
Afonso Melo
Somos uma equipa de lavores. Exímios no crochet. E no ponto de cruz e em rendas de bilros. Fazêmo-lo à moda das velhas cerzideiras de outros tempos. Somos de passar e repassar mas não de fazer tapetes que conduzam a vitórias irrevogáveis. Poderíamos muito bem ser treinados pela saudosa Etelvina Lopes de Almeida da revista Modas e Bordados.
Manda dizer a verdade que temos gente que a qualquer momento pode inventar um golo. Mas também dava jeito que, para isso, essa gente se aproximasse mais da baliza contrária ou, pelo menos, levantasse os olhos para a ver. Parece que esta equipa está destinada a não ser valente nem imortal. Não há nenhum esplendor neste Portugal de uma nota só- o dó. Há certos momentos em que pratica um futebol incomestível com manteiga rançosa, esquecendo-se de que a fantasia também pode ser eficaz. Diriam os ingleses com o seu humor condescendente: ‘boring team’.
Dirá o nosso bom povo, de Santa Marta de Penaguião a Chão de meninos, à sua maneira malandra: ‘somos 11 mas 11 à hora’. Os colombianos pareciam doninhas num piquenique de sábado à tarde. Não vieram para cima de nós com a fúria de uma rapariga ruiva, mas também não se montaram nas suas tamanquinhas.
E a noite foi chegando a cavalo como nos filmes do faroeste. Numa coisa estavam ambos de acordo: o jogo seria disputado no meio campo de Portugal. A selecção pode ter aborrecido os pobres espectadores que ficaram acordados pela madrugada aí no rectângulozinho atlântico mas decididamente não aborreceu o adversário. Talvez com medo que ele se escamasse.
Aconselhava um velho treinador brasileiro: quando não conseguires ganhar, empata; quando não conseguires empatar, engana. Nisso fomos brilhantes: empatámos-nos e continuamos a enganar quem nesta equipa acredita. Já o Pitigrilli preferia: ‘quando te parecer que é demasiado tarde para começar uma coisa começa-a logo’. Está visto que não somos bons em começos. O que falta fazer? Tudo!

Afonso Melo
Geralmente é um alívio. O lado fresco da almofada em noites de calor como estas. Também foi um alívio aqui em Houston. Num jogo sem história Ronaldo entrou para a História: primeiro a marcar em seis Mundiais seguidos. De resto, cinco golos claros e límpidos como os olhos de Elizabeth Taylor e uma sonolência de mosca tsé-tsé. Lembram-se do diálogo d’Os Maias? Na festa dos Cohen, o Ministro pergunta ao Carlos, acabado de chegar de Londres: “Em Inglaterra também há grandes romancistas, folhetinistas de génio?”
E o Carlos com um descaramento divino: “Fique sua excelência sabendo que em Inglaterra não há literatura”. E o outro. “Logo vi, logo vi. Um povo essencialmente práctico!” Essencialmente práctico? Portugal. E eles? Um golo anulado e só. Ah! Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! A felicidade curta do pobre que mete a mão no bolso e só de lá tira cinco dedos. E assim, instalados na sua ausência, conseguiram que até o Ronaldo que parecia não meter medo a ninguém se mostrasse capaz de apavorar hipopótamos.
Dançou como um dervixe e levitou como um monge do Tibete. Devagar, devagarinho, como a neve que caía na balada de Augusto Gil, o tempo foi passando entre passes e repasses. O povo ficou feliz e gritou em coro o nome do homem que tanto quer gritar: Cristiano Ronaldo. Um fim adiado. E assim, desde que Adão foi expulso do Paraíso nunca voltou a estar tão perto dele outra vez.

Afonso Melo
Toda a gente sabe que quem quer ir à Lua tem de fazer escala em Houston. Mas a nossa lua não vai para além da Baía do Congo. Admite-se que o próprio Diogo Cão tenha andado um bocado às aranhas para se orientar por aquela zona. Mas decididamente não tanto como os meninos que Portugal alimenta a pão-de-ló.
“Um ritmo lento de andar na areia”, diria o velho Drummond. É o que se arranja. Ser sensato é uma virtude. Mas todos nós conhecemos uns fulanos muitíssimo sensatos que têm uma tendência irrevogável para se tornarem chatos como o K20 que é o símbolo químico da vulgar potassa. A sensatez faz com que se leve tempo a pensar. Mas em que pensa tanto aquela gente sem ideias? Duas diferentes noções de tempo: os outros tinham pressa e nós não. Podem não ter sido tão sensatos mas o resultado foi o mesmo.
Costumo dizer: nada urgente continua urgente ao fim de seis meses. Podíamos ter ficado ali seis meses e a urgência passaria ensonada, de pijama debaixo do braço à procura de um divã onde se deitar. Precisávamos de um bilhete para a Lua, mas ele não cai da mesma se estivermos de mão nas algibeiras. Também podemos passar noites inteiras a olhar para ela que isso não faz com que nos caia do colo. Talvez ir à Lua seja um desejo arrojado. Se calhar o melhor é ficar por Houston. Poupa-se uma viagem.