
João Vasco Almeida
A sala do grande salão, onde os ministros dançam antes de cair, está cheia de felizardos. O computador falha aos exames, as piscinas afogam empreiteiros e ex.judites, as esperas pelo bisturi esquecem-se de corpos doentes e a grande cooperação do patrão e do proletário é só surda. Luís, com citações do Reader’s Digest, faz de timoneiro do vapor. Toda a teoria quântica falha, a das cordas também e até Einstein desconfia da vidraça que lhe mostra massa folhada e energia de bebidas em lata.
A sala do grande salão, pronta para a reciclagem, foi muito elogiada: como a “grande constância de si próprio”, conseguiu romper o governo e seu baloiçar de palmas, como dizia Mário de Sá Carneiro, até a ruideira infernal do futebol. “Resvalo em pontes de gelatina e de bolores”, investe o poeta, num acréscimo de anacronia exacta.
Por fim, a culpa será nossa. Mas essa passa-nos chupando os rebuçados de alteia e mel vindos de Vale da Mula.
Eis a nossa pacata horta digital. Sachamos o teclado com o mesmo lirismo com que outrora se limpava o mato das bermas. Esperamos pela rede, de alta velocidade, como quem aguarda a água de rega na sua vez de quinhão. Esta teia invisível, que devia impulsionar o progresso, serve apenas para adubar o nosso velho fado do amanhã. O ecrã brilha, mas a eira continua vazia.
O cidadão navega em poças de propaganda. Desperdiçamos a modernidade enquanto o poder real se acocora à sombra do compadrio. O país real definha entre a miragem do turismo urbano e a certeza de uma reforma de miséria. Queixamo-nos de Bruxelas, mas exigimos o subsídio. Somos um rebanho electrónico que pasta na ladeira do abismo. Sem eira, há muito, e sem beira, que nos mostre o penhasco, prosseguimos alados, que rir é o melhor remédio, com piadas de caserna e instantâneos da vida irreal.

João Vasco Almeida
Há países que perdem a visão devagar. O nosso decidiu arrancar os óculos de vez.
Começemos pelo óbvio: o Estado deixou de contar dinheiro.
Há menos inspectores da Autoridade Tributária do que há um ano.
Traduzindo do burocratês: há mais empresas a fazer contas à sua maneira.
É a velha lei do campo aplicada à cidade – quando o pastor adormece, as ovelhas inventam fronteiras novas.
Entretanto, na Universidade, os exames andam com vida própria.
Chegam a professores seis páginas para corrigir: cinco de Matemática, uma de Português, por engano.
Ninguém sabe explicar o erro. Ninguém precisa. É Portugal a ensinar-nos, sem querer, a maior lição do ano: aqui, até o acaso tem sotaque.
Em Almada – repito, Almada, não uma aldeia esquecida atrás de sete serras – não há torneira que pingue uma gota.
A água fugiu como quem foge de uma reunião de condomínio.
E, já agora, se procurarem um autarca a explicar isto ao vivo, digam que também procuram água: têm a mesma sorte.
No futebol, sai Cristiano, entra Jesus.
Deve ser a única indústria nacional onde trocar um Messias por outro é considerado mercado normal de transferências.
Um comentador, sério como quem descobre a pólvora, defende que é urgente meter intelectuais dentro dos partidos.
Espantoso: haver quem ache isso novidade, e não apenas… saudade.
E, já que ninguém trava este comboio, somemos mais três postais da nação:
Numa aldeia do interior, o único caixa multibanco funciona só às terças, por respeito ao pároco.
Num hospital de Lisboa, o elevador tem outdoor, mas falta oxigénio no piso de cima.
E, claro, há um ministério a estudar a criação de uma comissão para estudar comissões.
No fundo, Portugal não está avariado.
Está é a funcionar exactamente como o deixámos: no piloto automático, sem condutor, mas com música ligada.

João Vasco Almeida
Há 52 anos, conhecia todos os vizinhos à volta da casa dos meus pais. Cresci com eles: os idosos, os outros e as crianças, com quem me tornei amigo. Hoje, quando volto à rua da minha infância e me sento no velho Tio Luís, apercebo-me de que já ninguém se conhece ou trata pelo “tu”.
A D. Isaura já não tem a papelaria onde costumava “ficar um pouco mais” às terças-feiras, que era o dia da banda desenhada. O Sr. Silveira já não brinca com as senhoras atarefadas durante as compras do fim do dia. Hoje, quando lá fui, descobri que, embora a rua esteja totalmente povoada, as três mil pessoas que lá vivem não se conhecem de nome nem de apelido. Mas têm centenas de amigos à sua espera na internet. Desbravamos este latifúndio digital com o afinco de quem amanha a terra, mas a colheita é vento.
Cada prédio tornou-se num cortiço de eremitas. Partilham o mesmo betão, esquivando-se no elevador como quem foge do diabo. Antigamente, as dores curavam-se à soleira da porta. Hoje, amontoamos afectos virtuais, pastoreando perfis que nunca veremos. É a lavoura do clique. Semeamos polegares erguidos para colher uma solidão assustadora. Este progresso asséptico actua como desinfectante social. Julgamos abraçar o mundo, mas esquecemos a nossa calçada.
O vizinho já não tem rosto ou história. É apenas o ruído que atravessa a parede às dez da noite. As cidades crescem em altura; a empatia definha até ao osso. No mercado moderno, trocámos o afecto real pelo eco estéril das notificações. Olhamos para o ecrã para ignorar quem passa. E assim, orgulhosamente sós numa multidão conectada, habitamos o deserto mais povoado da nossa História.

João Vasco Almeida
São dois sustos à rectaguarda, com pino invertido. O ministro Leitão Amaro (pois, bem sei, mas ajudo: é aquele pequenino, com cara de puto de 15 anos com borbulhas) vai atacar a RTP. O PSD nunca soube estar sossegado perante a RTP enquanto esteve no poder. Se o PS a engorda, o PSD enfia as mãos até à mais profunda seiva do tutano dos ossos.
Explico o golpe de ginástica. No Parlamento, lá na Comissão destes assuntos, o tal Leitão usou o eufemismo mortal: o objectivo do Governo é o «reforço da sustentabilidade com o plano de saídas voluntárias». Ponto primeiro: despedimentos em barda. Ponto segundo: juntar redacções, serviços de Recursos Humanos, etc., etc., etc. E isto será feito com a união da Agência Lusa à RTP, pois foi já anunciado que a agência de notícias vai deixar o edifício-mamarracho de Benfica e rumar a Chelas.
Mas uma outra frase do dito Leitão apoquenta: «O que é importante preservar na RTP ou no serviço público é a função de informação». Ai, Nemésio, como isto anda, companheiro. A mais importante função das RTPs deste mundo, por ser pública e generalista, deve ser formar. Formar para a cidadania, para os direitos humanos, para a cultura geral, para que Portugal deixe de ser um país que mete férias para acompanhar o fim do Big Brother. Esse é o papel diferenciador.
Mas formar não é ter a RTP2 com um slogan ofensivo, como tinha: «Culta e adulta». Esta frase sempre me sugeriu que, a seguir, iam passar um filme porno só com intelectuais de esquerda. Formar dá tanto trabalho que apenas os canais públicos têm ainda recursos para o fazer com alguma largura.
A informação é importante, claro. Mas para o PSD, a informação sempre foi algo de confuso. Tão confuso que o antigo comentador e líder do partido Marques Mendes, quando era o “homem da mala” de Cavaco, ligava amiúde ao director de informação da RTP para saber o que ia sair no Telejornal. E ia informar o chefe. E se o chefe não gostasse, garantia o defunto O Independente, mudavam-se as notícias.
Hoje quem leva a mala é o nóvel Leitão. E claro que a informação, se seguida a posologia acima descrita, será sempre o mais importante para o PSD.
Pobres reformados à força e trabalhadores úteis. Boa sorte no “reajustamento”, escrito por João, logo a seguir ao Apocalipse.

João Vasco Almeida
Vem aí o ópio do povo.
Marx não percebeu. A religião não era o ópio do povo. Era apenas a aspirina do povo. O verdadeiro ópio é aquele que faz mudar conceitos, comportamentos, que tira de cada ser humano o mais irracional que existe. E Marx, que nunca foi lateral esquerdo no Beira Mar, não teve tempo para topar o potencial do futebol. Provavelmente enganado pelos concursos em que atiravam anões para os fardos de palha, Marx nunca foi “olheiro” do Manchester, onde seu amigo Engels vivia.
Não o culpo. O homem escreveu O Capital numa biblioteca. Nunca entrou num café às três da manhã a discutir se o passe era ou não em fora-de-jogo. Nunca percebeu que há mais teologia num balneário do que em qualquer catedral. Nunca sentiu o nó na garganta de um penálti na marca dos onze metros, com o mundo parado e o guarda-redes a adivinhar para o lado errado.
Mas actualizemos o conceito. Nas próximas semanas Israel pode bombardear a Comporta, o Irão pode fechar tudo o que é “estreito” e até, se bem-feito, o PPD faz passar a revisão constitucional. É que milhões de portugueses (e não só), apenas se focarão no importante jogo Gana – Gabão, no clássico Coreia do Sul – Uruguai e nesse embate estrondoso que é o Guatemala – Ilha de Man.
Começa o “mundial” de futebol. E ao apito inicial, os cérebros congelam.
Congelam, e ficam felizes. Com o sorriso de quem não precisa de saber mais nada. Isso, caro Karl, chama-se ópio. E a Igreja nunca chegou tão longe.

João Vasco Almeida
Só falta perceber se António José Seguro faz apenas um mandato ou se Paulo Portas é mais paciente. O fundador de O Independente, líder do CDS, Ministro de Estado e vice-primeiro Ministro não precisa de cartazes, campanhas, submarinos, tretas raras ou bucólicas. Tem isto na mão. Aos domingos, ao contrário de Marcelo, o palrador, Portas é o novo Nemésio, contemporâneo de todos nós. Cita o Papa sem rasgar as vestes. Cita sociólogos de esquerda sem se engasgar. Enquanto Passos mostra uma face pequenita e quezilenta, Portas vai falando ao povo, depois de ter dado o sermão aos peixes.
Tem-nos na mão. Entre Portas e Seguro, nem a esquerda duvida. Aliás, Seguro deve ser o mais votado Presidente por falta de comparência da competência política alheia.
Há uma razão para tudo isto. Uma que não cabe em sondagens. Paulo Portas leu. Viu filmes. Não por obrigação de agenda, não para encher uma biografia de aparelho. Com vontade. Com caneta. Com conversa depois.
Num país onde a cultura se usa de verniz e o verniz se usa de poder, um homem que vai de Bergman a Mário Cesariny sem dar um passo em falso é uma espécie rara. Quase exótica. Quase suspeita.
Não é só o mais inteligente da sala. É o mais inteiro. E em Portugal — que é onde estamos — ser inteiro é um risco que a política raramente se permite.
Quando falamos de presidentes, falamos de perfis. De currículo. De consensos tão vagos como neblina de outubro. Raramente falamos de espessura. Da de quem viveu dentro dos livros e saiu deles com alguma coisa para dizer.
Portas tem essa espessura. Seguro pode ter a eleição. Mas a conversa — essa — é dele.

João Vasco Almeida
Era uma questão de tempo. Nos corredores, à boca pequena e sem provas, a trafulhada ia-se contando sobre este e aquele. Um contrato com o pai. A mulher do coiso que foi contratada para a Junta onde ele era presidente. Fulano que tinha uma empresa com morada fiscal numas ruínas numa ermida em Lisboa.
A purga do PS foi o último grande conselho que António Guterres deu ao País. Não o perceberam. O «pântano» era o PS, não Portugal. O lamaçal veio da Cova da Beira, aos magotes, como se de um vespeiro se tratasse. A abelha-rainha, Sócrates, chegou ao poder com facilidade, contra uma candidatura de epopeia alegrista e um outro concorrente que queria tratar da raiz, João Soares. Ganhou o engenheiro. Tinha um plano para a nação. E tinha, na verdade. Politicamente foi, porventura, um dos melhores primeiros-ministros. Mas parece que, alegadamente, misturou ali umas coisas privadas e deu cabo de uma carreira que podia ter sido brilhante.
Sobraram os aprendizes de patife. E, com denodo, com calma, com a apetência moral de um cágado, foram minando o PS de tal forma que tudo se transformou em vómito de cão. Hoje, Carneiro lidera uma coisa disforme e sob suspeita grave. Escolheu o pior líder parlamentar da República e da Monarquia. E aguarda, bem sabe, a hora de ser defenestrado por Duarte. Isto é: troca-se um Carneiro por um Cordeiro. Jovens turcos da terceira geração dos monstros do pântano.
Mas que nos dê isto um sorriso. Na verdade, o PS bem precisa de uma lavagem com agulheta de areia e depois de água dura. Carneiro pode ser bom homem, mas o bom homem serve para mediar latifundiários às meças de extremas, não para coisa venturosa. Como o PS é laico, não veremos o regresso do Salvador, uma vez que não existe fé no dito.
E, pacientemente, Miguel Prata Roque continua a cantar à janela o seu “Quem quer casar com a carochinha?”.

João Vasco Almeida
Portugal sempre teve uma estranha vocação para baptizar destinos colectivos com nomes de rebanho. Há países que se entregam a águias, leões ou dragões. Nós vamos de carneiro em carneiro, como quem muda de pastor numa feira de gado em Trancoso. E o mais curioso é isto: nenhum cumpriu inteiramente a promessa da lã.
O primeiro, Sá Carneiro, ainda hoje paira sobre a democracia portuguesa como aqueles sinos velhos das aldeias abandonadas. Tocam sozinhos quando mudam os ventos. O homem tinha falhas, claro. Mas tinha uma raríssima qualidade moderna: estava vivo. Coisa escassa na política contemporânea, onde muitos dirigentes já falam como folhetos de balcão da EDP como inspiração. Sá Carneiro agitava o País. Era um galo de capoeira sobre o estrume ideológico dos anos setenta. Morrendo cedo, ficou-nos a vantagem póstuma dos mortos nacionais: nunca chegaram a desiludir completamente.
Escolha de Sá, seu contemporâneo, veio Soares Carneiro. Militar aprumado. Postura de quartel. Mas bastou o carvão angolano soprar das páginas d’“O Jornal” para o homem ficar chamuscado como sardinha esquecida na brasa. Em Portugal, a moral pública funciona como os tanques de água das aldeias: só se limpa quando cheira mal demais.
Mais um: Roberto Carneiro, sob a pressão sério-cínica da cavacal figura, ainda tentou endireitar a escola portuguesa. E conseguiu algumas lavouras decentes num terreno onde ministros entram e saem como tractores alugados. Mas educação, neste País, é como regadio no Interior: toda a gente promete canais, ninguém quer cavar valas.
Agora aparece José Luís Carneiro. E aqui entramos no domínio da pecuária ornamental. O homem não irrita. Não entusiasma. Não tropeça. Não acerta. É um empata-fodipir político, figura muito portuguesa. Daquelas pessoas que entram numa tasca cheia e conseguem tornar morno até o caldo verde.
O novo cartaz do PS ajuda pouco. Aquele sorriso sem dentes parece fotografia de cidadão satisfeito depois de lhe aprovarem a licença camarária ao fim de nove anos. Olha-se para aquilo e apetece verificar se ainda temos pulso democrático.
Entretanto, os “brutos” do partido começam a mexer-se nos currais. Prata Roque, Duarte Cordeiro, Marta Temido, Medina (por engano), já suspiram. Todos à espera da sua vez de pastar no prado da sucessão.

João Vasco Almeida
O antigo primeiro-ministro fala, de vez em quando. E quando fala, parece que está a querer destruir o PSD de Luís Montenegro. Mas Passos Coelho, um homem inteligente, está no caminho já trilhado por Paulo Portas – com quem aprendeu a manha da política.
As sucessivas intervenções do “maldito homem da Troika” estão a destruir o eleitorado do Chega!, e Passos sabe disso. Ao apresentar-se com o sebastianismo crítico a um governo amorfo e pedante, Passos começa a erguer uma base de apoio que vem dos eleitores do partido de Ventura. Corrói por dentro o eleitorado de protesto, tornando-se um líder da oposição à direita mais credível e “estadista” do que o jovem André.
Com sapiência de quem estudou o caso, Pedro Passos Coelho está a fazer o que Portas fez com o CDS. Dizia Portas: «À direita do CDS há um muro», orgulhando-se de liderar os centristas de tal forma que impedia o aparecimento da extrema-direita, trauliteira ou de gravata.
Pois é isto que Passos Coelho constrói neste momento. Um muro que faça com que à direita do PSD haja apenas um muro e que a extrema-direita se reveja nele e abandone o protestante Chega!, com a banalidade do voto de indignação. Não é raro ouvir-se que “se Passos tivesse tido oportunidade, isto andava bem melhor”. As ruas, os cafés começam a reconhecer o mérito de um homem que liderou o país com um programa político alheio. Passos não consegue engolir a “geringonça”, a soma negativa do PS ao PCP e ao Bloco, que o impediram de continuar primeiro-ministro, embora minoritário. E calou-se bem calado até agora, pois o tempo em política é sabedoria e oportunidade.
Concorde-se ou discorde-se de Passos, da sua ideologia e pensamento, do seu projecto para Portugal, reconheça-se que o jovem político de outrora desapareceu. Passou anos a abrir as leiras para semear o que seria um regresso surpreendente. Só que, com o objectivo único de salvar o PSD da inutilidade (para onde Montenegro o leva e, pobre gente, o PS já lá está), Pedro Passos tem uma estratégia, muitas táticas e uma mão cheia de surpresas.
Quando, não sabemos. Mas será aclamado num congresso qualquer dos PPD, para angústia de André Ventura, que vai ser dizimado enquanto Passos esfrega um olho.
Desta vez, pelo menos, a criatura não mata o criador. O criador mata a criatura. A bem da nação.

João Vasco Almeida
À procura do planeta Freud, decerto para nos deitarmos no sofá e suspirarmos o vazio interno, nem sabemos bem como a realidade é real. Existe um “pacote laboral”, que penso ser caixa de velho cartão com tolices de loiça lá enfiadas, para a quermesse parlamentar. O velho Freud perguntaria se tinha sido um pesadelo. Diríamos que não: é apenas um baile mandado sem mandador. O “pacote laboral” é uma obra dadaísta, onde quem passa atira sem pudor qualquer coisa para a tela e lá vai ficando, entre um Presidente da República que disse que vinha para estar calado, mas não está, e um Primeiro-Ministro que não distingue, de manhã, se o couto da meia esquerda é igual ao da direita.
A questão dos trabalhadores – que agora se chamam “colaboradores”, como se não trabalhassem, mas passassem “por lá” para dizer adeus – é simples. Trabalham, geram riqueza, são pagos pelo seu trabalho e o capital fica com a mais-valia (aquilo que o trabalhador produz a mais do que o valor do seu ordenado). Nem me meto agora no debate que propõe a mais-valia partilhada.
Esta semana ficámos a saber que os portugueses trabalham mais horas do que a média dos restantes cidadãos europeus mas – oh, mas! – a sua produtividade é muito mais baixa.
Claro que é. Não temos gestores; temos contas de merceeiro. Quantos “CEO” desta terra saberão configurar e activar a Chave Móvel Digital? Uns dez por cento? Há uma desqualificação na gestão financeira, económica e humana nas empresas. Os trabalhadores também não criam brio: ‘para quê?’, pensam, ‘se daqui a três meses me põem no olho da rua e contratam a uma empresa de trabalho temporário um jovem a ganhar metade e a fazer (mal) o dobro’?
Os guardiões da galáxia política são tão fracas figuras que dou comigo a aplaudir o olvidado “Chicão” e a perguntar se o PS terá entre seis a nove por cento nas eleições que hão-de vir.
Mas concentremo-nos. Como bem demonstra o magnífico podcast do 24horas, as audiências de televisão provam que quatro milhões de portugueses decidem, todas as noites, escolher ver e ouvir as defesas do Damas e os remates do Chalana, a dura história de Gabriela, Cravo e Canela ou o programa dos apanhados numa casa fechada.
Só falta o guarda, de sinete, a passar nas ruas e bradar: “São onze horas, está tudo calmo, o rei está Seguro”.