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Miguel Relvas

GOVERNAR NÃO É IMPROVISAR

Miguel Relvas

Há um traço comum que une crises aparentemente distintas: a tentação de governar através da propaganda, substituindo decisões estruturais por anúncios mediáticos e convicções ideológicas. É precisamente isso que hoje vemos acontecer em Espanha, com a gestão da imigração, e em Portugal, com o caos instalado no acesso ao ensino superior.

O que aconteceu em Ceuta não pode ser reduzido a um episódio fronteiriço. É, antes de mais, um drama humano. Milhares de pessoas abandonam tudo na esperança de encontrar uma vida melhor. Merecem respeito, dignidade e políticas sérias. O que não merecem é serem transformadas em instrumento de agendas políticas que confundem humanidade com ausência de regras.

Pedro Sánchez escolheu alimentar essa ilusão. A Europa não pode continuar a fechar os olhos a políticas que incentivam fluxos migratórios descontrolados sem garantir capacidade de integração, segurança ou sustentabilidade. Defender fronteiras não é negar solidariedade; é precisamente a condição para que ela possa existir de forma credível.

Também em Portugal assistimos a uma preocupante incapacidade de distinguir reformas de improvisações. A confusão criada no sistema de exames nacionais e de acesso ao ensino superior é um caso paradigmático. Durante demasiado tempo vendeu-se a ideia de que bastava digitalizar procedimentos para modernizar o Estado. Não basta.

Uma verdadeira reforma exige planeamento, testes, capacidade de execução e, sobretudo, confiança. Quando milhares de alunos e famílias vivem semanas de incerteza, quando o sistema transmite insegurança e quando o próprio Governo parece correr atrás dos acontecimentos, não estamos perante uma modernização. Estamos perante um falhanço.

O Estado só é forte quando inspira confiança. E essa confiança constrói-se com competência, previsibilidade e responsabilidade política. Não se conquista através de discursos otimistas nem de sucessivos remendos para corrigir erros que poderiam ter sido evitados.

A Europa enfrenta desafios enormes. Portugal também. Mas nenhum deles será resolvido enquanto persistirmos na ilusão de que comunicar substitui governar. As reformas verdadeiras exigem coragem para decidir, humildade para reconhecer os erros e competência para os corrigir.

É isso que os cidadãos esperam. E é isso que, cada vez mais, sentem faltar.

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Publicado em 03 agosto de 2026
Miguel Relvas

QUANDO O SILÊNCIO DEIXA DE SER PRUDÊNCIA

Miguel Relvas

Há momentos na vida política em que o problema deixa de ser aquilo que aconteceu, e passa a ser aquilo que quem tem responsabilidades decide não fazer.

É exatamente esse o ponto em que nos encontramos.

A polémica que envolve o ministro da Administração Interna já ultrapassou a dimensão política do caso. Cada esclarecimento que tarda perde eficácia, cada dia que passa fragiliza o Governo, e cada silêncio aumenta a desconfiança dos portugueses.

Há situações em que a legalidade não basta. A política vive também da ética, da confiança e do exemplo. Quando essas referências desaparecem, as instituições começam a perder autoridade.

O Primeiro-Ministro teve tempo suficiente para agir. Não o fez. Mas, a partir de determinado momento, a responsabilidade deixa de ser apenas do Governo.

O Presidente da República foi eleito para exercer uma magistratura ativa, defender o regular funcionamento das instituições e intervir quando estas dão sinais de bloqueio. É isso que os portugueses esperam.

Quero acreditar que não existe qualquer entendimento para empurrar este problema para setembro, na esperança de que agosto faça esquecer o assunto. Os problemas não desaparecem por falta de notícias.

Lembro-me da atuação de Jorge Sampaio na formação de governos durante os seus mandatos onde, independentemente de se concordar ou não com as suas decisões, demonstrou que um Presidente da República existe para defender a credibilidade das instituições. E é também por isso que me surpreende o silêncio de António José Seguro, que foi eleito prometendo uma forma diferente de exercer a chefia do Estado, e que está a desperdiçar o momento para o demonstrar.

Mas há também outro silêncio difícil de compreender.

Enquanto os portugueses pagam cada vez mais pelos combustíveis, o Estado arrecada automaticamente mais receita fiscal. A pergunta é simples: quanto dinheiro entrou a mais nos cofres públicos? E onde será aplicado? Na Saúde? Nos bombeiros? No INEM? Ou apenas para alimentar um Estado que continua sem fazer as reformas de que o país necessita?

Confesso que me custa ver um governo do PSD acomodar-se a esta realidade. Ser social-democrata nunca foi aproveitar cada aumento de impostos para reforçar a receita do Estado. É aliviar quem trabalha, investe e cria riqueza. É reformar o Estado para que preste melhores serviços, e não para que cobre cada vez mais aos portugueses.

Na política, como na vida, decidir tarde é, muitas vezes, decidir mal.

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Publicado em 27 julho de 2026
Miguel Relvas

A ‘SÍNDROME SANCHÉZ'

Miguel Relvas

A política vive de um ativo que não pode ser legislado, decretado ou imposto. Chama-se confiança. É ela que sustenta a legitimidade de um governo, a autoridade de um primeiro-ministro e a capacidade de um ministro liderar uma reforma. Quando esse elo se quebra, tudo o resto passa a funcionar como um sistema de remendos.

É isso que designo por “síndrome Sanchéz”. Não se trata de uma referência exclusiva ao primeiro-ministro espanhol, mas a um fenómeno mais vasto: a tendência para um governante acreditar que basta reafirmar publicamente a sua confiança nos seus colaboradores para que essa confiança seja automaticamente reconhecida pelos cidadãos. Não basta.

A confiança nasce nas pessoas. Primeiro no primeiro-ministro, depois no governo. A partir daí, estende-se aos ministros, aos secretários de Estado e às equipas que os rodeiam. Quando o primeiro elo enfraquece, todo o edifício institucional começa a vacilar.

Portugal vive há demasiado tempo neste estado de erosão permanente. Aconteceu no final dos governos de José Sócrates, repetiu-se nos últimos tempos da governação de António Costa e volta hoje a manifestar-se com o governo da AD. São demasiados episódios num curto espaço de tempo para que possam ser encarados como meras coincidências.

A desconfiança já não se limita à saúde, à educação ou à segurança. Instalou-se também na forma como o poder é exercido. Depois de tantos “casos e casinhos”, muitos portugueses parecem ter desenvolvido uma preocupante resignação. Como se tudo fosse aceitável, desde que o problema não lhes entre diretamente pela porta de casa.

Mas chega sempre o momento em que um tema rompe a bolha política. O caos criado no processo dos exames nacionais foi precisamente esse gatilho. Milhares de estudantes e famílias sentiram, na primeira pessoa, as consequências de decisões mal preparadas e deficientemente executadas.

É particularmente lamentável porque o ministro da Educação tinha um percurso governativo que justificava reconhecimento. Bastava ter prevalecido o bom senso. Digitalizar um sistema tão sensível exige prudência, testes, fases-piloto e capacidade de corrigir erros. Reformar o Estado nunca significou virar tudo do avesso de um dia para o outro. Reformar é introduzir mudança com método, sequência e responsabilidade.

Não comparo este caso ao que envolve o ministro da Administração Interna. São situações distintas, de natureza diferente. Mas ambas convergem num ponto essencial: provocaram um rombo na confiança pública.

O primeiro-ministro pode continuar a afirmar que mantém total confiança nos seus ministros. É um direito que lhe assiste. A verdadeira questão é outra: será que os portugueses continuam a partilhar dessa confiança? É que na política, quando essa resposta deixa de ser evidente, começa verdadeiramente o problema.

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Publicado em 20 julho de 2026
Miguel Relvas

GOVERNAR É ANTECIPAR OS PROBLEMAS

Miguel Relvas

Não sei se estamos perante mais uma semana ‘horribilis’ para o Governo, para o exercício do poder executivo ou, mais grave ainda, para milhares de estudantes, pais e famílias portuguesas.

 

O caos instalado em torno dos exames de acesso ao ensino superior não pode ser analisado apenas pela espuma política nem resolvido com declarações apressadas. O que está em causa é muito mais profundo do que um erro administrativo. É um problema que atinge a vida concreta das pessoas.

 

Quando falamos de jovens que esperam há anos por este momento decisivo, não estamos a falar de números ou de estatísticas. Falamos de ansiedade, de expectativas, de medo, de noites sem dormir, de famílias inteiras que organizam a sua vida em função de um calendário que o Estado tem obrigação de cumprir. Um atraso, uma falha ou uma desorganização representam muito mais do que um contratempo burocrático. São um rombo psicológico e emocional. Por isso, este episódio não se resolve com a procura de um bode expiatório. Naturalmente, o ministro da Educação tem responsabilidades. Mas também as tem o primeiro-ministro.

 

Há apenas duas hipóteses. Ou Luís Montenegro conhecia o dossiê e validou as decisões que conduziram ao caos, assumindo responsabilidade política pelo resultado. Ou não conhecia. E essa hipótese é igualmente preocupante, porque não é aceitável que um primeiro-ministro desconheça em profundidade um dos dossiers mais sensíveis do Estado. Não encontro uma terceira explicação satisfatória.

 

Como se não bastasse este caso, surge agora a polémica em torno do ministro da Administração Interna. Pouco me interessam as discussões sobre piscinas, azulejos, portas ou a classificação de uma fatura. O essencial é outro: um governante que passou mais de duas décadas na Polícia Judiciária, investigando criminalidade complexa e crimes económico-financeiros, tem um dever acrescido de rigor, transparência e exemplaridade. A dúvida, por si só, já fragiliza a autoridade política que o cargo exige.

 

É evidente que o primeiro-ministro poderá sentir-se tentado a responder através de uma remodelação governamental. Seria a reação mais previsível. Mas uma remodelação só fará sentido se não for um simples exercício de substituição de nomes. Até porque o problema deste Governo não parece ser apenas de pessoas,  é – isso sim – de estrutura política, de coordenação e de capacidade de antecipação.

 

Falta um verdadeiro número dois: alguém com peso político, experiência governativa, autoridade interna e capacidade para impor método, coordenar ministros e evitar que cada crise se transforme numa nova crise do próprio Governo. Porque governar não é apenas reagir aos problemas. É antecipá-los. E, sobretudo, transmitir aos portugueses a confiança de que existe alguém ao leme.

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Publicado em 13 julho de 2026
Miguel Relvas

A POLÍTICA TAMBÉM SE MEDE PELA FORMA COMO EXPLICA

Miguel Relvas

Há momentos em que a política é menos julgada pelas decisões que toma do que pela forma como as explica. A democracia vive de confiança e a confiança constrói-se com transparência, responsabilidade e capacidade de prestar contas. Quando isso falha, até um bom governante pode ver rapidamente desgastado o capital de credibilidade que levou anos a construir.

O caso dos exames nacionais é um exemplo disso mesmo. Independentemente das responsabilidades técnicas ou contratuais, o que milhares de famílias sentiram foi incerteza num dos momentos mais importantes da vida académica dos seus filhos. E quando o Estado falha naquilo que deve garantir — rigor, previsibilidade e igualdade de tratamento — a primeira obrigação de quem governa é explicar o que aconteceu.

Há questões que continuam por responder. O sistema foi devidamente testado antes da sua implementação? Que garantias foram exigidas à empresa responsável? Quais foram os critérios que presidiram à sua contratação? E, sobretudo, quem assume a responsabilidade política por uma situação que afetou diretamente alunos, professores e famílias?

Não se trata de encontrar culpados a qualquer preço. Trata-se de assumir responsabilidades. A empresa contratada terá naturalmente de explicar as falhas da solução tecnológica que disponibilizou. Mas é ao Governo que compete responder perante os cidadãos. A responsabilidade política não se delega.

Creio que Fernando Alexandre continua a ser um dos ministros mais qualificados deste Governo. Precisamente por isso, custa ver o desgaste provocado por um processo que poderia ter sido gerido de outra forma. Ainda vai a tempo de recuperar a confiança, mas isso exige uma explicação clara, pública e completa, acompanhada da garantia de que nenhum aluno será prejudicado. Esconder-se atrás de pareceres técnicos ou da complexidade administrativa seria um erro.

Também a gestão política das últimas semanas merece reflexão. As sucessivas deslocações do Primeiro-Ministro aos Estados Unidos para acompanhar a Seleção Nacional foram compreensíveis enquanto gesto de apoio institucional, mas dificilmente se justificam na dimensão que assumiram. Quem exerce funções de chefia do Governo tem de transmitir, antes de mais, uma mensagem de prioridade e de disponibilidade permanente para os problemas do país. A perceção pública conta e, em política, muitas vezes pesa tanto como a realidade.

Curiosamente, a própria Seleção Nacional oferece uma metáfora interessante. Portugal dispõe de um conjunto extraordinário de jogadores, mas isso não bastou para construir uma equipa capaz de traduzir todo esse talento em superioridade coletiva. Faltaram organização, equilíbrio e uma ideia clara de jogo.

Poderia estar a falar de política. Mas estou apenas a falar de futebol. Talvez por isso a comparação seja tão inevitável. Afinal, tanto num campo como no Governo, o talento é indispensável. Mas só a liderança, a organização e a capacidade de explicar um rumo transformam potencial em resultados.

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Publicado em 07 julho de 2026
Miguel Relvas

CHEGOU A HORA DE GOVERNAR

Miguel Relvas

O chumbo da reforma do Código do Trabalho, o acordo em torno da Prestação Social Única (PSU) e o encerramento do Congresso do PSD marcam o fim de um ciclo político. Um ciclo em que a governação viveu demasiado condicionada pela aritmética parlamentar e demasiado pouco orientada por uma visão estratégica para o país.

Foram dois anos de procura permanente de equilíbrios. Ora à direita, procurando entendimentos com o Chega; ora ao centro-esquerda, tentando construir pontes com o Partido Socialista. O resultado foi uma governação de geometria variável, onde a prioridade pareceu ser encontrar maiorias circunstanciais, em vez de construir reformas duradouras. Houve política a mais e governação efetiva a menos.

Se compararmos aquilo de que Portugal precisava com aquilo que verdadeiramente foi concretizado, a conclusão é inevitável: ficou muito por fazer. O país continua à espera das grandes reformas estruturais que sucessivos governos prometem e sucessivamente adiam.

Na Justiça, continuamos sem um sistema mais rápido, previsível e eficaz. Na Saúde, persistem dificuldades que impedem o Serviço Nacional de Saúde de responder com a proximidade e a qualidade que os cidadãos exigem. Na Administração Interna, continuam por resolver problemas relacionados com os meios, a organização e a valorização das forças de segurança. Na Segurança Social, continuamos a evitar um debate sério sobre a sustentabilidade futura do sistema e do próprio Estado Social, precisamente quando o envelhecimento da população e a evolução demográfica tornam essa discussão inevitável.

Também na política externa permanece uma preocupante ausência de rumo. Num contexto internacional profundamente instável, Portugal continua sem clarificar qual é o seu posicionamento estratégico. O nosso tradicional atlantismo e o nosso compromisso europeu não podem transformar-se em meras referências históricas. É necessário definir prioridades, reforçar alianças e afirmar uma visão clara sobre o papel que Portugal pretende desempenhar no mundo.

Durante demasiado tempo, o Governo pareceu acreditar que governar consistia em vencer debates parlamentares, gerir ciclos mediáticos ou encontrar soluções de compromisso para sobreviver politicamente. Mas ganhar um debate quinzenal nunca resolveu um único problema estrutural do país. A política pode produzir manchetes; só a governação produz resultados.

É precisamente por isso que este deve ser um momento de mudança. O Governo dispõe agora das condições políticas para iniciar um novo ciclo. Um ciclo menos dependente da gestão permanente de equilíbrios parlamentares e mais centrado na execução de uma agenda reformista coerente.

Essa agenda deve partir das convicções do próprio Governo. Primeiro definem-se as prioridades. Depois procuram-se, no Parlamento, os apoios necessários para as concretizar. A ordem dos fatores é decisiva. Não se governa começando pelas cedências para só depois tentar descobrir qual era o objetivo inicial.

A coerência também é um ativo político. Não é possível defender uma posição numa segunda-feira para garantir um entendimento com o Chega e assumir outra, na quinta-feira, para viabilizar um acordo com o Partido Socialista. A política democrática vive naturalmente de compromissos. Mas esses compromissos só são respeitados quando assentam em princípios claros e não em conveniências momentâneas.

Se o preço da coerência for, em determinados momentos, não alcançar um acordo, então que assim seja. Um Governo ganha autoridade quando é previsível, quando sabe para onde quer ir e quando não abdica da sua identidade. Portugal precisa menos de tática e muito mais de estratégia. Precisa menos de cálculo político e muito mais de reformas. Chegou, finalmente, a hora de governar.

*resumo da responsabilidade do 24Horas da participação do autor no programa ‘CNN Fim de Tarde’

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Publicado em 29 junho de 2026
Miguel Relvas

O PARTIDO QUE NÃO PODE ADORMECER

Miguel Relvas

O Congresso do PSD terminou deixando uma sensação difícil de ignorar: houve governo a mais e partido a menos.

Os congressos do PSD sempre foram muito mais do que simples momentos estatutários. Foram espaços de confronto de ideias, de definição de rumo, de debate intenso e de construção de alternativas para Portugal. Foi assim em vários momentos decisivos da nossa democracia. Foi assim quando o partido teve a coragem de se reinventar. Desta vez, porém, ficou a sensação de que o partido se limitou a acompanhar o governo, em vez de o desafiar e de o estimular.

Vi pouco debate sobre o país que queremos construir. Vi pouca reflexão estratégica. Vi escassa ambição reformista. Em contrapartida, assisti a um excesso de justificação governativa, a uma certa vitimização perante terceiros e a uma preocupante ausência de exigência interna.

Um partido que governa não pode deixar de pensar o futuro. Não pode transformar-se numa simples extensão do Conselho de Ministros. Governo e partido não são a mesma realidade. Nunca foram. E quando se confundem, ambos ficam mais pobres.

O PSD sempre foi um partido de inconformismo, de mobilidade social, de reforma e de modernização. Precisa de voltar a ser um espaço de vitalidade política, capaz de mobilizar a sua militância, renovar as suas estruturas e discutir o país para além da gestão quotidiana do poder.

Também por isso suscita dúvidas a proposta de criação de um fundo soberano. A expressão é apelativa, mas a substância continua pouco clara. Os grandes fundos soberanos internacionais, como o norueguês, dispõem de dimensão financeira e de capacidade efetiva de investimento estratégico.

Portugal necessita de um instrumento que possa proteger ativos nacionais estratégicos, participar em setores fundamentais e reforçar a soberania económica do país. Se o objetivo for apenas reorganizar participações públicas, estaremos perante uma nova designação para velhas estruturas.

A verdadeira questão é outra: governar para quê? Manter o poder apenas para conservar o poder nunca foi a vocação do PSD. O exercício do poder só se justifica quando existe uma visão reformista, transformadora e mobilizadora.

O país precisa de um PSD exigente consigo próprio, capaz de pensar mais longe do que o próximo ciclo político. Porque um PSD sem fibra, sem energia e sem substância representa inevitavelmente um Portugal mais pobre e uma democracia mais frágil.

*resumo da responsabilidade do 24Horas da participação do autor no programa ‘CNN Fim de Tarde’

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Publicado em 22 junho de 2026
Miguel Relvas

ENTRE A PERCEÇÃO E A REALIDADE

Miguel Relvas

A política vive tanto da substância como da perceção. Podemos discutir a qualidade de uma decisão, a oportunidade de uma reforma ou a justeza de uma determinada medida.
Mas existe uma verdade incontornável: aquilo que os cidadãos percecionam acaba muitas vezes por ser tão importante como aquilo que efetivamente acontece.

É precisamente esse um dos principais desafios que hoje se colocam ao Governo. O país vive um momento em que se instalou a ideia de alguma desorganização e improviso na ação governativa. Não estou convencido de que essa perceção corresponda integralmente à realidade. Em muitos casos, existem estudos, avaliações e trabalho técnico que antecedem as decisões. O problema surge quando esses processos não são devidamente explicados nem enquadrados perante a opinião pública.

Quando a comunicação falha, o espaço é rapidamente ocupado pela dúvida. Reformas exigentes, como as que envolvem a legislação laboral ou a Prestação Social Única, necessitam de preparação política e de uma explicação clara dos seus objetivos.
Quando isso não acontece, cria-se a sensação de que tudo está a ser decidido à última hora, sem estratégia nem visão de longo prazo.

Ora, a confiança é um ativo essencial em qualquer democracia moderna. Empresas, trabalhadores, investidores e famílias organizam as suas decisões com base em expectativas. Quando o ambiente político transmite incerteza, todos se tornam mais cautelosos. E uma economia cautelosa é, inevitavelmente, uma economia menos dinâmica.

Mas seria injusto atribuir todas as dificuldades ao Governo. Também a oposição tem responsabilidades. O Partido Socialista continua frequentemente a assumir uma postura defensiva perante mudanças estruturais. Em vez de contribuir para a construção de consensos em matérias fundamentais, prefere muitas vezes posicionar-se como força de bloqueio. O resultado é conhecido: reformas sucessivamente adiadas, medidas desidratadas e um país que avança mais devagar do que poderia.

A presença do Chega introduz, por sua vez, uma nova variável no sistema político português. Independentemente da avaliação que cada um faça do partido, a verdade é que a sua influência tornou-se incontornável. O Parlamento passou a funcionar num quadro de maior fragmentação e de maior imprevisibilidade. As negociações transformaram-se num exercício permanente de geometria variável, onde se conhece o ponto de partida, mas raramente se consegue antecipar o desfecho.

Esta realidade exige dos protagonistas políticos um grau acrescido de responsabilidade. A estabilidade não depende apenas da aritmética parlamentar; depende também da capacidade de diálogo, de compromisso e de sentido de Estado.

No plano internacional, algumas evoluções recentes merecem atenção. O entendimento anunciado entre os Estados Unidos e o Irão pode contribuir para uma redução das tensões no Médio Oriente e para uma maior estabilidade dos mercados energéticos. Se tal se confirmar, o impacto poderá ser positivo para a economia mundial, ajudando a controlar pressões inflacionistas que continuam a preocupar governos e bancos centrais.

Contudo, seria ingénuo interpretar este movimento como um sinal de retração da política externa norte-americana. Os Estados Unidos continuam empenhados em preservar a sua liderança global num contexto de crescente competição estratégica com a China. Essa disputa continuará a marcar os próximos anos e terá repercussões em várias regiões do mundo, incluindo a América Latina, onde países como Cuba poderão voltar a assumir relevância acrescida no xadrez geopolítico internacional.

Portugal não está isolado destas transformações. Pelo contrário, está profundamente condicionado por elas. É por isso que a política nacional precisa de recuperar clareza, previsibilidade e capacidade reformista. Num mundo cada vez mais instável, a confiança tornou-se um dos bens mais valiosos da governação. E essa confiança conquista-se não apenas com boas decisões, mas também com a capacidade de as explicar, defender e concretizar.

*resumo da responsabilidade do 24Horas da participação do autor no programa ‘CNN Fim de Tarde’

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Publicado em 15 junho de 2026
Miguel Relvas

LEÃO XIV E A IGREJA QUE CONTINUA A MARCAR O TEMPO

Miguel Relvas

A eleição de Leão XIV foi muito mais do que uma escolha religiosa. Foi um acontecimento com uma evidente dimensão histórica, política e geopolítica. E foi também uma demonstração de que a Igreja Católica continua a possuir uma capacidade singular para interpretar o seu tempo e responder aos desafios do mundo contemporâneo.

A escolha do primeiro Papa norte-americano da história não aconteceu por acaso. Surge num momento particularmente sensível da vida internacional, marcado pelo regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, pela crescente instabilidade geopolítica e por uma transformação tecnológica sem precedentes, impulsionada pela inteligência artificial.

Durante demasiado tempo habituámo-nos a olhar para a Igreja como uma instituição lenta, distante e excessivamente presa às suas tradições. No entanto, a história demonstra exatamente o contrário. Ao longo de mais de dois mil anos, a Igreja não se limitou a acompanhar o tempo: muitas vezes ajudou a defini-lo – e Leão XIV parece determinado a continuar esse legado.

As suas primeiras intervenções públicas revelam uma preocupação profunda com temas centrais da atualidade. A defesa da dignidade humana perante os desafios colocados pela inteligência artificial, a valorização da paz num mundo marcado por conflitos armados e a insistência no diálogo como instrumento privilegiado de resolução de divergências mostram uma liderança atenta e consciente da realidade.

Também por isso não devem ser feitas leituras simplistas dos seus gestos políticos. O recente encontro com as principais figuras da política espanhola gerou interpretações diversas, algumas delas precipitadas. Quem conhece a tradição diplomática do Vaticano sabe que a Santa Sé raramente age movida por simpatias partidárias.

Quando o Papa valoriza determinadas posições assumidas por líderes políticos, fá-lo normalmente em função dos princípios que essas posições representam. No caso espanhol, tudo indica que Leão XIV procurou destacar o compromisso com a paz, o diálogo e a procura de soluções negociadas para conflitos internacionais particularmente sensíveis.

Num tempo em que a política se deixa frequentemente capturar pela lógica da confrontação permanente, a Igreja continua a recordar algo essencial: nenhuma vitória política justifica a perda da humanidade, nenhum interesse estratégico pode prevalecer sobre a dignidade das pessoas e nenhuma guerra constitui uma verdadeira solução.

Talvez seja precisamente esta a grande mensagem de Leão XIV. Num mundo cada vez mais acelerado, polarizado e imprevisível, a Igreja continua a desempenhar um papel insubstituível como consciência moral da sociedade. E isso ajuda a perceber por que razão a sua eleição foi não apenas acertada, mas também profundamente inspirada.

*resumo da responsabilidade do 24Horas da participação do autor no programa ‘CNN Fim de Tarde’

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Publicado em 08 junho de 2026
Miguel Relvas

PORTUGAL PRECISA DE MAIS AMBIÇÃO

Miguel Relvas

Neste Dia da Criança fomos confrontados com um dado que deveria inquietar qualquer responsável político: Portugal é hoje o quarto país da Europa com menos crianças. Não é apenas uma estatística demográfica. É um sinal de alarme sobre o país que estamos a construir – ou, pior ainda, sobre o país que podemos deixar de ser.

Um país sem crianças é inevitavelmente um país mais envelhecido, mais vulnerável e com menor capacidade de renovação social, económica e cultural. A natalidade não pode continuar a ser tratada como um tema periférico ou episódico. Deve assumir-se como prioridade estratégica nacional, exigindo políticas consistentes, estabilidade de incentivos e visão de longo prazo. E este é igualmente um desafio europeu, que reclama respostas articuladas ao nível da União Europeia.

Neste quadro, merece reconhecimento o papel de instituições da sociedade civil que procuram combater desigualdades desde cedo. O Instituto Rodrigo Guimarães é um desses exemplos, ao apoiar jovens com menos recursos no acesso à educação e ao criar oportunidades onde muitas vezes apenas existiriam barreiras. O Estado não deve olhar para estas iniciativas com distância, mas antes valorizá-las e aprender com elas.

Também a vida política exige reflexão. O recente processo eleitoral interno do PSD, marcado por uma participação aquém do desejável, não deve ser ignorado nem relativizado. Um partido vivo mede-se pela mobilização dos seus militantes e pela capacidade de gerar debate e entusiasmo.

Luís Montenegro tem perante si um desafio exigente: sair da sua bolha política e ajustar o modelo governativo à realidade percecionada pelos portugueses. Nem a sociedade revela um entusiasmo evidente, nem o partido demonstra uma mobilização que possa ser descartada com ligeireza.

O próximo congresso do PSD deveria, por isso, ser mais do que um exercício formal ou uma mera reafirmação de liderança. A tradição do partido sempre foi a de discutir o país, confrontar ideias e projetar soluções. Hoje sente-se alguma letargia que não favorece nem o governo nem o próprio PSD.

Seria importante que desse congresso resultasse um compromisso claro com reformas e, sobretudo, um calendário concreto de execução. Governar é também estabelecer metas, aceitar escrutínio e avaliar resultados. Essa exigência é essencial para o país, mas também para o partido, que deve ser capaz de fazer um autoexame sério da sua própria performance governativa.

Ao mesmo tempo, as famílias continuam confrontadas com um aumento persistente do custo de vida. Tensões geopolíticas, instabilidade internacional e fragilidades internas pressionam salários, habitação e bens essenciais. Neste contexto, medidas como a Prestação Social Única representam um passo positivo. Simplificar apoios, tornar o sistema mais transparente e melhorar a eficiência do Estado são decisões acertadas num tempo de recursos escassos e desafios acrescidos.

Portugal precisa de mais ambição, mais coragem reformista e maior capacidade de olhar para o futuro. Porque um país que perde crianças, energia e confiança não pode resignar-se a administrar o presente. Tem de voltar a acreditar no amanhã.

*resumo da responsabilidade do 24Horas da participação do autor no programa ‘CNN Fim de Tarde’

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Publicado em 01 junho de 2026
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