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Miguel Relvas

QUANDO O CENTRO SE TORNA PERIFÉRICO

Miguel Relvas

Estamos a assistir a uma progressiva depreciação do centro político português. À direita, o sistema recompõe-se; à esquerda, cresce a turbulência. Pelo meio, PSD e PS parecem presos num labirinto que eles próprios ajudaram a construir e do qual demonstram dificuldade em sair.

O problema é simples: a política passou a viver demasiado do imediato. Da medida do dia, da frase para o noticiário, da iniciativa pensada para sobreviver às próximas 24 horas. Falta estratégia. Falta olhar para Portugal a dez ou vinte anos.

PS e PSD, forças centrais do sistema democrático, arriscam assim transformar-se, por ação e por omissão, numa das causas dos desequilíbrios que deveriam combater. Persistem em modelos políticos gastos, quando o eleitorado está claramente em transformação.

Não sei o que acontecerá no PS, se Mário Centeno avançará ou se Pedro Nuno Santos encontrará espaço para voltar a agregar uma esquerda cada vez mais fragmentada. Sei, porém, que o espaço político à direita do PS representa hoje uma parte muito significativa do eleitorado. E isso deveria obrigar a direita democrática a pensar para além das linhas vermelhas, das conveniências táticas e dos equilíbrios de curto prazo.

Portugal precisa de maiorias políticas capazes de sustentar reformas estruturais. E de uma ambição proporcional aos problemas que enfrenta.

O exemplo dos transportes é elucidativo. É positivo valorizar o passe verde e melhorar a mobilidade entre Espinho e o Porto. Mas a verdadeira ambição está noutro plano: ligar rapidamente o Norte a Vigo e Lisboa a Madrid, aproximando Portugal do centro económico europeu. Não podemos aceitar a periferia geográfica como fatalidade e depois reforçá-la através da falta de decisões estratégicas.

O mesmo vale para os partidos. Se PSD e PS continuarem presos a modelos políticos curtos e ultrapassados, correm o risco de eles próprios se tornarem periféricos ao sistema.

Finalmente, o chamado “caso das gémeas” deixa uma questão que não deve ser ignorada: a enorme diferença entre as conclusões da comissão parlamentar de inquérito e o resultado da investigação do Ministério Público.

Uma CPI não pode ser moldada pela vontade circunstancial da maioria que a controla. Se assim for, perde parte essencial da sua função fiscalizadora. O contraste agora existente merece, por isso, reflexão séria — sobretudo para que futuras comissões parlamentares de inquérito sejam instrumentos de escrutínio e não extensões das maiorias políticas do momento.

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Publicado em 28 setembro de 2026
Miguel Relvas

GERIR NÃO É GOVERNAR

Miguel Relvas

O Orçamento do Estado deveria ser um instrumento político: a tradução em números de uma ideia para o país, de prioridades claras e de escolhas assumidas. O problema é que, demasiadas vezes, parece reduzido a um exercício administrativo: arrecadar receita para pagar a despesa e deixar tudo, no essencial, como está.

Talvez seja por isso que o PS encontra espaço para o viabilizar. É um modelo que não rompe, não reforma e não transforma. Distribui aqui, compensa acolá, administra equilíbrios e evita conflitos. Mas Portugal não precisa apenas de equilíbrio. Precisa de direção.

O PSD não nasceu para ser gestor da continuidade. A sua história fez-se pela capacidade de reformar e modernizar. Um Governo minoritário tem limitações e este Parlamento fragmentado torna qualquer reforma mais difícil. Mas essa circunstância coloca uma questão política incontornável: como compatibilizar estabilidade parlamentar com uma agenda verdadeiramente reformista?

É também por isso que custa compreender certas escolhas. O Estado gastou perto de 390 milhões de euros na compra de 13,7% da REN, uma participação minoritária. É praticamente o mesmo montante anunciado para a nova descida do IRS. Pode haver argumentos estratégicos para a operação. O que falta perceber é qual é a visão política que a justifica e como se encaixa numa estratégia coerente para o país.

As sondagens não governam, mas revelam perceções. E quando o descontentamento cresce, não basta responder com demonstrações de força ou com a ideia de que o essencial é resistir. Governar não é apenas ocupar o lugar. É dar-lhe sentido.

Existe hoje um espaço político significativo à direita e a questão que se coloca ao PSD é saber como pretende relacionar-se com ele a partir do centro, preservando a sua identidade e o seu papel histórico.

António Costa encontrou, no seu tempo, uma fórmula parlamentar à esquerda. À direita, permanece por responder uma pergunta semelhante: que solução política pode assegurar estabilidade suficiente para governar e, ao mesmo tempo, capacidade para reformar?

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Publicado em 21 setembro de 2026
Miguel Relvas

A BOMBA DE GASOLINA TORNOU-SE UM POSTO FISCAL

Miguel Relvas

Há números que dispensam explicações sofisticadas. Na semana de 7 de setembro, a gasolina 95 custava 2,09 euros por litro em Portugal e 1,82 euros em Espanha. No gasóleo, a diferença era maior: 2,10 euros contra 1,80. É uma diferença que pesa nas famílias e na competitividade das empresas.

A fiscalidade ajuda a explicar o problema. Em cada litro de gasolina, o Estado português arrecada cerca de 97 cêntimos em impostos, contra 74 em Espanha. No gasóleo, são cerca de 83 cêntimos em Portugal e 49 em Espanha. Uma diferença de 34 cêntimos por litro. Isto é aceitável? Eu penso que não.

E não é apenas um problema de quem conduz. Para uma família, cada euro adicional gasto no depósito é um euro que deixa de estar disponível para alimentação, habitação, educação ou lazer. Depois vem o segundo efeito: combustíveis mais caros aumentam os custos dos transportes, da agricultura, da indústria e da distribuição. E esses custos acabam no supermercado, nos serviços e no preço de quase tudo.

É, por isso, uma discussão sobre poder de compra. E atinge sobretudo as famílias de rendimentos médios e baixos, que têm menos margem para absorver aumentos. Pior: quando o cabaz alimentar sobe, raramente regressa aos preços anteriores.

Portugal não pode comportar-se como uma ilha económica. Espanha é o nosso mercado de proximidade, parceiro e concorrente. Se uma empresa portuguesa paga mais para transportar, produzir e exportar, parte logo em desvantagem.

Gostaria de saber qual é a verdadeira conta dos combustíveis. Quanto arrecada o Estado? Que margem existe para baixar impostos? São perguntas legítimas, sobretudo quando o Estado encontra cerca de 800 milhões de euros para reforçar posições na REN e nas Águas de Portugal, mas adia uma resposta para um problema que atinge milhões de portugueses.

A Europa tem responsabilidades, mas não podemos esconder-nos atrás de Bruxelas. A diferença fiscal face a Espanha é também uma escolha nacional.

A bomba de gasolina tornou-se um posto fiscal. E quando abastecer do outro lado da fronteira passa a ser racional, alguma coisa está profundamente errada na política económica portuguesa.

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Publicado em 14 setembro de 2026
Miguel Relvas

O PSD NÃO PODE ESCONDER A CABEÇA NA AREIA

Miguel Relvas

O Governo pode dizer que não governa em função das sondagens. Pode repetir que aquilo que verdadeiramente importa é continuar a trabalhar, executar o programa e fazer as transformações de que Portugal necessita. Pode recordar que a economia portuguesa apresenta indicadores positivos e que alguns dos problemas que tantas vezes condicionaram a vida nacional tiveram este ano uma dimensão diferente.

Pode dizer tudo isso. E até terá razão em parte.

O que não pode é utilizar esses argumentos para ignorar aquilo que os portugueses estão a dizer.

Há momentos em que uma sondagem é apenas uma fotografia. Mas há outros em que funciona como um sinal de alarme. E os números agora conhecidos devem preocupar seriamente o Governo e, sobretudo, o PSD.

Não podemos continuar a alimentar a ideia confortável de que existe uma “bolha mediática”, desligada do sentimento real das pessoas. A sondagem demonstra precisamente o contrário: os assuntos que têm marcado os últimos meses estão a chegar aos portugueses e estão a produzir consequências políticas.

O PSD surge a rondar os 25%, em terceiro lugar, perdendo cerca de seis pontos relativamente ao resultado eleitoral. Mais grave ainda são os níveis de desaprovação do Governo e do primeiro-ministro, que se aproximam de linhas vermelhas que nenhum responsável político deve desvalorizar.

Como militante do PSD há muitas décadas, estes números deixam-me profundamente preocupado. Não porque uma sondagem determine o futuro de um Governo, mas porque seria um erro incompreensível fingir que nada está a acontecer.

Também não vale recorrer ao velho argumento de que “sondagens leva-as o vento”. Esta ‘tracking poll’ é realizada segundo uma metodologia consistente e por quem demonstrou, nomeadamente nas presidenciais, capacidade para captar tendências eleitorais com robustez.

O problema não está, portanto, na sondagem. Está naquilo que ela revela.

Um governo do PSD não pode atingir um grau de isolamento político que o impeça de perceber o desgaste que está a sofrer. E muito menos pode permitir que situações como o caso Luís Neves continuem a contaminar a sua ação e a imagem do partido.

Luís Montenegro ainda vai a tempo de inverter este caminho. Mas tem de olhar para estes números sem filtros nem desculpas.

Só o primeiro-ministro tem a chave para mudar a situação. E isso implica tomar decisões.

Quanto mais depressa, melhor.

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Publicado em 07 setembro de 2026
Miguel Relvas

A INDIFERENÇA TAMBÉM TEM UM PREÇO

Miguel Relvas

Quanto mais discutirmos as vírgulas do chamado caso Luís Neves, mais nos afastamos daquilo que verdadeiramente importa. Isto, porque o problema deixou há muito de ser um episódio, uma declaração ou uma explicação mais ou menos convincente, o problema é claramente político – e é também, infelizmente, um problema do país.

Comecemos pelo princípio. Colocar no Governo um antigo diretor nacional da Polícia Judiciária foi uma escolha politicamente arriscada. Não porque alguém que tenha dirigido a PJ esteja condenado à incompatibilidade eterna com funções governativas, nada disso; mas porque a fronteira entre instituições que investigam e o poder político tem de ser absolutamente nítida. Neste domínio, não basta ser independente, é indispensável parecê-lo.

O governo aceitou correr esse risco. E agora paga o preço.

Mas há uma dimensão mais inquietante em tudo isto. Portugal parece estar a habituar-se a tudo: uma polémica sucede à anterior, uma suspeita substitui outra, uma explicação incompleta apaga a explicação incompleta da semana passada. E o país segue.

Esta habituação é perigosa.

Quando tudo passa a ser relativo, quando nada provoca verdadeira indignação e quando os cidadãos deixam de acreditar que a sua exigência pode alterar comportamentos, abre-se espaço aos que fazem da indignação um espetáculo permanente. Os populismos não crescem apenas devido à força dos populistas, crescem também devido à fraqueza das instituições e à resignação dos cidadãos.

Portugal vive hoje demasiado fragmentado. Cada grupo trata dos seus problemas, cada setor protege os seus interesses, cada cidadão tenta sobreviver como pode. Falta-nos uma ambição coletiva, uma ideia mobilizadora de país, uma esperança comum.

O governo pode convencer-se de que estas polémicas pertencem apenas à chamada bolha mediática e que o país real não quer saber. Talvez tenha razão durante algumas horas. Talvez até durante alguns meses, mas uma coisa é certa: a política também se faz de perceções acumuladas.

Dez segundos hoje, dez segundos amanhã, uma dúvida aqui, outra ali, isto até ao momento em que aquilo que parecia indiferença se transforma em rejeição – é esse o verdadeiro risco que o governo enfrenta. Pode reconhecer o desgaste, corrigir escolhas e recuperar autoridade. Ou pode continuar a assobiar para o lado, convencido de que nada acontece.

O problema dos precipícios é que, muitas vezes, só percebemos que lá estamos quando já começámos a cair.

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Publicado em 01 setembro de 2026
Miguel Relvas

O PODER DA PALAVRA E O GOVERNO DOS ‘MINICICLOS’

Miguel Relvas

Há frases que, ditas por determinadas pessoas e em determinados momentos, valem muito mais do que as palavras que as compõem. Quando o Presidente da República afirma, de forma pública e perfeitamente audível, que “cada um assuma a sua responsabilidade”, não está a produzir uma banalidade institucional. Está a exercer o poder da palavra. E, neste caso, a palavra presidencial tem destinatários muito concretos.

É importante habituarmo-nos ao estilo de António José Seguro. Marcelo Rebelo de Sousa tinha um excesso de intervenção pública, comentava tudo e, por vezes, esse permanente protagonismo acabava por banalizar a própria palavra presidencial. Seguro escolheu o caminho inverso: prudência, contenção e parcimónia. Pode até haver quem considere que fala pouco. Mas precisamente porque fala pouco, quando decide fazê-lo devemos prestar atenção.

E o recado é claro. Ao ministro da Administração Interna, para que assuma as consequências políticas dos acontecimentos e não permita que a sua permanência desgaste ainda mais as instituições. Mas também, e sobretudo, ao primeiro-ministro, a quem compete exercer a autoridade política e assumir as suas próprias responsabilidades. No discurso aveludado deste Presidente, aquela frase vale muito mais do que um simples aviso.

O problema é que este episódio se insere num padrão mais vasto. O governo parece viver sucessivamente em ‘miniciclos’: o ciclo do Orçamento, o ciclo de uma polémica, o ciclo criado pela oposição, o ciclo provocado por um ministro ou por uma decisão mal explicada. E a política passa a ser essencialmente uma estratégia de sobrevivência entre crises sucessivas.

É assim também com a Segurança Social. Encomendam-se estudos, anuncia-se solenemente a intenção reformista, transforma-se o estudo num acontecimento político e, quando as conclusões deixam de ser convenientes, guarda-se o documento numa gaveta. Isto não é reformar. É representar.

Uma verdadeira reforma estrutural não pode ficar dependente do calendário de um Orçamento do Estado. Deve acontecer precisamente o contrário: são os orçamentos que devem refletir as reformas necessárias ao País. Quanto menos reformamos, mais aumenta a despesa e maior é a tentação de aumentar os impostos que a financiam.

Governar não pode ser jogar permanentemente para a audiência. É preciso regressar à essência, romper este ciclo de curto prazo e voltar a pensar o País para além da próxima crise.

Foi isso que o PSD soube fazer nos momentos decisivos da sua história. Quero acreditar que ainda não se esqueceu…

 

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Publicado em 24 agosto de 2026
Miguel Relvas

A ‘BOLHA’, O PAÍS E A FALTA DE RUMO

Miguel Relvas

Há momentos em que a política precisa de ser mais do que a gestão do quotidiano. Precisa de oferecer um rumo, uma ambição, uma ideia de país. E foi precisamente isso que faltou nos discursos recentes dos líderes do PSD e do PS. Falaram muito, mas disseram pouco que permitisse aos portugueses perceber onde querem levar Portugal nos próximos anos. Igualaram-se, afinal, na ausência de ímpeto transformador.

O problema agrava-se quando a política deixa de falar para o país e passa a falar sobretudo para o adversário. Instala-se um permanente pingue-pongue de acusações, respostas e frases destinadas ao noticiário seguinte. É um jogo de soma nula: pode produzir vencedores por algumas horas nas redes sociais, mas não produz soluções para Portugal.

Há depois uma ideia particularmente perigosa: a de que existem dois países. O chamado «país real», supostamente indiferente às polémicas de Lisboa, e uma «bolha» mediática e política que amplifica casos, contradições e erros governativos. É uma leitura confortável, mas errada. Os problemas no Ministério da Administração Interna, as polémicas na Educação, o negócio das fragatas ou as dúvidas sobre a entrada do Estado no capital da REN não deixam de existir por serem discutidos nos jornais ou nas redes sociais.

Mais incompreensível ainda é falar numa espécie de ‘censura moderna’, talvez por influência da ‘asfixia democrática’ criada em tempos pelo hoje ministro Rangel. Não há censura moderna, o que há, isso sim, escrutínio moderno. Há cidadãos que questionam em tempo real, redes sociais que aceleram a circulação da informação e meios de comunicação que procuram respostas. A política tem de aprender a viver com essa realidade, não tentar combatê-la através da vitimização.

O caso da REN é um bom exemplo. Se o Estado pretende gastar cerca de 325 milhões de euros para adquirir 13,7 por cento da empresa, deve explicar claramente aos portugueses porquê, quais os benefícios concretos e, sobretudo, que investimentos poderão deixar de ser realizados porque os recursos públicos não são ilimitados.

Num setor fortemente regulado, há ainda uma questão essencial: deve o Estado ser simultaneamente regulador e acionista com ambição de intervenção na gestão? E se o objetivo é reduzir a fatura da eletricidade, por que não começar pelas taxas e impostos que o próprio Estado controla?

É precisamente quando a política não explica, não mobiliza e não apresenta uma visão que abre espaço ao populismo. Portugal não precisa de mais uma disputa entre a ‘bolha’ e o ‘país real’ – precisa cada vez mais de política capaz de voltar a falar para o país inteiro.

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Publicado em 17 agosto de 2026
Miguel Relvas

DEFESA, UMA QUESTÂO DE ESTADO

Miguel Relvas

Não foi propriamente uma surpresa ouvir o Presidente da República chamar a atenção para aquilo que tantas vezes acontece em Portugal: perante uma tragédia, anunciam-se milhões, multiplicam-se promessas e sucedem-se declarações. Depois, passa o tempo, desaparecem as câmaras e aquilo que parecia urgente deixa, misteriosamente, de o ser.

Os incêndios da Serra da Estrela, em 2022, são um exemplo particularmente doloroso. Prometeram-se apoios, investimentos e medidas para recuperar uma região profundamente atingida. Quatro anos depois, muito ficou por cumprir ou muito aquém do anunciado.

É um problema antigo da governação portuguesa, este de confundir demasiadas vezes comunicação com ação. No calor dos acontecimentos, o poder político sente necessidade de responder imediatamente. E responde com palavras. O problema é quando as palavras não são acompanhadas pelos atos.

O governo de Luís Montenegro deve evitar repetir práticas que criticámos nos governos de António Costa. Governar não pode ser administrar expectativas, tem de ser executar, decidir e prestar contas. O valor da política mede-se pelos resultados, não pelo número de anúncios.

Esta exigência aplica-se igualmente à Defesa Nacional.

Portugal precisa de modernizar as Forças Armadas. A aquisição de novas fragatas, tal como a renovação de outros meios militares, é necessária perante uma Europa confrontada com ameaças que julgávamos pertencer ao passado. Mas decisões desta dimensão exigem transparência e consenso nacional. A Defesa não é uma política de um Governo, é uma política de Estado.

Por isso, importa explicar as opções. Porquê comprar determinado equipamento? Porquê escolher Itália e não França, Alemanha ou Reino Unido? Quais são os critérios estratégicos, operacionais, industriais e financeiros? Quanto maior for a transparência no início, menor será a suspeição no fim.

E há uma discussão ainda mais importante, e que no fundo é a questão central sobre a qual devemos refletir: que Defesa queremos para as próximas décadas?

A guerra mudou. A Ucrânia demonstrou a importância crescente dos drones, da inteligência artificial, da informação, da tecnologia e da cibersegurança, provou-nos que comprar fragatas e aviões continua a ser necessário, mas já não chega.

Portugal, com uma das maiores áreas marítimas da Europa, tem razões acrescidas para participar ativamente nesta discussão. Temos de proteger o território, o mar, as infraestruturas críticas, as comunicações e o espaço digital, ou seja, precisamos de uma estratégia nacional que sobreviva aos governos e aos ciclos eleitorais.

Porque seja na reconstrução depois dos incêndios, seja na modernização das Forças Armadas, o princípio deve ser o mesmo: menos entusiasmo com o anúncio e mais exigência na execução. Até porque Portugal não precisa de promessas maiores, precisa, isso sim, de resultados melhores.

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Publicado em 10 agosto de 2026
Miguel Relvas

GOVERNAR NÃO É IMPROVISAR

Miguel Relvas

Há um traço comum que une crises aparentemente distintas: a tentação de governar através da propaganda, substituindo decisões estruturais por anúncios mediáticos e convicções ideológicas. É precisamente isso que hoje vemos acontecer em Espanha, com a gestão da imigração, e em Portugal, com o caos instalado no acesso ao ensino superior.

O que aconteceu em Ceuta não pode ser reduzido a um episódio fronteiriço. É, antes de mais, um drama humano. Milhares de pessoas abandonam tudo na esperança de encontrar uma vida melhor. Merecem respeito, dignidade e políticas sérias. O que não merecem é serem transformadas em instrumento de agendas políticas que confundem humanidade com ausência de regras.

Pedro Sánchez escolheu alimentar essa ilusão. A Europa não pode continuar a fechar os olhos a políticas que incentivam fluxos migratórios descontrolados sem garantir capacidade de integração, segurança ou sustentabilidade. Defender fronteiras não é negar solidariedade; é precisamente a condição para que ela possa existir de forma credível.

Também em Portugal assistimos a uma preocupante incapacidade de distinguir reformas de improvisações. A confusão criada no sistema de exames nacionais e de acesso ao ensino superior é um caso paradigmático. Durante demasiado tempo vendeu-se a ideia de que bastava digitalizar procedimentos para modernizar o Estado. Não basta.

Uma verdadeira reforma exige planeamento, testes, capacidade de execução e, sobretudo, confiança. Quando milhares de alunos e famílias vivem semanas de incerteza, quando o sistema transmite insegurança e quando o próprio Governo parece correr atrás dos acontecimentos, não estamos perante uma modernização. Estamos perante um falhanço.

O Estado só é forte quando inspira confiança. E essa confiança constrói-se com competência, previsibilidade e responsabilidade política. Não se conquista através de discursos otimistas nem de sucessivos remendos para corrigir erros que poderiam ter sido evitados.

A Europa enfrenta desafios enormes. Portugal também. Mas nenhum deles será resolvido enquanto persistirmos na ilusão de que comunicar substitui governar. As reformas verdadeiras exigem coragem para decidir, humildade para reconhecer os erros e competência para os corrigir.

É isso que os cidadãos esperam. E é isso que, cada vez mais, sentem faltar.

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Publicado em 03 agosto de 2026
Miguel Relvas

QUANDO O SILÊNCIO DEIXA DE SER PRUDÊNCIA

Miguel Relvas

Há momentos na vida política em que o problema deixa de ser aquilo que aconteceu, e passa a ser aquilo que quem tem responsabilidades decide não fazer.

É exatamente esse o ponto em que nos encontramos.

A polémica que envolve o ministro da Administração Interna já ultrapassou a dimensão política do caso. Cada esclarecimento que tarda perde eficácia, cada dia que passa fragiliza o Governo, e cada silêncio aumenta a desconfiança dos portugueses.

Há situações em que a legalidade não basta. A política vive também da ética, da confiança e do exemplo. Quando essas referências desaparecem, as instituições começam a perder autoridade.

O Primeiro-Ministro teve tempo suficiente para agir. Não o fez. Mas, a partir de determinado momento, a responsabilidade deixa de ser apenas do Governo.

O Presidente da República foi eleito para exercer uma magistratura ativa, defender o regular funcionamento das instituições e intervir quando estas dão sinais de bloqueio. É isso que os portugueses esperam.

Quero acreditar que não existe qualquer entendimento para empurrar este problema para setembro, na esperança de que agosto faça esquecer o assunto. Os problemas não desaparecem por falta de notícias.

Lembro-me da atuação de Jorge Sampaio na formação de governos durante os seus mandatos onde, independentemente de se concordar ou não com as suas decisões, demonstrou que um Presidente da República existe para defender a credibilidade das instituições. E é também por isso que me surpreende o silêncio de António José Seguro, que foi eleito prometendo uma forma diferente de exercer a chefia do Estado, e que está a desperdiçar o momento para o demonstrar.

Mas há também outro silêncio difícil de compreender.

Enquanto os portugueses pagam cada vez mais pelos combustíveis, o Estado arrecada automaticamente mais receita fiscal. A pergunta é simples: quanto dinheiro entrou a mais nos cofres públicos? E onde será aplicado? Na Saúde? Nos bombeiros? No INEM? Ou apenas para alimentar um Estado que continua sem fazer as reformas de que o país necessita?

Confesso que me custa ver um governo do PSD acomodar-se a esta realidade. Ser social-democrata nunca foi aproveitar cada aumento de impostos para reforçar a receita do Estado. É aliviar quem trabalha, investe e cria riqueza. É reformar o Estado para que preste melhores serviços, e não para que cobre cada vez mais aos portugueses.

Na política, como na vida, decidir tarde é, muitas vezes, decidir mal.

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Publicado em 27 julho de 2026
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