
Carlos Janela
O Futebol é o desporto mais famoso do nosso Planeta.
Como é que o desporto mais popular do globo é, simultaneamente, o mais difícil de praticar?
Toda gente fala, discute, debate, analisa e opina sobre futebol e a esmagadora maioria das pessoas, não tem a noção, nem sequer a percepção, que o Futebol é a modalidade desportiva mais difícil de praticar.
Não me refiro apenas aos adeptos.
A grande maioria dos jogadores, treinadores, dirigentes e comentadores, não tem consciência dos “pormaiores invisíveis” que tornam o Futebol um jogo com dificuldades únicas.
Para tentar explicar a complexidade do futebol vou usar o “método comparativo” – ou seja, comparar o futebol com outras modalidades colectivas que usam uma bola.
Enumero cinco razões principais que tornam o Futebol é o desporto mais difícil de jogar.
Razão 1 – É jogado com a parte do corpo (os Pés) mais distante do Cérebro. À exceção dos guarda-redes, que na sua área, podem usar as mãos e restantes partes do corpo, os futebolistas que actuam nas outras funções, apenas podem utilizar os pés (e a cabeça). Sabendo que tudo está no Cérebro e que é este que dá “ordens” a todas as partes do corpo, e destas, recebe todas as “informações”, através da bainha de mielina, pense-se na grande distância entre o cérebro e os pés, e, nos milhões de neurónios e estímulos que envolve cada gesto e cada movimento de um jogador de futebol.
Com a velocidade e a intensidade do Futebol actual, todas as conexões nervosas são processadas em nanosegundos. É um processo fascinante.
Por comparação, os andebolistas, os basquetebolistas, os voleibolistas, etc. jogam com uma parte do corpo próxima do cérebro, as mãos. As informações e estímulos nervosos têm de percorrer metade do caminho e são envolvidos menos milhares de neurónios e ramificações.
Razão 2 – É jogado por uma parte redonda do corpo, os pés (e a cabeça), com um objecto redondo, a bola. Imaginem o grau de dificuldade para dominar, passar e chutar com uma direcção intencional e definida, um objecto redondo, a bola, por uma extremidade redonda, os pés. Por todas as leis da Física e da Bio Mecanica, é muito, mas muito, difícil.
Acresce que no acto de dominar, passar e chutar a bola, é usado apenas um dos pés.
Por comparação, o Andebol, o Basket, o Voleibol, Rugby, etc. jogam a bola com as mãos que são uma parte do corpo que agarra, segura e controla todo o tipo de objectos. As mãos, por todas as leis da anatomia e da biomecânica, manuseiam e direcionam uma bola com mais segurança e facilidade que os pés.
Imaginem o que seria se no Basket, Andebol, etc. tivessem de dominar, passar e jogar a bola, com as costas das mãos, a parte mais redonda das mãos.
E não esquecer, nestas modalidades, ainda se pode usar simultaneamente as duas mãos para dominar e controlar a bola. Algo impossível no futebol.
Razão 3 – Sempre que se domina, conduz, passa e chuta uma bola, todo o equilíbrio do corpo fica assente e dependente de uma só perna, a outra perna.
Sempre que se toca e/ou transporta a bola no pé direito ou esquerdo, o equilíbrio da unidade corporal do jogador é feito apenas pela outra perna. Os apoios no solo e os centro de gravidade que suportam todos os movimentos e acções de um futebolista, e que transformam em milionésimos de segundo os desequilíbrios em equilíbrios, são feitos por apenas a outra perna que não tem a bola. E se não é fácil controlar uma bola com um pé, imagine-se que no acto de dominar uma bola, simultaneamente ter que manter o equilibro do movimento apenas numa só perna. Lembremos as dificuldades de brincar ao pé-coxinho?!
Isto não acontece em mais nenhuma modalidade desportiva, pois conduzindo a bola com as mãos (ou stick), os jogadores têm permanentemente as duas pernas no solo, permitindo estar sempre mais equilibrados nos seus múltiplos movimentos.
Razão 4 – A Visão Periférica de um futebolista obriga a uma complexa “coordenação óculo-pedal”, para simultaneamente controlar a bola e realizar acções com os pés, percepcionar o espaço e o contexto circundante.
Acresce que a bola, um objecto redondo, em contacto com uma parte redonda, os pés, sofre efeitos inesperados e irregulares, obrigando a vista a reagir em microsegundos.
Coordenar – a bola no pé, o adversário, os colegas de equipa, o espaço de jogo e as balizas – é um “processo óculo-pedal” muito complexo.
Por comparação, as outras modalidades jogadas com a mão, usam a “coordenação óculo-manual”, bem mais simples, pois a bola está mais próxima dos olhos, permitindo libertar o cérebro para outras acções/soluções no jogo.
Razão 5 – Ao jogar a bola com os pés, os futebolistas têm mais dificuldades em proteger a bola dos adversários. Pela dificuldade do domínio da bola, pois os pés não agarram a bola, não guardam e não escondem a bola como as mãos podem fazer, e, pelo permanente desequilíbrio/equilíbrio dos movimentos, um futebolista tem a bola sempre ao alcance dos adversários. É uma arte única saber proteger a bola dos adversários.
Por comparação, em mais nenhuma outra modalidade a bola fica tão liberta e ao alcance dos adversários. Podem até guardar a bola atrás das costas.
Termino dizendo que considero o Desporto, em geral, e o Futebol, em particular, uma das necessidades fundamentais do Homem a par do Amor, Alimentação, Cultura, Descanso e Trabalho.