
Miguel Relvas*
Dois anos depois da chegada da AD ao Governo, o país continua preso a uma estranha sensação de adiamento. Não estamos perante um problema de calendário político, mas sim de ausência de transformação estrutural. Mudaram os protagonistas, mas o essencial permanece praticamente intocado.
O primeiro ano de governação foi consumido a apagar fogos e a responder à pressão de sectores profissionais em conflito aberto com o Estado. Polícias, professores, transportes e saúde dominaram a agenda. Era inevitável estabilizar o ambiente social. O problema é que, ultrapassada essa fase, o país esperava reformas. E elas não apareceram.
A justiça continua lenta e incapaz de responder com eficácia. O Serviço Nacional de Saúde mantém sinais evidentes de desgaste. As infraestruturas degradam-se. A reforma do Estado permanece interditada, como se tocar na máquina pública fosse um tabu nacional.
Entretanto, o Estado revela uma eficácia assinalável numa única área: a cobrança de impostos. Nunca o peso fiscal foi tão elevado, nunca os portugueses sentiram tão fortemente a pressão sobre os seus rendimentos, e nunca o aparelho do Estado pareceu tão resistente à mudança. Alimenta-se uma estrutura pesada, burocrática e pouco reformista, enquanto o país perde competitividade e capacidade de crescimento.
A verdade é desconfortável: Portugal vive há mais de uma década num ciclo de gestão corrente. Desde 2015 que se sucedem governos incapazes de enfrentar os problemas estruturais do país com coragem reformista. Vamos empurrando decisões, adiando mudanças e administrando expectativas.
Também na comunicação política o Governo transmite sinais contraditórios. Existem demasiadas vozes, demasiados protagonistas e pouca coordenação estratégica. Um executivo não pode funcionar como um coro desafinado, onde cada ministro interpreta a sua própria partitura.
A polémica em torno do hastear da bandeira LGBT no Ministério dos Negócios Estrangeiros é apenas um exemplo dessa confusão entre convicções pessoais e representação institucional do Estado. O debate não está na liberdade individual de cada governante, mas na forma como os símbolos do Estado devem ser utilizados.
Uma remodelação governamental poderá alterar rostos e gerar algum efeito mediático momentâneo. Mas não resolverá o essencial. Portugal precisa de liderança reformista, visão estratégica e coragem política. Precisa, sobretudo, de deixar de viver em suspenso.
Porque um país não cresce quando passa demasiado tempo à espera de si próprio.
*resumo da responsabilidade do 24Horas da participação do autor no programa ‘CNN Fim de Tarde’