A inveja social continua a mandar em Portugal, rima e é verdade. Ainda há dias se ouvia o clamor pela...
A inveja social continua a mandar em Portugal, rima e é verdade. Ainda há dias se ouvia o clamor pela reforma dita milionária de Mário Centeno, ao cabo de 35 anos de um serviço de topo para o qual se preparou arduamente – sendo a última década passada como ministro das Finanças, e bom, e governador do Banco de Portugal – e já temos de volta nova festança, não com Dona Constança mas com o infindável caso dos almoços de Isaltino Morais. Vamos por partes.
Dez mil euros brutos e cerca de dois terços desse valor líquido para Centeno dão a volta à cabeça de quem ganha pouco – mereça ou não um salário melhor – e indignam, claro, os subsídio-dependentes para os quais tudo o que recebem do Estado devia passar pelo menos para o triplo. Sei do que estou a falar porque tive um amigo que reclamava que a boca dele era igual à de um cirurgião, de um cientista ou de um piloto de avião e não compreendia porque não ganhávamos todos, os preparados e os burros, a mesma quantia…
Mas esse ‘modelo’ coletivista, ou até albanês dos tempos do sinistro Enver Hoxha, acabou como acabou nos países que o adotaram, pelo que se torna hoje incompreensível que ainda encontremos saudosistas da ‘bela’ vida que era haver trabalhadores a esforçar-se para sustentar os parasitas – e viverem uns e outros alegremente na miséria.
Quanto ao estafado imbróglio que envolve Isaltino de cada vez que muda a hora, tudo parte do mesmo raciocínio invejoso e despeitado: eu pago o que como, independentemente de ser um borra-botas, e ele come à borla apesar de ser um autarca ‘n’ vezes eleito com maiorias absolutas – pelo que realiza, sim, mas também pela sua forma de encarar e celebrar a vida.
Ainda percebo que o ruído insistente da turba faça com que o Ministério Público se ‘estique’ na investigação, afinal é o que lhe pedem, e mais tarde os juízes que se amanhem. Já entendo pior a parolice dos jornalistas quando dizem ou escrevem não que foram gastos – e como – mas ‘desviados’ (!) 150 mil euros ‘do erário público’, sem que tenham sequer em conta que foram despesas efetuadas durante vários anos e por dezenas de funcionários. Confundem roubo, levantamentos em notas, com uma eventual (e ridícula) situação de peculato para alimentarem o tema genérico da corrupção. Incrível a especulação a que chegámos.
Depois, fica igualmente para segundo plano, ou terceiro ou quinto, se os almoços em questão foram ou não de trabalho, foram ou não com responsáveis de cidades geminadas com Oeiras, se resultaram da realização de congressos ou se foram simplesmente retribuições de refeições que investidores no concelho pagaram em diferentes ocasiões. Nada interessa para além do exagero com o ‘desvio’ do dinheiro, como aqueles estratosféricos 19 mil euros atribuídos à ‘mão marota’ da autarca hoje na Câmara de Lisboa e que Carlos Moedas, e bem, resolveu manter no seu posto.
País de pequeninos que nunca crescerão, eis o que somos.