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Francisco Gonçalves

O ESTADO QUE FALHA

Francisco Gonçalves

As últimas semanas foram marcadas, por cá como na Europa, por protestos. Com menor ou maior violência se protesta contra o Estado e o estado de coisas. Pode começar numa ponta e nela ficar, como pode alastrar a todo o corpo, como de uma doença que, ainda que em dormência, está lá.

Estes protestos não são mais do que a revolta dos cidadãos perante a tomada de consciência da degradação do Estado-social, bem como as consequências dessa degradação para as suas vidas.

Em Portugal o moto foi a habitação, uma emergência nacional que há mais de 10 anos era previsível, hoje é apenas evidente.

Há, por estes dias, que separar quem nestes casos protesta, de quem faz militância política. Outra das consequências de uma sociedade polarizada e extremada é ter causas justas instrumentalizadas por quem apenas quer tirar vantagem política. Descredibilizam a causa e desrespeitam o desespero dos que vivem desesperados.

Ouvir alguns dos que protestam, os que apenas estão em modo desespero, é um murro no estômago, como se José Mário Branco cantasse (ou declamasse) novamente o seu “FMI”,

Adriano Moreira avisou, há anos, como a fronteira da pobreza se tinha movido para norte do mediterrâneo. Hoje sabemos que, sem apoios sociais, temos cerca de 40% de pobres. São muitos desses pobres que deixaram de ter razão para não protestar.

A habitação é tema, mas pode ser rastilho. Da habitação podemos facilmente saltar para a saúde e daí para a educação. De um tema passamos então a falar sobre outro, ou sobre como começámos: a degradação do Estado-social e das políticas públicas.

No entretanto, falta, para sossegar quem grita, esperança.

Não vai havendo razões para ter esperança, e isso que se sente.

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Publicado em 21 outubro de 2026
Francisco Gonçalves

VIVER ATÉ AO FIM

Francisco Gonçalves

A sociedade contemporânea vive numa estranha contradição: vive-se mais mas, quando envelhecemos, passamos a ser um incómodo.
Nada disto é novo, não faltam velhos sós – em casa, nos lares ou nos hospitais.

As causas são várias, mas este é um problema que não se combate pelas causas. Não podemos parar a tendência para o individualismo da sociedade contemporânea, que também decorre de fatores como a vida na urbe ou do capitalista, que fizeram diminuir a densidade social.

As redes que conhecíamos, que faziam o amparo no passado, não têm mais paralelo na vida atual. O Estado Social, que ocupou esse espaço, nunca foi (e certamente não será agora que irá) tão profundo, até porque é uma construção institucional, não é relacional, familiar ou íntima. Só o poder local, e as redes que constrói, pela sua lógica de proximidade, pode fazer esse papel.

A exposição “É Depois da Solidão”, que está patente até 15 de outubro no Parque dos Poetas, em Oeiras, conta as histórias desses seniores maiores, olhando-os como pessoas com vida própria, ativas, e não como estorvos ou agentes recetores de cuidados.
São, no fundo, histórias de vida de pessoas que recusaram deixar de viver. Ou, melhor, que escolheram viver até ao fim.

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Publicado em 14 outubro de 2026
Francisco Gonçalves

O PÃO NOSSO DE CADA DIA

Francisco Gonçalves

Se há tema capaz de unir uma larga fatia dos portugueses, esse tema é o pão. Seja sobre o preço, seja sobre a qualidade, todos temos qualquer coisa a dizer sobre o pão. Nas últimas décadas, o pão perdeu qualidade e subiu no preço. Seja pelas farinhas, seja pelos fermentos, o pão, presente em todas as mesas, começou até a ser afastado da nossa dieta.

Confesso: adoro pão! Trigo, centeio, com sementes, alfarroba, girassol, etc.. importa é ser bom!

Depois de o pão ter passado por um processo de industrialização que lhe retirou qualidade, surgiu, nos últimos anos, um movimento de nicho, de padarias ditas “gourmet”, pouco acessíveis no dia-a-dia para as bolsas dos portugueses.

Não são as padarias gourmet que fazem falta (perdoem-me, sei que há lugar para todos). O que nos faz falta é a padaria de bairro, a que nos trazia o pão de cada dia, em volta do qual nos juntávamos e que nos juntava.

Pão não é apenas alimento, pão é cultura, familiaridade e amor. O partir do pão e o seu repartir tem muito de simbólico na nossa sociedade.

Encontrei esse pão recentemente em Gimonde, uma pequena aldeia ao lado de Bragança. É nesse Portugal profundo que a Elisabete Ferreira nos traz de volta a esse pão. Fá-lo como negócio, naturalmente, mas também como ato de amor à arte e à cultura do pão.

Talvez seja essa a sorte de Portugal: ter sempre uma padeira para nos recordar quem somos.

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Publicado em 07 outubro de 2026
Francisco Gonçalves

SABER VIVER É UMA ARTE

Francisco Gonçalves

Quase todos os dias faço exercício na mesma zona do Concelho de Oeiras. Quase todos os dias (de bom tempo) cruzo-me com um grupo de seniores que todo o ano fazem a sua caminhada no Passeio Marítimo de Oeiras.

Quase todos têm mais de 75/80 anos. São um exemplo do que é o envelhecimento ativo.

Durante os meses de verão, porém, há uma inveja branca que se apodera de mim: quando terminam o exercício, vejo-os na praia de Caxias. São, normalmente, os primeiros a chegar.

Este grupo é exemplar quer no que respeita às mudanças de comportamento dos tempos atuais, quer ainda na boa utilização das novas infraestruturas públicas (o passeio marítimo, que décadas antes era uma miragem) e de praias que não existiam (seja pela falta de areia quer pelas aguas que antes estavam poluídas).

A vida mudou muito. Há alguns anos, quando o verão chegava, os jovens eram os “donos da praia”. Eram eles que as usavam e eram eles quem lhes trazia alegria. Hoje há um novo grupo a tomar conta da praia: os que sabem envelhecer. Saber viver é uma arte.

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Publicado em 30 setembro de 2026

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