
Carlos Janela
O relvado é um tribunal onde a realidade não mente nem se consegue manipular.
Há histórias no futebol que deveriam terminar como terminam as grandes histórias dos herois da humanidade, no momento certo, com dignidade, com reconhecimento e com aplausos.
O problema é que, algumas vezes, o actor principal recusa cumprir o último capítulo.
Houve um tempo em que um jogador foi, sem qualquer dúvida, um dos melhores do mundo.
Foi extraordinário. Ganhou, marcou, decidiu, encantou o mundo inteiro.
Durante muitos anos, o planeta do futebol rendeu-se ao seu talento e mesmo nos momentos em que fez algumas diatribes, sempre lhe perdoaram como se perdoa os deuses do Olimpo.
Mas existe uma coisa que nem o talento, nem os títulos, nem a fama, conseguem derrotar – o tempo.
Há cerca de seis anos, talvez tivesse chegado o momento desse heroi dos estádios, perceber que a sua história heroica estava a terminar.
Não porque tivesse deixado de ser um fantástico jogador, mas precisamente porque os grandes jogadores também precisam de saber reconhecer quando a sua grandeza entra na estrada da memória.
Enão soube ou nao se apercebeu.
E desde então assistimos a uma espécie de farsa involuntária.
O jogador continua em campo, mas já não é aquele jogador.
O corpo já não responde como antes, a velocidade desapareceu, os movimentos perderam qualidade e aquilo que antes parecia fácil passou a ser esforçado.
Passou a ser apenas um bom jogador.
De imediato, surgiram logo as desculpas e as falsas explicações
É o treinador que não sabe tirar partido das suas qualidades.
São os colegas que nao lhe passam bem a bola.
É a equipa que não ajuda.
É o sistema que nao o favorece.
É a arbitragem que lhe anula golos por centímetros.
É uma parte da imprensa que nao gosta dele.
Sao os adeptos que sao ingratos e invejosos.
Tudo para aos poucos se criar uma realidade paralela – o problema nunca era daquele jogador.
O problema era e é sempre… os outros!
E chegados aqui, lembramos a velha e conhecida fábula de “O Rei Vai Nu”
O Rei desfila perante o povo convencido de que veste uma roupa magnífica.
Os amigos e seus dependentes, por medo, interesse pessoal e conveniência, fingem nao ver a nudez, recusam ver a verdade e aplaudem com entusiasmo o rei.
Até que uma criança, pura de sentimentos, sem interesses pessoais e sem medo, olha para o rei e grita com sinceridade
“O rei vai nu!”
Só que, neste caso, nao foi uma criança a fazê-lo, foi um Treinador.
Um Treinador competente, corajoso e suficientemente independente para não se deixar intimidar pelo nome, pelo passado, pelo estatuto de quem tinha diante de si.
Um Treinador que teve a coragem de fazer aquilo que outros nao tiveram – olhar para o relvado e dizer a verdade.
E isso é o que mais incomoda os defensores do jogador.
No futebol existe uma diferença fundamental em relação a muitas outras áreas da vida, joga-se à vista de todos.
O relvado é um critério de verdade.
Não é uma opinião de um jornalista.
Não é uma discussão de redes sociais.
Não é uma narrativa criada pelo próprio jogador.
Não é uma conferência de imprensa.
Não é uma campanha de comunicação.
É um jogo aberto aos olhares de pessoas.
É correr. É acelerar. É recuperar.É pressionar. É disputar.É decidir.
É marcar.É defender. E,
É conseguir fazer hoje melhor do que aquilo que se fazia ontem.
Tudo acontece diante de milhares de pessoas no estádio e de milhões de olhos em todo o mundo pelas televisoes.
No relvado, ninguém consegue esconder aquilo que já não consegue fazer.
O futebol real não é como no cinema, onde entram os ” duplos” para fazer as cenas mais difíceis.
A volta do jogo pode discutir-se quase tudo – sistemas, tácticas, estratégias dos treinadores, arbitragens, escolhas dos 11s, arbitragens, VARs, desempenhos dos jogadores, conferências de imprensa, etc.
Mas há uma coisa impossivel de discutir com seriedade e competência – aquilo que todos acabaram de ver com os seus próprios olhos.
E, foi exatamente por isso que esse Treinador sério e competente foi a “criança” desta história.
Não precisou de insultar.
Não precisou de humilhar.
Não precisou de desvalorizar o passado.
Não precisou sequer de convencer ninguém.
Limitou-se a olhar para a realidade do presente e defender/proteger uma equipa, um colectivo.
O problema é que o rei não gostou.E,
Em vez de olhar para o espelho, começou a procurar culpados e pretextos para tentar justificar graves infracções disciplinares.
É o velho mecanismo de quem já não consegue aceitar a realidade – quando não se consegue mudar aquilo que acontece dentro do campo, tenta-se atacar quem teve a coragem de decidir na defesa dos sagrados interesses do colectivo.
Mas há uma ironia extraordinária nesta história.
Quanto mais se tenta calar quem defende a verdade, mais atenção se chama para a própria verdade.
Porque um treinador pode ser criticado, contestado e até pode errar.
Mas existe uma coisa que nenhum discurso consegue apagar – a verdade do relvado vai continuar lá.
E tudo e todos vão continuar a olhar para o…relvado!
Aquele super jogador foi grande porque era o campo que confirmava a sua grandeza.
Agora, é precisamente o campo que expõe a distância entre o jogador que foi e o jogador que ainda julga ser.
É maior crueldade do futebol – o passado pode ser glorioso, mas pode não jogar o próximo jogo.
Os títulos não correm.
A reputação não dá velocidade nem potencia fisica.
A fama não recupera bolas.
A nostalgia não marca golos.E
O nome, por maior que seja, não consegue fazer aquilo que as pernas já não conseguem.
Ninguém lhe quer belicar o passado.
Ninguém pode apagar os seus golos, os seus títulos, os seus momentos extraordinários.
Mas também ninguém pode obrigar o presente a comportar-se como o passado.
O relvado e a bola não têm memória nem respeitam estatutos e/ou reputaçoes.
Chegou o momento do jogador compreender que aquele Treinador não foi um inimigo.
Foi simplesmente a “criança”que teve coragem de dizer aquilo que outros deviam ter visto.
Creio mesmo que este Treinador foi quem mais respeitou a verdadeiro estatuto daquele super jogador.
Há uma diferença enorme entre respeitar um grande jogador e alimentar a ilusão de que ele será eternamente o jogador que já foi.
A verdadeira homenagem a uma grande carreira não é prolongar indefinidamente a sua agonia.
É saber terminá-la com dignidade.
É sair enquanto ainda existe aplauso.
É deixar o relvado antes que o relvado passe a contar uma história diferente daquela que a memória gostaria de conservar.
No futebol há uma verdade simples, brutal e universal – podemos discutir opiniões mas não podemos discutir eternamente aquilo que milhões de olhos acabaram de ver.
E, repito, neste caso, milhões de olhos vão continuar a olhar para o relvado.
E o relvado vai continuar a dizer a mesma coisa – O rei vai nu.
O Treinador apenas se recusou participar na farsa involuntária que alguns alimentaram por conveniência pessoal, por inconsciência e/ou ignorância sobre o poder do campo.
Termino com uma pergunta assente na ética, na moral e nos bons costumes – um capitão de uma Seleção Nacional que comete uma infração disciplinar gravissima, pelo próprio já assumida, poderá algum dia voltar a usar a braçadeira de capitão da Seleção Nacional?

Carlos Janela
O Futebol é o desporto mais famoso do nosso Planeta.
Como é que o desporto mais popular do globo é, simultaneamente, o mais difícil de praticar?
Toda gente fala, discute, debate, analisa e opina sobre futebol e a esmagadora maioria das pessoas, não tem a noção, nem sequer a percepção, que o Futebol é a modalidade desportiva mais difícil de praticar.
Não me refiro apenas aos adeptos.
A grande maioria dos jogadores, treinadores, dirigentes e comentadores, não tem consciência dos “pormaiores invisíveis” que tornam o Futebol um jogo com dificuldades únicas.
Para tentar explicar a complexidade do futebol vou usar o “método comparativo” – ou seja, comparar o futebol com outras modalidades colectivas que usam uma bola.
Enumero cinco razões principais que tornam o Futebol é o desporto mais difícil de jogar.
Razão 1 – É jogado com a parte do corpo (os Pés) mais distante do Cérebro. À exceção dos guarda-redes, que na sua área, podem usar as mãos e restantes partes do corpo, os futebolistas que actuam nas outras funções, apenas podem utilizar os pés (e a cabeça). Sabendo que tudo está no Cérebro e que é este que dá “ordens” a todas as partes do corpo, e destas, recebe todas as “informações”, através da bainha de mielina, pense-se na grande distância entre o cérebro e os pés, e, nos milhões de neurónios e estímulos que envolve cada gesto e cada movimento de um jogador de futebol.
Com a velocidade e a intensidade do Futebol actual, todas as conexões nervosas são processadas em nanosegundos. É um processo fascinante.
Por comparação, os andebolistas, os basquetebolistas, os voleibolistas, etc. jogam com uma parte do corpo próxima do cérebro, as mãos. As informações e estímulos nervosos têm de percorrer metade do caminho e são envolvidos menos milhares de neurónios e ramificações.
Razão 2 – É jogado por uma parte redonda do corpo, os pés (e a cabeça), com um objecto redondo, a bola. Imaginem o grau de dificuldade para dominar, passar e chutar com uma direcção intencional e definida, um objecto redondo, a bola, por uma extremidade redonda, os pés. Por todas as leis da Física e da Bio Mecanica, é muito, mas muito, difícil.
Acresce que no acto de dominar, passar e chutar a bola, é usado apenas um dos pés.
Por comparação, o Andebol, o Basket, o Voleibol, Rugby, etc. jogam a bola com as mãos que são uma parte do corpo que agarra, segura e controla todo o tipo de objectos. As mãos, por todas as leis da anatomia e da biomecânica, manuseiam e direcionam uma bola com mais segurança e facilidade que os pés.
Imaginem o que seria se no Basket, Andebol, etc. tivessem de dominar, passar e jogar a bola, com as costas das mãos, a parte mais redonda das mãos.
E não esquecer, nestas modalidades, ainda se pode usar simultaneamente as duas mãos para dominar e controlar a bola. Algo impossível no futebol.
Razão 3 – Sempre que se domina, conduz, passa e chuta uma bola, todo o equilíbrio do corpo fica assente e dependente de uma só perna, a outra perna.
Sempre que se toca e/ou transporta a bola no pé direito ou esquerdo, o equilíbrio da unidade corporal do jogador é feito apenas pela outra perna. Os apoios no solo e os centro de gravidade que suportam todos os movimentos e acções de um futebolista, e que transformam em milionésimos de segundo os desequilíbrios em equilíbrios, são feitos por apenas a outra perna que não tem a bola. E se não é fácil controlar uma bola com um pé, imagine-se que no acto de dominar uma bola, simultaneamente ter que manter o equilibro do movimento apenas numa só perna. Lembremos as dificuldades de brincar ao pé-coxinho?!
Isto não acontece em mais nenhuma modalidade desportiva, pois conduzindo a bola com as mãos (ou stick), os jogadores têm permanentemente as duas pernas no solo, permitindo estar sempre mais equilibrados nos seus múltiplos movimentos.
Razão 4 – A Visão Periférica de um futebolista obriga a uma complexa “coordenação óculo-pedal”, para simultaneamente controlar a bola e realizar acções com os pés, percepcionar o espaço e o contexto circundante.
Acresce que a bola, um objecto redondo, em contacto com uma parte redonda, os pés, sofre efeitos inesperados e irregulares, obrigando a vista a reagir em microsegundos.
Coordenar – a bola no pé, o adversário, os colegas de equipa, o espaço de jogo e as balizas – é um “processo óculo-pedal” muito complexo.
Por comparação, as outras modalidades jogadas com a mão, usam a “coordenação óculo-manual”, bem mais simples, pois a bola está mais próxima dos olhos, permitindo libertar o cérebro para outras acções/soluções no jogo.
Razão 5 – Ao jogar a bola com os pés, os futebolistas têm mais dificuldades em proteger a bola dos adversários. Pela dificuldade do domínio da bola, pois os pés não agarram a bola, não guardam e não escondem a bola como as mãos podem fazer, e, pelo permanente desequilíbrio/equilíbrio dos movimentos, um futebolista tem a bola sempre ao alcance dos adversários. É uma arte única saber proteger a bola dos adversários.
Por comparação, em mais nenhuma outra modalidade a bola fica tão liberta e ao alcance dos adversários. Podem até guardar a bola atrás das costas.
Termino dizendo que considero o Desporto, em geral, e o Futebol, em particular, uma das necessidades fundamentais do Homem a par do Amor, Alimentação, Cultura, Descanso e Trabalho.