a “re naturalização dos rios” como alternativa, devia agora ter a coragem de ir a Coimbra explicar o que isso significava, na prática.

A expressão é bonita, mas não substitui uma barragem, não trava cheias, não garante caudais e não protege populações.

O Mondego não se governa com palavras. Governa-se com decisões competentes — e Girabolhos foi a prova de que, naquele momento, o país não as teve.

Por isso este governo esteve bem, com determinação e seriedade, sob a coordenação esclarecida de Maria da Graça Carvalho a Ministra do Ambiente e Energia.

A sua decisão de solicitar à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) o lançamento do concurso para a construção de Girabolhos merece o aplauso dos portugueses.

Sejamos por isso muito claros –  ser solidários com as populações afectadas é também continuar a definição e articulação de medidas de mitigação e controlo de cheias na região.

E isto é possível.

Por isso só se pode saudar este governo.

Coimbra não pode continuar a pagar por uma decisão tomada em Lisboa para satisfazer agendas extremistas de geringonças partidárias.

Carlos Reis

OS PORTUGUESES NÃO SÃO PARVOS

Carlos Reis

A vitória de António José Seguro nas eleições presidenciais constitui uma grande e inequívoca vitória pessoal.

Não se trata de um triunfo emprestado, nem de um resultado por delegação: é uma conquista política própria, construída na credibilidade do seu percurso, na confiança que soube gerar e na capacidade de falar para lá das fronteiras tradicionais do voto partidário.

Mais: esta é uma vitória inconfundível com a de qualquer partido político. Num tempo em que tantos procuram apropriar-se dos resultados eleitorais para reforçar narrativas internas, importa dizer, com clareza, que o país escolheu um Presidente da República — não escolheu um governo, nem uma maioria parlamentar, nem um alinhamento ideológico fechado.

Estavam em causa as eleições para a Chefia do Estado, com a sua natureza específica, o seu mandato próprio e a sua responsabilidade singular.

A dimensão histórica do resultado é incontornável. António José Seguro torna-se o Presidente eleito para um primeiro mandato com a maior percentagem da Democracia e, simultaneamente, o Presidente eleito com o maior número de votos de sempre. Estes factos, por si só, exigem leitura séria e sentido de Estado: estamos perante um mandato forte, legitimado de forma rara e robusta.

Por isso será tão disparatado que André Ventura reclame agora a “liderança da Direita” a partir da comparação com um resultado percentual superior (que não em número de votantes!) ao obtido pela AD nas últimas legislativas como, por absurdo, se pudesse agora dizer que o Partido Socialista já estaria a caminho de uma maioria absoluta, de dimensão quase constituinte.

Então e o enorme espaço do centro e do centro-direita, social democrata, democrata cristão e liberal? Desapareceu de súbito, hoje, porque praticamente 90% dos seus eleitores resolveram rejeitar o apelo da extrema-direita protagonizado por André Ventura, muitos optando pelo “candidato socialista”, outros (muito menos) refugiando-se na abstenção?

A quem interessa discutir este tipo de abstrações? Obviamente só a quem foi ontem severamente batido e rejeitado pelos portugueses, mas faz da ação política um continuo fluxo de ruído e números de prestidigitação.

No entanto os portugueses não são parvos e souberam muito bem o que ontem estava em causa.
As presidenciais não são um atalho para reescrever o mapa partidário do país.

Os resultados eleitorais destas eleições extinguem-se já no próximo domingo, com a realização do acto eleitoral nas freguesias impedidas de votar.

E a actual configuração parlamentar continuará. Assim como o Primeiro-Ministro continua a ter o dever constitucional do seu Governo em governar e definir a política geral do país, de acordo com o seu Programa.

Portugal precisa agora de se focar no que é importante.

Para isso, a política nacional deve passar a ser um fator de estabilidade, assente no regular funcionamento das instituições e na responsabilidade dos atores políticos.

E foi este o apelo do Presidente Eleito, António José Seguro.

Temos agora três anos e meio para recuperar Portugal — com seriedade, com compromisso e com sentido de futuro.

Carlos Reis

MUDAR DE POVO?

Carlos Reis

Nada que saibamos politicamente de Espanha nos poderá surpreender.

E tudo o que ouvimos de lá deve servir-nos como aviso preventivo, aquilo que os norte-americanos chamam de “cautionary tale”.

As recentes declarações da mulher de Pablo Iglesias, eurodeputada do Podemos e líder da extrema esquerda espanhola, Irene Montero, proferidas num comício em Saragoça e divulgadas pelos media espanhóis, dificilmente poderiam ser mais claras quanto ao objectivo inconfessado, pelo governo espanhol, da anunciada regularização de emergência de meio milhão de imigrantes.

Irene Montero ao afirmar que, depois da regularização, o objetivo será o de avançar para a nacionalidade e para o direito de voto dos imigrantes, e ao celebrar explicitamente a ideia de “varrer de fachos e racistas este país” através desse processo, Montero deixou cair qualquer véu de ambiguidade política.

Afinal a motivação da extrema esquerda europeia com a sua reivindicação de open borders (fronteiras abertas) é sobretudo instrumental.

Não se trata apenas do discurso panfletário sobre direitos humanos ou integração social: trata-se mesmo de uma estratégia de poder.

A máscara caiu e só uma comunicação social portuguesa complacente e cúmplice pode tentar fazer ignorar isto dos portugueses.

Durante anos, lá e cá, a esquerda radical negou com indignação que a imigração pudesse ser encarada como instrumento eleitoral. Quem levantava essa hipótese era imediatamente rechaçado, acusado de conspiracionismo, ou de aderir à chamada teoria da “grande substituição”.

Ora, quando a líder da esquerda radical espanhola assume, sem rodeios, que quer alterar a composição do eleitorado para substituir politicamente uma parte da população por outra, o que está em causa já não é teoria, mas prática política assumida.

Como não consegue ganhar eleições com o voto dos espanhóis actuais, há assim que substituí-los por novos espanhóis, administrativamente fabricados.

Não nos surpreendamos pois que a nossa extrema-esquerda, desacreditada e reduzida a mínimos históricos, comece a exigir em breve o alargamento massivo e indiscriminado ao direito de voto da enorme massa de migrantes  que alterou demográficamente Portugal de rajada, nos recentes anos.

Para o efeito usarão de todos os truques retóricos e falsos paralelismos.

Começarão certamente devagar e passo a passo.

Tentarão convencer e captar o comentariado pelo apelo à lusofonia, como se o direito de voto numa democracia estabelecida e consolidada como a nossa, pudesse ser reciprocamente garantido em democracias incipientes, falhadas ou intermitentes como algumas da CPLP.

Certamente Rui Tavares e a sua agremiação do Livre traçarão paralelismos históricos como o da reivindicação do sufrágio feminino, defendendo o direito de voto de imigrantes sem nacionalidade, ou até mesmo de nacionais de outros países.

É a redução de Portugal a um mero lugar.

Ora além de abusiva, esta reivindicação da extrema esquerda é reveladora de uma lógica instrumental: o voto deixa de ser o culminar de um processo de pertença cívica e passa a ser uma ferramenta para reconfigurar a correlação de forças.

A imigração surge, assim, não como fenómeno social complexo a gerir com equilíbrio, mas como matéria-prima eleitoral ao serviço de um projeto ideológico.

É neste ponto que as identidades nacionais se tornam o alvo. Não por acaso, Irene Montero fala em “reemplazo”, ainda que o tente revestir de ironia. A mensagem é simples: a comunidade política existente é um obstáculo a remover, não um património a preservar.

Quando a esquerda radical assume que quer mudar o povo para ganhar eleições, confirma precisamente aquilo que durante tanto tempo disse ser uma invenção dos seus adversários.

Como não ganham com este povo há que substitui-lo por outro.

Carlos Reis

VOTO SEGURO

Carlos Reis

Nas próximas eleições presidenciais votarei em António José Seguro.

Faço-o de forma racional, consciente e deliberada, por considerar que este é um voto em defesa da estabilidade política, do regular funcionamento das instituições e da defesa de um certo sentido de serenidade e decência, imprescindível à nossa vida colectiva. 

Este não é um voto ideológico, nem um voto de esquerda ou de direita. 

Muito menos representa qualquer reavaliação positiva do Partido Socialista, cuja ação política passada e presente merece uma apreciação profundamente negativa e crítica. 

Como militante do PSD, com 38 anos de militância, nunca poderia, nem poderei, apoiar projetos que tenham como objetivo a destruição do meu partido ou a sua substituição no sistema político português.

Simplesmente não voto em quem quer matar o PSD. 

O meu voto também não sustentará ambições messiânicas nem projetos presidencialistas. Essas conceções são, aliás, a antítese do pensamento e da ação de Francisco Sá Carneiro, que perdeu tragicamente a vida explicando aos portugueses que a democracia representativa e funcional é incompatível com a presença de um Presidente que concentre em si as decisões políticas do país, subjugando governos e maiorias parlamentares aos seus interesses, ou caprichos pessoais.

O que está em causa nesta eleição é, precisamente, a escolha de um Chefe de Estado — árbitro, moderador e garante institucional — e não a eleição de um homem providencial. 

A Constituição é clara quanto aos limites e responsabilidades do cargo, e esses limites devem ser respeitados.

Nestas eleições os eleitores da AD têm um dever acrescido na defesa da estabilidade política. Portugal não pode viver em permanente sobressalto, com eleições todos os anos e crises políticas todas as semanas.

Por essas razões, o meu voto é Seguro.

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Publicado em 26 janeiro de 2026
Carlos Reis

AS MAIORIAS PRESIDENCIAIS NÃO EXISTEM

Carlos Reis

Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais são politicamente inequívocos.

A vitória clara de António José Seguro é sobretudo o resultado de um mérito pessoal que se traduziu numa coligação de eleitores, muito mais ampla que a força eleitoral própria do PS.

Em contraste, André Ventura revelou consolidação eleitoral, não conseguindo ir além do patamar já alcançado nas últimas legislativas, ficando agora a cerca de 120 mil votos desse resultado. 

A leitura política é simples: dos dois candidatos, um candidato somou apoios, o outro apenas repetiu.

Estes são os dados de partida para a segunda volta, que deve ser entendida como aquilo que constitucional e politicamente é: uma nova eleição, com outra dinâmica, outros incentivos e um novo quadro de decisão para os eleitores. 

E, ao contrário do que uma análise mais apressada e simplista poderá sugerir, esta dinâmica não se organizará necessariamente em torno do tradicional binómio esquerda-direita. 

Dadas as personalidades em confronto, as suas biografias e as idiossincrasias das suas respetivas ambições, o verdadeiro dilema que se colocará aos eleitores será o de considerarem desta vez, neste acto eleitoral, como mais decisiva a escolha entre a defesa da estabilidade institucional ou o risco da introdução de um fator permanente de instabilidade nos próximos anos.

Importa recordar um dado essencial do nosso regime: quem governa é o Governo. O Presidente da República não governa. Contudo, pode condicionar, bloquear e, em casos extremos, impedir a governação. 

É neste plano que deve ser feita a avaliação, em particular pelos eleitores da AD.

Neste contexto, a opção da direção do PSD de não se envolver ativamente na disputa presidencial, no quadro da segunda volta, é politicamente prudente. No quadro constitucional vigente, as maiorias presidenciais não existem, dissolvem-se no dia seguinte à eleição. 

As maiorias que contam são as maiorias parlamentares. Por isso, a prioridade estratégica do PSD (e do CDS), deve ser a de assegurar a estabilidade governativa, o cumprimento do seu Programa, e a apresentação de resultados concretos das suas políticas durante a actual legislatura.

Para Portugal resolver os seus problemas neste quadro internacional complexo e difícil, não lhe pode começar por adicionar novas e sucessivas crises políticas. 

Portugal não pode simplesmente ter eleições todos os anos. 

A decisão quanto ao nosso futuro está agora nas nossas mãos.

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