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Afonso Melo

O LADO FRESCO DA ALMOFADA

Afonso Melo

Geralmente é um alívio. O lado fresco da almofada em noites de calor como estas. Também foi um alívio aqui em Houston. Num jogo sem história Ronaldo entrou para a História: primeiro a marcar em seis Mundiais seguidos. De resto, cinco golos claros e límpidos como os olhos de Elizabeth Taylor e uma sonolência de mosca tsé-tsé. Lembram-se do diálogo d’Os Maias? Na festa dos Cohen, o Ministro pergunta ao Carlos, acabado de chegar de Londres: “Em Inglaterra também há grandes romancistas, folhetinistas de génio?”

E o Carlos com um descaramento divino: “Fique sua excelência sabendo que em Inglaterra não há literatura”. E o outro. “Logo vi, logo vi. Um povo essencialmente práctico!” Essencialmente práctico? Portugal. E eles? Um golo anulado e só. Ah! Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! A felicidade curta do pobre que mete a mão no bolso e só de lá tira cinco dedos. E assim, instalados na sua ausência, conseguiram que até o Ronaldo que parecia não meter medo a ninguém se mostrasse capaz de apavorar hipopótamos.

Dançou como um dervixe e levitou como um monge do Tibete. Devagar, devagarinho, como a neve que caía na balada de Augusto Gil, o tempo foi passando entre passes e repasses. O povo ficou feliz e gritou em coro o nome do homem que tanto quer gritar: Cristiano Ronaldo. Um fim adiado. E assim, desde que Adão foi expulso do Paraíso nunca voltou a estar tão perto dele outra vez.

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Publicado em 23 junho de 2026
Afonso Melo

MENINOS PERDIDOS NA FOZ DO CONGO

Afonso Melo

Toda a gente sabe que quem quer ir à Lua tem de fazer escala em Houston. Mas a nossa lua não vai para além da Baía do Congo. Admite-se que o próprio Diogo Cão tenha andado um bocado às aranhas para se orientar por aquela zona. Mas decididamente não tanto como os meninos que Portugal alimenta a pão-de-ló.

“Um ritmo lento de andar na areia”, diria o velho Drummond. É o que se arranja. Ser sensato é uma virtude. Mas todos nós conhecemos uns fulanos muitíssimo sensatos que têm uma tendência irrevogável para se tornarem chatos como o K20 que é o símbolo químico da vulgar potassa. A sensatez faz com que se leve tempo a pensar. Mas em que pensa tanto aquela gente sem ideias? Duas diferentes noções de tempo: os outros tinham pressa e nós não. Podem não ter sido tão sensatos mas o resultado foi o mesmo.

Costumo dizer: nada urgente continua urgente ao fim de seis meses. Podíamos ter ficado ali seis meses e a urgência passaria ensonada, de pijama debaixo do braço à procura de um divã onde se deitar. Precisávamos de um bilhete para a Lua, mas ele não cai da mesma se estivermos de mão nas algibeiras. Também podemos passar noites inteiras a olhar para ela que isso não faz com que nos caia do colo. Talvez ir à Lua seja um desejo arrojado. Se calhar o melhor é ficar por Houston. Poupa-se uma viagem.

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Publicado em 17 junho de 2026

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