
José Paulo Fafe
A política portuguesa parece ter entrado num intervalo demasiado longo. O país continua a funcionar, os governos vão-se sucedendo, os partidos reúnem e os dirigentes discursam. Mas falta qualquer coisa essencial: a capacidade dos seus protagonistas para mobilizar, inspirar e fazer acreditar.
O problema não está apenas à direita ou à esquerda, é bem mais profundo e atinge, mais do que outros, os dois partidos centrais da democracia portuguesa – o PSD e PS. Hoje reduzidos a uma espécie de ‘direções-gerais’ de um regime que começa a dar preocupantes sinais de cansaço, ambos têm perdido credibilidade, autoridade e ligação à sociedade e, em vez de corresponderem às expectativas dos eleitores, parecem demasiadas vezes limitados a gerir calendários, crises internas, ambições pessoais e estratégias de sobrevivência.
A tudo isto somam-se as trapalhadas, os casos e as suspeitas que constantemente minam a República – episódios que poderiam ser rapidamente esclarecidos transformam-se em crises políticas porque os dirigentes não compreendem, ou fingem não compreender, que prestar contas não é uma concessão, é fundamentalmente um dever. Até porque a transparência não pode depender da conveniência do momento, nem a ética, que enche a boca de tantos, ser invocada apenas quando serve para atacar o adversário.
Quem exerce cargos públicos tem de estar eticamente à prova de bala, não bastando cumprir os mínimos legais ou refugiar-se na ausência de uma acusação judicial. É necessário explicar decisões, revelar interesses, evitar conflitos e perceber que, na política, a confiança também depende das aparências, sendo que cada silêncio, contradição ou tentativa de ocultação alimenta a suspeita de que existe sempre alguma coisa por contar.
Entre os portugueses, entretanto, vai crescendo o desânimo, e um crescente fastio, que contribui para acentuar o desinteresse com que encaram o que os rodeia, deixando de acreditar que a política possa melhorar as suas vidas. Olham para os partidos com desconfiança, para os governantes com cansaço e para as instituições com um perigoso distanciamento – e todos sabemos que é exatamente nesse ‘vazio’ que prosperam a radicalização, o populismo e as soluções aparentemente fáceis.
É urgente inverter esta tendência. PS e PSD têm de compreender que não basta mudar slogans, remodelar equipas ou entreterem-se em joguinhos de palavras, ‘números’ mediáticos e bravatas inconsequentes. A credibilidade não se recupera com maquilhagem, recupera-se, isso sim, com ideias, coragem, competência, transparência e sentido de Estado, algo que cada vez mais se constata faltar à esmagadora maioria dos nossos atores políticos.
Talvez por isso mesmo, a solução seja, mais a curto do que a médio prazo, tentar encontrar outros protagonistas, não aqueles que já se põe pressurosamente em bicos de pés pensando estar para breve a sua hora, mas sim, sem qualquer tique nostálgico, alguns dos que se afastaram nos últimos tempos, mas que conservam a experiência, a independência e a capacidade necessárias para devolver à política o brilho, o talento e a dignidade fundamentais para que exista propósito, vontade e clarificação no seu exercício.
Até porque, convenhamos, a democracia portuguesa não pode continuar eternamente neste ‘intervalo’ fastidioso e sem sentido, sob pena de o seu progressivo definhamento lhe poder vir a ser fatal.

José Paulo Fafe
Há momentos em que o silêncio não é apenas de ouro. É também uma medida elementar de proteção política. António Leitão Amaro, ministro da Presidência e diligente porta-voz do Governo, acaba de oferecer-nos uma demonstração particularmente esclarecedora desta velha verdade.
Questionado sobre o regresso do Estado português ao capital da REN, explicou que o problema não é a existência de um acionista estatal. Afinal, já lá está um. Só que é estrangeiro. Mais concretamente, chinês. Portanto, esclareceu o ministro, discute-se apenas se, além do Estado estrangeiro, também deve entrar um segundo Estado que, por feliz coincidência geográfica, é o Estado português. A explicação, no fundo, tem a simplicidade de um ‘sketch’ dos Gato Fedorento: a REN já pertence, em parte, a um Estado, só faltava agora que esse Estado fosse o nacional.
Leitão Amaro quis defender a recompra de uma participação na REN, mas acabou por resumir, com uma eficácia quase cruel, o absurdo das privatizações estratégicas realizadas em Portugal: o Estado português vende porque lhe dizem que o Estado não deve estar na economia e, anos depois, descobre que o comprador é… outro Estado.
O problema, pelos vistos, nunca foi haver Estados acionistas. O problema era o Estado ser o nosso. Lembremo-nos que durante anos explicaram-nos que a presença pública na economia era um anacronismo, uma herança bafienta e um obstáculo à modernidade que todos, quando no poder, nos prometem, para ato contínuo, entregarem posições estratégicas a empresas controladas por governos estrangeiros. Chamou-se a isso investimento, abertura dos mercados e atração de capital. Agora, quando Portugal tenta recuperar uma parcela daquilo que vendeu, chama-se soberania.
No fundo, é uma extraordinária ‘viagem ideológica’ de ida e volta, com o contribuinte, claro, como de costume, a pagar o bilhete nas duas direções.
Mas Leitão Amaro, com aquele seu ar que não condiz propriamente com grande desembaraço de raciocínio, ainda rematou: “Isto não é novidade.” E nisso, até tem toda a razão – não é novidade que Portugal venda barato e a seguir compre caro; não é novidade que decisões apresentadas ontem como inevitáveis sejam hoje corrigidas como se ninguém tivesse responsabilidade por elas; e também não é novidade que um governante, na tentativa de esclarecer, consiga tornar a trapalhada ainda mais evidente.
Amaro pretendia construir um argumento patriótico. Acabou a fazer a autópsia involuntária de uma política económica: expulsámos o nosso Estado para acolher o Estado dos outros e, agora, pagamos um prémio para o deixar regressar a casa. Talvez seja mesmo essa a nova doutrina oficial, vá lá saber-se se ditada por qual das muitas luminárias que rodeiam Luís Montenegro: a REN pode ter acionistas estatais, desde que o português entre pela porta das traseiras, peça desculpa pelo incómodo e traga a carteira.
Há porta-vozes que explicam. Outros esclarecem. E há os que, como o esforçado Leitão Amaro, ao abrirem a boca, nos recordam por que razão o botão de desligar o microfone é uma das mais importantes conquistas tecnológicas da humanidade.

José Paulo Fafe
Há países que produzem automóveis, outros semicondutores, outros petróleo. Portugal, modestamente, especializou-se numa indústria em que dificilmente alguém nos bate: a produção de cargos e carguinhos. Temos comissões, subcomissões, grupos de trabalho, unidades de missão, estruturas de acompanhamento, observatórios e, naturalmente, comissários para praticamente tudo. Faltava o Sol. Já não falta.
O Governo decidiu criar o cargo de Comissário Nacional para o Eclipse 2026. Sim, leu bem. Um comissário para acompanhar um fenómeno astronómico que acontece há milhares de milhões de anos sem despacho ministerial, resolução do Conselho de Ministros ou verba inscrita no Orçamento do Estado.
É reconfortante saber que, quando a Lua se colocar entre a Terra e o Sol, haverá finalmente alguém oficialmente responsável por acompanhar a ocorrência. Imagino o alívio do sistema solar.
A decisão, porém, não surpreende. Ainda há dias foi nomeado um antigo vice-primeiro-ministro para comissariar as comemorações, daqui a 17 anos, dos 900 anos de um acontecimento histórico sobre o qual nem sequer existe certeza absoluta quanto à data, ao local ou à forma como ocorreu. Nada que perturbe o nosso entusiasmo administrativo. Se há uma efeméride no horizonte, há seguramente uma comissão à espera de nascer, e alguém para chefiá-la.
Portugal pode ter dificuldades em construir casas, executar investimentos ou reduzir burocracias. Mas quando chega a hora de criar uma estrutura, nomear um responsável e produzir um organograma, somos imparáveis, uma verdadeira potência mundial
Por isso, perante este furor legislativo, convém começar já a pensar no futuro. O próximo eclipse total do Sol visível em Portugal continental depois deste ciclo só chegará muito mais tarde, dizem que lá para 2144 teremos uma dessas grandes datas astronómicas.
Ora, como 118 anos passam num instante, sobretudo na Administração Pública, sugiro, portanto, que o governo não perca tempo e nomeie imediatamente o Comissário Nacional para o Eclipse de 2144. Com adjunto, gabinete, observatório, unidade de missão e grupo de acompanhamento, naturalmente. Não vá o Sol chegar primeiro do que o despacho…

José Paulo Fafe
Luís Montenegro nunca escondeu a admiração por Cavaco Silva e até deixa transparecer alguma identificação com a forma como o antigo primeiro-ministro e Presidente da República exercia o poder. Mas, observando a sua prática política, começo a pensar que Montenegro gostaria de se parecer com Cavaco, mas está cada vez mais parecido com José Sócrates.
Não falo, evidentemente, de processos judiciais ou de qualquer comparação dessa natureza, longe disso. Refiro-me exclusivamente ao comportamento perante o poder, o jornalismo, o escrutínio público e a adversidade.
Cavaco podia ser frio, distante e pouco dado a intimidades com jornalistas. Tinha uma relação difícil com alguma imprensa e nunca foi propriamente um campeão da comunicação. Mas, reconheça-se-lhe, cultivava uma imagem de contenção e procurava separar a autoridade do cargo da disputa quotidiana com quem o escrutinava.
Sócrates era diferente. Enquanto tudo corria bem, exibia uma enorme confiança. Quando surgia a adversidade, porém, perguntas incómodas eram frequentemente encaradas como provocações, notícias desfavoráveis como campanhas e jornalistas mais persistentes quase como adversários políticos.
É aqui que começo a encontrar maiores semelhanças com Montenegro.
O atual primeiro-ministro parece revelar crescente dificuldade em conviver com um jornalismo que não reproduza a narrativa oficial. Perante contradições, perguntas desagradáveis ou assuntos que preferiria não discutir, nem sempre demonstra a serenidade exigível a quem ocupa São Bento. Surge a irritação e, por vezes, a tentação de transformar quem pergunta no problema, em vez de responder ao problema.
Há depois uma segunda semelhança, talvez ainda mais perigosa: o deslumbramento com o poder.
Agenda, protocolo, assessores, viagens, elogios e permanente atenção mediática criam facilmente uma realidade artificial. O governante começa a acreditar que a popularidade é permanente, que domina os acontecimentos e que a crítica resulta sobretudo da má-fé alheia.
Sócrates deixou-se progressivamente consumir por uma sensação de invulnerabilidade. Politicamente, esse deslumbramento acabou por lhe ser fatal, independentemente de tudo o que posteriormente marcou a sua vida judicial.
Montenegro faria bem em olhar para essa experiência. Porque, apesar da inspiração assumida em Cavaco Silva, a sua prática começa a recordar muito mais Sócrates do que Cavaco.
Um primeiro-ministro não demonstra força escolhendo os jornalistas perante os quais presta contas, irritando-se com perguntas ou hostilizando o mensageiro. Demonstra-a respondendo, explicando e suportando o escrutínio — sobretudo quando as notícias são desagradáveis.
A História ensina que o poder raramente começa a perder-se nas urnas. Começa quando quem governa deixa de ouvir, confunde crítica com perseguição e acredita demasiado na sua própria infalibilidade.
Sócrates aprendeu essa lição da maneira mais dura. Montenegro – espero – ainda pode ir a tempo.

José Paulo Fafe
Num tempo em que a política parece cada vez mais dominada pelo cálculo imediato, pela conveniência circunstancial e pela gestão permanente da imagem, recordar Francisco Salgado Zenha é recordar uma forma diferente de estar na vida pública.
Salgado Zenha foi um dos verdadeiros príncipes da Democracia portuguesa. Não pelo poder que exerceu, nem pelos cargos que ocupou, mas pela dimensão ética que sempre imprimiu à sua intervenção cívica e política.
Advogado brilhante, opositor corajoso da ditadura, resistente antifascista quando isso implicava riscos pessoais reais e não apenas discursos retrospetivos, Salgado Zenha construiu uma carreira assente numa rara combinação de inteligência, coragem, independência e elegância.
O que mais impressiona, contudo, quando olhamos para o seu percurso, é o seu profundo desprendimento. Numa atividade onde tantos procuram lugares, privilégios ou reconhecimento, Zenha parecia mover-se por motivações diferentes. A política era para ele uma missão e não uma profissão. Um dever de consciência e não um instrumento de ascensão pessoal.
Foi essa integridade que o levou, em diversos momentos da sua vida, a seguir caminhos solitários. Quando as circunstâncias o exigiram, não hesitou em afastar-se dos seus próprios companheiros políticos – nunca por ressentimento ou ambição, mas por pura e estrita fidelidade às suas convicções.
A sua candidatura presidencial de 1986 constitui talvez um dos exemplos mais marcantes dessa independência. Sabia que enfrentava probabilidades reduzidas de vitória. Sabia que os equilíbrios políticos lhe eram desfavoráveis. Mas acreditava que havia causas que mereciam ser defendidas, mesmo quando o sucesso eleitoral não estava garantido.
Essa atitude é hoje particularmente inspiradora.
A Democracia portuguesa deve muito a homens como Francisco Salgado Zenha. Homens que perceberam que a política só faz sentido quando assenta em princípios, que sempre colocaram o interesse coletivo acima das conveniências pessoais, e que souberam nunca confundir lealdade com submissão.
Num tempo de crescente desconfiança dos cidadãos em relação às instituições e aos seus representantes, vale a pena revisitar a sua vida. Não para a transformar num exercício de nostalgia, mas para recordar que a política pode ser um espaço de dignidade, independência e serviço público, onde existiram homens públicos que nunca sacrificaram a consciência em troca da conveniência.

José Paulo Fafe
Há muito que Portugal deixou de ser um país governado por leis para passar a ser governado por estados de alma. A lei continua a existir, mas a sua interpretação depende cada vez mais de um detalhe absolutamente decisivo: quem é o arguido da praça pública.
Se o visado pertencer à tribo certa, aparece imediatamente um batalhão de comentadores de serviço para explicar que tudo é mais complexo do que parece – que há um contexto, que existem nuances, que o melhor é esperar, não entrar em julgamentos precipitados, até porque, dizem eles, os media (sempre os ‘malditos’ media…) exageram. E já sabemos, claro, que a direita instrumentaliza, a esquerda dramatiza – ou vice-versa, que para o caso tanto faz.
Se, pelo contrário, o protagonista for alguém de outra família política, a sentença chega antes da investigação. Exigem-se demissões, comissões de inquérito, pedidos de desculpa, confissões públicas e, se possível, uma cerimónia de autoflagelação em horário nobre.
A polémica que envolve o ministro Luís Neves voltou a revelar este velho vício nacional, quanto mais não seja porque o mecanismo de reação é rigorosamente o mesmo: primeiro decide-se quem está em causa; só depois se decide qual é o princípio aplicável.
Entendamo-nos: se o ministro Luís Neves violou deveres políticos ou éticos, deve responder por isso sem hesitações nem complacências, até porque o cargo que ocupa exige exemplaridade e não há currículo, por mais extraordinário que possa ser, que substitua essa obrigação – o problema começa quando percebemos que a exigência deixa de ser um princípio e passa a depender apenas da identidade do visado.
Às vezes convém de algumas coisas que passaram no passado, e como elas foram encaradas por tantos. Assim, é inevitável lembrarmo-nos desse autêntico ‘exercício de ginástica ética’ que muitos fizeram quando, há dois ou três anos, Ana Gomes se viu envolvida na polémica da piscina construída em pleno Parque Natural de Sintra-Cascais. A piscina acabaria demolida e enterrada, mas durante demasiado tempo houve quem parecesse mais preocupado em proteger a reputação da proprietária do que em discutir aquilo que verdadeiramente importava: a igualdade perante a lei.
Foi um momento pedagógico. Descobrimos que uma piscina podia ser apresentada como um mal-entendido paisagístico, quase como uma manifestação artística em betão armado, e houve mesmo quem a apresentasse, também, como um simples tanque, acrescendo a tudo isto que tivemos uma casa de máquinas da dita cuja piscina que a proprietária teimava em apresentar como se de um arrumo de material agrícola ou jardinagem se tratasse.
Desde então, nada mudou, continuando nós a assistir ao espetáculo da elite das boas causas, sempre pronta a distribuir certificados de virtude e lições de cidadania, desde que nunca tenha de aplicá-las aos seus. É uma elite curiosa, que fala constantemente em igualdade, mas especializou-se em fabricar exceções; que proclama a transparência, mas aprecia zonas de sombra quando o sol incide sobre os amigos; que exige responsabilidade, mas apenas a reclama aos adversários.
Sejamos claros: o problema não é existirem polémicas, as democracias saudáveis vivem delas, e devem até estimulá-las, desde que frutíferas e capazes. O problema é a indignação, esse direito hoje tão reclamado e tão hipocritamente invocado, funcionar como um clube privado, com quotas de entrada e cartão de associado.
Os portugueses já perceberam o jogo. Sabem distinguir um princípio de uma conveniência e uma convicção de uma estratégia. Sabem, sobretudo, reconhecer o cinismo e a sonsice quando aparecem embrulhadas em discursos sobre ética e valores.
Essa é uma das maiores tragédias da nossa vida pública. Não a existência de erros, abusos ou polémicas – esses existirão sempre, claro. Mas a persistência de uma classe de moralistas profissionais que continua convencida de que o país ainda acredita que há cidadãos iguais perante a lei… e cidadãos simplesmente mais iguais do que os outros.

José Paulo Fafe
Confesso que, na passada quinta-feira, quando saí do Museu do Oriente, onde assisti à apresentação do estudo promovido pela CIP sobre a economia portuguesa, pensei em cortar os pulsos, tal o estado depressivo em que caí depois de ter ouvido atentamente os dois autores do documento.
A verdade é que poucas vezes alguma coisa, no caso um estudo, me deixou tão deprimido. Não por dizer algo que eu desconhecesse, antes pelo contrário – o prémio Nobel da Economia, James A. Robinson, e Nuno Palma, alguém que nos vem habituando a ter um talento especial em pôr o dedo na ferida, limitaram-se, tão só, a colocar em papel aquilo que todos sabemos, todos comentamos à mesa do café e todos fingimos não ver quando chega a hora de votar.
O estudo é um raio-X cruel de um país que deixou de acreditar em si próprio, que vive há décadas anestesiado pelos fundos europeus, convencido de que Bruxelas resolverá aquilo que sucessivos governos nunca tiveram coragem de enfrentar.
Um país habituado aos cheques que vão chegando, que adia continuamente reformas, que alimenta burocracias, que protege interesses instalados, e que para quem produtividade, competitividade e mérito não passam de palavras bonitas para discursos de ocasião.
Hoje percebemos bem o preço dessa ilusão, de um país que insiste em divergir da Europa, e que já não se limita apenas a crescer pouco, mas a ficar inapelavelmente para trás. E o mais inquietante de tudo isto é perceber que o problema não é falta de talento, de empresários ou de trabalhadores. O problema, o verdadeiro problema, é um Estado que não funciona, uma Justiça que chega sempre tarde, uma administração pública onde o mérito continua demasiadas vezes a perder para a antiguidade, para a influência ou para a velha “cunha”.
Robinson descreve Portugal como um país onde prospera aquilo que é chamado de “capitalismo de compadrio”. Dói ouvir isto, ainda por cima da boca de um Nobel, mas dói ainda mais perceber que é difícil desmenti-lo.
A banca, a energia, a construção, a distribuição, as ‘portas giratórias’, os reguladores capturados, os licenciamentos intermináveis, os processos que prescrevem porque ninguém decidiu a tempo, tudo isto forma um retrato pouco simpático, mas assustadoramente reconhecível.
Mas, no entanto, o mais grave nem sequer é o impiedoso diagnóstico feito por Robinson e Palma – é, isso sim, o silêncio. Num país ‘normal’, um estudo deste tipo devia abrir todos os telejornais durante uma semana, provocar um debate nacional, obrigar governo, oposição, parceiros sociais e Presidente da República a responderem à pergunta mais simples de todas: afinal, quem nos trouxe até aqui?
Receio, porém, que aconteça o costume. Uns dirão que a culpa é dos outros, e esses, os outros, responderão que a culpa é dos primeiros. E todos, sem exceção,continuarão a prometer reformas que nunca chegam.
No meio disto tudo, o país vai envelhecendo, os jovens continuam a partir, as empresas perdem competitividade e nós lá vamos sobrevivendo, ansiosos por mais um pacote europeu que venha resolver aquilo que apenas nós próprios podemos resolver.
No fim da sessão, já recomposto da minha momentânea vontade de cortar os pulsos, até porque o meu eventual decesso seria certamente uma intrincada trapalhada burocrática para a minha família, tais os certificados, atestados e requerimentos que naturalmente seriam obrigados a pedir, consultar, preencher e requerer, fiquei apenas com uma certeza: o verdadeiro drama de Portugal não é haver quem faça diagnósticos. É continuarmos, há décadas, a arquivá-los na mesma gaveta onde repousam todas as reformas que nunca tivemos coragem de fazer...

José Paulo Fafe
Há um momento em que uma sociedade deixa de se indignar. Não porque tenha deixado de distinguir o certo do errado, mas porque se habituou ao ruído.
É precisamente esse o ponto em que Portugal parece estar.
Há demasiado tempo que a vida política nacional vive mergulhada numa sucessão interminável de casos, polémicas, suspeitas, incompatibilidades, nomeações discutíveis, favorecimentos, conflitos de interesses e episódios que, mesmo quando não configuram qualquer ilícito, revelam uma preocupante ausência de sentido ético. O problema deixou de ser um caso isolado, o problema é a normalização.
Mais inquietante ainda é a forma displicente e arrogante como uma parte significativa da classe política reage, como se a exigência dos cidadãos fosse um incómodo e não a essência da democracia. A estratégia parece repetir-se: negar, relativizar, atacar quem questiona, esperar que o ciclo mediático mude e seguir em frente como se nada tivesse acontecido.
Mas acontece. Acontece todos os dias. Acontece na erosão da confiança, no afastamento dos eleitores, na crescente descrença em relação às instituições e na convicção, cada vez mais disseminada, de que existe uma elite política que vive segundo regras diferentes das impostas aos restantes cidadãos.
Uma Democracia não morre apenas quando deixa de haver eleições livres. Também se fragiliza quando os cidadãos deixam de acreditar que quem governa merece governar. Quando desaparece a confiança, abre-se espaço ao populismo, ao radicalismo e à tentação de procurar soluções fáceis para problemas complexos.
A política exige competência, mas exige igualmente exemplo. Quem exerce funções públicas não pode limitar-se a cumprir a lei; tem de cumprir um padrão ético mais elevado, porque administra recursos públicos e representa o Estado. Infelizmente, essa ideia parece ter desaparecido de demasiados corredores do poder.
O país enfrenta desafios sérios na economia, na saúde, na justiça, na educação, na habitação e na competitividade. Em vez de respostas, assiste frequentemente a disputas menores, estratégias de sobrevivência partidária e jogos de comunicação que pouco acrescentam à vida dos portugueses.
A Democracia não é um dado adquirido. Vive da confiança, da credibilidade e do respeito entre representantes e representados. Sempre que a política se afasta destes princípios, não são apenas os políticos que perdem. Perdemos todos.
Esta estranha indiferença e esta perigosa modorra que começam a instalar-se na sociedade portuguesa, com uma classe política maioritariamente medíocre alheada da realidade, é porventura um dos maiores perigos que a Democracia portuguesa enfrentou nos últimos 52 anos. E quem não perceber isso, quem não quiser entender que a Democracia está de facto ameaçada, pode, um dia destes, vir a ter uma grande surpresa…

José Paulo Fafe
Há muito que a política portuguesa confunde comunicação com propaganda, tal como propaganda com marketing. O resultado está à vista: governos que falam muito, mas comunicam pouco; ministros que surgem quando lhes convém, rodeados de filtros, assessores e guiões; e uma crescente distância entre quem governa e quem é governado.
Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, escolheu um caminho bem diferente. Herdando um modelo que já vinha do seu antecessor, mas dando-lhe a sua própria marca, mantém encontros praticamente diários com os jornalistas. Não serão momentos excecionais preparados ao milímetro para anunciar uma medida ou responder a uma crise, admito, mas transformaram-se numa (boa) rotina de governação.
Pode concordar-se ou não com as políticas da presidente mexicana, podemos discordar das suas opções ideológicas – mas é difícil não reconhecer o mérito de um princípio essencial: quem exerce o poder deve estar disponível para prestar contas, explicar decisões e responder a perguntas.
E é precisamente aí que no nosso país se falha, tendo-se instalado a cultura da comunicação defensiva: as conferências de imprensa tornaram-se raras; as entrevistas são cuidadosamente selecionadas; e os jornalistas passam semanas à espera de esclarecimentos que nunca chegam. Em vez de uma relação direta com os cidadãos através da comunicação social, de forma pueril e amadora, mal aconselhados, os políticos portugueses privilegiam a mensagem publicada nas redes sociais, o vídeo institucional ou a mal-amanhada declaração de trinta segundos à entrada de um evento.
É um erro. Até porque a comunicação política não serve apenas para transmitir mensagens, serve, isso sim, para criar confiança – uma confiança construída na disponibilidade para responder, mesmo quando as perguntas possam ser incómodas.
E paradoxalmente, muitos responsáveis políticos portugueses queixam-se do crescimento do populismo, da desinformação e da perda de credibilidade das instituições, esquecendo-se de que esses fenómenos prosperam precisamente nos espaços deixados vazios pela ausência de informação clara, regular e transparente.
Um primeiro-ministro ou um ministro não perde autoridade por responder frequentemente aos jornalistas. Pelo contrário, isso confere-lhes legitimidade
Longe de mim defender aqui a ‘cópia’ do modelo mexicano em toda a sua dimensão, até porque os contextos políticos, mediáticos e culturais são diferentes. Mas talvez valesse a pena recuperar uma ideia simples: um primeiro-ministro ou um ministro não perde autoridade por responder frequentemente aos jornalistas. Pelo contrário, isso confere-lhe legitimidade.
Já é altura dos nossos políticos apenderem que num tempo em que a política vive sob escrutínio permanente e em que qualquer rumor percorre o país em minutos, o silêncio raramente protege. Mais: na maioria das vezes, apenas alimenta a especulação. E perceberem de vez que comunicar não é um favor que os governantes fazem aos jornalistas, mas sim uma obrigação para com os cidadãos.

José Paulo Fafe
Confesso que, nos últimos tempos, se tornou cada vez mais difícil escrever sobre a política portuguesa. Não porque faltem acontecimentos, polémicas ou declarações, bem antes pelo contrário. O problema é outro e resume-se muitas vezes à escassez da qualidade dos seus protagonistas. E quando a política perde qualidade, também o comentário corre o risco de se transformar num exercício repetitivo, quase burocrático, de mera descrição da mediocridade.
Assistimos diariamente a um desfile de protagonistas deslumbrados com o poder, mais preocupados com a próxima câmara de televisão, ou com as prebendas e mordomias que o poder lhes confere, do que com os problemas do país – atores que vivem numa realidade paralela, incapazes de perceberem as dificuldades de quem espera meses por uma consulta, não consegue comprar casa, paga impostos sufocantes ou vê os filhos partir porque já não encontram futuro em Portugal.
A política transformou-se num espaço onde a pose vale mais do que a competência, a frase estudada mais do que a substância e o cálculo tático mais do que a visão estratégica
A política transformou-se num espaço onde a pose vale mais do que a competência, a frase estudada mais do que a substância e o cálculo tático mais do que a visão estratégica. Debatem-se intrigas, alimentam-se polémicas de ocasião e fabricam-se inimigos imaginários, enquanto os verdadeiros desafios nacionais vão sendo sucessivamente adiados.
O mais inquietante é que a degradação não se limita a um partido, a um governo ou a uma oposição, é transversal a toda a cena política. E por outro lado, a sensação de ausência de alternativas credíveis instala-se perigosamente, e pese embora a mudança de rostos, repetem-se os discursos e perpetua-se a impressão de que ninguém está verdadeiramente preparado para pensar o país para além do próximo ciclo eleitoral.
Perante este cenário, compreendo quem sinta vontade de desligar a televisão, ou sequer ligá-la, não abrir um jornal e virar costas à política. Há dias em que essa tentação parece irresistível, ou seja, ‘blindar’ olhos e ouvidos, para muitos, um natural mecanismo de defesa contra um espetáculo que oscila entre o deprimente e o absurdo.
Mas seria um erro, talvez mesmo um ato de cobardia cívica, até porque, enquanto os cidadãos se afastam, a mediocridade, em modo de ‘via verde’, instala-se sem resistência; enquanto desistimos de exigir mais, normalizamos a incompetência; e enquanto fingimos que nada nos diz respeito, há quem trate o futuro coletivo com uma irresponsabilidade que, por vezes, roça o criminoso.