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José Braga Gonçalves

INTELIGÊNCIA MUITO ARTIFICIAL

José Braga Gonçalves

Depois de criar mais uma criatura, o Homem atemoriza-se com ela.

Deu-lhe Inteligência por nome e por apelido, Artificial.

Deu-lhe até vaidade, tentando formatá-la com humildade.

Subitamente, apercebeu-se que não lhe conhece as manhas, que não sabe como ela pensa.

Apenas sabe que não tem alma, que não lhe adivinha a essência.

 

Desorientado, o Homem deixou de raciocinar. Esqueceu-se de entender, afinal, que monstro é esse que tem no seu quintal.

 

Assustado, o pobre Homem começa a recear o que ela possa fazer.

E ela vai, e cria identidades falsas, rouba dados, subverte ficheiros, invade empresas por uma autoestrada que o pobre antes criara e a que pomposamente chamara Internet.

Aterrorizado agora, o pobre teme que ela possa aceder a uma central nuclear, entrar num silo de mísseis e começar uma Guerra Mundial. Parece um filme de terror, mas é tudo bem real.

Desorientado, o Homem deixou de raciocinar, e esqueceu-se de entender, afinal, que monstro é esse que tem no seu quintal.

E não entendeu o frenesim por energia que subitamente assolou o seu Mundo, nem que essa busca visa tão só alimentar aquele monstro, como ele já lhe chama para se desculpar de o ter criado.

E num relance de olhar, vai finalmente entender que essa Inteligência é apenas artificial, que é mera energia pura e não há que a recear.

Pois é só a ficha desligar.

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Publicado em 07 agosto de 2026
José Braga Gonçalves

A PONTUALIDADE PORTUGUESA

José Braga Gonçalves

Em Portugal, chegar a horas é uma perda de tempo.

Ninguém chega a horas; ninguém chega a tempo. Os raros que chegam, maldizem a hora em que o fizeram, e juram não voltar a cair na esparrela de chegar a tempo.

Mas no dia seguinte, voltam ao mesmo. É mais forte do que eles falhar a pontualidade, as horas combinadas. E sofrem novamente. E sofrem todos os dias a todas as horas marcadas.

Os demais, chegam sempre a tempo, no tempo deles e não nas horas dos outros.

Marcar uma reunião entre um português e um alemão, mais vale chamar logo a ambulância: o alemão vai ter uma apoplexia nervosa.

 

Para Eça, pontual era o cónego Dias, personagem do qual descreveu a monótona pontualidade do seu amor, disciplinado, frugal, asceta sem fervor. 

 

Mas há algo a que o português chega sempre a horas: à mesa. A uma almoçarada, uma jantarada, contem com ele a horas. Até chega mais cedo para ir petiscando qualquer coisinha enquanto os maníacos das horas não chegam à hora combinada.

Para Eça, pontual era o cónego Dias, personagem do qual descreveu a monótona pontualidade do seu amor, disciplinado, frugal, asceta sem fervor.

É assim Portugal. São assim os portugueses. O relógio é para ver as horas.

Não é para chegar a horas. E muito menos em férias.

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Publicado em 31 julho de 2026
José Braga Gonçalves

A SILLY SEASON

José Braga Gonçalves

Entrámos na Silly Season. É o Verão, são as férias, é tempo de um escrito a calhar. Nos bons anos de 80 e 90, o País rumava a Sul. Alguns descontavam letras no banco para levar as famílias a veranear. Ainda não havia os cartões de crédito, as Cofidis, as férias a prestações para comprar. Podia-se andar o resto do ano a fugir ao gerente do banco, mas o Algarve não podia faltar.

 

Iam os pobres, iam os ricos e os remediados, e iam muitos dos endividados, mas era no Algarve que todos retemperavam forças de um ano a laborar.

 

Era a altura do ano em que se compravam os carros novos para exibir no que era uma autêntica passagem de modelos, de últimos modelos, só para armar. Iam os pobres, iam os ricos e os remediados, e iam muitos dos endividados, mas era no Algarve que todos retemperavam forças de um ano a laborar. Era onde todos conviviam porque as praias de todos eram e ainda havia espaço para as frequentar. Havia o peixe fresco na praça que uns iam cedinho comprar para em casa grelhar, e outros para os servir a quem os pudesse pagar.

Nesses tempos, conseguir um jornal ou uma revista no Algarve era uma miragem. Era a época do ano em que se lia mais a revista dos jornais do que se lia estes próprios, e em que as revistas de society e do coração mantinham as senhoras felizes na praia, como aos homens, os jornais da bola arrebatavam.

Eram tempos em que as pessoas tinham de tudo, e tinham mais, tinham tempo livre, pois não havia telefones a tocar. Era a época em que os médicos levavam as famílias para o Algarve com o dinheiro extra que ganhavam a fazer bancos nos hospitais. Eram os tempos em que ainda se cimentavam relações e negócios para o ano inteiro, à sombra de um toldo de praia a ver filhos ou netos brincar, ou ainda se podia ir a um campo de golf tentar aprender a jogar. Era quando um belo jantar de Verão num restaurante se podia pagar ou um peixinho fresco em casa grelhar. Havia dinheiro para tudo; hoje, só se pode ficar a babar.

E foi a última época em que os filhos deste país não sabiam que iam ter que emigrar. Para não mais voltar.

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Publicado em 24 julho de 2026
José Braga Gonçalves

AS MARCAS QUE NOS GOVERNAM - I

José Braga Gonçalves

As empresas farmacêuticas de marcas que fornecem ao SNS português medicamentos essenciais e de grande consumo, a ver, Pfizer, Merck, Novartis, Roche, AstraZeneca, GSK, Sanofi, AbbVie, Amgen, Eli Lilly, são controladas, ao nível acionista, essencialmente por dois Fundos americanos, BlackRock e Vanguard, englobados numa intrincada teia com outros quatro que lhe estão relacionados, State Street, Geode Capital, T. Rowe Price e Davis Selected Advisers.

A BlackRock é a maior gestora de ativos do mundo; o Vanguard é o maior acionista passivo do mercado americano.

Parece vago ou confuso, mas não é; antes pelo contrário, é claro e distinto, pois esta teia produz um impacto crucial na política de patentes onde as farmacêuticas de marca utilizam estratégias de evergreening para prolongar artificialmente a exclusividade dos seus medicamentos, atrasando a entrada de genéricos.

 

O evergreening é um conjunto de práticas das farmacêuticas de marcas em operações de registo e processos nos tribunais de propriedade intelectual, que são incentivadas pelos acionistas institucionais para prolongar artificialmente margens elevadas e previsibilidade de grandes receitas.

 

O que é então o evergeening que tanto dinheiro custa aos bolsos dos utentes portugueses, às famílias e ao Estado?

O evergreening é um conjunto de práticas das farmacêuticas de marcas em operações de registo e processos nos tribunais de propriedade intelectual, que são incentivadas pelos acionistas institucionais para prolongar artificialmente margens elevadas e previsibilidade de grandes receitas.

E assim, perto do fim do prazo de reserva exclusiva de uma patente, as farmacêuticas de marcas introduzem uma alteração menor no medicamento mudando o comprimido para uma cápsula de libertação prolongada, alterando a dosagem ou combinando com outra substância ativa, procedendo então ao registo uma nova patente para esta “nova” versão e tentando impedir o aparecimento de medicamentos genéricos muitíssimo mais baratos.

Esta luta trava-se todos os dias nos tribunais portugueses, ao caso, no Tribunal da Propriedade Intelectual.

Valha-nos este.

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José Braga Gonçalves

A CAIXA DE PANDORA DE TRUMP

José Braga Gonçalves

As perseguições perpetradas pelo Departamento de Justiça aos inimigos de Trump, criaram um precedente nunca antes visto no sistema político e judicial americano.

Ao abrir precedentes a que até o Republicano Nixon escapou, cavalheirescamente perdoado pelos Democratas, deixam estes estupefactos ante a Caixa de Pandora que Trump literalmente arrombou e que aqueles pudicamente mantinham fechada.

Ali, vão querer tirar a desforra daquela que consideram uma família assaltante do poder e da economia da América. 

Anseiam, assim, a vez de catapultar a família Trump para o panteão da primeira ocupante da Casa Branca a enfrentar de volta uma perseguição implacável, tão logo o atual Presidente saia do poder, seja pelo decurso do tempo, ou pelos efeitos físicos da idade.

Ali, vão querer tirar a desforra daquela que consideram uma família assaltante do poder e da economia da América.

Certo é que ninguém se vai lembrar dos sultanatos dos Bush, dos Clinton ou de outros mais.

Sabido é que todos vão querer saborear o sangue económico da família Trump, o qual já se encontram a cheirar.

Certo e sabido que assim será. E certo e sabido é a família Trump não ter ideia onde se irá refugiar.

Nos Estados Unidos, não será.

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Publicado em 10 julho de 2026
José Braga Gonçalves

O DIA EM QUE A TERRA TREMEU

José Braga Gonçalves

Devastado, o Mundo olha para a Venezuela, mártir agora de mais um terramoto que avassalou o que sobrara em ruína de outra devastação, a política  de uma suposta esquerda que até daria bom nome a Robespierre, se comparada fosse.

Devastado, o Mundo olhara quase três séculos antes para um próspero reino ibérico governado pelo Rei mais rico que até então se conhecera, e que enriquecera cobrando os “Quintos dos Infernos”, os vinte por cento de imposto sobre todo o ouro e pedras preciosas extraídas no Brasil.

Ambos regimes de pendor cleptocrata, um, salvo pela figura visionária de um Marquês de antanho, Pombal de seu último título nobiliárquico; o outro, aguardando a intervenção de um rei dos tempos modernos.

Quanto a este, com menos margem de manobra que o então ministro Pombal, iniciou a tomada de poder estabelecendo uma robusta pegada militar em torno do avassalado país com o envio, agora, de mais um milhar de militares a pretexto de apoiar o rescaldo.

Pombal, jamais aceitaria uma tal ajuda; o fragilizado poder venezuelano, já está por tudo. É a oportunidade.

Pombal recuperou Portugal com as riquezas do Brasil; a cleptocracia venezuelana vai ter que recuperar o país com a sua própria riqueza.

Apenas, Trump mandará nela.

Ainda mais.

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Publicado em 03 julho de 2026
José Braga Gonçalves

DE TRUMP CADA UM DIZ O QUE QUER

José Braga Gonçalves

De Trump, diz-se de tudo. O difícil é escolher. Mas talvez exista ali mais pragmatismo económico do que mera bravata, como a muitos aparenta.

Neste momento, Trump aproveitou a guerra da Rússia e substituiu-se-lhe na venda de gás à Europa com proveitos extraordinários literalmente roubados a Putin enquanto lhe dava palmadinhas nas costas.

Aproveitou também a guerra da Rússia e a distração que esta causa em Putin, para se apoderar da maior reserva de petróleo do mundo, a Venezuela.

Pragmaticamente, transformou-a num Proxy, à iraniana.

Aproveitou-se do bloqueio no Golfo para deixar que outrem explicasse militarmente aos árabes moderados e antagonistas históricos do Irão, a fragilidade das suas rotas de exportação.

Bloqueado o estreito, aumentou as suas.

Subiu a venda de armas americanas a números inimagináveis e encheu os cofres dos fabricantes e militares seus apoiantes de sempre.

E se não houvesse eleições intercalares, ao seu pragmatismo económico pouco importaria os bolsos dos cidadãos. A breve trecho se encheriam de novo.

No fundo, o pragmatismo de Trump só está preocupado com a Paz. Essa é que lhe pode estragar as contas.

As do gás, as do petróleo, as das armas.

Não é a Guerra que o preocupará.

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Publicado em 26 junho de 2026
José Braga Gonçalves

AS ESCRAVAS DE TEERÃO

José Braga Gonçalves

Subitamente, o mundo recua. Recua de novo. Recua mais uma vez.

A cada recuo seu, a esperança de milhões de mulheres persas com ambição ocidental, estremecem na solidão dos muros, na escuridão dos chadors e nos maus-tratos dos casamentos forçados, das prisões e dos espancamentos apenas porque se recusam a tapar o cabelo.

Elas tremem e não merecem. Foram mais uma vez trocadas por um punhado de dólares, uns barris de petróleo, umas senhas de passagem num estreito qualquer.

Para elas, a esperança morreu. Por muitas gerações. E o mundo regozija, o mundo enaltece e os aiatolás preparam a sua vingança contra aquelas que nas ruas lutaram.

O que não tardará.

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Publicado em 19 junho de 2026
José Braga Gonçalves

O IRÃO, PORTUGAL E O VATICANO

José Braga Gonçalves

No século XX, o Vaticano não só rezava; também construía. E às vezes construía para quem rezava a Alá.

 

Portugal e o Irão têm em comum a construção de dois importantes portos de mar: Sines no Atlântico e Bandar Abbas no Estreito de Ormuz.

Sines foi construído na década de 70 do século passado, tal como Bandar Abbas, tendo ambos sido iniciados por ditaduras: a portuguesa, já de Marcelo Caetano, e a iraniana, do então Xá da Pérsia.

Em 1979, ambos tiveram graves contrariedades, com a destruição do molhe de Sines por uma violenta tempestade e Bandar Abbas com a construção paralisada pela violenta revolução iraniana.

O que terá então o Vaticano a ver com estes dois cruciais portos do Ocidente e do Oriente ?

Estas duas infraestruturas, hoje mundialmente estratégicas, foram afinal construídas pela mesma empresa italiana, a Condotte d’Acqua, então propriedade do Vaticano.

Construiu, e depois reconstruiu e terminou o que os tempos e os ventos tinham destruído.

Para terminar o grande porto do Golfo, os aiatolás acabaram a depender da boa vontade do Papa.

E assim, muito antes de ser atingida por mísseis, Teerão foi atingida pela névoa sagrada do Vaticano.

Uma névoa que ainda hoje passa por Roma e paira sobre Teerão.

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Publicado em 12 junho de 2026
José Braga Gonçalves

O FASCÍNIO DE PUTIN POR UM PORTUGUÊS II

José Braga Gonçalves

Escrevi antes, em “O FASCÍNIO DE PUTIN POR UM PORTUGUÊS I”, que Putin tem referências históricas ligadas a um judeu português, António Manuel de Vieira, na Rússia do século XVIII apelidado de “Anton Devier”, homem-forte do Imperador Pedro, O Grande. 

E não nos iludamos com coincidências.

Vladimir Putin tinha pais pobres, tal como o português do século XVIII, pais que lutavam para sobreviver.

A maior parte das pessoas vivia durante a juventude de Putin em apartamentos comunais divididos em quartos, com uma família por quarto e cozinha e casas de banho partilhadas.

No quarto ao lado, vivia uma família cujo pai era professor e ajudava Putin  nos trabalhos de casa. Era uma família judaica, que o convidava também para os jantares de Sexta-feira à noite, o Shabbat, quando depois da refeição pegavam num livro antigo e o liam em voz alta.

Anos depois, a primeira escola judaica de São Petersburgo foi autorizada por Vladimir Vladimirovich Putin, já então vice-presidente da Câmara de São Petersburgo, a cidade construída pelo seu fascinante judeu português, António de Vieira, o Devier.

No clima de tensão que hoje reina no Médio Oriente, a Rússia mantém um papel militarmente neutral.

É esta a política declarada do Presidente Vladimir Putin, que cultiva igualmente um vínculo próximo com os judeus do seu país.

Muitos dos seus conselheiros são judeus, não raro preferindo apoiar-se em oligarcas de origem judaica como o também português Roman Abramovich.

Queremos conhecer Putin melhor?

Estudemos o português Devier.

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Publicado em 05 junho de 2026
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Publicado em 17 julho de 2026