
Alexandre Pais
Há cinco anos na Presidência, Umaro Sissoco Embaló, também ex-primeiro ministro, foi agora (alegada) vítima de uma situação recorrente na Guiné- Bissau: um golpe de estado. Desde que Nino Vieira foi brutalmente assassinado em sua casa, em março de 2009 – sem que até hoje os culpados tenham sido presos e condenados – a antiga colónia portuguesa já teve 16 (!) chefes de estado e passou por diversos atos de revolta com deposição de dirigentes democraticamente eleitos. Desta vez, parece ter sido o exército a rebelar-se.
Apesar disso, o Estado português tem gastado muitos milhões de euros em décadas de apoio – na saúde, na educação e mesmo na área da Defesa – a um território que não consegue manter um mínimo de estabilidade. Os cartéis da droga, que se infiltram facilmente nas estruturas de poder, tanto civil como militar, explicam em grande parte a ingovernabilidade de um país que é dos mais pobres do Mundo.
Recuo até junho de 1998, quando na redação do ‘24horas’ – na sua primeira versão em papel – me apareceu um jornalista guineense que era portador de dezenas de fotos, obviamente ‘amadoras’, de Ansumane Mané, precisamente o líder do levantamento militar de dias antes e que poria fim à anterior passagem de Nino pelo poder (desde 1980).
Ansumane – cujo rosto era então completamente desconhecido em Portugal – havia sido destituído de Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas antes de uma viagem de Nino ao estrangeiro, situação habitualmente utilizada na Guiné para fazer ‘desaparecer’ figuras que se tornaram demasiado importantes e que de algum modo se revelassem hostis à liderança. Ansumane Mané dera o golpe para se proteger – e a revelação da sua imagem foi uma das primeiras ‘cachas’ do ‘24horas’!

Alexandre Pais
Há 27 anos, o ‘24horas’ trouxe à imprensa portuguesa uma lufada de ar fresco a que o mercado viria a corresponder: em 2004, a média de vendas em banca ultrapassou os 50 mil exemplares diários. Mas o começo não foi fácil, o DN e o JN ainda eram uma referência, o CM seguia em velocidade de cruzeiro, os três diários desportivos vendiam bem acima dos 200 mil jornais por dia e o ‘24’ tardou em encontrar um rumo – foram seis anos de combate duro.
Em duas décadas, o panorama da informação mudou mais depressa que o Mundo. Primeiro, as estações de TV privadas e o enorme investimento nos sites, a seguir a popularidade das redes sociais e a dispersão do investimento comercial fizeram da comunicação social um negócio complicado e um serviço público difícil de concretizar sem perdas profundas. O suporte papel luta hoje pela vida e o ‘jornalismo-google’ e as ‘fake-news’ atacam ferozmente uma atividade profissional indispensável às liberdades individuais, à investigação dos abusos e ao primado da ética e da verdade.
A pouco e pouco, as redações reduzem-se, o instinto de sobrevivência das empresas agudiza-se e só os mais aptos e inconformados resistem. E é nesse cenário de guerra que o ‘24horas’ renasceu – em contraciclo mas em boa hora – pela mão de um visionário, de um veterano de mil batalhas cujas cicatrizes dão aval ao projeto. Que todos os que trabalham neste novo ‘24’ e também nós, leitores, estejamos à altura do desafio. Afinal, é a grande aventura que continua.