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Miguel Relvas

O PSD NÃO PODE ESCONDER A CABEÇA NA AREIA

Miguel Relvas

O Governo pode dizer que não governa em função das sondagens. Pode repetir que aquilo que verdadeiramente importa é continuar a trabalhar, executar o programa e fazer as transformações de que Portugal necessita. Pode recordar que a economia portuguesa apresenta indicadores positivos e que alguns dos problemas que tantas vezes condicionaram a vida nacional tiveram este ano uma dimensão diferente.

Pode dizer tudo isso. E até terá razão em parte.

O que não pode é utilizar esses argumentos para ignorar aquilo que os portugueses estão a dizer.

Há momentos em que uma sondagem é apenas uma fotografia. Mas há outros em que funciona como um sinal de alarme. E os números agora conhecidos devem preocupar seriamente o Governo e, sobretudo, o PSD.

Não podemos continuar a alimentar a ideia confortável de que existe uma “bolha mediática”, desligada do sentimento real das pessoas. A sondagem demonstra precisamente o contrário: os assuntos que têm marcado os últimos meses estão a chegar aos portugueses e estão a produzir consequências políticas.

O PSD surge a rondar os 25%, em terceiro lugar, perdendo cerca de seis pontos relativamente ao resultado eleitoral. Mais grave ainda são os níveis de desaprovação do Governo e do primeiro-ministro, que se aproximam de linhas vermelhas que nenhum responsável político deve desvalorizar.

Como militante do PSD há muitas décadas, estes números deixam-me profundamente preocupado. Não porque uma sondagem determine o futuro de um Governo, mas porque seria um erro incompreensível fingir que nada está a acontecer.

Também não vale recorrer ao velho argumento de que “sondagens leva-as o vento”. Esta ‘tracking poll’ é realizada segundo uma metodologia consistente e por quem demonstrou, nomeadamente nas presidenciais, capacidade para captar tendências eleitorais com robustez.

O problema não está, portanto, na sondagem. Está naquilo que ela revela.

Um governo do PSD não pode atingir um grau de isolamento político que o impeça de perceber o desgaste que está a sofrer. E muito menos pode permitir que situações como o caso Luís Neves continuem a contaminar a sua ação e a imagem do partido.

Luís Montenegro ainda vai a tempo de inverter este caminho. Mas tem de olhar para estes números sem filtros nem desculpas.

Só o primeiro-ministro tem a chave para mudar a situação. E isso implica tomar decisões.

Quanto mais depressa, melhor.

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Publicado em 07 setembro de 2026
Miguel Relvas

A INDIFERENÇA TAMBÉM TEM UM PREÇO

Miguel Relvas

Quanto mais discutirmos as vírgulas do chamado caso Luís Neves, mais nos afastamos daquilo que verdadeiramente importa. Isto, porque o problema deixou há muito de ser um episódio, uma declaração ou uma explicação mais ou menos convincente, o problema é claramente político – e é também, infelizmente, um problema do país.

Comecemos pelo princípio. Colocar no Governo um antigo diretor nacional da Polícia Judiciária foi uma escolha politicamente arriscada. Não porque alguém que tenha dirigido a PJ esteja condenado à incompatibilidade eterna com funções governativas, nada disso; mas porque a fronteira entre instituições que investigam e o poder político tem de ser absolutamente nítida. Neste domínio, não basta ser independente, é indispensável parecê-lo.

O governo aceitou correr esse risco. E agora paga o preço.

Mas há uma dimensão mais inquietante em tudo isto. Portugal parece estar a habituar-se a tudo: uma polémica sucede à anterior, uma suspeita substitui outra, uma explicação incompleta apaga a explicação incompleta da semana passada. E o país segue.

Esta habituação é perigosa.

Quando tudo passa a ser relativo, quando nada provoca verdadeira indignação e quando os cidadãos deixam de acreditar que a sua exigência pode alterar comportamentos, abre-se espaço aos que fazem da indignação um espetáculo permanente. Os populismos não crescem apenas devido à força dos populistas, crescem também devido à fraqueza das instituições e à resignação dos cidadãos.

Portugal vive hoje demasiado fragmentado. Cada grupo trata dos seus problemas, cada setor protege os seus interesses, cada cidadão tenta sobreviver como pode. Falta-nos uma ambição coletiva, uma ideia mobilizadora de país, uma esperança comum.

O governo pode convencer-se de que estas polémicas pertencem apenas à chamada bolha mediática e que o país real não quer saber. Talvez tenha razão durante algumas horas. Talvez até durante alguns meses, mas uma coisa é certa: a política também se faz de perceções acumuladas.

Dez segundos hoje, dez segundos amanhã, uma dúvida aqui, outra ali, isto até ao momento em que aquilo que parecia indiferença se transforma em rejeição – é esse o verdadeiro risco que o governo enfrenta. Pode reconhecer o desgaste, corrigir escolhas e recuperar autoridade. Ou pode continuar a assobiar para o lado, convencido de que nada acontece.

O problema dos precipícios é que, muitas vezes, só percebemos que lá estamos quando já começámos a cair.

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Publicado em 01 setembro de 2026
Miguel Relvas

O PODER DA PALAVRA E O GOVERNO DOS ‘MINICICLOS’

Miguel Relvas

Há frases que, ditas por determinadas pessoas e em determinados momentos, valem muito mais do que as palavras que as compõem. Quando o Presidente da República afirma, de forma pública e perfeitamente audível, que “cada um assuma a sua responsabilidade”, não está a produzir uma banalidade institucional. Está a exercer o poder da palavra. E, neste caso, a palavra presidencial tem destinatários muito concretos.

É importante habituarmo-nos ao estilo de António José Seguro. Marcelo Rebelo de Sousa tinha um excesso de intervenção pública, comentava tudo e, por vezes, esse permanente protagonismo acabava por banalizar a própria palavra presidencial. Seguro escolheu o caminho inverso: prudência, contenção e parcimónia. Pode até haver quem considere que fala pouco. Mas precisamente porque fala pouco, quando decide fazê-lo devemos prestar atenção.

E o recado é claro. Ao ministro da Administração Interna, para que assuma as consequências políticas dos acontecimentos e não permita que a sua permanência desgaste ainda mais as instituições. Mas também, e sobretudo, ao primeiro-ministro, a quem compete exercer a autoridade política e assumir as suas próprias responsabilidades. No discurso aveludado deste Presidente, aquela frase vale muito mais do que um simples aviso.

O problema é que este episódio se insere num padrão mais vasto. O governo parece viver sucessivamente em ‘miniciclos’: o ciclo do Orçamento, o ciclo de uma polémica, o ciclo criado pela oposição, o ciclo provocado por um ministro ou por uma decisão mal explicada. E a política passa a ser essencialmente uma estratégia de sobrevivência entre crises sucessivas.

É assim também com a Segurança Social. Encomendam-se estudos, anuncia-se solenemente a intenção reformista, transforma-se o estudo num acontecimento político e, quando as conclusões deixam de ser convenientes, guarda-se o documento numa gaveta. Isto não é reformar. É representar.

Uma verdadeira reforma estrutural não pode ficar dependente do calendário de um Orçamento do Estado. Deve acontecer precisamente o contrário: são os orçamentos que devem refletir as reformas necessárias ao País. Quanto menos reformamos, mais aumenta a despesa e maior é a tentação de aumentar os impostos que a financiam.

Governar não pode ser jogar permanentemente para a audiência. É preciso regressar à essência, romper este ciclo de curto prazo e voltar a pensar o País para além da próxima crise.

Foi isso que o PSD soube fazer nos momentos decisivos da sua história. Quero acreditar que ainda não se esqueceu…

 

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Publicado em 24 agosto de 2026
Miguel Relvas

A ‘BOLHA’, O PAÍS E A FALTA DE RUMO

Miguel Relvas

Há momentos em que a política precisa de ser mais do que a gestão do quotidiano. Precisa de oferecer um rumo, uma ambição, uma ideia de país. E foi precisamente isso que faltou nos discursos recentes dos líderes do PSD e do PS. Falaram muito, mas disseram pouco que permitisse aos portugueses perceber onde querem levar Portugal nos próximos anos. Igualaram-se, afinal, na ausência de ímpeto transformador.

O problema agrava-se quando a política deixa de falar para o país e passa a falar sobretudo para o adversário. Instala-se um permanente pingue-pongue de acusações, respostas e frases destinadas ao noticiário seguinte. É um jogo de soma nula: pode produzir vencedores por algumas horas nas redes sociais, mas não produz soluções para Portugal.

Há depois uma ideia particularmente perigosa: a de que existem dois países. O chamado «país real», supostamente indiferente às polémicas de Lisboa, e uma «bolha» mediática e política que amplifica casos, contradições e erros governativos. É uma leitura confortável, mas errada. Os problemas no Ministério da Administração Interna, as polémicas na Educação, o negócio das fragatas ou as dúvidas sobre a entrada do Estado no capital da REN não deixam de existir por serem discutidos nos jornais ou nas redes sociais.

Mais incompreensível ainda é falar numa espécie de ‘censura moderna’, talvez por influência da ‘asfixia democrática’ criada em tempos pelo hoje ministro Rangel. Não há censura moderna, o que há, isso sim, escrutínio moderno. Há cidadãos que questionam em tempo real, redes sociais que aceleram a circulação da informação e meios de comunicação que procuram respostas. A política tem de aprender a viver com essa realidade, não tentar combatê-la através da vitimização.

O caso da REN é um bom exemplo. Se o Estado pretende gastar cerca de 325 milhões de euros para adquirir 13,7 por cento da empresa, deve explicar claramente aos portugueses porquê, quais os benefícios concretos e, sobretudo, que investimentos poderão deixar de ser realizados porque os recursos públicos não são ilimitados.

Num setor fortemente regulado, há ainda uma questão essencial: deve o Estado ser simultaneamente regulador e acionista com ambição de intervenção na gestão? E se o objetivo é reduzir a fatura da eletricidade, por que não começar pelas taxas e impostos que o próprio Estado controla?

É precisamente quando a política não explica, não mobiliza e não apresenta uma visão que abre espaço ao populismo. Portugal não precisa de mais uma disputa entre a ‘bolha’ e o ‘país real’ – precisa cada vez mais de política capaz de voltar a falar para o país inteiro.

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Publicado em 17 agosto de 2026
Miguel Relvas

DEFESA, UMA QUESTÂO DE ESTADO

Miguel Relvas

Não foi propriamente uma surpresa ouvir o Presidente da República chamar a atenção para aquilo que tantas vezes acontece em Portugal: perante uma tragédia, anunciam-se milhões, multiplicam-se promessas e sucedem-se declarações. Depois, passa o tempo, desaparecem as câmaras e aquilo que parecia urgente deixa, misteriosamente, de o ser.

Os incêndios da Serra da Estrela, em 2022, são um exemplo particularmente doloroso. Prometeram-se apoios, investimentos e medidas para recuperar uma região profundamente atingida. Quatro anos depois, muito ficou por cumprir ou muito aquém do anunciado.

É um problema antigo da governação portuguesa, este de confundir demasiadas vezes comunicação com ação. No calor dos acontecimentos, o poder político sente necessidade de responder imediatamente. E responde com palavras. O problema é quando as palavras não são acompanhadas pelos atos.

O governo de Luís Montenegro deve evitar repetir práticas que criticámos nos governos de António Costa. Governar não pode ser administrar expectativas, tem de ser executar, decidir e prestar contas. O valor da política mede-se pelos resultados, não pelo número de anúncios.

Esta exigência aplica-se igualmente à Defesa Nacional.

Portugal precisa de modernizar as Forças Armadas. A aquisição de novas fragatas, tal como a renovação de outros meios militares, é necessária perante uma Europa confrontada com ameaças que julgávamos pertencer ao passado. Mas decisões desta dimensão exigem transparência e consenso nacional. A Defesa não é uma política de um Governo, é uma política de Estado.

Por isso, importa explicar as opções. Porquê comprar determinado equipamento? Porquê escolher Itália e não França, Alemanha ou Reino Unido? Quais são os critérios estratégicos, operacionais, industriais e financeiros? Quanto maior for a transparência no início, menor será a suspeição no fim.

E há uma discussão ainda mais importante, e que no fundo é a questão central sobre a qual devemos refletir: que Defesa queremos para as próximas décadas?

A guerra mudou. A Ucrânia demonstrou a importância crescente dos drones, da inteligência artificial, da informação, da tecnologia e da cibersegurança, provou-nos que comprar fragatas e aviões continua a ser necessário, mas já não chega.

Portugal, com uma das maiores áreas marítimas da Europa, tem razões acrescidas para participar ativamente nesta discussão. Temos de proteger o território, o mar, as infraestruturas críticas, as comunicações e o espaço digital, ou seja, precisamos de uma estratégia nacional que sobreviva aos governos e aos ciclos eleitorais.

Porque seja na reconstrução depois dos incêndios, seja na modernização das Forças Armadas, o princípio deve ser o mesmo: menos entusiasmo com o anúncio e mais exigência na execução. Até porque Portugal não precisa de promessas maiores, precisa, isso sim, de resultados melhores.

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Publicado em 10 agosto de 2026
Miguel Relvas

GOVERNAR NÃO É IMPROVISAR

Miguel Relvas

Há um traço comum que une crises aparentemente distintas: a tentação de governar através da propaganda, substituindo decisões estruturais por anúncios mediáticos e convicções ideológicas. É precisamente isso que hoje vemos acontecer em Espanha, com a gestão da imigração, e em Portugal, com o caos instalado no acesso ao ensino superior.

O que aconteceu em Ceuta não pode ser reduzido a um episódio fronteiriço. É, antes de mais, um drama humano. Milhares de pessoas abandonam tudo na esperança de encontrar uma vida melhor. Merecem respeito, dignidade e políticas sérias. O que não merecem é serem transformadas em instrumento de agendas políticas que confundem humanidade com ausência de regras.

Pedro Sánchez escolheu alimentar essa ilusão. A Europa não pode continuar a fechar os olhos a políticas que incentivam fluxos migratórios descontrolados sem garantir capacidade de integração, segurança ou sustentabilidade. Defender fronteiras não é negar solidariedade; é precisamente a condição para que ela possa existir de forma credível.

Também em Portugal assistimos a uma preocupante incapacidade de distinguir reformas de improvisações. A confusão criada no sistema de exames nacionais e de acesso ao ensino superior é um caso paradigmático. Durante demasiado tempo vendeu-se a ideia de que bastava digitalizar procedimentos para modernizar o Estado. Não basta.

Uma verdadeira reforma exige planeamento, testes, capacidade de execução e, sobretudo, confiança. Quando milhares de alunos e famílias vivem semanas de incerteza, quando o sistema transmite insegurança e quando o próprio Governo parece correr atrás dos acontecimentos, não estamos perante uma modernização. Estamos perante um falhanço.

O Estado só é forte quando inspira confiança. E essa confiança constrói-se com competência, previsibilidade e responsabilidade política. Não se conquista através de discursos otimistas nem de sucessivos remendos para corrigir erros que poderiam ter sido evitados.

A Europa enfrenta desafios enormes. Portugal também. Mas nenhum deles será resolvido enquanto persistirmos na ilusão de que comunicar substitui governar. As reformas verdadeiras exigem coragem para decidir, humildade para reconhecer os erros e competência para os corrigir.

É isso que os cidadãos esperam. E é isso que, cada vez mais, sentem faltar.

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Publicado em 03 agosto de 2026
Miguel Relvas

QUANDO O SILÊNCIO DEIXA DE SER PRUDÊNCIA

Miguel Relvas

Há momentos na vida política em que o problema deixa de ser aquilo que aconteceu, e passa a ser aquilo que quem tem responsabilidades decide não fazer.

É exatamente esse o ponto em que nos encontramos.

A polémica que envolve o ministro da Administração Interna já ultrapassou a dimensão política do caso. Cada esclarecimento que tarda perde eficácia, cada dia que passa fragiliza o Governo, e cada silêncio aumenta a desconfiança dos portugueses.

Há situações em que a legalidade não basta. A política vive também da ética, da confiança e do exemplo. Quando essas referências desaparecem, as instituições começam a perder autoridade.

O Primeiro-Ministro teve tempo suficiente para agir. Não o fez. Mas, a partir de determinado momento, a responsabilidade deixa de ser apenas do Governo.

O Presidente da República foi eleito para exercer uma magistratura ativa, defender o regular funcionamento das instituições e intervir quando estas dão sinais de bloqueio. É isso que os portugueses esperam.

Quero acreditar que não existe qualquer entendimento para empurrar este problema para setembro, na esperança de que agosto faça esquecer o assunto. Os problemas não desaparecem por falta de notícias.

Lembro-me da atuação de Jorge Sampaio na formação de governos durante os seus mandatos onde, independentemente de se concordar ou não com as suas decisões, demonstrou que um Presidente da República existe para defender a credibilidade das instituições. E é também por isso que me surpreende o silêncio de António José Seguro, que foi eleito prometendo uma forma diferente de exercer a chefia do Estado, e que está a desperdiçar o momento para o demonstrar.

Mas há também outro silêncio difícil de compreender.

Enquanto os portugueses pagam cada vez mais pelos combustíveis, o Estado arrecada automaticamente mais receita fiscal. A pergunta é simples: quanto dinheiro entrou a mais nos cofres públicos? E onde será aplicado? Na Saúde? Nos bombeiros? No INEM? Ou apenas para alimentar um Estado que continua sem fazer as reformas de que o país necessita?

Confesso que me custa ver um governo do PSD acomodar-se a esta realidade. Ser social-democrata nunca foi aproveitar cada aumento de impostos para reforçar a receita do Estado. É aliviar quem trabalha, investe e cria riqueza. É reformar o Estado para que preste melhores serviços, e não para que cobre cada vez mais aos portugueses.

Na política, como na vida, decidir tarde é, muitas vezes, decidir mal.

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Publicado em 27 julho de 2026
Miguel Relvas

A ‘SÍNDROME SANCHÉZ'

Miguel Relvas

A política vive de um ativo que não pode ser legislado, decretado ou imposto. Chama-se confiança. É ela que sustenta a legitimidade de um governo, a autoridade de um primeiro-ministro e a capacidade de um ministro liderar uma reforma. Quando esse elo se quebra, tudo o resto passa a funcionar como um sistema de remendos.

É isso que designo por “síndrome Sanchéz”. Não se trata de uma referência exclusiva ao primeiro-ministro espanhol, mas a um fenómeno mais vasto: a tendência para um governante acreditar que basta reafirmar publicamente a sua confiança nos seus colaboradores para que essa confiança seja automaticamente reconhecida pelos cidadãos. Não basta.

A confiança nasce nas pessoas. Primeiro no primeiro-ministro, depois no governo. A partir daí, estende-se aos ministros, aos secretários de Estado e às equipas que os rodeiam. Quando o primeiro elo enfraquece, todo o edifício institucional começa a vacilar.

Portugal vive há demasiado tempo neste estado de erosão permanente. Aconteceu no final dos governos de José Sócrates, repetiu-se nos últimos tempos da governação de António Costa e volta hoje a manifestar-se com o governo da AD. São demasiados episódios num curto espaço de tempo para que possam ser encarados como meras coincidências.

A desconfiança já não se limita à saúde, à educação ou à segurança. Instalou-se também na forma como o poder é exercido. Depois de tantos “casos e casinhos”, muitos portugueses parecem ter desenvolvido uma preocupante resignação. Como se tudo fosse aceitável, desde que o problema não lhes entre diretamente pela porta de casa.

Mas chega sempre o momento em que um tema rompe a bolha política. O caos criado no processo dos exames nacionais foi precisamente esse gatilho. Milhares de estudantes e famílias sentiram, na primeira pessoa, as consequências de decisões mal preparadas e deficientemente executadas.

É particularmente lamentável porque o ministro da Educação tinha um percurso governativo que justificava reconhecimento. Bastava ter prevalecido o bom senso. Digitalizar um sistema tão sensível exige prudência, testes, fases-piloto e capacidade de corrigir erros. Reformar o Estado nunca significou virar tudo do avesso de um dia para o outro. Reformar é introduzir mudança com método, sequência e responsabilidade.

Não comparo este caso ao que envolve o ministro da Administração Interna. São situações distintas, de natureza diferente. Mas ambas convergem num ponto essencial: provocaram um rombo na confiança pública.

O primeiro-ministro pode continuar a afirmar que mantém total confiança nos seus ministros. É um direito que lhe assiste. A verdadeira questão é outra: será que os portugueses continuam a partilhar dessa confiança? É que na política, quando essa resposta deixa de ser evidente, começa verdadeiramente o problema.

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Publicado em 20 julho de 2026
Miguel Relvas

GOVERNAR É ANTECIPAR OS PROBLEMAS

Miguel Relvas

Não sei se estamos perante mais uma semana ‘horribilis’ para o Governo, para o exercício do poder executivo ou, mais grave ainda, para milhares de estudantes, pais e famílias portuguesas.

 

O caos instalado em torno dos exames de acesso ao ensino superior não pode ser analisado apenas pela espuma política nem resolvido com declarações apressadas. O que está em causa é muito mais profundo do que um erro administrativo. É um problema que atinge a vida concreta das pessoas.

 

Quando falamos de jovens que esperam há anos por este momento decisivo, não estamos a falar de números ou de estatísticas. Falamos de ansiedade, de expectativas, de medo, de noites sem dormir, de famílias inteiras que organizam a sua vida em função de um calendário que o Estado tem obrigação de cumprir. Um atraso, uma falha ou uma desorganização representam muito mais do que um contratempo burocrático. São um rombo psicológico e emocional. Por isso, este episódio não se resolve com a procura de um bode expiatório. Naturalmente, o ministro da Educação tem responsabilidades. Mas também as tem o primeiro-ministro.

 

Há apenas duas hipóteses. Ou Luís Montenegro conhecia o dossiê e validou as decisões que conduziram ao caos, assumindo responsabilidade política pelo resultado. Ou não conhecia. E essa hipótese é igualmente preocupante, porque não é aceitável que um primeiro-ministro desconheça em profundidade um dos dossiers mais sensíveis do Estado. Não encontro uma terceira explicação satisfatória.

 

Como se não bastasse este caso, surge agora a polémica em torno do ministro da Administração Interna. Pouco me interessam as discussões sobre piscinas, azulejos, portas ou a classificação de uma fatura. O essencial é outro: um governante que passou mais de duas décadas na Polícia Judiciária, investigando criminalidade complexa e crimes económico-financeiros, tem um dever acrescido de rigor, transparência e exemplaridade. A dúvida, por si só, já fragiliza a autoridade política que o cargo exige.

 

É evidente que o primeiro-ministro poderá sentir-se tentado a responder através de uma remodelação governamental. Seria a reação mais previsível. Mas uma remodelação só fará sentido se não for um simples exercício de substituição de nomes. Até porque o problema deste Governo não parece ser apenas de pessoas,  é – isso sim – de estrutura política, de coordenação e de capacidade de antecipação.

 

Falta um verdadeiro número dois: alguém com peso político, experiência governativa, autoridade interna e capacidade para impor método, coordenar ministros e evitar que cada crise se transforme numa nova crise do próprio Governo. Porque governar não é apenas reagir aos problemas. É antecipá-los. E, sobretudo, transmitir aos portugueses a confiança de que existe alguém ao leme.

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Publicado em 13 julho de 2026
Miguel Relvas

A POLÍTICA TAMBÉM SE MEDE PELA FORMA COMO EXPLICA

Miguel Relvas

Há momentos em que a política é menos julgada pelas decisões que toma do que pela forma como as explica. A democracia vive de confiança e a confiança constrói-se com transparência, responsabilidade e capacidade de prestar contas. Quando isso falha, até um bom governante pode ver rapidamente desgastado o capital de credibilidade que levou anos a construir.

O caso dos exames nacionais é um exemplo disso mesmo. Independentemente das responsabilidades técnicas ou contratuais, o que milhares de famílias sentiram foi incerteza num dos momentos mais importantes da vida académica dos seus filhos. E quando o Estado falha naquilo que deve garantir — rigor, previsibilidade e igualdade de tratamento — a primeira obrigação de quem governa é explicar o que aconteceu.

Há questões que continuam por responder. O sistema foi devidamente testado antes da sua implementação? Que garantias foram exigidas à empresa responsável? Quais foram os critérios que presidiram à sua contratação? E, sobretudo, quem assume a responsabilidade política por uma situação que afetou diretamente alunos, professores e famílias?

Não se trata de encontrar culpados a qualquer preço. Trata-se de assumir responsabilidades. A empresa contratada terá naturalmente de explicar as falhas da solução tecnológica que disponibilizou. Mas é ao Governo que compete responder perante os cidadãos. A responsabilidade política não se delega.

Creio que Fernando Alexandre continua a ser um dos ministros mais qualificados deste Governo. Precisamente por isso, custa ver o desgaste provocado por um processo que poderia ter sido gerido de outra forma. Ainda vai a tempo de recuperar a confiança, mas isso exige uma explicação clara, pública e completa, acompanhada da garantia de que nenhum aluno será prejudicado. Esconder-se atrás de pareceres técnicos ou da complexidade administrativa seria um erro.

Também a gestão política das últimas semanas merece reflexão. As sucessivas deslocações do Primeiro-Ministro aos Estados Unidos para acompanhar a Seleção Nacional foram compreensíveis enquanto gesto de apoio institucional, mas dificilmente se justificam na dimensão que assumiram. Quem exerce funções de chefia do Governo tem de transmitir, antes de mais, uma mensagem de prioridade e de disponibilidade permanente para os problemas do país. A perceção pública conta e, em política, muitas vezes pesa tanto como a realidade.

Curiosamente, a própria Seleção Nacional oferece uma metáfora interessante. Portugal dispõe de um conjunto extraordinário de jogadores, mas isso não bastou para construir uma equipa capaz de traduzir todo esse talento em superioridade coletiva. Faltaram organização, equilíbrio e uma ideia clara de jogo.

Poderia estar a falar de política. Mas estou apenas a falar de futebol. Talvez por isso a comparação seja tão inevitável. Afinal, tanto num campo como no Governo, o talento é indispensável. Mas só a liderança, a organização e a capacidade de explicar um rumo transformam potencial em resultados.

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Publicado em 07 julho de 2026
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