Como tem sido noticiado, um grupo de militantes do PS, organizados num “Clube de Reflexão da Social Democracia”, apresentaram uma...
Como tem sido noticiado, um grupo de militantes do PS, organizados num “Clube de Reflexão da Social Democracia”, apresentaram uma proposta pública à direcção do partido, propondo o adiamento do Congresso.
O que está em causa não é a legitimidade formal da convocatória do Secretário-Geral. É a sua oportunidade política. Reunir o órgão máximo do partido no início de um novo ciclo, sem debate interno consistente e preparação séria, é um erro. Um congresso não deve servir para ratificar decisões já tomadas em circuito fechado, mas para discutir rumo, estratégia e liderança.
A marcação apressada — quase clandestina — tem outro efeito: inviabiliza alternativas. Muitos dos que poderiam assumir posições diferentes estiveram, nos últimos meses, totalmente empenhados em apoiar Seguro nas eleições, como lhes competia. Não se prepararam para disputas internas porque o foco era outro. Criou-se, assim, uma situação em que a discussão é comprimida e as hipóteses de escolha real praticamente desaparecem.
Nunca houve a ilusão de que a direção aceitasse o adiamento, mas era preciso fazer a contra prova.
A pressa tem um propósito claro: evitar uma reflexão profunda sobre a opção tomada nas presidenciais. Com tempo e serenidade, seria inevitável escrutinar decisões, declarações e alinhamentos. Sem esse tempo, empurra-se o problema para a frente e preserva-se o statu quo.
Há pouco mais de um ano, quando a candidatura de Seguro começava a ganhar tração, o atual Secretário-Geral afirmou publicamente que, “se Augusto Santos Silva fosse candidato, o seu apoio estaria com Augusto Santos Silva”.
Depois disso, multiplicaram-se declarações pouco amistosas em relação ao candidato socialista, com especial destaque para intervenções do então proto-candidato, preferido pela liderança, sobre “mínimos” e vacuidades semelhantes.
Estes factos mereciam discussão clara e frontal.
Sem escrutínio prévio e sem alternativas organizadas, o Congresso de Viseu arrisca-se a ser apenas uma formalidade. “Legitimará” a continuidade de quem se empenhou, quase até ao fim, numa estratégia presidencial falhada. Tudo permanecerá essencialmente igual.
Este modelo fechado e autossuficiente, desligado de uma realidade social cada vez mais exigente, não é sustentável. Pode sobreviver por inércia durante algum tempo, mas terá custos. A questão é quando e quão elevados serão.
Não falo como porta-voz de qualquer movimento, nem pretendo liderar o que quer que seja. Falo como militante com mais de cinco décadas de filiação, com o direito — e o dever — de expressar preocupações. O futuro do PS, com esta direção, concentrando poder e evitando debate sério, não me parece promissor. Ou contribuirá para reforçar o centro-direita, por incapacidade de afirmar alternativa credível, ou acabará por criar condições para o crescimento da extrema-direita.
O partido precisa de fazer um corte claro com o passado recente. A chamada “geringonça”, apesar dos seus méritos conjunturais, bloqueou reformas estruturais indispensáveis e deixou serviços públicos em níveis de insuficiência preocupantes. É preciso reconhecer erros, nomeadamente na política de imigração, e assumir responsabilidades.
Também seria saudável colocar em pousio político — temporário, naturalmente, pois no partido de Soares não deve haver lugar a uma cultura de cancelamento— os protagonistas do ciclo marcado pelo chamado costismo.
Manter na direção figuras associadas a decisões que hoje são vistas como politicamente tóxicas, ignorando o desgaste acumulado, é insistir no erro. A renovação não pode ser apenas retórica.
Convocar um congresso sem debate prévio sério — não confundir ações de propaganda com discussão interna — é um mau sinal. A política, como a natureza, não tolera vazios por muito tempo. Se o PS não abrir espaço à reflexão e à mudança, outros ocuparão esse espaço.
Ainda haveria tempo para escolher um caminho diferente. Bastava que o actual poder no partido o desejasse.
Mas para isso seria preciso coragem política, humildade e verdadeira abertura ao contraditório. Sem isso, o futuro não será brilhante — será previsível. E, em política, a previsibilidade da estagnação costuma anteceder a derrota.
José Luís Carneiro e os seus mentores, em especial Santos Silva, serão os responsáveis pela “tragédia” anunciada.
O Partido Socialista é o partido estruturante da democracia portuguesa.
O seu futuro não pode depender de uma pequena legião de carreiristas e de uma direcção autista, incapaz de perceber as verdadeiras razões para as derrotas eleitorais mais recentes.