
Afonso Melo
Toda a gente sabe que quem quer ir à Lua tem de fazer escala em Houston. Mas a nossa lua não vai para além da Baía do Congo. Admite-se que o próprio Diogo Cão tenha andado um bocado às aranhas para se orientar por aquela zona. Mas decididamente não tanto como os meninos que Portugal alimenta a pão-de-ló.
“Um ritmo lento de andar na areia”, diria o velho Drummond. É o que se arranja. Ser sensato é uma virtude. Mas todos nós conhecemos uns fulanos muitíssimo sensatos que têm uma tendência irrevogável para se tornarem chatos como o K20 que é o símbolo químico da vulgar potassa. A sensatez faz com que se leve tempo a pensar. Mas em que pensa tanto aquela gente sem ideias? Duas diferentes noções de tempo: os outros tinham pressa e nós não. Podem não ter sido tão sensatos mas o resultado foi o mesmo.
Costumo dizer: nada urgente continua urgente ao fim de seis meses. Podíamos ter ficado ali seis meses e a urgência passaria ensonada, de pijama debaixo do braço à procura de um divã onde se deitar. Precisávamos de um bilhete para a Lua, mas ele não cai da mesma se estivermos de mão nas algibeiras. Também podemos passar noites inteiras a olhar para ela que isso não faz com que nos caia do colo. Talvez ir à Lua seja um desejo arrojado. Se calhar o melhor é ficar por Houston. Poupa-se uma viagem.