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Carlos Reis

UM SILÊNCIO ULTRAJANTE

Carlos Reis

O levantamento popular que por estes dias atravessa o Irão não é um mero sobressalto conjuntural. 

É o grito de um povo, reprimido por décadas de opressão exercida por um regime teocrático entrincheirado e cruel, que governa pelo medo, pela violência, e pelo aviltamento sistemático da dignidade humana. 

Um regime que durante 47 anos arruinou uma antiga e florescente nação ficou reduzida a foco da desestabilização do Médio Oriente. 

Um regime que, com a excepção do petróleo e dos pistachios, pouco mais exporta do que a sua rede de proxy’s e agentes do terrorismo.

Um regime ao serviço do mal, inimigo ajuramentado de todos os esforços de paz arduamente tentados na região, entre os povos de Abraão. 

Este regime, que justifica o seu poder por se reclamar de divino, assenta assim na perpetuação da crueldade como método e no terror como instrumento. 

Nesta ditadura teocrática em que a autoridade do Líder Supremo dispensa o consentimento do povo, o tempo foi acumulando gerações inteiras marcadas por sucessivas camadas de frustrações. 

Não deixa por isso de ser assombrosa a coragem das mulheres iranianas, que, por estes dias, chegou aos picos da heroicidade, enfrentando no seu país o espectro das prisões arbitrárias, da tortura, e das execuções públicas, com o simples desvelar dos seus cabelos. 

E enfrentando tudo isto, sem outro poder que não o da sua dignidade. E, denuncie-se, sem qualquer auxílio do poder mediático internacional, mais uma vez surdo, mudo e atrasado, como quase sempre, quando se depara perante qualquer centelha de irrupção de revolta, em cenários que toma invariavelmente por inamovíveis. 

Cairá esta ditadura? Ainda não sabemos. 

Mas notável já é que estes dias tenham acontecido. E que estes dias tenham despontado pela revolta das mulheres contra a sua submissão.

Porque no centro desta revolta estão mesmo elas. Não estão as potências, não está o “inimigo sionista”, não estamos nós, europeus, não estão as feministas ocidentais, não estão flotilhas, nem está a esquerda pacifista internacional. 

Estão apenas as mulheres persas. As mulheres que recusam continuar a ser corpos tutelados pelo Estado, símbolos de uma moral imposta à força, vidas confinadas a um estatuto de menoridade cívica. 

Ao retirarem o véu, ao ocuparem o espaço público, ao enfrentarem a repressão, estas mulheres não lutam apenas pelos seus direitos. 

Estão a erguer um manifesto vivo, exigindo aquilo que é elementar e que é direito natural dado por Deus em qualquer país, em qualquer lugar: liberdade, justiça e futuro.

Perante esta coragem o silêncio da esquerda radical ocidental tornou-se insuportavelmente nítido. 

Tão empenhada num estafado anti-ocidentalismo e tão consumida pelo seu ódio obsessivo a Israel, esta esquerda escolhe fechar os olhos.

Denuncia, com razão ou sem ela, as falhas das democracias liberais, ergue flotilhas de indignação, mas cala-se quando um regime teocrático esmaga mulheres em nome de Deus. 

Esta hipocrisia não é neutra: é uma forma de cumplicidade.

Porque defender a liberdade não pode ser um exercício seletivo. A luta das mulheres iranianas interpela-nos a todos. Exige solidariedade clara, sem relativismos culturais nem cálculos ideológicos. 

Porque não há causa progressista possível quando se abandona quem arrisca a vida para ser livre.

Cada grito de liberdade no Irão é hoje um espelho da hipocrisia moral daqueles que, por aqui, só não se calam quando o tema é a Palestina.

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Publicado em 12 janeiro de 2026
Carlos Reis

A VENEZUELA NÃO PODE SER TRAÍDA DE NOVO

Carlos Reis

A Venezuela não é hoje uma ditadura por acidente nem por deriva ideológica: é-o por necessidade de sobrevivência de uma elite que transformou o Estado num instrumento privado de saque. 

O regime de Nicolás Maduro assenta no nepotismo, na corrupção sistémica e numa oligarquia que só existe porque controla, sem alternância possível, todos os centros reais de poder. 

Para esse círculo, a democracia não é uma ameaça abstracta — é uma sentença de prisão.

É por isso que qualquer transição democrática seja vista pela clique de Caracas como um cenário intolerável. A resposta tem sido a militarização do regime, a compra de lealdades e a alienação acelerada dos recursos nacionais. A cooptação das Forças Armadas para o narco-negócio e a criação de instituições paralelas num labirinto institucional servem um único objectivo: impedir que o voto tenha consequências.

Diosdado Cabello, número dois do chavismo, simboliza este sistema. 

Após a derrota eleitoral de 2015, o regime esvaziou o parlamento legítimo e criou uma assembleia fictícia para contornar a vontade popular. Em torno de Cabello, como em torno de Maduro, consolidou-se um denso emaranhado familiar: ministérios, impostos, diplomacia e contratos públicos transformaram-se em negócios de clã. Casos de corrupção internacional e ligações ao narcotráfico não são desvios, mas parte integrante do modelo.

O mesmo padrão marcou o legado de Hugo Chávez. Apesar da retórica revolucionária, a sua família construiu um feudo político e acumulou uma fortuna colossal, sobretudo através do controlo directo da indústria petrolífera. Desde 1999, centenas de milhares de milhões de dólares em receitas foram desviados, enquanto a PDVSA era destruída por incompetência e pilhagem.

O resultado está à vista: colapso económico, hiperinflação histórica, fome, ruptura dos serviços básicos e um êxodo em massa. Um país com as maiores reservas de petróleo do mundo foi reduzido à miséria absoluta.

A chamada “Revolução Bolivariana” apresentada no seu alvor como um projecto de justiça social, mas sim um esquema de apropriação predatória. A tragédia venezuelana não é apenas económica ou humanitária — é o produto lógico de um regime que prefere destruir um país a perder o poder.

Com esta gente, que roubou o poder a seguir às eleições de julho de 2024, não pode haver transição. 

É bom que a administração dos Estados Unidos da América entregue imediatamente o poder a quem os venezuelanos confiaram em 2024. 

Não o fazer será trair a Venezuela.

Carlos Reis

A ESCOLHA DA ESTABILIDADE

Carlos Reis

No próximo ano, o nosso país enfrentará um conjunto exigente de desafios, fortemente condicionados por um contexto internacional marcado pela incerteza económica, por tensões geopolíticas persistentes, conflitos regionais, transições energéticas aceleradas e rápidas transformações tecnológicas.

Estes fatores externos terão impactos diretos na economia, nos preços, nas cadeias de abastecimento, no comércio internacional e na segurança, exigindo respostas ponderadas, responsáveis e estratégicas.

No plano interno, será decisivo reforçar a coesão social, promover um crescimento económico sustentável, combater desigualdades e, depois de anos de descaso socialista, assegurar serviços públicos efectivamente eficazes e capazes de responder às necessidades reais dos cidadãos.

A competitividade das nossas cidades e empresas, a criação de emprego qualificado e a atração de investimento dependerão, em larga medida, da nossa capacidade de adaptação a um mundo mais instável e competitivo.

É neste enquadramento que a estabilidade assume uma importância fundamental.

Estabilidade política e institucional, económica e social, não é um fim em si mesma, mas sim a base indispensável do nosso trabalho coletivo.

É ela que permite planear a médio e longo prazo, gerar confiança nos cidadãos, nos investidores e nos parceiros internacionais, e garantir que as reformas necessárias são concretizadas com diálogo, responsabilidade e sentido de futuro.

Mas valorizar a estabilidade não significa imobilismo.

Pelo contrário, significa criar um ambiente seguro para a mudança, a inovação e o progresso. Só com cooperação, compromisso e com uma visão partilhada conseguiremos transformar os desafios do próximo ano em oportunidades para um país mais justo, resiliente e próspero.

E essa estabilidade depende muito de nós – designadamente, saber escolher um Chefe de Estado que seja promotor da estabilidade política e das instituições.

E deixarmos de andar de crise em crise, enredados pelo ruído fátuo dos media.

Darmos o nosso melhor, mas darmos também oportunidade a quem quer dar o seu melhor por todos nós.

Esta é a nossa escolha.

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Publicado em 29 dezembro de 2025
Carlos Reis

NÃO NOS TIREM O NATAL!

Carlos Reis

O Natal, mais do que uma data do calendário, é um marco civilizacional. Representa uma herança espiritual, cultural e simbólica que moldou a Europa durante séculos.

O seu progressivo esvaziamento do espaço público não é um acaso nem um simples reflexo da secularização. É um sintoma de algo mais profundo e inquietante:

  • A rendição cultural de sociedades tão inseguras da sua identidade, que se dispõem a abdicar das suas raízes para evitar qualquer conflito.

Em nome de uma ideia distorcida de inclusão, multiplicam-se decisões que apagam referências cristãs, substituem símbolos históricos por neutralidades artificiais e tratam a tradição maioritária como um embaraço a esconder.

Entre nós, os idiotas úteis, sempre reconfortados pelo silêncio imbecil dos cobardes, começam já a antever a oportunidade de interditar o Natal no espaço público e nas instituições.

É o caso de uma junta de freguesia em Lisboa (Arroios) que assim que mudou de composição política (liderada agora pela coligação da esquerda radical com o PS) decidiu transformar o tradicional Mercado de Natal em “Mercado Comunitário de Inverno”, assim procurando eliminar o Natal da esfera pública.

Pior ainda, um Agrupamento Escolar em Pinhal Novo, Palmela, proibiu os cenários de Natal nas fotografias das crianças.

Estas e outras decisões foram tomadas pela calada e de sopetão, sem participação da população, num caso, ou dos pais das crianças, no outro.

Contando sempre com a indiferença do comentariado e dos referentes da Opinião Pública.

Mas o que os idiotas úteis não entendem é que, ao contrário do que justificam, esta autolimitação não nasce de um diálogo genuíno entre culturas, mas da pressão de minorias cada vez mais vocais, que aprenderam a usar a linguagem dos direitos, para condicionar o espaço comum.

O resultado não é coexistência, mas assimetria: uma cultura que se cala para não ofender, enquanto outras se afirmam em crescendo, e sem pudor.

Defender o Natal não é atacar ninguém.

Pelo contrário, defender o Natal é afirmar que a tolerância não pode ser construída sobre a renúncia unilateral. Porque uma sociedade que abdica dos seus símbolos fundadores perde o fio da sua narrativa coletiva e abre espaço ao vazio identitário, facilmente preenchido pelo ressentimento, móbil dos radicalismos.

A diversidade verdadeira exige raízes firmes, não uma planície cultural rasa onde tudo é permitido, exceto aquilo que nos trouxe até aqui.

Basta olhar para Londres, Berlim, Bruxelas e tantas cidades ocidentais, e olharmos para o que lá se passa, para assistirmos a um verdadeiro terrorismo de rua contra o Natal.

Este é o ponto a que nós, europeus, estamos a chegar: em lugar do Natal, a Jihad, em lugar do presépio, as bandeiras da Palestina e do Hamas, em lugar dos cânticos, a invasão de manifestações ruidosas.

A defesa da nossa civilização faz-se agora. Faz-se aqui, na nossa Europa.

Se a Europa deixar de reconhecer o Natal como parte legítima da sua identidade, não estará a ser mais aberta. Pelo contrário, estará apenas a confessar, perante o Mundo, a sua decadência e fragilidade.

Uma decadência que os outros leem como medo, irmão da vergonha.

E uma civilização que tem vergonha de si própria dificilmente conseguirá defender os valores que diz querer proteger.

Não nos tirem o Natal!

Carlos Reis

UMA GREVE PARCIAL

Carlos Reis

A recente Greve Geral voltou a expor fraturas profundas na sociedade, algumas antigas, outras agravadas pelo contexto económico e político atual.

Por um lado, esta Greve Geral corresponde a uma tradição enraizada da nossa Democracia, fruto da influência conservadora e retrógrada, embora a esvair-se ao longo dos anos, do Partido Comunista no mundo laboral.

Basta referir que das 11 greves gerais realizadas na nossa Democracia, 9 delas foram convocadas contra governos liderados pelo PSD. Aliás, com excepção dos breves governos liderados por Francisco Sá Carneiro e Pedro Santana Lopes, todos os primeiros ministros do PSD tiveram de enfrentar greves gerais (Francisco Pinto Balsemão, Aníbal Cavaco Silva, José Manuel Durão Barroso e Pedro Passos Coelho).

Em contraste, nos oito anos de costismo socialista não houve uma única Greve Geral.

Uma parcialidade evidente de atuação das centrais sindicais.  

Mas há uma outra fractura na sociedade portuguesa, mais nefasta do que a fractura esquerda/direita: 

  • A divisão entre trabalhadores do setor público e do setor privado que se tornou particularmente visível durante a última Greve Geral. 

No setor público a adesão foi amplamente mediática, e impactante ao nível da impossibilitação prática de muitos, que querendo trabalhar, não o puderam fazer, por não terem forma de se deslocar para o trabalho.

A este respeito importa denunciar que a politização recorrente da actividade das empresas de transportes constitui, cada vez mais, um obstáculo para a liberdade dos seus utentes, na maioria trabalhadores.

Nenhum país pode deixar-se capturar por qualquer força organizada de bloqueio. Mas entre nós, a persistência deste problema no nosso país é também um sintoma de ineficiência e de injustiça real no funcionamento da nossa democracia.

Já no setor privado a participação na Greve Geral foi mais difusa e quase irrelevante em termos de alcance económico.

O país, grosso modo, funcionou. 

Esta assimetria entre público e privado levanta assim uma questão central: pode uma greve geral cumprir plenamente o seu suposto papel quando as realidades são tão distintas e os interesses nem sempre são convergentes?

Nesta greve tivemos mesmo o paradoxo de a clara maioria dos grevistas serem aqueles a quem a reforma laboral contestada se não irá aplicar.

Acresce a isto uma politização excessiva de um debate que, paradoxalmente, ainda não teve início formal no espaço próprio da Concertação Social.

Antes mesmo de qualquer análise aprofundada em sede de concertação social, posições rígidas foram cristalizadas no espaço público, transformando um tema complexo num confronto essencialmente partidário, onde os partidos de esquerda querem recuperar agora nos piquetes tudo o que perderam nas urnas de voto. 

Mas isto prejudica todos. 

Este ruído político não só dificulta soluções equilibradas como fragiliza os próprios mecanismos de diálogo social, que deveriam ser o primeiro instrumento para discutir reformas estruturais, salários e condições de trabalho.

Tudo isto ocorre num momento particularmente exigente para as economias europeias. A desaceleração do crescimento, a pressão inflacionista persistente, o envelhecimento demográfico e a necessidade imperiosa das transições energética e digital colocam desafios sem precedentes a todos os países europeus.

Responder a estes problemas exige coesão social, confiança institucional e capacidade de compromisso.

As greves são direitos e instrumentos legítimos de reivindicação, mas perdem eficácia quando se tornam substitutos do diálogo ou quando aprofundam divisões já existentes.

Num contexto europeu particularmente frágil, mais do que slogans ou trincheiras políticas, impõe-se um debate sério, informado e inclusivo sobre o futuro do trabalho e da economia.

E não serão greves parciais, ditas gerais, que resolverão o desafio do crescimento económico, dos salários e rendimentos.

Carlos Reis

UMA CAMPANHA FEITA DE FRASES FEITAS

Carlos Reis

As eleições presidenciais portuguesas chegam num momento decisivo, mas a pré-campanha e os debates têm deixado um sentimento de desilusão. Num tempo que exige clareza, visão estratégica e coragem política, assistimos a tácticas, micro-polémicas e discussões estéreis. 

Falta ao debate público a profundidade necessária para enfrentar um país que, nos próximos cinco a dez anos, terá de se reposicionar num mundo em rápida mutação.

Os debates (que constituem o principal meio de campanha) em vez de iluminarem o país, revelaram, até aqui, demasiados candidatos presos a frases feitas, enredados por moderadores viciados em tricas sem visão.

Num tempo em que Portugal precisa de clareza e coragem intelectual, recebe, na maioria dos casos, teatro político de baixa intensidade.

Nesse sentido, o assassinato de Francisco Sá Carneiro, de que assinalámos 45 anos, veio assinalar uma ironia cada vez mais taciturna, sempre que nos exasperamos com a lentidão do país que queremos ser.   

Entretanto, o mundo move-se depressa. A nova estratégia geopolítica americana, que pressiona a Europa a assumir responsabilidade pela sua segurança e estabilidade, anuncia um tempo de convulsão. 

Isto obriga Portugal a repensar prioridades. 

Se os actuais governos democráticos europeus mais influentes enfrentarem, já a partir do próximo ano, uma queda em estilo dominó — cenário delirante há meia dúzia anos, mas agora cada vez mais angustiante, quanto mais se vai tornando plausível — a margem de manobra nacional poderá encolher, exigindo, portanto, um Presidente capaz de interpretar o momento e agir como âncora constitucional de estabilidade.

Vivemos num momento colectivo em que precisamos de clareza estratégica. 

E é precisamente aqui que a escolha do Presidente ganha importância acrescida: – um Presidente que incentive, mas que deixe o Governo governar, que não confunda influência com intriga, que não se preste a exercícios vácuos de ociosa vaidade pessoal, que não dissolva legislaturas ao ritmo destes últimos anos, que seja respeitado dando-se ao respeito.

Em suma, um Presidente preparado e com noção firme e clara dos interesses nacionais. 

Portugal terá de lidar nos próximos anos com desafios estruturais: modernização económica, deter a pressão migratória, responder ao declínio demográfico, disputar a competitividade tecnológica, assegurar a sustentabilidade energética e reconstruir a confiança num sistema político fatigado.

Perante este futuro incerto, o papel do próximo Presidente é mesmo decisivo.

Por isso estas eleições deveriam ser um debate sobre o futuro de Portugal e não um concurso de candidatos a prémio-carreira. 

O país merece — e precisa — de alguém que compreenda o momento histórico e que tenha ambição para Portugal. Não apenas ambição para si. 

Carlos Reis

A INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL É ASSUNTO NOSSO, DO NOSSO TEMPO

Carlos Reis

As comemorações do 1.º de Dezembro, dia da Restauração da Independência, voltam todos os anos como um lembrete silencioso de que a soberania nunca está definitivamente garantida.

Em 1640, a coragem de um grupo de conjurados, um punhado de nobres patriotas, que tudo arriscaram num único lance contra a maior potência imperial do mundo, naquele tempo, prevaleceu contra todas as probabilidades.

Arriscaram as suas vidas, as suas fortunas e a continuidade das suas famílias e também a sua honra, que geralmente é negada aos vencidos.

Mas um lance decidido e certeiro fez devolver a Portugal a autonomia soberana, perdida durante os sessenta anos da União Ibérica.

Um lance que depois do triunfo inicial, teve de ser continuado e confirmado por 28 anos de guerra, por uma arguta política diplomática, por bons governos, e acima de tudo, por muitos sacrifícios do povo.

Não foi fácil.

Hoje, porém, a defesa da independência nacional já não se faz com espadas nem barricadas, nem há império a defender perante as outras potências. Mas faz-se com lucidez estratégica, coesão social, instituições fortes, e capacidade de antecipar riscos num mundo cada vez mais volátil.

Celebrar esta data não deve limitar-se a mais um feriado em tempos adventícios ou a um ritual cívico discreto na Praça dos Restauradores, em Lisboa.

Este deve ser um momento para refletirmos sobre que independência queremos preservar: a económica, a energética, a digital, a militar, e, acima de tudo, a independência de decisão.

Portugal está integrado em alianças e estruturas internacionais que lhe conferem segurança e prosperidade, mas essa integração não pode significar passividade. Num tempo de pressões geopolíticas, guerras híbridas e dependências externas crescentes, um país médio precisa de estratégia, não de resignação.

A melhor defesa da independência hoje passa por diversificar parceiros, fortalecer a capacidade produtiva interna, proteger infraestruturas críticas, investir na cibersegurança e reforçar a literacia democrática.

E passa também por garantir que o debate público é plural, informado e imune a manipulações externas.

O 1.º de Dezembro recorda-nos que a independência foi conquistada porque alguém ousou querer um país autónomo com o seu próprio Chefe de Estado, e agir em consequência.

Honrar essa herança exige que, coletivamente, não deixemos de questionar se estamos a proteger o nosso futuro com a mesma determinação.

As eleições presidenciais são precisamente o momento mais adequado para pensarmos e decidir em conformidade sobre qual dos presentes candidatos estará mais apto a exercer a chefia do Estado, a garantir o funcionamento regular das instituições democráticas e o comando supremo das Forças Armadas.

Quem, de todos os candidatos, melhor saberá dar corpo ao nosso projecto quase milenar de subsistência de Portugal como nação independente?

Porque essa decisão cabe-nos a nós. Porque a soberania não se celebra apenas – constrói-se, pelas nossas decisões, todos os dias.

Celebramos, com inteira justiça, a coragem e patriotismo dos nossos egrégios avós. Mas temos de decidir agora, no nosso tempo, se queremos e como queremos continuar Portugal, e quem deve representar esse desígnio colectivo.

Carlos Reis

QUO VADIS, EUROPA?

Carlos Reis

A recente “proposta de paz” para a Ucrânia apresentada por Donald Trump ao presidente ucraniano não merece ser tratada como genuína oferta de reconciliação, mas antes como um plano de capitulação da Ucrânia. Tal como têm sublinhado críticos credíveis, o documento — conhecido como o plano de 28 pontos — impõe à Ucrânia concessões drásticas: a cedência de território (inclusive de áreas não conquistadas pelos russos no terreno), o desarmamento parcial, e a recusa da adesão à NATO.

Isto não é propriamente um “plano de paz”, mas sim a formalização da rendição da Ucrânia perante a invasão russa.

São assim acolhidas e propostas pela administração norte-americana as pretensões da Rússia.

Ao propor reconhecer no papel mudanças territoriais e limitar a soberania ucraniana, os americanos não só se afastam das suas próprias responsabilidades de garantes da paz e segurança da Europa como igualmente repudiam mais de três anos de esforço heroico de um povo que lutou bravamente pela sua nação.

Passa a valer na Europa a Lei do Mais Forte. Um novo quadro geopolítico que destrói a ordem definida pelo pós-Guerra e a substitui pelo possível caos de todos os irredentismos, a partir de agora reconstituídos como legítimos, e cuja materialização apenas dependerá da força e vontade de cada um.

É igualmente um golpe na NATO e na sua capacidade de dissuasão, assente no empenhamento visível e credível da sua principal potência em defender qualquer um dos seus aliados.

Ao aceitar-se a proibição ou a limitação a presença de tropas da NATO na Ucrânia, esta deixa de ter quaisquer garantias de segurança, transferindo para a Ucrânia o ónus maior da paz, consubstanciado na sua mutilação territorial e na imposta limitação da sua soberania.

Finalmente, a Europa foi ignorada — ou colocada de lado — nesta iniciativa. A voz dos aliados europeus não parece ter sido integrada na génese do plano e, conforme analistas, o documento reduz o papel europeu ao de mero espectador. O que significa que a Europa verá a sua soberania estratégica e o seu papel geopolítico marginalizado: a paz para a Ucrânia transforma-se numa negociação entre EUA e Rússia, com a Europa à espera, à porta.

O que deve fazer então a Europa?

Em primeiro lugar, ser coerente com as suas proclamações. Porque de nada servirá reafirmar que a paz digna da Ucrânia deverá passar pela plena soberania, integridade territorial e respectiva capacidade de defesa, se as suas principais potências militares e económicas não estiverem disponíveis para continuar (e reforçar) a sua assistência militar e financeira, inclusive com a possibilidade de apoio directo no terreno.

Em segundo lugar, a Europa deve construir um mecanismo autónomo de segurança e defesa em relação ao flanco oriental: a União Europeia terá de reforçar as suas instituições, intensificar a cooperação militar dos seus membros, formalizando-se também numa aliança militar defensiva e não esperar apenas pelos EUA.

Em terceiro lugar, a Europa deve falar claro e defender também diplomaticamente a Ucrânia, rejeitando desde já os termos que lhe foram impostos.

Porque se a União Europeia e os seus Estados-membros aceitarem ficar à margem enquanto outras potências redesenham o mapa da Europa, estarão a comprometer não só a Ucrânia, mas a própria segurança europeia.

A Europa deve recuperar a iniciativa — antes que perca de vez.

Porque a Paz não será legítima se for sinónimo de rendição.

Quo vadis, Europa?

Carlos Reis

O DESCALABRO DA BBC SERVE-NOS DE AVISO

Carlos Reis

Esta semana assinala-se o Dia Mundial da Televisão (21 de novembro) proclamado pela ONU em 1996 para refletir sobre o papel central da televisão na comunicação e na globalização.

Será por isso oportuno refletir sobre a crise de credibilidade e de identidade que atravessam os media audiovisuais tradicionais nas democracias ocidentais. 

Assistimos agora estupefactos ao abalo sísmico na BBC, que constituiu durante décadas a referência universal de rigor e credibilidade. 

De facto, quando uma das mais importantes e simbólicas instituições britânicas é desmascarada a falsificar um discurso político de um chefe de estado, e uma jornalista que confirma um caso de perseguição e de condicionamento após ter corrigido em directo um teleponto que noticiava que “pessoas” que tinham engravidado, narrando em vez disso que as mulheres que tinham engravidado (o que a transformou aos olhos das chefias em adversária da comunidade trans) é fácil concluir-se que a BBC se tornou num instrumento anti-liberal e anti-verdade. 

O que nem as subsequentes demissões das chefias da BBC resolveram, pois a responsabilidade (até mesmo a cumplicidade) radica no próprio colectivo da redação e da equipa editorial, percebendo-se que é o próprio edifício democrático, muito alicerçado no “quarto poder”, que está infiltrado pela doença woke. 

Com efeito é inteiramente legítimo que se observe a crise da BBC como a confirmação de um problema mais global, severo e profundo: as redações dos media ocidentais mais influentes deixaram-se capturar por agendas ideológicas, a um ponto tão descarado que compromete irremediavelmente a confiança dos públicos.

Sejamos claros: a televisão pública não pode ser militante. 

A sua força (que é igualmente a sua justificação) reside na neutralidade institucional, na sobriedade, na representação plural das vozes e na abertura do debate democrático. Por isso quando os cidadãos passam a desconfiar do enquadramento editorial — seja por excesso de zelo político, seja por activismo interno — o serviço público perde o seu propósito.

E Portugal não está imune a esta deriva. 

A RTP, enquanto operador financiado por todos, tem uma responsabilidade acrescida: evitar que a perceção de enviesamento se consolide em desconfiança estrutural. 

Sem ser preciso recuar ao tenebroso tempo dos governos Sócrates, e da sua tentativa de captura do Estado de Direito, basta confirmar, nos últimos anos, vários episódios de controvérsia na gestão editorial, inúmeras e justificadas críticas de falta de pluralismo, e a evidência de novas e impostas invisibilidades em substituição das antigas e outrora persistentes.

Por isso, hoje, mais do que nunca, a RTP necessita de reforçar padrões de transparência, escrutínio e rigor.

A televisão pública deve ser um espaço de confiança, e não de disputa ideológica. 

O caso da BBC serve de aviso: reputações construídas ao longo de gerações podem ruir num instante. 

Não acrescentemos por isso a outros problemas existentes de natureza estrutural, criados em função da evolução tecnológica e de novas necessidades dos púbicos, mais problemas conjunturais gerados pelos ativismos e pelas militâncias. 

Porque sem credibilidade e rigor nem os britânicos têm de sustentar a BBC nem nós teremos de pagar a RTP.

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