Frase do dia

  • “Eu não quero a Lusa nas mãos de um novo Sócrates”, Leitão Amaro
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João Vasco Almeida

Uma pessoa não é de ferro, mas desconfio que os sinais de trânsito o são e, além disso, vieram todos...

Uma pessoa não é de ferro, mas desconfio que os sinais de trânsito o são e, além disso, vieram todos de sobras irlandesas. Ou comprados no site da Temu, ou AliExpress — essas lojas dos 300 contemporâneas onde a dignidade humana é vendida a peso e com portes grátis. Há uma certa melancolia metalúrgica na forma como a nossa sinalética urbana envelhece, uma ferrugem precoce que espelha a nossa própria oxidação moral.

Estava a ponto de estacionar o meu primoroso Huawei Gatz à porta de casa de meus pais, para a maçadora consoada — coisa que nem a Bíblia ousou descrever, talvez por falta de adjectivos para o tédio familiar —, quando olho para o alto e descubro um sinal de trânsito fabuloso. Rectangular, tinha um desenho de um automóvel e de uma criança ao lado, tudo em sombras chinesas, mas a branco e azul.

Pois que ali está uma escola e a imagem, por si, nada dizia, excepto talvez sugerir um rapto autorizado pela autarquia. Até que, escrito no alumínio, está a expressão «Kiss & Ride». Perdão? «Beija e Cavalga»? Que diabos, quem é que cavalga? E agora os nossos sinais de trânsito são poliglotas por razão de ser?

Ainda com o Toucinho do Céu a adejar de uma mão e a equilibrar o cigarro na outra, espequei. Aquilo não acontecia… O menino Jesus já me levara e eu não topei. «Kiss and Ride»? Será isto uma instrução camarária para a reprodução da espécie em horário de ponta? Ou será apenas a prova definitiva de que nos tornámos uma colónia de férias de um país anglo-saxónico que nem sequer existe?

Imagino a reunião de câmara onde isto foi aprovado. Um vereador, certamente com um curso de gestão tirado num fim-de-semana via Zoom, achou que «Larga a Criança e Desanda» era demasiado vernáculo, demasiado português. Faltava-lhe o glamour de um aeroporto internacional. «Kiss & Ride» soa a eficácia, a modernidade líquida, a uma aplicação de telemóvel que nos resolve a vida afectiva enquanto o motor está ao ralenti.

Mas, caros concidadãos de um país que teima em traduzir tudo menos o ridículo: onde fica o espaço para a despedida portuguesa? Onde está o sinal «Chora & Abraça»? Onde estacionamos para o «Recomendações Sobre o Casaco & Benção da Avó»? Não. O progresso exige brevidade e, aparentemente, um calão erótico traduzido por um algoritmo deprimido.

Fiquei ali, imóvel, à espera que um polícia me multasse por falta de afecto ou por ausência de montada. Se a placa ordena que eu beije e cavalgue, sinto-me na obrigação cívica de perguntar: a quem? E, mais importante, o cavalo está incluído no imposto de circulação ou tenho de o trazer de casa?

Suspirei, larguei cinza sobre o passeio calcetado — a única coisa honesta que restou nesta rua — e entrei para a consoada. Ao menos lá dentro, entre o bacalhau e as tias que perguntam pelos namorados que não existem, as instruções são em português antigo e a única coisa que se cavalga é a paciência.