
Salvato Teles de Menezes
Nos anos 70 e 80 do século passado, um grande intelectual italiano, Goffredo Foffi, escreveu na saudosa, brilhante e extinta revista Rinascita uns artigos de grande pertinência cultural e política que intitulou Linea d’ombra e é esse título (com o acrescento de outro que fui buscar a Fernando Piteira Santos) que decidi adoptar para estes textos avulsos, que tratarão disto e daquilo, alinhavados de quinze em quinze dias, às segundas-feiraspara corresponder à amabilidade do convite que me foi endereçado por José Paulo Fafe, amigo que muito estimo.
O gesto de abrir um jornal tem qualquer coisa de vagamente anacrónico. Desdobrá-lo na mesa, sentir o papel, descobrir a notícia que não procurávamos nem esperávamos, continuar a leitura para lá do título. O jornal impresso pertence a um tempo em que a informação tinha princípio, meio e fim: começava na primeira página, passava pelas centrais e acabava na última. O jornal digital, pelo contrário, nunca acaba: actualiza-se enquanto o lemos e podemos envelhecer antes de terminar a leitura.
Há muitos anos que se anuncia a morte dos jornais em papel. E há boas razões para o diagnóstico: as tiragens diminuem, os custos de impressão e distribuição aumentam, a publicidade migrou para as plataformas digitais e várias gerações de seres praticamente ignaros cresceram sem adquirir o hábito de comprar diariamente um jornal. A notícia deixou, além disso, de esperar pela manhã seguinte. Quando o papel chega às bancas, aquilo que aconteceu ontem já foi contado, comentado, corrigido, contraditado e transformado em polémica nas redes sociais.
Mas talvez estejamos a formular mal a questão. O que está a morrer não é necessariamente o jornal: é uma determinada maneira de o produzir, distribuir e consumir.
O digital ganhou a batalha da velocidade, mas essa vitória trouxe consigo um paradoxo e um desafio. Nunca tivemos acesso a tanta informação e nunca foi tão difícil distinguir aquilo que merece realmente a nossa atenção. O leitor atravessa um território povoado por notificações, vídeos, posts, opiniões, rumores e títulos concebidos para provocar um clique, seja ele qual for. A abundância, longe de dispensar o jornalismo, torna-o mais necessário.
É precisamente aí que os jornais podem encontrar a sua sobrevivência. Não competindo com as redes sociais na rapidez – batalha que perderão sempre –, mas oferecendo aquilo que elas dificilmente conseguem oferecer: selectividade, hierarquia, investigação, contexto, memória e credibilidade. Um bom jornal não é apenas aquele que nos diz o que aconteceu, mas aquele que procura explicar por que aconteceu e o que significa.
E o papel? Provavelmente sobreviverá, mas transformado. Menos quotidiano, talvez, mais caro, mais selectivo, mais próximo do livro e da revista, objecto de leitura demorada num mundo de leitura acelerada. Poderá tornar-se aquilo que o vinil se tornou para a música: não a forma dominante, mas uma experiência material que conserva precisamente aquilo que a tecnologia transformou numa raridade.
Os jornais, portanto, morrerão se insistirem em vender notícias, pois estas são hoje quase gratuitas e chegam de toda a parte, mas sobreviverão se conseguirem vender outra coisa, muito mais preciosa: critério. Num mundo em que todos querem e podem falar, a questão decisiva já não é quem chega primeiro à notícia. É saber em quem vale a pena acreditar.
E em futura crónica falaremos de cultura, mas antes disso da minha terra.