
Afonso de Melo
Há portugueses injustiçados e doem-me essas injustiças. Não os exemplos de portugalidade, esse vocábulo inventado no Estado Novo e que rescende ao estertor do velho Império que ia do Minho a Timor. Um universo de portugueses injustiçados. Ou um mar, se preferirem. Um mar que não pode saber de cor o nome de todos os seus afogados. “No meu país não acontece nada/o corpo curva ao peso de uma alma que não sente/Todos temos janela para o mar voltada/o fisco vela e a palavra era para toda a gente”, escreveu Ruy Belo, poeta injustiçado pelo país dos poetas, dizem.
Injustiçado porque já ninguém o lê e lê-se por aí tanta merda. Um poeta que soube encontrar as feridas de Portugal e fazer falar as suas cicatrizes. O Portugal Nação-Cadáver do Herculano cada vez mais terra de ninguém do pontapé-na-chincha. Somos a nossa própria injustiça. Somos aquilo que queremos e muitos de nós que aqui vivemos não queremos isso. Mas ficamos fechados dentro de nós por vergonha de ser contra nós.
“No meu país não acontece nada/à terra vai-se pela estrada em frente/Novembro é quanta cor o céu consente/às casas com que o frio abre a praça”. Prefiro ler poemas do que ler comunicados. Prefiro aquilo de que gosto ao lixo que me impingem. Portugal é triste mas não precisa de ser uma tradução de francês ou inglês em calão. As vozes dos injustiçados não se resumem a oito pontos, e nenhum deles final. As vozes dos injustiçados dizem: “Que cobre os campos neste meu país do sul?/A gente é previdente cala-se e mais nada/A boca é pra comer e pra trazer fechada/o único caminho é direito ao sol”.
Os nossos filhos não lêem Ruy Belo. Os nossos netos nunca o lerão. Já nem depende de nós, pais e avós. Há poetas que o país não quer. Este melancólico país de poetas que não gosta dos seus poetas inconvenientes. País conveniente e conivente. País em ente. País doente. País
da velha lei mental pastilhas de mentol. “Morre-se a ocidente como o sol à tarde/Cai a sirene sob o sol a pino/Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde/Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?”
Já não há encruzilhadas nem Bojador além da dor. Somos a praia ao sol enquanto o Inverno não chega e o resto que se quilhe. De janela para janela as vizinhas insultam-se por um raminho de alecrim. “A minha terra é uma grande estrada/que põe a pedra entre o homem e a mulher/O homem vende a vida e verga sob a enxada/O meu país é o que o mar não quer”.

Afonso de Melo
Portugaldo. Ou o país que temos e que queremos. Nos últimos 30 anos Ronaldo foi mais do que Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque e Pessoa e Saramago e Maria João Pires e Vieira da Silva e o diabo a quatro. Leiam a enormidade bacoca do que se escreveu. Nos últimos três dias estamos reduzidos a quatro sílabas e de plástico que é mais barato.
Cartazes e telejornais, primeiros-ministros e secretários de estado (com letra pequena), festivais da confusão e da especulação. Gosto dele. Do Ronaldo, quero dizer. Foi um dos meus meninos na Selecção Nacional. Sou amigo dele. Ele ser meu amigo depende dele. Conheci-o com 17 anos, agora tem 41. Séculos de distância. Não opino. Constato.
Portugal parado à espera do seu desabafo. Portugal à espera. Portugal sempre à espera do futuro porque não consegue digerir o presente. No campo, a bola corre. Na vida da gente a vida corre porque temos fome e temos sede e contas para pagar e casas para cuidar e pais e filhos para amar e nós próprios para sobreviver e, francamente!, isso custa às vezes tanto, tanto, que nem conseguimos dormir. E que importa? Um país preso de repente de um acordo ou desacordo, de uma frase ou de um gesto desabrido, ou do quê afinal? O nosso povo, quase milenar tem a sabedoria de saber: nada urgente continuará urgente ao fim de seis meses.
Os irmãos desavindos abraçar-se-ão, lágrimas irão escorrer na altura dos abraços reconciliadores, um faduncho de saudade soará como música de fundo porque essa é a inevitabilidade da nossa idiossincrasia. A espuma dos dias chamou-lhe Boris Vian. Viva lá o seu compadre!, dizia o Vilaça do divino Eça. Haja pachorra, digo eu.

Afonso de Melo
Contava Dostoyevsky que nos confins da Sibéria, entre a estepe e a montanha e a floresta impenetrável, Aleksander Gorianthivok aprendeu a perder a esperança. Mais do que estar preso num campo penal estava preso dentro de si próprio. Homens presos dentro de si próprios têm a tendência de correr para o suicídio como os antigos casalinhos amoráveis frustrados saltavam do viaduto Duarte Pacheco. Suicidários portanto.
Gente para qual a vida deixou de ter sentido a partir do momento em que percorrem corredores infinitos que desembocam em mais corredores infinitos num carrinho de pedais como Danny a ver coelhos pornográficos no Shining de Stanley Kubrick.
Se Rui Costa quis transformar o Benfica num filme apavorante escolheu o realizador certo: comprou Silva, uma versão de Lage mas com menos currículo.
A Casa dos Mortos da Luz entrou nos carris do Comboio Fantasma: só se assustam os inocentes; os adultos encolhem os ombros. Uma planície deserta de ideias e de convicções estende-se até ao horizonte e provavelmente mesmo para lá dele. Em redor o silêncio espalha-se como um cancro. ‘Odiei-te com afecto; amei-te com ódio; foste-me, em suma, indiferente’: um aforismo construído sobre paradoxos. Faz sentido quando a descrença é a única coisa que passou a fazer sentido. Olhamos para o que se passa e vemos presidente e treinador a fazer a figura da velhinha que perdeu a agulha na cozinha e foi procurá-la na varanda. Quando lhe perguntaram porquê respondeu: ‘na cozinha não há luz, vou procurar aqui que está iluminado’. A lógica é irrefutável. Mas duvido que encontrem a agulha.

Afonso de Melo
Como diria o António Silva no Pátio das Cantigas; ‘manda saudades que é coisa que cá não deixas’. Partiu e não deixa saudades este Portugal de uma confrangedora tristeza. Nem saudades nem memória. Felizes o que podem esquecê-lo. Trazia para a América, numa mala de carteiro, carregada de sonhos e erros de ortografia, a lenda ao pescoço. Menino de sua mãe que resolveu crer que era lindo como os demais. A inocência estava escondida por debaixo das fraldas. Os homens que o digam. Há mais de 30 anos que ando pelo mundo a ver Mundiais.
Aprendi logo no primeiro dia : não têm espaço para a mediocridade nem para a cobardia.
Aprendi logo no primeiro dia : não têm espaço para a mediocridade nem para a cobardia. Fomos medíocres e cobardes, paz à nossa alma. Apesar de tudo, os bardos da inconsciência fizeram-se ouvir elogiando o oco da nossa mentirosa grandeza: eram a voz da quarta pessoa do singular. A equipa de lavores, do crochet e tricô rompeu pelas suas costuras esgarçadas. Fomos um baloiço à beira de um poço como no poema de Sá Carneiro. ‘Cá por mim não mudo a corda/Se o indez morre deixá-lo/Balouçar-se enquanto vive…’ Vivemos pouco. E depressa. Mas não fomos um cadáver bonito. Fomos da vida vidinha do O’Neill à qual nenhuma poesia resiste. Andem agora por aí com uma lanterna à luz do dia à moda de Diógenes procurando um homem e um culpado. Com a mesma lanterna procurem um líder. Nem às escuras.
Desculpem-me por esta análise tão longa mas não tive tempo para escrever uma mais curta. Para mentalidades curtas os parágrafos são excessivos. Não vou a enterros e não fui a este (talvez um dia vá ao meu). Vim embora na véspera. Fico-me com o anátema da inexistência: ‘Mudar a corda era fácil/Tal ideia nunca tive’. Jamais um adeus foi tão justo. Graças a um Deus menor.

Afonso de Melo
Somos uma equipa de lavores. Exímios no crochet. E no ponto de cruz e em rendas de bilros. Fazêmo-lo à moda das velhas cerzideiras de outros tempos. Somos de passar e repassar mas não de fazer tapetes que conduzam a vitórias irrevogáveis. Poderíamos muito bem ser treinados pela saudosa Etelvina Lopes de Almeida da revista Modas e Bordados.
Manda dizer a verdade que temos gente que a qualquer momento pode inventar um golo. Mas também dava jeito que, para isso, essa gente se aproximasse mais da baliza contrária ou, pelo menos, levantasse os olhos para a ver. Parece que esta equipa está destinada a não ser valente nem imortal. Não há nenhum esplendor neste Portugal de uma nota só- o dó. Há certos momentos em que pratica um futebol incomestível com manteiga rançosa, esquecendo-se de que a fantasia também pode ser eficaz. Diriam os ingleses com o seu humor condescendente: ‘boring team’.
Dirá o nosso bom povo, de Santa Marta de Penaguião a Chão de meninos, à sua maneira malandra: ‘somos 11 mas 11 à hora’. Os colombianos pareciam doninhas num piquenique de sábado à tarde. Não vieram para cima de nós com a fúria de uma rapariga ruiva, mas também não se montaram nas suas tamanquinhas.
E a noite foi chegando a cavalo como nos filmes do faroeste. Numa coisa estavam ambos de acordo: o jogo seria disputado no meio campo de Portugal. A selecção pode ter aborrecido os pobres espectadores que ficaram acordados pela madrugada aí no rectângulozinho atlântico mas decididamente não aborreceu o adversário. Talvez com medo que ele se escamasse.
Aconselhava um velho treinador brasileiro: quando não conseguires ganhar, empata; quando não conseguires empatar, engana. Nisso fomos brilhantes: empatámos-nos e continuamos a enganar quem nesta equipa acredita. Já o Pitigrilli preferia: ‘quando te parecer que é demasiado tarde para começar uma coisa começa-a logo’. Está visto que não somos bons em começos. O que falta fazer? Tudo!

Afonso de Melo
Geralmente é um alívio. O lado fresco da almofada em noites de calor como estas. Também foi um alívio aqui em Houston. Num jogo sem história Ronaldo entrou para a História: primeiro a marcar em seis Mundiais seguidos. De resto, cinco golos claros e límpidos como os olhos de Elizabeth Taylor e uma sonolência de mosca tsé-tsé. Lembram-se do diálogo d’Os Maias? Na festa dos Cohen, o Ministro pergunta ao Carlos, acabado de chegar de Londres: “Em Inglaterra também há grandes romancistas, folhetinistas de génio?”
E o Carlos com um descaramento divino: “Fique sua excelência sabendo que em Inglaterra não há literatura”. E o outro. “Logo vi, logo vi. Um povo essencialmente práctico!” Essencialmente práctico? Portugal. E eles? Um golo anulado e só. Ah! Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! A felicidade curta do pobre que mete a mão no bolso e só de lá tira cinco dedos. E assim, instalados na sua ausência, conseguiram que até o Ronaldo que parecia não meter medo a ninguém se mostrasse capaz de apavorar hipopótamos.
Dançou como um dervixe e levitou como um monge do Tibete. Devagar, devagarinho, como a neve que caía na balada de Augusto Gil, o tempo foi passando entre passes e repasses. O povo ficou feliz e gritou em coro o nome do homem que tanto quer gritar: Cristiano Ronaldo. Um fim adiado. E assim, desde que Adão foi expulso do Paraíso nunca voltou a estar tão perto dele outra vez.

Afonso de Melo
Toda a gente sabe que quem quer ir à Lua tem de fazer escala em Houston. Mas a nossa lua não vai para além da Baía do Congo. Admite-se que o próprio Diogo Cão tenha andado um bocado às aranhas para se orientar por aquela zona. Mas decididamente não tanto como os meninos que Portugal alimenta a pão-de-ló.
“Um ritmo lento de andar na areia”, diria o velho Drummond. É o que se arranja. Ser sensato é uma virtude. Mas todos nós conhecemos uns fulanos muitíssimo sensatos que têm uma tendência irrevogável para se tornarem chatos como o K20 que é o símbolo químico da vulgar potassa. A sensatez faz com que se leve tempo a pensar. Mas em que pensa tanto aquela gente sem ideias? Duas diferentes noções de tempo: os outros tinham pressa e nós não. Podem não ter sido tão sensatos mas o resultado foi o mesmo.
Costumo dizer: nada urgente continua urgente ao fim de seis meses. Podíamos ter ficado ali seis meses e a urgência passaria ensonada, de pijama debaixo do braço à procura de um divã onde se deitar. Precisávamos de um bilhete para a Lua, mas ele não cai da mesma se estivermos de mão nas algibeiras. Também podemos passar noites inteiras a olhar para ela que isso não faz com que nos caia do colo. Talvez ir à Lua seja um desejo arrojado. Se calhar o melhor é ficar por Houston. Poupa-se uma viagem.