Para o Banco Mundial, Portugal é um país de rendimento elevado. Está classificado no mesmo grupo que Alemanha, França, Japão e Estados Unidos. O seu Índice de Desenvolvimento Humano coloca-o entre os quarenta países mais desenvolvidos do planeta. Ainda assim, mais de um quarto da nossa população vive abaixo do limiar da pobreza.
O número vem da Rede Europeia Anti-Pobreza e não é uma estimativa pessimista. É uma correcção metodológica simples: quando se desconta do rendimento das famílias o que estas pagam pela habitação, a taxa de risco de pobreza sobe dos 16,6% das estatísticas do INE para quase 28%.
Importa perceber o que significa esse limiar. Na metodologia europeia, uma pessoa está em risco de pobreza quando o seu rendimento disponível é inferior a 60% do rendimento mediano do país onde vive. Não é, necessariamente, quem passa fome: é quem não tem margem.
A diferença entre os 16,6% oficiais e os quase 28% reais não é técnica, é política. O indicador oficial ignora o custo de “ter onde dormir”. É uma fotografia tirada com a lente errada, que produz um retrato mais tranquilizador do que verdadeiro e que serve, com alguma conveniência, para justificar a inacção.
Com estes quase 28%, Portugal aproxima-se de países como o Egipto ou as Filipinas em termos de proporção de população vulnerável e estas são duas nações que o próprio Banco Mundial classifica em categorias de rendimento muito inferiores.
E entretanto, o grande debate nacional é sobre onde se pode espetar um guarda-sol na praia.
Há qualquer coisa de fábula nisto. É “A Cigarra e a Formiga”, mas com os papéis distribuídos por convite. Uma parte do país debate o guarda-sol. Vinte e oito por cento tenta chegar ao fim do mês.
É irresistível a metáfora: a agenda política tapa o sol com a peneira e a peneira é um guarda-sol. Debate-se com paixão onde o fincar na areia enquanto se ignora onde as pessoas dormem.
Um país que debate o guarda-sol com mais seriedade do que a habitação faz por merecer os números que tem. Mas são as pessoas que merecem melhor.
A conta, porém, já chegou. Chega todos os meses, na forma de uma renda ou de uma prestação que consome o salário antes de ele ter tempo de respirar.
É irresistível a metáfora: a agenda política tapa o sol com a peneira e a peneira é um guarda-sol. Debate-se com paixão onde o fincar na areia enquanto se ignora onde as pessoas dormem.
Há qualquer coisa de fábula nisto. É “A Cigarra e a Formiga”, mas com os papéis distribuídos por convite. Uma parte do país debate o guarda-sol. Vinte e oito por cento tenta chegar ao fim do mês.
Um país que debate o guarda-sol com mais seriedade do que a habitação faz por merecer os números que tem. Mas são as pessoas que merecem melhor.
(O autor escreve de acordo com a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990)