Sócrates e Santos Silva investigados em novo caso de branqueamento de capitais. A frase cai sobre a mesa do pequeno-almoço...
Sócrates e Santos Silva investigados em novo caso de branqueamento de capitais. A frase cai sobre a mesa do pequeno-almoço como uma nódoa de café: já lá estava ontem, regressa hoje com outra gravata. Novela de mau costume e pior argumento, o processo — ou processos, que a gramática também anda sob escuta — contra o antigo PM são chacota, não notícia. Fico a olhar para isto como quem revê um episódio repetido e descobre que, afinal, nunca percebeu o enredo.
O Procurador Geral anda a monte, diz-se; os magistrados podem ser vesgos; a defesa vai servindo cicuta, que o poder judicial engole como um puto traga um compal. A imagem é de tal modo nutritiva que quase se recomenda em rótulo: “Sabor Justiça, com polpa e fibra”. Pergunto-me quem escreve estas sinopses. Haverá uma sala com luz fluorescente onde se decide que hoje é dia de indignação morna e amanhã de escândalo requentado?
Soma-se a este quadro degradado a insistência de se fazer notícia com o cão que mordeu o homem. Sobre Sócrates, toda a gente tem opinião; todos já o julgaram e decidiram o seu destino, com a serenidade de um oráculo municipal. Cita-se Al Capone como se uma multa e um imposto por pagar fosse o Santo Graal do caso Marques — e dos outros. A justiça transformou-se num campeonato de metáforas: quem trouxer a comparação mais sonora ganha a taça da convicção.
Há dias em que suspeito que não queremos justiça; queremos argumento. Queremos a sensação de ter razão antes de saber do quê. «Em Portugal, a culpa é um estado civil», escrevi num guardanapo e alguém poderia tatuá-lo na omoplata sem notar a ironia. É isto.
Lembro-me do poema do Fausto e aplico-o aos tugas de certeza em bico: «As crianças e os moços / Trouxeram seu corpo / Sem vida pelas ruas / Arrastado pela garganta. / E a gente dava esmola / Oferecida aos meninos / Dava como se fosse / Uma obra muito pia e santa». Há nesta piedade uma alegria secreta, como se a esmola fosse um espelho onde nos vemos virtuosos.
Desconfio de espelhos, interrogo-me: não estaremos todos a arrastar um corpo qualquer — o da presunção, talvez — pelas ruas digitais, oferecendo moedas de opinião como se fossem absolvições? Talvez o processo seja uma novela. Talvez seja tragédia. Talvez seja apenas um espelho mal polido onde cada um ensaia a sua sentença.
No fim, desligo a televisão imaginária e fico a pensar no cão. Se mordeu o homem, ao menos teve a decência de o fazer sem conferência de imprensa.