
Miguel Relvas
As perceções contam na política. Contam porque ajudam a medir o estado de espírito das sociedades, o grau de confiança das pessoas e até a credibilidade dos governos. Mas há uma diferença essencial entre escutar perceções e governar com base nelas. Quando a política abandona a realidade concreta para entrar no terreno da construção subjetiva, o risco de desconexão torna-se enorme.
Foi precisamente essa sensação que deixou o recente discurso do Primeiro-Ministro sobre a suposta perceção positiva que investidores alemães têm atualmente de Portugal. A ideia pode agradar a quem vive obcecado com rankings internacionais e validação externa, mas dificilmente coincide com a realidade diária da maioria dos portugueses.
Os portugueses não vivem de perceções. Vivem de salários curtos, transportes públicos degradados, serviços do Estado cada vez mais lentos e de um custo de vida que continua a esmagar a classe média. Vivem de prestações da casa incomportáveis, de impostos elevados e de uma sensação crescente de desgaste económico. E é exatamente aqui que a política deve concentrar-se.
Existe, aliás, um problema maior: quando o discurso político se torna excessivamente superficial ou desligado da experiência concreta das pessoas, abre espaço ao populismo. Porque o populismo cresce precisamente quando os cidadãos sentem que os seus governantes vivem numa realidade paralela, mais preocupados com narrativas otimistas do que com os problemas reais do país.
Governar exige realismo, exigência e capacidade de enfrentar dificuldades. Não basta repetir que Portugal é visto lá fora como um país atrativo ou moderno. Isso pode ter utilidade diplomática ou económica, mas não resolve os bloqueios estruturais que continuam a limitar o crescimento e a qualidade de vida dos portugueses.
A direita moderada, democrática e institucional deveria ser a primeira a perceber isto. Governar não é construir uma estética da perceção. É resolver problemas concretos, tomar decisões difíceis e criar condições para que o país funcione melhor.
Portugal afirma-se no exterior quando consegue responder aos seus desafios internos com competência e ambição. Tudo o resto é espuma política. Porque, mais cedo ou mais tarde, a realidade acaba sempre por impor-se.
*resumo da responsabilidade do 24Horas da participação do autor no programa ‘CNN Fim de Tarde’

Miguel Relvas
A escalada de tensão entre o Ocidente e o Irão voltou a colocar o mundo num estado de incerteza que não pode ser ignorado. Sempre que o equilíbrio geopolítico se fragiliza, os efeitos fazem-se sentir de imediato: a energia encarece, o transporte torna-se mais caro e as empresas retraem-se nas decisões de investimento. Para um país como Portugal, altamente dependente do exterior, este impacto é particularmente severo.
Mas a verdade é que os problemas não começam fora de portas. Portugal transporta fragilidades estruturais há demasiado tempo. A economia continua pouco flexível, presa a um modelo que gera baixo valor acrescentado e salários reduzidos. Faltam reformas profundas, desde logo na legislação laboral, que permitam maior competitividade e capacidade de adaptação num mundo em constante mudança.
A isto soma-se um Estado pesado e muitas vezes ineficiente, que não acompanha o ritmo das exigências globais. Em vez de estimular o crescimento, acaba por travá-lo, dificultando melhores condições de vida para famílias e empresas. Não basta, por isso, reagir às crises internacionais. É essencial mudar estruturalmente a forma como o país cria riqueza, gera emprego e remunera o trabalho.
No plano político, há igualmente um desafio que não pode ser adiado: o da transparência. Esta não pode ser tratada como uma opção ou um exercício retórico. Deve ser uma prática diária e exigente, assumida por todos os que exercem funções públicas, desde os partidos aos mais altos cargos do Estado.
Mais fiscalização, menos zonas cinzentas e um estatuto que aproxime a política da realidade profissional são passos decisivos para recuperar a confiança dos cidadãos. Porque quando a transparência falha, não é apenas a imagem dos políticos que sai afetada — é a própria democracia que se fragiliza.
Portugal precisa de clareza, de coragem reformista e de exigência ética. Sem isso, continuará preso a um ciclo de estagnação que o mundo, cada vez mais competitivo, não perdoa.
*resumo da responsabilidade do 24 Horas da intervenção
do autor no debate ‘CNN Fim de Tarde’ de dia 4 de Abril

Miguel Relvas
Há uma linha que não deve ser ultrapassada numa democracia madura: a que separa, com clareza, o exercício legítimo de influência política do risco de interferência institucional. E é precisamente essa linha que parece hoje esbater-se.
No momento em que se assinala o 25 de Abril, não deixa de ser paradoxal que surjam sinais que colocam em causa princípios essenciais como a transparência e a responsabilização no exercício de funções públicas. Vivemos num tempo em que o escrutínio não é opcional — é estrutural. Tentar contrariar essa realidade é, no mínimo, um exercício inconsequente.
É verdade que se pode discutir o excesso de regras e o eventual afastamento de quadros qualificados da vida pública. Mas essa é uma escolha que cada um faz: quem entra na política sabe, ou deve saber, ao que vai. E isso inclui aceitar um nível de exigência e de vigilância que é hoje inevitável.
Mais preocupante é, contudo, o sinal político que decorre da nomeação de Adalberto Campos Fernandes para coordenar um pacto estratégico na área da saúde, por iniciativa do Presidente da República. À primeira vista, pode parecer um gesto de impulso ou de pressão sobre o Governo. Mas, analisando com rigor, trata-se de algo mais profundo: uma tomada de posição.
Ao escolher uma figura com um percurso e um pensamento claros sobre o setor, o Presidente não está apenas a incentivar uma solução — está, na prática, a alinhar-se com uma determinada visão para o Serviço Nacional de Saúde. E isso levanta uma questão essencial: pode o Presidente deixar de ser árbitro para passar a ser parte?
Num domínio tão sensível como a saúde, onde estão em confronto diferentes modelos — mais ou menos intervenção do Estado, maior ou menor abertura ao setor privado —, essa neutralidade é decisiva. Ao abdicar dela, mesmo que de forma indireta, o Presidente fragiliza o seu papel institucional.
Influenciar, sim. Condicionar, talvez. Mas decidir ou sinalizar caminhos concretos a partir de Belém é outro patamar. E esse, em meu entender, não deve ser cruzado.
*resumo da responsabilidade do 24Horas da intervenção do autor no programa ‘CNN Fim de tarde’

Miguel Relvas
Há momentos na vida de um país em que as escolhas de política externa deixam de ser meramente circunstanciais e passam a definir o seu posicionamento estratégico no mundo. A relação de Portugal com o Brasil é, indiscutivelmente, um desses casos. E é por isso que considero um erro histórico — sim, um erro histórico — a atitude de confronto político com o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Portugal não pode olhar para o Brasil, para Angola, ou para Moçambique com ligeireza nem com sobranceria. Não estamos a falar de parceiros quaisquer. No caso do Brasil estamos a falar da maior economia da lusofonia, de uma das dez maiores economias mundiais. de um país com peso global crescente e de uma relação que assenta em séculos de história comum, de língua, de cultura e de interesses partilhados. Fragilizar este eixo por razões conjunturais ou por impulsos ideológicos é, no mínimo, um sinal de falta de visão estratégica.
Não se trata de concordar com todas as posições do Presidente Lula, nem de abdicar de princípios. Trata-se, isso sim, de compreender que a política externa exige maturidade, sentido de Estado e, sobretudo, pragmatismo. Portugal ganha mais em influenciar do que em hostilizar, em dialogar do que em confrontar.
Assistimos, infelizmente, a um debate público cada vez mais dominado por lógicas internas, por ciclos mediáticos curtos e por uma tentação permanente de transformar divergências em conflitos. Essa abordagem pode render aplausos imediatos, mas compromete interesses duradouros. E na política externa, o curto prazo paga-se caro.
Portugal tem muito a ganhar com uma relação forte e estável com o Brasil — do ponto de vista económico, empresarial, diplomático e até geopolítico. Num mundo cada vez mais fragmentado, onde as alianças são decisivas, não faz sentido enfraquecer uma das mais naturais e estratégicas ligações que temos.
A história julga, e julga com distância. E é à luz dessa distância que devemos agir hoje. Porque há decisões que não são apenas políticas — são estruturais. E errar aqui é comprometer o futuro.
*resumo da responsabilidade do 24Horas de intervenção
de Miguel Relvas no debate ‘CNN Fim de Tarde’ de 20 de Abril

Miguel Relvas
Partamos de uma realidade: o mundo está hoje em transição, onde o desgaste político, a imprevisibilidade das lideranças e a escalada de tensões internacionais se cruzam de forma cada vez mais evidente.
O fim de ciclo de Viktor Orbán, na Hungria, surge como exemplo paradigmático de um fenómeno recorrente: o desgaste inevitável de lideranças prolongadas. Mesmo em contextos politicamente estáveis e com bases sociais sólidas, o tempo corrói a eficácia e abre espaço a alternativas. Neste caso, não é a oposição tradicional que emerge, mas sim uma nova força dentro do próprio espaço ideológico, conhecedora das fragilidades do sistema e capaz de capitalizar o cansaço acumulado. Este padrão, longe de ser isolado, pode replicar-se noutros contextos europeus.
Já no plano internacional, a crítica às declarações de Donald Trump dirigidas ao Papa revela uma questão mais profunda do que um simples excesso retórico. Trata-se de um erro de leitura estratégica. O Vaticano, apesar de não ser uma potência convencional, mantém uma influência histórica e diplomática que continua a pesar no equilíbrio global. Ignorar essa dimensão não é sinal de força, mas antes de superficialidade política.
A aparente contradição entre essa postura e o posicionamento de figuras como J. D. Vance e Marco Rubio — ambos com ligações ao catolicismo — reforça a ideia de uma incoerência crescente no campo político norte-americano. A dimensão simbólica e cultural parece ceder perante lógicas imediatistas, fragilizando a consistência estratégica.
Mas é no Médio Oriente que se joga, talvez, o teste mais delicado. A escalada de tensão no Estreito de Ormuz ultrapassa já a lógica regional e assume uma dimensão global, colocando em causa uma das principais artérias energéticas do mundo. O reforço da presença militar dos Estados Unidos e a estratégia assimétrica do Irão criam um impasse perigoso, onde qualquer incidente pode desencadear uma escalada de consequências imprevisíveis.
No fundo, o que esta leitura evidencia é um cenário internacional cada vez mais volátil, onde a capacidade de gestão estratégica — mais do que a retórica — será determinante. Entre ciclos políticos que se esgotam, lideranças que desafiam instituições históricas e conflitos que se intensificam, o mundo parece entrar numa fase em que o erro de cálculo pode ter custos particularmente elevados.
*resumo da responsabilidade do 24 Horas de intervenção de Miguel Relvas no debate ‘CNN Fim de Tarde’ de 13 de Abril