
Manuel dos Santos
Na sequência da decisão da CN do seu partido, o Presidente Carlos César afirmou que “o apoio formal a Seguro esgota a participação do PS”. Dá para entender ou é preciso fazer um desenho?
O posicionamento do PS face à eleição presidencial é uma “estória” que ainda fará correr muita tinta e terá consequências sérias no futuro do partido.
Entre tantas matérias que dividem os socialistas, esta pode bem ser a “cereja em cima do bolo”.
É evidente que, a partir de 2011, se iniciou no partido um processo de assassinato político de António José Seguro, com António Costa como mentor.
Esta pulsão irracional e suicida condicionou a vida do PS e afastou-o de êxitos eleitorais que poderiam estar ao seu alcance.
Com o estímulo de Costa, as direcções que se seguiram após 2015 usaram a cultura do ódio como forma de resolver divergências políticas.
Destacou-se Augusto Santos Silva, um dos mais violentos detractores do PS e de Soares nos anos a seguir ao 25 de Abril.
Apesar disso, fez carreira “profissional” e chegou (pasme-se!) a presidente da Assembleia da República.
O momento-chave desta política de ódio ocorreu quando, após manifestar interesse na PR, Seguro foi desvalorizado e insultado pelo pretenso senador da República.
Assassínio cívico e político — sem êxito, felizmente.
Santos Silva não está só: é a referência do “califado dos Silvas” que vem empurrando o PS para a insignificância.
Tem apoios e ainda cultiva a esperança de acabar o trabalho de destruição de Seguro que iniciou.
Convém recordar as palavras do actual SG do PS, há cerca de um ano, ao Observador:
“Se Augusto Santos Silva fosse candidato a Presidente da República, o meu apoio estaria com Augusto Santos Silva.”
Ainda é preciso fazer um desenho?

Manuel dos Santos
Os números contam sempre a verdade que nos convém — basta saber torturá-los. Por isso não surpreende que, após as eleições de domingo, todos os partidos se tenham declarado vencedores. Todos, menos o PCP, que lá admitiu que o resultado ficou aquém.
Mais inesperada foi a euforia do secretário-geral socialista que, antes de apurados os votos, proclamou o “regresso do PS” Ironias à parte, a realidade é simples: o PSD ganhou, o PS perdeu. Ganhou porque cumpriu todos os objectivos — mais câmaras, mais assembleias, mais votos — e consolidou o poder do centro alargando-o às autarquias. O simbolismo da conquista da Associação Nacional de Municípios e da ANAFRE fala por si.
O PS perdeu porque não travou o declínio e continua refém de ilusões e discursos de vitória moral. Persistem sectores incapazes de sair do estado de negação e raiva, enquanto se preparam novos assaltos internos. Não serão tempos fáceis e as presidenciais poderão agravar a crise.
Mesmo assim, em vez de se procurarem responsáveis, celebram-se pseudo-vitórias. Mas às vezes é preciso olhar também para as árvores: a queda de Fernando Ruas é um caso a estudar, mas mais significativa é a vitória do socialista Ricardo Leão em Loures.
Há um ano, Leão fora vítima de um “assassinato político” dentro do PS, forçado a abandonar a liderança da Federação de Lisboa após um artigo humilhante assinado, entre outros, por António Costa, então presidente do Conselho Europeu. Apesar disso, o partido não ousou afastá-lo — temendo perder mais uma câmara.
Candidatou-se, ganhou, e respondeu a Costa com um desejo sob a firma de uma frase cortante: que se entretivesse em Bruxelas e ficasse longe do país “onde não faz falta”. Uma vingança fria e saborosa, servida com precisão cirúrgica.
Talvez para memória futura.
Manuel dos Santos é antigo vice-presidente do Parlamento Europeu

Manuel dos Santos
Apesar da muita informação/propaganda que a comunicação social tem proporcionado, alavancada pelo escrutínio dos mais relevantes elementos da chamada “indústria do comentariado”, não se pode dizer que a campanha para as eleições autárquicas, tenha sido muito esclarecedora.
Por exemplo, ainda ninguém percebeu (sobretudo em Lisboa e Porto) quantas casas vai “construir” cada candidato. Digamos mesmo que a discussão principal se centrou à volta de quem cantará vitória no fim do dia das eleições.
Excluo a já habitual, em tempo de eleições, narrativa sobre as relações do Ministério Público com a política.
Todos acentuam o carácter local das escolhas afirmando que os eleitores, nestas circunstâncias, votam em pessoas e não em ideologias. Seria bom que assim fosse, mas assim nem sempre é, e os exemplos que comprovam isso, na história das eleições locais, são mais que muitos para o justificar.
Poderá aceitar-se que a regra da “neutralidade ideológica”, mesclada de proximidade, é cumprida na maioria dos municípios de reduzida dimensão, mas não existe, como factor determinante, no quadro dos grandes municípios, onde se impõe a cultura de tribo e a maior parte dos eleitores exerce o seu dever cívico em obediência à sua opção partidária ou ao hábito que estabeleceu, durante sucessivas eleições, votando sempre da mesma maneira.
Infelizmente, mesmo nas democracias liberais, o “tribalismo” acaba sempre por se impor à cidadania.
Sendo assim, é perfeitamente natural que os actuais líderes políticos, acossados por uma conjuntura que não é fácil, acabem a fazer uma leitura nacional das eleições locais.
O secretário-geral do PS já disse, aliás, que se perder (tiver menos votos? tiver menos câmaras? tiver menos mandatos?) considera que não será sua a responsabilidade. Só não disse, nem lhe perguntaram, de quem será o mérito e o proveito, se o partido não ganhar.
Entretanto o líder do PSD estabeleceu que ganhar é ter condições para recuperar a presidência da Associação Nacional de Municípios Portugueses.
Ficamos esclarecidos, até porque já sabemos que a extrema-direita, a extrema-esquerda e o PCP já têm os seus discursos de vitória encomendados antes mesmo de se contarem os votos. Pronto… siga a festa… e no dia 12 já saberemos.
Manuel dos Santos é antigo vice-presidente do Parlamento Europeu