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Afonso de Melo

PORTUGALDO

Afonso de Melo

Portugaldo. Ou o país que temos e que queremos. Nos últimos 30 anos Ronaldo foi mais do que Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque e Pessoa e Saramago e Maria João Pires e Vieira da Silva e o diabo a quatro. Leiam a enormidade bacoca do que se escreveu. Nos últimos três dias estamos reduzidos a quatro sílabas e de plástico que é mais barato.

Cartazes e telejornais, primeiros-ministros e secretários de estado (com letra pequena), festivais da confusão e da especulação. Gosto dele. Do Ronaldo, quero dizer. Foi um dos meus meninos na Selecção Nacional. Sou amigo dele. Ele ser meu amigo depende dele. Conheci-o com 17 anos, agora tem 41. Séculos de distância. Não opino. Constato.

Portugal parado à espera do seu desabafo. Portugal à espera. Portugal sempre à espera do futuro porque não consegue digerir o presente. No campo, a bola corre. Na vida da gente a vida corre porque temos fome e temos sede e contas para pagar e casas para cuidar e pais e filhos para amar e nós próprios para sobreviver e, francamente!, isso custa às vezes tanto, tanto, que nem conseguimos dormir. E que importa? Um país preso de repente de um acordo ou desacordo, de uma frase ou de um gesto desabrido, ou do quê afinal? O nosso povo, quase milenar tem a sabedoria de saber: nada urgente continuará urgente ao fim de seis meses.

Os irmãos desavindos abraçar-se-ão, lágrimas irão escorrer na altura dos abraços reconciliadores, um faduncho de saudade soará como música de fundo porque essa é a inevitabilidade da nossa idiossincrasia. A espuma dos dias chamou-lhe Boris Vian. Viva lá o seu compadre!, dizia o Vilaça do divino Eça. Haja pachorra, digo eu.

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Publicado em 04 outubro de 2026
Afonso de Melo

RECORDAÇÃO DA CASA DOS MORTOS

Afonso de Melo

Contava Dostoyevsky que nos confins da Sibéria, entre a estepe e a montanha e a floresta impenetrável, Aleksander Gorianthivok aprendeu a perder a esperança. Mais do que estar preso num campo penal estava preso dentro de si próprio. Homens presos dentro de si próprios têm a tendência de correr para o suicídio como os antigos casalinhos amoráveis frustrados saltavam do viaduto Duarte Pacheco. Suicidários portanto.

Gente para qual a vida deixou de ter sentido a partir do momento em que percorrem corredores infinitos que desembocam em mais corredores infinitos num carrinho de pedais como Danny a ver coelhos pornográficos no Shining de Stanley Kubrick.

Se Rui Costa quis transformar o Benfica num filme apavorante escolheu o realizador certo: comprou Silva, uma versão de Lage mas com menos currículo. 

A Casa dos Mortos da Luz entrou nos carris do Comboio Fantasma: só se assustam os inocentes; os adultos encolhem os ombros. Uma planície deserta de ideias e de convicções estende-se até ao horizonte e provavelmente mesmo para lá dele. Em redor o silêncio espalha-se como um cancro. ‘Odiei-te com afecto; amei-te com ódio; foste-me, em suma, indiferente’: um aforismo construído sobre paradoxos. Faz sentido quando a descrença é a única coisa que passou a fazer sentido. Olhamos para o que se passa e vemos presidente e treinador a fazer a figura da velhinha que perdeu a agulha na cozinha e foi procurá-la na varanda. Quando lhe perguntaram porquê respondeu: ‘na cozinha não há luz, vou procurar aqui que está iluminado’. A lógica é irrefutável. Mas duvido que encontrem a agulha.

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Publicado em 24 julho de 2026
Afonso de Melo

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  4. MODAS E BORDADOS
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  6. MENINOS PERDIDOS NA FOZ DO CONGO

PARTEM E NĀO DEIXAM SAUDADES

Afonso de Melo

Como diria o António Silva no Pátio das Cantigas; ‘manda saudades que é coisa que cá não deixas’. Partiu e não deixa saudades este Portugal de uma confrangedora tristeza. Nem saudades nem memória. Felizes o que podem esquecê-lo. Trazia para a América, numa mala de carteiro, carregada de sonhos e erros de ortografia, a lenda ao pescoço. Menino de sua mãe que resolveu crer que era lindo como os demais. A inocência estava escondida por debaixo das fraldas. Os homens que o digam. Há mais de 30 anos que ando pelo mundo a ver Mundiais.

 

Aprendi logo no primeiro dia : não têm espaço para a mediocridade nem para a cobardia.

 

Aprendi logo no primeiro dia : não têm espaço para a mediocridade nem para a cobardia. Fomos medíocres e cobardes, paz à nossa alma. Apesar de tudo, os bardos da inconsciência fizeram-se ouvir elogiando o oco da nossa mentirosa grandeza: eram a voz da quarta pessoa do singular. A equipa de lavores, do crochet e tricô rompeu pelas suas costuras esgarçadas. Fomos um baloiço à beira de um poço como no poema de Sá Carneiro. ‘Cá por mim não mudo a corda/Se o indez morre deixá-lo/Balouçar-se enquanto vive…’ Vivemos pouco. E depressa. Mas não fomos um cadáver bonito. Fomos da vida vidinha do O’Neill à qual nenhuma poesia resiste. Andem agora por aí com uma lanterna à luz do dia à moda de Diógenes procurando um homem e um culpado. Com a mesma lanterna procurem um líder. Nem às escuras.

Desculpem-me por esta análise tão longa mas não tive tempo para escrever uma mais curta. Para mentalidades curtas os parágrafos são excessivos. Não vou a enterros e não fui a este (talvez um dia vá ao meu). Vim embora na véspera. Fico-me com o anátema da inexistência: ‘Mudar a corda era fácil/Tal ideia nunca tive’. Jamais um adeus foi tão justo. Graças a um Deus menor.

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Publicado em 07 julho de 2026
Afonso de Melo

MODAS E BORDADOS

Afonso de Melo

Somos uma equipa de lavores. Exímios no crochet. E no ponto de cruz e em rendas de bilros. Fazêmo-lo à moda das velhas cerzideiras de outros tempos. Somos de passar e repassar mas não de fazer tapetes que conduzam a vitórias irrevogáveis. Poderíamos muito bem ser treinados pela saudosa Etelvina Lopes de Almeida da revista Modas e Bordados.

Manda dizer a verdade que temos gente que a qualquer momento pode inventar um golo. Mas também dava jeito que, para isso, essa gente se aproximasse mais da baliza contrária ou, pelo menos, levantasse os olhos para a ver. Parece que esta equipa está destinada a não ser valente nem imortal. Não há nenhum esplendor neste Portugal de uma nota só- o dó. Há certos momentos em que pratica um futebol incomestível com manteiga rançosa, esquecendo-se de que a fantasia também pode ser eficaz. Diriam os ingleses com o seu humor condescendente: ‘boring team’.

Dirá o nosso bom povo, de Santa Marta de Penaguião a Chão de meninos, à sua maneira malandra: ‘somos 11 mas 11 à hora’. Os colombianos pareciam doninhas num piquenique de sábado à tarde. Não vieram para cima de nós com a fúria de uma rapariga ruiva, mas também não se montaram nas suas tamanquinhas.

E a noite foi chegando a cavalo como nos filmes do faroeste. Numa coisa estavam ambos de acordo: o jogo seria disputado no meio campo de Portugal. A selecção pode ter aborrecido os pobres espectadores que ficaram acordados pela madrugada aí no rectângulozinho atlântico mas decididamente não aborreceu o adversário. Talvez com medo que ele se escamasse.

Aconselhava um velho treinador brasileiro: quando não conseguires ganhar, empata; quando não conseguires empatar, engana. Nisso fomos brilhantes: empatámos-nos e continuamos a enganar quem nesta equipa acredita. Já o Pitigrilli preferia: ‘quando te parecer que é demasiado tarde para começar uma coisa começa-a logo’. Está visto que não somos bons em começos. O que falta fazer? Tudo!

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Publicado em 28 junho de 2026
Afonso de Melo

O LADO FRESCO DA ALMOFADA

Afonso de Melo

Geralmente é um alívio. O lado fresco da almofada em noites de calor como estas. Também foi um alívio aqui em Houston. Num jogo sem história Ronaldo entrou para a História: primeiro a marcar em seis Mundiais seguidos. De resto, cinco golos claros e límpidos como os olhos de Elizabeth Taylor e uma sonolência de mosca tsé-tsé. Lembram-se do diálogo d’Os Maias? Na festa dos Cohen, o Ministro pergunta ao Carlos, acabado de chegar de Londres: “Em Inglaterra também há grandes romancistas, folhetinistas de génio?”

E o Carlos com um descaramento divino: “Fique sua excelência sabendo que em Inglaterra não há literatura”. E o outro. “Logo vi, logo vi. Um povo essencialmente práctico!” Essencialmente práctico? Portugal. E eles? Um golo anulado e só. Ah! Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! A felicidade curta do pobre que mete a mão no bolso e só de lá tira cinco dedos. E assim, instalados na sua ausência, conseguiram que até o Ronaldo que parecia não meter medo a ninguém se mostrasse capaz de apavorar hipopótamos.

Dançou como um dervixe e levitou como um monge do Tibete. Devagar, devagarinho, como a neve que caía na balada de Augusto Gil, o tempo foi passando entre passes e repasses. O povo ficou feliz e gritou em coro o nome do homem que tanto quer gritar: Cristiano Ronaldo. Um fim adiado. E assim, desde que Adão foi expulso do Paraíso nunca voltou a estar tão perto dele outra vez.

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Publicado em 23 junho de 2026
Afonso de Melo

MENINOS PERDIDOS NA FOZ DO CONGO

Afonso de Melo

Toda a gente sabe que quem quer ir à Lua tem de fazer escala em Houston. Mas a nossa lua não vai para além da Baía do Congo. Admite-se que o próprio Diogo Cão tenha andado um bocado às aranhas para se orientar por aquela zona. Mas decididamente não tanto como os meninos que Portugal alimenta a pão-de-ló.

“Um ritmo lento de andar na areia”, diria o velho Drummond. É o que se arranja. Ser sensato é uma virtude. Mas todos nós conhecemos uns fulanos muitíssimo sensatos que têm uma tendência irrevogável para se tornarem chatos como o K20 que é o símbolo químico da vulgar potassa. A sensatez faz com que se leve tempo a pensar. Mas em que pensa tanto aquela gente sem ideias? Duas diferentes noções de tempo: os outros tinham pressa e nós não. Podem não ter sido tão sensatos mas o resultado foi o mesmo.

Costumo dizer: nada urgente continua urgente ao fim de seis meses. Podíamos ter ficado ali seis meses e a urgência passaria ensonada, de pijama debaixo do braço à procura de um divã onde se deitar. Precisávamos de um bilhete para a Lua, mas ele não cai da mesma se estivermos de mão nas algibeiras. Também podemos passar noites inteiras a olhar para ela que isso não faz com que nos caia do colo. Talvez ir à Lua seja um desejo arrojado. Se calhar o melhor é ficar por Houston. Poupa-se uma viagem.

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Publicado em 17 junho de 2026