
Afonso de Melo
Contava Dostoyevsky que nos confins da Sibéria, entre a estepe e a montanha e a floresta impenetrável, Aleksander Gorianthivok aprendeu a perder a esperança. Mais do que estar preso num campo penal estava preso dentro de si próprio. Homens presos dentro de si próprios têm a tendência de correr para o suicídio como os antigos casalinhos amoráveis frustrados saltavam do viaduto Duarte Pacheco. Suicidários portanto.
Gente para qual a vida deixou de ter sentido a partir do momento em que percorrem corredores infinitos que desembocam em mais corredores infinitos num carrinho de pedais como Danny a ver coelhos pornográficos no Shining de Stanley Kubrick.
Se Rui Costa quis transformar o Benfica num filme apavorante escolheu o realizador certo: comprou Silva, uma versão de Lage mas com menos currículo.
A Casa dos Mortos da Luz entrou nos carris do Comboio Fantasma: só se assustam os inocentes; os adultos encolhem os ombros. Uma planície deserta de ideias e de convicções estende-se até ao horizonte e provavelmente mesmo para lá dele. Em redor o silêncio espalha-se como um cancro. ‘Odiei-te com afecto; amei-te com ódio; foste-me, em suma, indiferente’: um aforismo construído sobre paradoxos. Faz sentido quando a descrença é a única coisa que passou a fazer sentido. Olhamos para o que se passa e vemos presidente e treinador a fazer a figura da velhinha que perdeu a agulha na cozinha e foi procurá-la na varanda. Quando lhe perguntaram porquê respondeu: ‘na cozinha não há luz, vou procurar aqui que está iluminado’. A lógica é irrefutável. Mas duvido que encontrem a agulha.