
Manuel Soares de Oliveira
Talvez não haja hoje político mais subestimado na política portuguesa do que Luís Montenegro.
Durante anos, os comentadores decretaram que nunca passaria de mais um deputado discreto. Depois garantiram que, no máximo, seria um líder parlamentar sem grande futuro. Quando chegou à liderança do PSD, a previsão manteve-se: se lá chegasse, seria por pouco tempo.
Falharam em todas as previsões. E continuam, curiosamente, sem perceber Montenegro.
Esquecem-se de um detalhe incómodo: Montenegro já ganhou duas eleições legislativas e lidera um governo que, até agora, tem sido um raro exemplo de estabilidade e sobriedade política, sobretudo quando comparado com a barafunda que marcou os últimos tempos do ciclo socialista.
Talvez porque o estilo de Montenegro contrarie a fantasia que muitos comentadores têm da liderança política. Não há grandes proclamações históricas nem discursos inflamados sobre o destino do país. Há apenas uma insistência algo prosaica naquilo que a maioria dos eleitores realmente valoriza: previsibilidade, moderação e ausência de drama.
Há uma razão simples para isso. O eleitor português valoriza profundamente a estabilidade e olha com desconfiança para políticos messiânicos que prometem “grandes reformas”. Esse conceito mítico de que todos falam e que ninguém sabe exatamente ao que se refere.
No fundo, todos os portugueses querem reformas , desde que não mexam nos seus próprios interesses.
Reformas, sim. Mas sempre para os outros.
Os comentadores confundem muitas vezes carisma com a capacidade de fazer discursos inflamados que levantam multidões. Mas há outro tipo de carisma: o que nasce da sensação de confiança que um político transmite. É um carisma menos teatral, mas muitas vezes mais duradouro.
A política portuguesa já viu este filme antes. Quando apareceu, Passos Coelho também foi descrito como tudo aquilo que um político não deveria ser: inexperiente, demasiado partidário, sem vida fora da política e incapaz de entusiasmar quem quer que fosse.
Com o tempo, porém, a memória coletiva tem um curioso efeito amnésico. O político cinzento de ontem transforma-se no estadista que afinal tinha razão. E o líder pessimista passa a ser recordado como uma espécie de D. Sebastião reformista que um dia voltará para salvar o país.
Mas talvez a maior ilusão política do momento seja a ideia de uma grande união das direitas. A fantasia de que Passos Coelho e André Ventura poderão formar a dupla dinâmica que salvará Portugal.
Parece uma boa estratégia. Mas as estratégias são sempre excelentes, até esbarrarem na realidade. Acreditar que Ventura aceitará o papel de actor secundário nesse filme revela uma profunda incompreensão da natureza humana e da natureza do próprio Ventura.
Ele já saiu da garrafa.
E não tem a menor intenção de voltar para lá, nem ele, nem os seus eleitores.

Manuel Soares de Oliveira
Pode ter muitos defeitos, mas o nosso estimado Presidente Marcelo não é ingénuo. Assim que percebeu que teria de ir a Coimbra repetidas vezes durante as cheias, tratou de afastar discretamente a senhora presidente da Câmara, pessoa de verniz raso e compostura frágil. Um pequeno pre-emptive strike institucional, sob a forma de um elogio público à personagem.
Com pessoas destas, que não foram sobrecarregadas por refinamento, bastam dois ou três elogios bem colocados para produzir efeitos imediatos. Derretem-se. Interpretam-nos como aceitação num clube ao qual sempre aspiraram pertencer, quando na verdade funcionam sobretudo como sinalização para os restantes presentes: atenção, há aqui alguém socialmente desafinado.
Num país onde o Big Brother e o Preço Certo continuam a liderar audiências, comportamentos pouco polidos não penalizam; pelo contrário, rendem dividendos eleitorais. Vivemos numa era em que a teatralidade vale mais do que o conteúdo. Apostaria que as equipas de comunicação já estarão a preparar um vídeo para as redes sociais onde a autarca surge a pôr um ministro na ordem, versão heroica incluída.
Houve um tempo, talvez mitológico, em que a política era ocupada por pessoas que sabiam usar talheres e eram parcimoniosas nas opiniões que proferiam. Confesso alguma saudade desses agrupamentos partidários compostos por criaturas civilizadas, onde a formação era exigida e o decoro não era visto como elitismo, mas como higiene básica. Os políticos não berravam na rua nem faziam da televisão um prolongamento da tasca.
O processo de erosão começou cedo, com os primeiros governos de Cavaco, quando fomos convidados a aceitar uma galeria de figuras que exibiam as suas origens provincianas como certificado de pureza política. O tempo encarregou-se de mostrar que o défice de civilidade não imuniza ninguém contra os vícios do poder. Encantados com o novo estatuto, acabaram queimados como tantos outros, com ou sem pedigree.
Sou realista por natureza e aceito que esta nova realidade veio para ficar, com tendência para piorar. A descida qualitativa tornou-se inevitável a partir do momento em que passámos a ter comentadores de futebol como líderes partidários e líderes partidários a aspirar a comentadores de futebol. A discussão política transformou-se numa conversa entre claques, cada qual entregue ao seu fanatismo e cuja principal preocupação é humilhar publicamente o adversário. Nem que, para isso, se recorra a distorções, mentiras e insultos pessoais.
E, ao que parece, também a peixeiradas em direto nos telejornais.