
Francisco Gonçalves
Quase todos os dias faço exercício na mesma zona do Concelho de Oeiras. Quase todos os dias (de bom tempo) cruzo-me com um grupo de seniores que todo o ano fazem a sua caminhada no Passeio Marítimo de Oeiras.
Quase todos têm mais de 75/80 anos. São um exemplo do que é o envelhecimento ativo.
Durante os meses de verão, porém, há uma inveja branca que se apodera de mim: quando terminam o exercício, vejo-os na praia de Caxias. São, normalmente, os primeiros a chegar.
Este grupo é exemplar quer no que respeita às mudanças de comportamento dos tempos atuais, quer ainda na boa utilização das novas infraestruturas públicas (o passeio marítimo, que décadas antes era uma miragem) e de praias que não existiam (seja pela falta de areia quer pelas aguas que antes estavam poluídas).
A vida mudou muito. Há alguns anos, quando o verão chegava, os jovens eram os “donos da praia”. Eram eles que as usavam e eram eles quem lhes trazia alegria. Hoje há um novo grupo a tomar conta da praia: os que sabem envelhecer. Saber viver é uma arte.

Francisco Gonçalves
Se há tema capaz de unir uma larga fatia dos portugueses, esse tema é o pão. Seja sobre o preço, seja sobre a qualidade, todos temos qualquer coisa a dizer sobre o pão. Nas últimas décadas, o pão perdeu qualidade e subiu no preço. Seja pelas farinhas, seja pelos fermentos, o pão, presente em todas as mesas, começou até a ser afastado da nossa dieta.
Confesso: adoro pão! Trigo, centeio, com sementes, alfarroba, girassol, etc.. importa é ser bom!
Depois de o pão ter passado por um processo de industrialização que lhe retirou qualidade, surgiu, nos últimos anos, um movimento de nicho, de padarias ditas “gourmet”, pouco acessíveis no dia-a-dia para as bolsas dos portugueses.
Não são as padarias gourmet que fazem falta (perdoem-me, sei que há lugar para todos). O que nos faz falta é a padaria de bairro, a que nos trazia o pão de cada dia, em volta do qual nos juntávamos e que nos juntava.
Pão não é apenas alimento, pão é cultura, familiaridade e amor. O partir do pão e o seu repartir tem muito de simbólico na nossa sociedade.
Encontrei esse pão recentemente em Gimonde, uma pequena aldeia ao lado de Bragança. É nesse Portugal profundo que a Elisabete Ferreira nos traz de volta a esse pão. Fá-lo como negócio, naturalmente, mas também como ato de amor à arte e à cultura do pão.
Talvez seja essa a sorte de Portugal: ter sempre uma padeira para nos recordar quem somos.