
Alexandre Pais
A inveja social continua a mandar em Portugal, rima e é verdade. Ainda há dias se ouvia o clamor pela reforma dita milionária de Mário Centeno, ao cabo de 35 anos de um serviço de topo para o qual se preparou arduamente – sendo a última década passada como ministro das Finanças, e bom, e governador do Banco de Portugal – e já temos de volta nova festança, não com Dona Constança mas com o infindável caso dos almoços de Isaltino Morais. Vamos por partes.
Dez mil euros brutos e cerca de dois terços desse valor líquido para Centeno dão a volta à cabeça de quem ganha pouco – mereça ou não um salário melhor – e indignam, claro, os subsídio-dependentes para os quais tudo o que recebem do Estado devia passar pelo menos para o triplo. Sei do que estou a falar porque tive um amigo que reclamava que a boca dele era igual à de um cirurgião, de um cientista ou de um piloto de avião e não compreendia porque não ganhávamos todos, os preparados e os burros, a mesma quantia…
Mas esse ‘modelo’ coletivista, ou até albanês dos tempos do sinistro Enver Hoxha, acabou como acabou nos países que o adotaram, pelo que se torna hoje incompreensível que ainda encontremos saudosistas da ‘bela’ vida que era haver trabalhadores a esforçar-se para sustentar os parasitas – e viverem uns e outros alegremente na miséria.
Quanto ao estafado imbróglio que envolve Isaltino de cada vez que muda a hora, tudo parte do mesmo raciocínio invejoso e despeitado: eu pago o que como, independentemente de ser um borra-botas, e ele come à borla apesar de ser um autarca ‘n’ vezes eleito com maiorias absolutas – pelo que realiza, sim, mas também pela sua forma de encarar e celebrar a vida.
Ainda percebo que o ruído insistente da turba faça com que o Ministério Público se ‘estique’ na investigação, afinal é o que lhe pedem, e mais tarde os juízes que se amanhem. Já entendo pior a parolice dos jornalistas quando dizem ou escrevem não que foram gastos – e como – mas ‘desviados’ (!) 150 mil euros ‘do erário público’, sem que tenham sequer em conta que foram despesas efetuadas durante vários anos e por dezenas de funcionários. Confundem roubo, levantamentos em notas, com uma eventual (e ridícula) situação de peculato para alimentarem o tema genérico da corrupção. Incrível a especulação a que chegámos.
Depois, fica igualmente para segundo plano, ou terceiro ou quinto, se os almoços em questão foram ou não de trabalho, foram ou não com responsáveis de cidades geminadas com Oeiras, se resultaram da realização de congressos ou se foram simplesmente retribuições de refeições que investidores no concelho pagaram em diferentes ocasiões. Nada interessa para além do exagero com o ‘desvio’ do dinheiro, como aqueles estratosféricos 19 mil euros atribuídos à ‘mão marota’ da autarca hoje na Câmara de Lisboa e que Carlos Moedas, e bem, resolveu manter no seu posto.
País de pequeninos que nunca crescerão, eis o que somos.

Alexandre Pais
A falta de Cristiano Ronaldo na derradeira convocatória da Federação Portuguesa de Futebol, por causa de uma ‘pequena lesão’ – a 28.ª da carreira – adensa o mistério sobre o final do seu percurso desportivo e em particular do seu adeus à Seleção. Este último acontecerá dentro de menos de quatro meses, terminado que esteja o Mundial de futebol? É que disso estão dependentes outras decisões, a começar pela escolha do novo selecionador nacional.
Como se calcula, Roberto Martínez já não seria o responsável pela equipa das quinas se não houvesse conquistado a Liga das Nações. Perante esse êxito, a fúria reformista de Pedro Proença – leia-se a obsessão de eliminar tudo o que tenha ainda a marca de Fernando Gomes – foi forçada a conter-se e o espanhol irá cumprir o contrato até ao fim… do Mundial.
Mas a partida anunciada de Martínez não tem apenas a ver com a vontade do líder da FPF. Com o prestígio acumulado nas seleções da Bélgica e de Portugal, ao treinador, que vai deixar no nosso país um perfume de elegância e de respeito – a forma como aprendeu o Português ou a cantar o Hino Nacional falam por si – não escasseiam propostas e projetos aliciantes para dar continuidade à sua carreira. Uma opção e até um compromisso poderão mesmo já ter sido tomados por Martínez, pelo que ainda que Portugal viesse a ganhar o Mundial – ou precisamente por isso – Proença ficaria a falar sozinho.
Aliás, o presidente da FPF há muito tem em carteira os nomes dos sucessores de Martínez, que não poderão ir muito além de Jorge Jesus, José Mourinho e Sérgio Conceição, uma vez que Abel Ferreira ou até Leonardo Jardim parecem de ‘pedra e cal’ no Brasil, onde têm contratos leoninos – qualquer coisa como 5 a 6 milhões de euros/ano, livres de impostos. A solução do problema não será fácil e é aí que entra o inevitável Cristiano Ronaldo, ele próprio. Vejamos como.
Partamos do princípio que o Mundial corre bem a CR7 – chegada às meias-finais, golos marcados, condição física recuperada – e que ele decide jogar ainda a Liga das Nações, com partidas marcadas já para daqui a seis meses. Nesse caso, Jorge Jesus seria o preferido – a sua relação com Cristiano é perfeita – ainda que perdendo muito, muitíssimo dinheiro: aufere 12 milhões de euros no Al-Nassr. Só que em Riade não tem a cabeça de garoupa que come em Lisboa, ali para a Rua das Portas de Santo Antão…
Mas se o craque madeirense resolver deixar de facto a Seleção em julho, ficará anulado o eventual choque de egos com José Mourinho, que pode assim rescindir com o Benfica e rumar à Cidade do Futebol. O negócio estará até ‘nos livros’ se os encarnados falharem um dos dois primeiros lugares na Liga, o acesso à Champions e a ‘tonelada’ de milhões de euros que a prova proporciona. Pela sua parte, Cristiano cumprirá mais uma época na Arábia Saudita, para alcançar os mil golos e ser campeão – se não o conseguir já na presente época – e imporá seguramente a continuidade de Jorge Jesus no Al-Nassr, a troco de mais 12 milhões. A vida custa.
Neste quadro, quais serão então, as possibilidades de Sérgio Conceição? Serão algumas, pois se Jorge Jesus pode continuar ‘preso’ na Arábia com Cristiano, Mourinho corre o ‘risco’ de ser campeão na Luz, ou andar lá perto, e ver o seu contrato com o Benfica alargado e… melhorado. Afinal, o que são 3 milhões de euros anuais para aquele que foi um dia considerado o melhor treinador do Mundo? E pelo seu lado, Conceição não tem sido feliz como profissional desde a saída do FC Porto e o clube cuja equipa técnica lidera na Arábia, o Al-Ittihad, segue em sexto lugar no campeonato, perdeu Benzema e baqueou em jogos importantes. Como os sauditas não têm fama de ser muito pacientes, Sérgio parece ser, dos três principais candidatos, o que terá maior disponibilidade dentro de dois ou três meses e a sua indicação para selecionador não implicaria o derrube de tantos obstáculos como as outras duas.
Mas Sérgio Conceição tem um problema, esse sim de difícil solução: o seu temperamento irascível, que não terá muitos admiradores para as bandas de Caxias. Haveria mesmo quem estivesse disposto a comprar bilhetes para aquele inevitável grande momento em que o homem forte da Federação desatasse aos gritos – como é sua fama e parece que também seu proveito – com o novo selecionador. A verdade é que estaremos empatados nesse particular: é que Proença não terá melhor sorte nem com Jesus, nem com Mourinho. Com qualquer deles, terá de bater sempre a bolinha baixa. A coisa promete.

Alexandre Pais
O recente aproveitamento de uma frase de António José Seguro sobre José Sócrates, proferida em 2011 – “tenho orgulho do que fizeram os ex-líderes do PS e também o meu camarada José Sócrates”, atestada pelo ‘SIC verifica’ como se não estivesse gravada – serviu para continuar a distorcer a realidade e a reduzir a zero o papel do ‘animal feroz’ na memória coletiva. Sócrates venceu as ‘legislativas’ de 2005 e de 2009 porque mais de dois milhões e meio, e dois milhões de eleitores, respetivamente, de algum modo acreditaram nele – o socialista Seguro e este escriba sem partido foram apenas dois entre a multidão.
É que desde as autoestradas – que aos dias de hoje não parecem assim tantas como muitos então diziam – ao ‘boom’ da educação ou ao plano de barragens (que incluía a de Girabolhos, olha que coincidência), passando pela aposta no TGV, no novo aeroporto de Lisboa ou nas energias renováveis, Sócrates tinha uma visão, um projeto para a modernização do país – e um espírito reformista. Mas vamos a factos.
Na crise financeira global de 2008, caminhava Portugal para um défice de novo inferior a 3% – havia sido de 2,6% do PIB em 2007, o mais baixo em 30 anos – e uma dívida pública controlada, a União Europeia incentivou os estados-membros a ‘deitarem dinheiro’ em cima do problema. O ‘conselho’ foi aceite pelo primeiro-ministro José Sócrates, o que, dada a fragilidade da nossa economia – a dívida passou de 63,6% em 2007 para 135,5% (!) no ano seguinte – e a subida em flecha dos juros, acabou numa situação de pré-bancarrota – e não de bancarrota, como se repete até à exaustão na esperança de que passe a ser verdade. E isso terminou igualmente com o primeiro Governo de Sócrates, o de maioria absoluta do PS (2005-2009).
Veio depois Pedro Passos Coelho, que – ao contrário do que havia prometido na campanha eleitoral de 2011, em especial quanto aos rendimentos dos pensionistas – reforçou a austeridade que Sócrates começara de facto em 2010 (outra realidade que por vezes se tenta esquecer) e iniciou a recuperação do país. Daí que para as ‘legislativas’ de 2015, Passos e a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, se propusessem pôr fim aos cortes de salários e pensões, bem como à aplicação de sobretaxas, ao longo dos quatro anos seguintes – erro fatal.
É que quase do ‘nada’ e do anonimato político surgira Mário Centeno, na equipa do líder do PS e da oposição, António Costa, a acenar com o suposto final da austeridade, graças a uma ‘fórmula milagrosa’: aumento dos impostos indiretos, nomeadamente sobre os combustíveis, para devolver, num único ano, o que estava a ser retirado, há cinco, a trabalhadores e a pensionistas.
Nem mesmo assim Passos Coelho perdeu as eleições, é certo, mas o pragmatismo de Centeno impediu que a AD alcançasse uma maioria parlamentar que lhe permitisse governar. E António Costa pôde criar a ‘geringonça’ e chefiar o novo Executivo (2015-2019).
Apresentada de forma simplista, esta é a verdade do que aconteceu na economia e no bolso dos portugueses entre 2008 e 2015, pelo que não vale a pena que voluntaristas de esquerda e de direita, intelectualmente desonestos, insistam em contar apenas a parte da história que lhes convém. Outra coisa é a vida de Sócrates ter dado a seguir no que deu – seja lá o que for que venha a ser provado em tribunal. Mas para esta nossa conversa isso já são outros quinhentos.

Alexandre Pais
À saída da sua mesa de voto, o Presidente Ramalho Eanes, com a sabedoria e a invejável lucidez que é património do país, alertou para a “situação dramática” em que a Europa se encontra, explicando, e volto a citar, que “o Mundo passou da lei e da ordem para o poder (do mais forte) e a desordem”. Afinal, aquilo que o primeiro-ministro canadiano definiu agora em Davos como “uma rutura” global.
Estou certo de que muitos dos quase 700 mil eleitores que optaram por votar em Henrique Gouveia e Melo, no último domingo, o fizeram por maioria de razões por reconhecerem que a preparação do almirante em questões de defesa e segurança estaria a anos-luz da dos outros candidatos. E seria de transcendente utilidade na PR no caso de a situação internacional se complicar mais e os conflitos nos baterem à porta. É que em cima das naturais preocupações dos portugueses com uma área altamente especializada como é a das Forças Armadas, cai um fator perturbador: a perda progressiva da influência militar junto do poder político em Portugal.
Gouveia e Melo denunciou-o na campanha, sem que mais alguém se interessasse pelo tema: tanto o Conselho Estratégico da Defesa Nacional como o Conselho Estratégico Militar estão “completamente desatualizados”, ou seja, não funcionam. E pergunta-se, então, em que pareceres – e de quem – se baseou o titular da pasta da Defesa, e o próprio Governo, para avançarem à pressa com o pedido de aprovação da Comissão Europeia para encomendas de material militar no valor de 5,8 mil milhões de euros, que os contribuintes, em particular as gerações futuras, vão ter de pagar. Isso para não relevar a pequena dimensão das nossas estruturas de defesa e a necessidade imperiosa de se saber, antes da tomada de qualquer decisão, o que compram – e a quem e para quê – aliados importantes como a Alemanha, a França ou a Polónia.
Tendo finalmente em conta que o ministro Nuno Melo julga que Margarida II ainda é a rainha da Dinamarca – e ela já abdicou há dois anos – que troca, na designação da NATO, Atlântico Norte por “Atlético Norte”, e que quer reconquistar Olivença, não parece poder esperar-se nada de bom a concretizar-se a sua encomenda de material que se desconhece quem lhe encomendou. E o deslumbramento com que fez o anúncio faz-nos temer o pior.
Fica a esperança de que, uma vez em Belém, Seguro ou Ventura – que também pouco perceberão do assunto, valha a verdade – ou, melhor dito, um deles, desfaça o mistério, ouça quem de facto entende da matéria e se assegure de que não venha aí uma nova macacada. Irá a tempo?
Alexandre Pais
A 17 de abril de 1998, como chefe de redação do novo diário ’24horas’ fui responsável pelo terceiro n.º 0 do jornal, o primeiro feito em tempo real. E quis o destino que um terrível acidente de viação, muito semelhante ao que ceifou agora a vida de seis jovens na Avenida das Forças Armadas, em Lisboa, tivesse ocorrido na madrugada anterior, pelas 4 da manhã, hora trágica.
Eram igualmente seis os jovens envolvidos, esses ainda adolescentes, amontoados dentro de um Ibiza que o condutor de 17 anos, e sem carta de condução, furtara por umas horas – e já pela terceira vez – à tia. Regressavam das Docas de Lisboa para Tercena quando se despistaram, na Avenida da Índia, embatendo numa viatura que vinha em sentido contrário. Morreram os seis, três dos quais irmãos: um rapaz de 13 anos e duas raparigas, de 15 e 16. Aliás, foram sete as vítimas mortais porque o condutor do outro carro também não escapou.
Aqui deixo essa 1.ª página do ’24horas’ de 18 de abril de 1998, com três notas obrigatórias. Uma é para a devida vénia ao repórter Fernando Brandão, que sacou a história e arranjou a foto que a suportaria. A outra é para um erro técnico da minha responsabilidade: ao ‘lead’ sob a manchete faltava o ‘onde’, coisa horrorosa. Finalmente, e o menos importante, é que executei esse trabalho já demitido: a saída do jornal estava atrasada e a culpa teria de caber a alguém. Sorte minha, como se veria mais tarde – outros 500.

Alexandre Pais
Há cinco anos na Presidência, Umaro Sissoco Embaló, também ex-primeiro ministro, foi agora (alegada) vítima de uma situação recorrente na Guiné- Bissau: um golpe de estado. Desde que Nino Vieira foi brutalmente assassinado em sua casa, em março de 2009 – sem que até hoje os culpados tenham sido presos e condenados – a antiga colónia portuguesa já teve 16 (!) chefes de estado e passou por diversos atos de revolta com deposição de dirigentes democraticamente eleitos. Desta vez, parece ter sido o exército a rebelar-se.
Apesar disso, o Estado português tem gastado muitos milhões de euros em décadas de apoio – na saúde, na educação e mesmo na área da Defesa – a um território que não consegue manter um mínimo de estabilidade. Os cartéis da droga, que se infiltram facilmente nas estruturas de poder, tanto civil como militar, explicam em grande parte a ingovernabilidade de um país que é dos mais pobres do Mundo.
Recuo até junho de 1998, quando na redação do ‘24horas’ – na sua primeira versão em papel – me apareceu um jornalista guineense que era portador de dezenas de fotos, obviamente ‘amadoras’, de Ansumane Mané, precisamente o líder do levantamento militar de dias antes e que poria fim à anterior passagem de Nino pelo poder (desde 1980).
Ansumane – cujo rosto era então completamente desconhecido em Portugal – havia sido destituído de Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas antes de uma viagem de Nino ao estrangeiro, situação habitualmente utilizada na Guiné para fazer ‘desaparecer’ figuras que se tornaram demasiado importantes e que de algum modo se revelassem hostis à liderança. Ansumane Mané dera o golpe para se proteger – e a revelação da sua imagem foi uma das primeiras ‘cachas’ do ‘24horas’!

Alexandre Pais
Há 27 anos, o ‘24horas’ trouxe à imprensa portuguesa uma lufada de ar fresco a que o mercado viria a corresponder: em 2004, a média de vendas em banca ultrapassou os 50 mil exemplares diários. Mas o começo não foi fácil, o DN e o JN ainda eram uma referência, o CM seguia em velocidade de cruzeiro, os três diários desportivos vendiam bem acima dos 200 mil jornais por dia e o ‘24’ tardou em encontrar um rumo – foram seis anos de combate duro.
Em duas décadas, o panorama da informação mudou mais depressa que o Mundo. Primeiro, as estações de TV privadas e o enorme investimento nos sites, a seguir a popularidade das redes sociais e a dispersão do investimento comercial fizeram da comunicação social um negócio complicado e um serviço público difícil de concretizar sem perdas profundas. O suporte papel luta hoje pela vida e o ‘jornalismo-google’ e as ‘fake-news’ atacam ferozmente uma atividade profissional indispensável às liberdades individuais, à investigação dos abusos e ao primado da ética e da verdade.
A pouco e pouco, as redações reduzem-se, o instinto de sobrevivência das empresas agudiza-se e só os mais aptos e inconformados resistem. E é nesse cenário de guerra que o ‘24horas’ renasceu – em contraciclo mas em boa hora – pela mão de um visionário, de um veterano de mil batalhas cujas cicatrizes dão aval ao projeto. Que todos os que trabalham neste novo ‘24’ e também nós, leitores, estejamos à altura do desafio. Afinal, é a grande aventura que continua.