24 Horas
  • News
  • Buzz
  • Life
  • Sports
  • eBrasil
  • OPINIÃO
  • Tv24h
24Horas

Sobre

O 24HorasFicha técnicaContactos

Informação legal

Informação legal 24HorasPolítica de cookies

Instale a nossa app

AndroidiOS

Copyright ©2026 24Horas. Todos os direitos reservados.

FacebookInstagramTikTokXYoutubeWhatsappSpotify

v1.0.2

José Paulo Fafe *

LUÍS MONTENEGRO: MAIS SÓCRATES DO QUE CAVACO

José Paulo Fafe *

Luís Montenegro nunca escondeu a admiração por Cavaco Silva e até deixa transparecer alguma identificação com a forma como o antigo primeiro-ministro e Presidente da República exercia o poder. Mas, observando a sua prática política, começo a pensar que Montenegro gostaria de se parecer com Cavaco, mas está cada vez mais parecido com José Sócrates.

Não falo, evidentemente, de processos judiciais ou de qualquer comparação dessa natureza, longe disso.  Refiro-me exclusivamente ao comportamento perante o poder, o jornalismo, o escrutínio público e a adversidade.

Cavaco podia ser frio, distante e pouco dado a intimidades com jornalistas. Tinha uma relação difícil com alguma imprensa e nunca foi propriamente um campeão da comunicação. Mas, reconheça-se-lhe, cultivava uma imagem de contenção e procurava separar a autoridade do cargo da disputa quotidiana com quem o escrutinava.

Sócrates era diferente. Enquanto tudo corria bem, exibia uma enorme confiança. Quando surgia a adversidade, porém, perguntas incómodas eram frequentemente encaradas como provocações, notícias desfavoráveis como campanhas e jornalistas mais persistentes quase como adversários políticos.

É aqui que começo a encontrar maiores semelhanças com Montenegro.

O atual primeiro-ministro parece revelar crescente dificuldade em conviver com um jornalismo que não reproduza a narrativa oficial. Perante contradições, perguntas desagradáveis ou assuntos que preferiria não discutir, nem sempre demonstra a serenidade exigível a quem ocupa São Bento. Surge a irritação e, por vezes, a tentação de transformar quem pergunta no problema, em vez de responder ao problema.

Há depois uma segunda semelhança, talvez ainda mais perigosa: o deslumbramento com o poder.

Agenda, protocolo, assessores, viagens, elogios e permanente atenção mediática criam facilmente uma realidade artificial. O governante começa a acreditar que a popularidade é permanente, que domina os acontecimentos e que a crítica resulta sobretudo da má-fé alheia.

Sócrates deixou-se progressivamente consumir por uma sensação de invulnerabilidade. Politicamente, esse deslumbramento acabou por lhe ser fatal, independentemente de tudo o que posteriormente marcou a sua vida judicial.

Montenegro faria bem em olhar para essa experiência. Porque, apesar da inspiração assumida em Cavaco Silva, a sua prática começa a recordar muito mais Sócrates do que Cavaco.

Um primeiro-ministro não demonstra força escolhendo os jornalistas perante os quais presta contas, irritando-se com perguntas ou hostilizando o mensageiro. Demonstra-a respondendo, explicando e suportando o escrutínio — sobretudo quando as notícias são desagradáveis.

A História ensina que o poder raramente começa a perder-se nas urnas. Começa quando quem governa deixa de ouvir, confunde crítica com perseguição e acredita demasiado na sua própria infalibilidade.

Sócrates aprendeu essa lição da maneira mais dura. Montenegro – espero – ainda pode ir a tempo.

 

*Antigo jornalista e atual CEO do 24 Horas
FacebookXLinkedInInstagramWhatsapp
Publicado em 12 agosto de 2026

Mais deste autor

  1. LUÍS MONTENEGRO: MAIS SÓCRATES DO QUE CAVACO