
Gonçalo Lage
Na semana que ficámos a conhecer o acordo que o Governo fechou para a Fórmula 1 regressar a Portugal, nomeadamente para o Autódromo privado do Algarve, é obrigatório falarmos da tradição do circuito do Estoril e da importância e falta que faz ao panorama do desporto motorizado em Portugal. É inconcebível, com a gestão pública da Parpública nos últimos anos, termos chegado a uma situação de total abandono, de falta de gestão, de falta de cuidado e de falta de investimento, que culminou na interdição da bancada principal por falta de manutenção, e na limitação de uso por sucessivos incumprimentos, como resultado de uma ação judicial colocada por um famoso advogado na defesa de interesses imobiliários.
A especulação imobiliária e o ímpeto de construção de condomínios estão de mãos dadas, num esforço concertado para acabar de vez com o circuito, sempre com o espectro do ruído como pano de fundo. Um equipamento histórico e estratégico com enorme importância nacional e internacional, determinante para o turismo, para a economia, para a formação de talentos e para o emprego não pode ver a sua relevância questionada e muito menos posta em causa por alguns “novos” inquilinos.
O Autódromo do Estoril existe há décadas, não apareceu ontem, quem escolheu viver na Penha Longa, na sua envolvente, já sabia ou devia de saber que ali funciona uma infraestrutura desportiva de dimensão internacional. O País não pode reescrever a sua geografia económica ao sabor de protestos pontuais, nem cair na tentação de minorias ruidosas quererem cancelar um interesse coletivo.
Dito isto é aceitável uma mitigação de impactos, mas não é aceitável cancelar provas, cancelar eventos internacionais e cancelar toda uma nova ambição. É por isto que o Presidente da Câmara Municipal de Cascais, Nuno Piteira Lopes, tem de liderar com coragem, encontrando uma solução rápida para o autódromo, conciliando interesses, defendendo o bem comum, sem ceder a bloqueios.

Gonçalo Lage
Uma Greve Geral é em qualquer Democracia um instrumento excecional que se utiliza, por exemplo, em casos de ruturas de rendimento, casos de recessão profunda ou até de ataques firmes a direitos adquiridos. Numa análise rápida e até diria talvez óbvia, conseguimos apurar que nenhuma destas condições se verifica hoje em Portugal. Torna-se até constrangedor, que num País que atravessa um período estável de crescimento, de mais rendimento disponível, de sucessivas reduções de impostos, de valores de empregabilidade recorde e de melhoria de carreiras públicas (foram celebrados 21 acordos de revisão de carreiras na função pública), estejamos a aplicar qualquer métrica racional para uma Greve Geral.
Os pressupostos clássicos para convocação de uma Greve Geral não estão, pois, reunidos, ainda para mais na semana que somos distinguidos de uma forma ímpar pela revista Economist. O que está reunido é um protesto político contra um Governo que a CGTP não controla, e cuja agenda é incompatível com a visão estatizante e retrógrada que esta sustenta, felizmente com uma representatividade cada vez mais alheada da realidade da nossa economia. A este propósito fará sentido a UGT se aliar ao passado e ao braço armado do PC? Não. A UGT está a privilegiar uma oportunidade de prova de vida, num oportunismo momentâneo de agenda que desvie as atenções para a falta de ambição e a falta de visão do futuro do mercado laboral, num contexto de uma concorrência cada vez mais exigente.
Sendo a concertação social, por excelência, uma plataforma essencial de diálogo, precisamos de a acarinhar, robustecer e valorizar. Quanto mais atenção dermos a este diálogo, e quanto mais representativo e diversificado este diálogo for, mais forte e mais credível será.