Após eleições relevantes, é costume fazer listas de vencedores e derrotados. Muitas vezes é um exercício superficial. Desta vez, porém,...
Após eleições relevantes, é costume fazer listas de vencedores e derrotados. Muitas vezes é um exercício superficial. Desta vez, porém, a distinção impõe-se.
António José Seguro foi o grande vencedor das eleições presidenciais.
Apresentou-se como candidato, “sem amarras e livre” de aparelhos partidários e grupos de interesses, enfrentou o desconhecimento inicial de parte do eleitorado, suportou hostilidade interna no seu próprio partido e lidou com uma comunicação social que, até ao fim da primeira volta, o manteve à margem.
Ainda assim, afirmou-se praticamente sozinho. Defendeu com clareza os poderes presidenciais, comprometeu-se com a estabilidade política e com o cumprimento rigoroso dos mandatos. Conquistou o apoio de cerca de três milhões e meio de portugueses e foi eleito, justamente, Presidente da República.
É o único vencedor inequívoco deste processo eleitoral.
André Ventura apresentou-se como alternativa. A sua campanha assentou na radicalização do discurso, no ataque às instituições e na tentativa de se afirmar como líder da direita. A proposta de adiamento das eleições, aceitando contornar a lei, revelou a sua visão instrumental do Estado de direito.
Apesar do apoio objectivo e do branqueamento de parte da comunicação social, falhou objetivos centrais, desde logo a consagração como líder incontestado da direita portuguesa. Procurou associar-se simbolicamente à primeira-ministra italiana, mas omitiu que o seu partido integra, no Parlamento Europeu, o grupo dos Patriotas pela Europa, onde se encontram forças da extrema-direita como as de Le Pen, Viktor Orbán e Robert Fico.
O eleitorado não lhe concedeu o desfecho que pretendia. É, por isso, um dos grandes derrotados.
O outro é António Costa, atual Presidente do Conselho Europeu.
Desde que combateu Seguro no interior do PS e, depois, arquitectou a solução governativa conhecida como “geringonça”, Costa consolidou um projecto de poder exclusivamente pessoal. Não travou agora a eleição presidencial de Seguro, a quem sempre foi politicamente adverso, e deixa como legado um país onde a extrema-direita ganhou dimensão estrutural.
As opções políticas que protagonizou e os episódios que marcaram o seu percurso contribuíram para esse crescimento. O legado (“legacy” como refere o jornal Politico) é um partido — o Chega — que ambiciona enfraquecer a democracia liberal e cuja influência na política portuguesa já não é meramente episódica.
O balanço é agora claro: um ganha, dois perdem — e o país sabe exatamente quem é quem e com o que pode contar.