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Carlos Reis

O ROSTO DESCOBERTO DA LIBERDADE

Carlos Reis

Há rostos que contam histórias, que são espelhos da alma e da palavra. Neles se lê a confiança, a dúvida, o acolhimento ou o medo. É através do rosto que a sociedade se reconhece e se relaciona. Por isso, cobrir o rosto não é apenas esconder uma feição: é suspender o diálogo humano, é apagar a identidade que permite o encontro.

Portugal, país de rosto virado para o mundo, não pode aceitar que, em nome de uma interpretação radical de uma qualquer religião, se anule o princípio da visibilidade pessoal que sustenta a convivência humana.

A burka e o niqab, mais do que tecidos, representam uma negação da presença — uma barreira erguida entre a pessoa e a comunidade. E uma sociedade livre tem o direito — e o dever — de defender os seus fundamentos.

A Constituição da República Portuguesa não é neutra: protege a dignidade humana, a igualdade entre homem e mulher e o princípio da laicidade do Estado. A nossa matriz cultural, de raiz judaico-cristã, moldou o valor do rosto como sinal de identidade e de responsabilidade.

Quando alguém se oculta totalmente, rompe-se esse pacto civilizacional que permite reconhecer o outro como igual.

Nenhum direito é absoluto e todos são relativos. Por isso mesmo o direito de liberdade religiosa não pode fazer precludir outros direitos essenciais como o da igualdade entre homens e mulheres.

Defender a proibição do uso de burka e niqab em espaços públicos não é um ato de intolerância, mas de coerência. A liberdade religiosa não pode servir de escudo para práticas que ferem a liberdade dos restantes.

Nenhuma crença pode exigir que metade da humanidade viva atrás de um véu imposto, visível ou invisível.

O rosto descoberto é símbolo de confiança e cidadania. É nele que a comunicação se cumpre — no olhar que se cruza, na palavra que se ouve, na expressão que não teme ser vista.

Portugal deve, com serenidade e firmeza, afirmar o direito de continuar a ser uma sociedade de rostos visíveis, onde a liberdade não se esconde atrás de um tecido, mas se mostra, inteira, à luz do dia.

Durante 900 anos, desde a Reconquista, temos caminhado nesse sentido. Não podemos voltar atrás.

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Publicado em 20 outubro de 2025
Carlos Reis

NÃO HOUVE NENHUM EMPATE TÉCNICO

Carlos Reis

As eleições autárquicas deste domingo deixaram uma mensagem política clara: Portugal quer moderação, estabilidade e competência.

A vitória inequívoca da Aliança Democrática (AD) e de Luís Montenegro não deixam margem para dúvida, seja qual for o parâmetro de análise.

Para o PSD foi o regresso às grandes noites eleitorais. Desde há 40 anos que um primeiro-ministro do PSD não vencia umas eleições locais, ganhando as presidências da ANMP e da ANAFRE.

Uma observação dos resultados e nota-se a afirmação da política das soluções e a rejeição dos extremos, num país que já começa a dar sinais de cansaço da crispação e da retórica do protesto.

Quando muitos anunciavam fragmentação, e o fim do sistema de alternância ao centro, também agora no Poder Local, o eleitorado respondeu com estabilidade.

O símbolo maior dessa escolha é Lisboa.

Carlos Moedas não só foi reeleito, como ampliou a sua maioria, com mais 30.000 votos, mais vereadores, deputados municipais e juntas de freguesia, derrotando uma esquerda frentista que sonhava tornar a capital num laboratório ideológico. A resposta dos lisboetas foi inequívoca: preferem uma cidade governada com competência, diálogo e resultados, em vez de frentes populares.

A este respeito Alexandra Leitão ainda não percebeu: a sua derrota não se deve ao facto de a sua coligação não ter conseguido a “convergência” com o PCP. Muito pelo contrário, perdeu precisamente porque convergiu numa coligação com o Bloco de Esquerda.

O espírito da manifestação identitária contra a polícia na Rua do Benformoso, onde o PS de Pedro Nuno Santos se decidiu enfiar, e que teve a sua confirmação na coligação frentista de esquerda, foi assim a votos.

E a resposta é inequívoca: os lisboetas estão com Carlos Moedas.

O falhanço dessa frente de esquerda é mais do que local — é um sinal de que a política da negação perdeu força. Os eleitores valorizaram trabalho, não slogans. E, ao fazê-lo, reafirmaram o valor da moderação num tempo de ruído e populismos.

À direita e à esquerda, os extremos detiveram-se ontem.

As urnas falaram: a moderação venceu.
Afinal não houve empate técnico.

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Publicado em 13 outubro de 2025
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