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Jorge Morais

UMA SOMBRA

Jorge Morais

Tive esta semana de ir à Baixa de Lisboa (ninguém é perfeito) e de novo mergulhei no souk de El Jadida. Abri caminho por entre trotinetas, tuktuks, malinhas roxas e amarelas com rodas, glovos, ubereats e selfies, guias turísticos e músicos da treta, pizzerias, cupcakes e pastéis de bacalhau com queijo da serra, sempre na esperança de reencontrar a cidade íntima e cálida dos dias claros. Mas de Lisboa, da Lisboa autêntica, só a sombra.

Toda a Baixa fede. Dos respiradores do Metro vem um bafo a mijo antigo, há no ar um cheiro nauseabundo a esgotos, a podre, a chulé, a sovacos mal lavados nos airbnbs. A Praça da Figueira é hoje uma galeria escabrosa de misérias em volta de um arraial; velhos sem casa encostam a cabeça a almofadas improvisadas com sacos de plástico e exibem pés com fístulas, jovens gatunos disputam bocados miseráveis do saque. 

As mercearias, as tabernas e os cafés de tertúlia, os restaurantes baratos para o povo, tudo desapareceu, varrido pelo tsunami. Não se vende uma rosa, não se vê um jornal, não se encontra um banco onde se possa uma pessoa sentar. Tudo está concebido para passar, gastar, zarpar, veloz e indiferente, rebanho cego que tanto podia estar ali como deambular aos encontrões por Rawalpindi. 

Vivi em Lisboa grande parte da minha vida. Conheci a cidade como as minhas mãos, residi em vários dos seus bairros, amei muitos dos seus recantos mágicos, milhares de dias vi a sua luz madrugar na janela, milhares de noites perdi-me nas suas vielas. Sobre ela escrevi prosa e verso, a ela voltava saudoso sempre que partia. 

Vi-a mudar, era inevitável. Mas à mudança veio agarrada a destruição. De um dia para o outro começaram a desaparecer lojas, retrosarias, capelistas e pastelarias para nelas nascerem comércios artificiais que depressa se refazem, como trapos sem valor. Os meus bairros ficaram cada vez mais Istambul, arredores de Nairobi, arrabaldes de Bogotá. Pouco a pouco, a minha cidade deu lugar a uma topografia desconhecida, agressiva, hostil. E vieram as obras, e mais obras, e arrasa aqui para construir ali, ruas esventradas, poeira, destroços e cascalho, andaimes, camionetas e betoneiras, e veio a enxurrada do turismo que levou o que restava da cidade íntima.

Não deixei de amar a minha Lisboa. Simplesmente, ela já não está lá. De vez em quando regresso, na vaga esperança de reencontrar os seus traços de beleza sob os escombros da devastação. Arrependo-me sempre.

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Publicado em 20 outubro de 2025
Jorge Morais

FISH&CHIPS

Jorge Morais

Estava totalmente ignorante da existência de substâncias perfluoroalquílicas (ou mesmo de substâncias polifluoroalquílicas) até há poucos dias, quando a Comissão Europeia m’as denunciou como “químicos eternos”. Obrigado, querida Ursula, por me resgatares do obscurantismo molecular em que andava.

Fiquei então a saber que os escritórios de Bruxelas decidiram declarar guerra àquelas substâncias, por possuírem ligações químicas de carbono e flúor extremamente fortes, quase impossíveis de quebrar de forma natural, que não se degradam no meio ambiente e se acumulam no solo, na água, nos animais e no corpo humano para todo o sempre. As malvadas.

Num primeiro momento supus que esta santa guerra seria ferida com tubos de ensaio, retortas, béqueres, erlenmeyers, provetas, pipetas, buretas ou bicos de bunsen por cientistas desinfetados no meio asséptico dos laboratórios. Mas não. O combate terá lugar à mesa das nossas refeições, nas nossas barbas, nas nossas mãos.

Numa primeira fase, a Comissão anda de olho nas caixas em que se embalam os alimentos de take-away, do hambúrguer à pizza, da salada russa ao shawarma, do caldo verde ao arroz de cenoura, que passam a obedecer a limites máximos “muito apertados”. O nobre objetivo é evitar que a gordura e a humidade da comida atravessem a embalagem, contaminando assim a humanidade inteira.

Depois, usando uma malha cada vez mais fina, os inspetores passarão a controlar pacotinhos de açúcar, sachês de maionese e de ketchup, embalagens de pipocas para micro-ondas e sacos de padaria. Num delírio ponto-de-rebuçado, entrará então em vigor o PPWR – “Regulamento Relativo às Embalagens e aos Resíduos de Embalagens” para os leigos – visando eliminar das nossas vidas as embalagens de uso único e proceder à transição (“obrigatória”, avisam os escritórios de Bruxelas, de sobrolho carregado) para “modelos reutilizáveis”.

Nessa fase sublime de purificação, daqui a uns quatro anos, as normas de manuseamento de consumíveis passam a proibir embalagens descartáveis no interior dos estabelecimentos, devendo os restaurantes “exigir aos fabricantes certificados de conformidade ecológica para garantir que as novas caixas não contêm químicos restritos”.

Na modalidade take-away (cito) “a comida deve ser transferida para o recipiente do cliente sem que o utensílio toque nas bordas”. E (volto a citar) “os funcionários devem lavar ou desinfetar as mãos obrigatoriamente logo após tocarem na caixa fornecida pelo cliente e antes de prepararem o pedido seguinte”.

Cereja (asséptica) no topo deste bolo burocrático: “um sistema harmonizado de rótulos das embalagens deverá entrar em vigor em 2028, com o objetivo de facilitar a reciclagem e reduzir custos para a indústria”.

Pela bitola comunitária, devia ter morrido há muitos anos, afogado em químicos perenes, quando emborcava fish and chips embrulhados em papel de jornal no take-away de Pimlico Road

Sinceramente, não sei como consegui sobreviver até hoje. Pela bitola comunitária, devia ter morrido há muitos anos, afogado em químicos perenes, quando emborcava fish and chips embrulhados em papel de jornal no take-away de Pimlico Road, os dedos pingando gordura e os lombos de bacalhau fresco tresandando a óleo de rotativa e a notícias frescas.

Não fazia a menor ideia, querida Ursula.

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Publicado em 25 agosto de 2026
Jorge Morais

A FESTA CHEGOU À ALDEIA

Jorge Morais

A música ouve-se à distância, há um cheiro a polvo assado no ar. Em torno das barraquinhas dos artesãos fervilha um frenesi de basbaques, uns comprando outros só vendo, e o homem das cadeiras de verga tem aqui o seu dia de sorte grande. O carrossel desenrola uma montanha russa de frisson, gritinhos de namoradas misturando-se no terreiro com o pregão do homem dos panos crus e a banha da cobra do espanhol do presunto. O menino está embevecido no carrinho colorido, o avô não via tanta animação desde o ano passado. É Agosto. A festa chegou à aldeia.

Por esse Portugal fora, terreola que se preze celebra o seu Verão. Para o emigrante que veio matar saudades do fogareiro, para a família da Reboleira que está de folga nas brenhas, para o aldeão espantado com tanto carro reluzente, é dia de excessos e abraços, de saúdes a isto e àquilo. Nas casas, mesmo naquelas onde todo o ano se contam os cêntimos, há hoje fartura e porta aberta. E até a santinha do orago, que passou trezentos e sessenta dias a dormitar na capela deserta, é agora festejada como amiga íntima e sai à rua toda vestida de lantejoulas no seu andor de pau pintado.

 

Desapareceram as Teresas e as Amélias e quem hoje catrapisca os moços durante o bailarico são Vanessas e Andreias de iphone na mão a digitar no whatsapp

 

Bem entendido, a festa de hoje não é igual à festa dos nossos dias de meninos. Nem podia ser. O Zé da Anica, que em rapaz deitava os foguetes e ensaiava o rancho, está agora entrevado num lar e já não dá acordo de arraial. O Ti Nabiças está a fazer tijolo há muitos anos. E a mulher de armas que vinha ao volante da sua carrinha com os aparelhos de som que faziam curto-circuito foi substituída pela consola digital que debita os acompanhamentos e estabiliza os baixos sem ninguém lhe tocar. Desapareceram as Teresas e as Amélias e quem hoje catrapisca os moços durante o bailarico são Vanessas e Andreias de iphone na mão a digitar no whatsapp. Mas na hora da verdade a festa volta a ser a mesma, parada no tempo de um lugar parado, reminiscente de um eco que vibra na pele do tambor da tuna, no balcão da cerveja artesanal e no bigode do dj. Até os alemães da autocaravana se deixam levar pela marcha.

Atrás do palco, o cantor da noite afina a voz com uma sandes de couratos e uma mini. E o chinfrim do povo em festa eleva aos céus um divino acorde de vida, paradoxal e denso, como uma antífona pagã ecoando no olimpo dos simples.

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Publicado em 11 agosto de 2026
Jorge Morais

EQUAÇÃO IMPOSSÍVEL

Jorge Morais

No final da II Guerra Mundial, com os Aliados vitoriosos e o Eixo em escombros pelo chão da Europa, a Oposição portuguesa profetizava a rápida decomposição do Estado Novo. Tudo parecia prenunciar esse desfecho – a desgraça dos regimes amigos, a subalternidade de uma sociedade periférica, a ascensão das ideias democráticas – e muitos viam no semblante fechado de Salazar o embaraço da Situação perante o novo mapa político continental.

Sabemos hoje que o Estado Novo sobreviveu afinal três décadas redondas a essa morte anunciada, ainda que remando contra a poderosa maré ocidental. Soçobrou por fim em 1974. Mas a antinomia que começou a devorá-lo por dentro no final da guerra tinha a sua verdadeira explicação na economia: mais do que o colapso do Eixo, foi o conflito entre modelos económicos que determinou o início do declínio do regime.

Era uma equação impossível: para sobreviver com razoável segurança, o Estado Novo tinha de enveredar pela alínea do desenvolvimento; mas o desenvolvimento acarretaria inevitavelmente o abandono dos padrões com que o próprio regime se definia.

Este paradoxo estava patente à vista desarmada logo em 1944, quando o Subsecretário de Estado do Comércio e Indústria, Ferreira Dias, apresentou a sua Proposta de Lei do Fomento e Reorganização Industrial – “uma necessidade da Nação que é forçoso satisfazer em nome do legítimo direito de viver”, como ele defendia no preâmbulo.

Logo se viu como seria difícil conciliar as tensões no seio do regime quanto ao rumo a seguir: à diversificação industrial de Ferreira Dias e dos tecnocratas europeístas opunha-se o ainda poderoso partido rural. Ezequiel de Campos, relator do parecer da Câmara Corporativa sobre a Proposta de Lei, contrapunha como soluções “a intensificação agrícola”, “a ruralização do povoamento” e “uma ampliação muito grande do plano de obras de hidráulica agrícola”. Com isto esperava-se reter no sector primário uma boa parte da população, “para continuar a haver gente e para não decair a taxa de reprodução”, como frisava Ezequiel de Campos. O mesmo relator explicava candidamente o seu temor: “a indústria chamará às vilas e às cidades e aos novos núcleos de trabalho fabril notável quinhão de gente rural”.

O Estado Novo não chegou a resolver a equação. O projeto de Ferreira Dias foi aprovado em Março de 1945, um mês antes da queda da Alemanha, mas as tensões entre modelos mantiveram-se durante décadas, agravadas pelo beco sem saída da questão ultramarina. Os três grandes Planos de Fomento do pós-guerra (1953, 1959 e 1968) resolveram problemas estruturais antigos e lançaram algumas grandes obras, mas não lograram conciliar o modesto desenvolvimento com a fixação das populações no Interior.

 

Mais de 8 milhões de portugueses vivem hoje a menos de 50 quilómetros da costa, acotovelando-se nos hipermercados e vegetando nas gaiolas de cimento armado.

 

Outros países europeus conseguiram vitalizar a economia em grandes polos alternativos às metrópoles, e com isso obtiveram uma razoável grelha demográfica. Nós, pelo contrário, perdemos em ambas as mãos: a industrialização não se realizou verdadeiramente e a “ruralização do povoamento” fracassou em toda a linha. Ainda nos anos 50 começou o êxodo das populações do Interior para o Litoral, atraídas não apenas pelos escassos focos industriais mas sobretudo pelo comércio florescente e pelos serviços em crescimento. Essa migração interna não parou desde então de aumentar, a ponto de mais de 8 milhões de portugueses viverem hoje a menos de 50 quilómetros da costa, acotovelando-se nos hipermercados e vegetando nas gaiolas de cimento armado.

Muitos dos nossos problemas atuais – na habitação, na educação, na saúde – nasceram aí, em 1945, nesse momento em que ficámos a meio do cruzamento, sem coragem para industrializar e sem tino para salvar onde mais doía. Hoje vivemos no paradoxo: não alcançámos o desenvolvimento e perdemos o campo.

Só se salvaram as boas intenções, de que está o inferno cheio.

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Publicado em 04 agosto de 2026
Jorge Morais

OS COCHES, ONTEM E HOJE

Jorge Morais

Reler o que os escritores estrangeiros escreveram sobre Portugal e os portugueses de há trezentos anos não é, paradoxalmente, fazer uma viagem no tempo: é verificar como tão pouco mudou no essencial dos comportamentos.

Mais do que aos nossos próprios autores, devemos a viajantes de outros países europeus que nos visitaram ao longo do século 18 um retrato crítico da sociedade portuguesa de então. Ganhava fôlego a moderna Literatura de Viagens – e entre o pitoresco e o pedagógico, são peças valiosíssimas os relatos de jornada por Portugal de Carl Ruders, Alexander Dalrymple e James Murphy, o informe de Charles Dumouriez sobre o “Estado Presente do Reino de Portugal”, as “Cartas” de Arthur Costigan, o “Panorama de Lisboa” de Joseph Carrère ou o saboroso “Journal” de William Beckford. Por junto compõem uma fotografia impiedosa do Portugal de entre 1774 e 1802.

Cada um escrevendo consoante a sua sensibilidade e formação, todos são concordes no retrato de alguns dos costumes da alta sociedade lisboeta, costumes que os primos menos abonados da parvónia tudo faziam por imitar ‘alla scala’. E de todos o mais bizarro era o empenho que o peralta desses tempos punha nas suas cocheiras e estábulos. Podia faltar o dinheiro para tudo – para pagar aos muitos criados, para honrar compromissos perante o agiota, para manter a casa aquecida no Inverno, para os quitutes da mesa ou para o mestre-escola dos meninos. Só não podia faltar dinheiro para cavalos e carruagens.

De coche, de berlinda, de sege ou de caleche vis-a-vis, o janota lisboeta fazia profissão de mostrar-se aos papalvos, ainda que no bolso não lhe sobrassem três réis de cobre para mandar cantar um cego. Só aos cocheiros, boleeiros e moços de estrebaria trazia nas palminhas, pois deles dependiam a saúde do equídeo, o espampanante do bólide e a perícia da pilotagem.

 

No Portugal do século 18, podia faltar o dinheiro para tudo – menos para cavalos e carruagens. Encontramos este padrão, trezentos anos depois, numa certa classe de peralvilhos que têm nos automóveis a sua bitola social

 

É inevitável que encontremos este padrão, trezentos anos depois, numa certa classe de peralvilhos que têm nos automóveis a sua bitola social. Com uma diferença substancial sobre os deslumbrados do século 18: os coches “topo de gama” de hoje quase nunca pertencem a quem neles se exibe. O verdadeiro proprietário é a sociedade financeira que lhes faz arrotar uma nota preta pelo aluguer de longa duração. Ou são mantidos pelo Erário para usufruto de ministros, secretários e subsecretários de Estado, directores-gerais, autarcas, gestores de empresas públicas, administradores de instituições oficiais e uma miríade de outros passageiros da vida que não podem deslocar-se a menos de 200 cavalos-vapor, em cabine climatizada e estofos de couro.

Nesta floresta de carros “de serviço” (um eufemismo genial) contratados a empréstimo ou ‘leasing’ para fruição volátil, dei há dias com a exceção digna de encómio. Refiro-me ao presidente da Câmara Municipal de Constância, o Sr. Sérgio Oliveira, que usou o seu automóvel oficial, não como caleche para se passear ou mostrar, mas como autêntico burrinho de trabalho – a ponto de a montada ter alcançado a provecta idade de 24 anos e a marca de 600 mil quilómetros de estrada feita. Cansado da labuta a sério, o velho Audi teve de ser abatido ao ativo e substituído por um modelo idêntico. Simplesmente, em vez de alimentar o negócio dos ‘leasings’, empréstimos a prazo e outras variantes ruinosas, o Sr. Oliveira pagou o carrinho a pronto por 33 mil euros para ser propriedade do Município e estar ao seu serviço por mais 600 mil quilómetros.

Com autarcas como o Sr. Oliveira não faziam farinha os peralvilhos e os negociantes de seges de há 300 anos. Nem fazem os de agora.

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Publicado em 28 julho de 2026
Jorge Morais

O PAÍS DA METÁFORA

Jorge Morais

Ao contrário dos povos setentrionais, mais adeptos do concreto, os meridionais deliciam-se na fantasia. O rigor, a pontualidade e o gosto da exatidão que encontramos nuns tem o contraponto na divagação, no aleatório e no vago dos outros. E se a fantasia favorece as artes, já quando se trata da administração das coisas terrenas fica o meridional em desvantagem.

 

A vida pública portuguesa está dominada por um estribilho de metáforas que, se dão colorido à ausência de ideias, em nada ajudam a governar-nos com acerto.

 

Isto vê-se na linguagem.

A vida pública portuguesa, por exemplo, está dominada por um estribilho de metáforas que, se dão colorido à ausência de ideias, em nada ajudam a governar-nos com acerto. Animam o parlapié das horas vagas, mas afastam-nos inexoravelmente da realidade.

Esta queda para a linguagem figurada, avessa às palavras factuais e ao que elas exatamente querem significar, tem as suas consequências na vida prática: falar por interposta metáfora pode ser muito engraçado, mas não é com figuras de retórica que se compram os melões.

A lábia metafórica e a alusão rebuscada, de tanto abusarmos delas, chegam a substituir por completo a simples noção das coisas. Entram depois no linguajar corrente e são repetidas como achado genial – à mesa do café, nas conversas de amigos, nas mensagens das redes sociais, até ganharem foro de verdade pública e subirem aos altares dos debates televisivos. Não nos damos conta, mas de metáfora em metáfora já nos encontramos a anos-luz da realidade palpável.

Falamos, por exemplo, de “pôr o país a andar para a frente”, como se Portugal tivesse pernas. Evitamos com isso explicar exatamente o que queremos dizer, ficando no ar apenas uma imagem difusa de movimento.

Falamos, por exemplo, de “alavancar o progresso”, como se fôssemos Arquimedes. Evitamos assim especificar o que entendemos por “progresso”, ideia ambígua até ser concretizada.

A uma coisa incomum chamamos “fora da caixa”, como se a vida fosse feita de cartão. E aquilo que nos é confortável designamos por “a minha praia”, como se fôssemos banheiros.

Já houve tempo em que os nossos políticos se propunham “construir o socialismo”, como se ele fosse um prédio em obra e nós os empreiteiros. Hoje falamos mais em “reinventar o futuro”, como se o presente fosse um cartório de registo de patentes.

Errar tornou-se “dar um tiro no pé”, como se estivéssemos numa cena de caça na Baixa Baviera. E ultrapassar o aceitável é hoje “pisar as linhas vermelhas”, como se a vida em comunidade se gerisse por círculos de giz caucasiano.

Algo que anda de boca em boca tem o nome de “viral”, como se ouvir e contar fosse uma pandemia. E aos temas do dia chamamos agora “bolha mediática”, como se as notícias fossem uma doença da pele.

No meio de tanta metáfora, hipérbole e eufemismo, não surpreende que ao desejo de ganhar um desafio de bola chamem “o sonho”. O que nos sobra em lírica escasseia-nos em juízo.

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Publicado em 21 julho de 2026
Jorge Morais

OS LOUCOS COM JUÍZO

Jorge Morais

Só agora soube que morreu o Tóino de Janas, o maior e mais sábio caminheiro da freguesia de Colares. Cheguei um dia a dar-lhe boleia, na subida para o Penedo, mas o Tóino estava nitidamente fora do seu mundo: não era para ele esta coisa estranha de ficar sentado num carro enquanto a paisagem corria lá fora. Caminhar, caminhar sempre, de manhã à noite, com o seu passo decidido, palmilhando Colares metro a metro – este era o seu destino. Cruzava-me com ele no Banzão, no Rodízio, no Mucifal, em Fontanelas, na Assafora, em Gouveia, nas Azenhas, em Almoçageme ou na Janas que lhe deu o cognome, mas dizem-me que era visto também em Torres Vedras, até na Cova da Piedade, sempre andando, fazendo continência a quem passava, silhueta magra, na cabeça um boné de bivaque da Corporação de Bombeiros, nas mãos um raminho de árvore que acarinhava como um ceptro de rei. ¿Qual o significado e o sentido das suas constantes caminhadas? Vá-se lá saber! Alma boa, às vezes deixava papelinhos nas caixas do correio a desejar boa saúde aos moradores. Eram as rifas do Tóino. A freguesia retribuía em géneros: casa de pasto por onde passasse punha-lhe logo prato na mesa; e festa, feira ou romaria em que aparecesse celebrava com banda e foguetes este andarilho da tradição saloia, agora desaparecido aos 75 anos de idade.

Lembrei-me do Sr. Serra, outro louco com juízo. Reformado, fez-se um ícone da noite lisboeta ao passar horas a acenar aos carros que passavam na Avenida Fontes Pereira de Melo. Foi assim que João Manuel Serra se tornou “o senhor do adeus”. Chuva ou bom tempo, lá estava ele ao pé do Sheraton, fato completo, sobretudo e cachecol branco, acenando boa-viagem e recebendo em troca buzinadelas de quem, compreendendo a sua mensagem ou apenas aceitando entrar naquela invulgar comunicação, justificava afinal a última profissão do Sr. Serra, falecido em Novembro de 2010, aos 79 anos. E a Fontes Pereira de Melo voltou a ser uma avenida com carros e nada mais.

 

Havia na sua alegada loucura uma sabedoria, uma premonição e uma consciência que nós só estávamos preparados para aceitar como parábola

 

E lembrei-me do “Homem das Rosas”, que nos anos 70 percorria o Chiado, a Baixa e a Avenida da Liberdade sobraçando um enorme ramo de flores, distribuindo boas-noites, versos e piropos como quem chega ao baile de máscaras da vida com uma mensagem de galanteio. E lembrei-me do Licas, que espantava as noites do Maxime e do Ritz Club com a sua extravagância de saltos altos e o seu grito de guerra vanguardista: acordai!

Havia em todos estes homens a loucura da lucidez. Um esquadrinhava por nós o território dos nossos passos; outro lembrava-nos que o diálogo é possível, mesmo no meio do caos; outro celebrava com rosas o encanto da paixão; outro mostrava-nos com uma antecedência de décadas o que seria o nosso amanhã. Chamavam-lhes loucos, mas havia na sua alegada loucura uma sabedoria, uma premonição e uma consciência que nós, os não loucos mas talvez mais loucos do que eles, só estávamos preparados para aceitar como parábola.

E lembrei-me da canção que dizia “São os loucos de Lisboa / Que nos fazem duvidar / Que a Terra gira ao contrário / E os rios nascem no mar”.

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Publicado em 07 julho de 2026
Jorge Morais

EXPROPRIE-SE!

Jorge Morais

Já chegou ou estará a chegar ao Parlamento uma petição para que seja ali discutida a tentativa de apropriação exclusiva de um naco da Serra da Arrábida, na Península de Setúbal. O elevado número de subscritores (quase dez mil) garante à partida que o hemiciclo se ocupará do tema. Como é sabido, está em causa a pretensão de uma empresa familiar de impedir o acesso do mortal comum a um conjunto de matas e praias da zona, reivindicando em tribunal a posse absoluta de montanha, areais, caminhos e acessos incluídos no perímetro da Comenda de Mouguelas – obviamente para no futuro ali montar um negócio turístico restrito, à maneira dos negócios já conseguidos por outros na região da Comporta.

A Comenda, como o povo abreviadamente a designa, pertenceu historicamente à Ordem de Sant’Iago da Espada, que tinha a sua cabeça na vizinha Palmela. Vasco da Gama chegou a ser usufrutuário e os nossos Reis ali reuniram Conselho. Com a extinção das Ordens, em 1834, a propriedade passou para o Estado, que dela abriu mão em 1872 para a vender ao então Embaixador da França em Portugal, o Conde Armand. Foi seu filho, Abel Armand, quem em 1903 encomendou ao arquiteto Raul Lino o desenho da bela Casa da Comenda, que ao longo do século XX recebeu visitantes célebres. Com o dinheiro ganho na venda de gaiolas de cimento na Margem Sul, o empreiteiro Xavier de Lima comprou a Comenda em 1988. Três décadas depois, em 2019, os herdeiros do construtor venderam-na por 16 milhões de euros à imobiliária Seven Properties, controlada pela família luso-paquistanesa Mirpuri.

Cedo se tornou óbvio que os novos donos da Comenda não estavam ali por amor à Serra-Mãe. Hoje aqui e amanhã ali, começaram a surgir vedações de arame farpado, valas e portões limitando a entrada nos 600 hectares que compõem a propriedade. O atrevimento da família da Seven Properties chegou ao ponto de impedir o acesso à capela de São Luís da Serra, onde o povo de Setúbal ia em romaria pelo Domingo de Pascoela, e de vedar o parque de Albarquel. Em vão o Instituto da Conservação da Natureza e o Ministério do Ambiente tentaram que fosse respeitado o Plano de Ordenamento do Parque Natural da Arrábida. Sem fiscalização, a Seven Properties faz o que quer.

Surge agora o ‘coup de grâce’: os novos proprietários da Comenda requerem, por via judicial, o reconhecimento de cinco praias da zona da Comenda como “propriedade privada”. O Estado e a Agência Portuguesa do Ambiente contestam a pretensão, e à cautela os dez mil signatários da petição levam o caso ao Poder Legislativo.

E é precisamente com base nas leis que, na minha modesta opinião, a questão deve ser resolvida de uma vez por todas, tomando as praias por ponta da meada.

Tanto o Decreto Real de 31 de Dezembro de 1864 (que instituiu formalmente o conceito de Domínio Público Marítimo e retirou as águas do mar, os portos, os leitos e as praias do comércio privado), como o Decreto de 16 de Agosto de 1971 (que definiu a “Reserva da Serra da Arrábida”) e o Decreto-Lei de 28 de Julho de 1976 (que criou o Parque Natural da Arrábida para “salvaguardar os valores científicos, culturais e paisagísticos da Serra”) são claríssimos: a Comenda, as suas veredas e os seus areais não podem ser sacrificados aos negócios familiares da Seven Properties.

E como é pouco provável que a pressão imobiliária se desvaneça com simples protestos ou recomendações pias, a solução óbvia impõe-se por si: exproprie-se a Comenda por invocação de utilidade pública, pague-se aos Mirpuri os 16 milhões que eles lá gastaram e entregue-se a Casa de Raul Lino e os 600 hectares do parque à gestão conjunta dos Ministérios do Ambiente e da Cultura.

Para grandes males, grandes remédios.

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Publicado em 30 junho de 2026
Jorge Morais

O CARVALHO E A MULTIDÃO

Jorge Morais

Morreu o Major Oak – o carvalho maior da floresta de Sherwood. Não se sabe ao certo que idade tinha: apenas que já deitava sombra quando, no final do século XII, Robin Hood por ali passarinhava com os seus compinchas. Andava triste desde há uns tempos, começou a murchar e nesta Primavera já não deu folha. Sherwood e todo o Condado de Nottingham choram a sua triste morte, ainda que o choro vá muito além de Nottinghamshire e da própria Inglaterra: as aventuras de Robin Hood correram mundo ao longo do último meio milénio e fazem hoje parte da cultura universal.

A lenda é magistral: um bom malandro que rouba aos maus para dar aos pobres, um amigo leal que defende Ricardo Coração de Leão contra o mano usurpador, um amante dedicado que tudo faz para pôr um sorriso nos lábios da bela amada. A figura perfeita da bondade, da coragem altruísta e do galanteio amoroso.

É bem possível que Robin Hood tenha existido. Ou que tenham existido vários Robins que, duzentos anos depois do seu tempo, acabaram fundidos num só boneco ficcional. Que importa? É a figura que interessa, no seu recorte aventureiro, na sua cavalgada juvenil, na sua entrega aos nobres ideais da cavalaria que inspiraram os trovadores medievais. Pois foi pela poesia que ele primeiro se imortalizou, muito antes de Walter Scott lhe ter dado circulação massiva através da vulgata romântica de Sir Wilfred Ivanhoe.

Em Portugal, Robin Hood foi desde sempre conhecido dos letrados que estudaram a poesia trovadoresca, mas só chegou à arraia miúda no século XIX, quando por cá se popularizaram as traduções da saga de Ivanhoe e o romance histórico ganhou fôlego com Herculano. Chamámos-lhe então Robim dos Bosques, talvez pelo contágio fonético de Hood com Wood. O bosque era a sua casa, é certo; mas com maior rigor lhe chamaríamos Robim do Capuz, ainda que não tivesse a mesma graça.

Desde então, gerações e gerações de rapazinhos sonhadores idealizaram para si um destino heróico como o de Robin de Sherwood, combatendo a malvadez dos usurpadores desta vida, amando as Maids Marian mais à mão de semear e emulando as ceias fraternas com os companheiros de armas à sombra do Major Oak e sob a bênção do Frade Tuck de Copmanhurst, sempre gorducho nas ilustrações de cordel. Também eu, vendo-me Errol Flynn ao espelho, tive uma espada “à Robin Hood” para travar escaramuças em que bati João Sem Terra aos pontos. Sonhar não custa, especialmente quando se tem oito anos de idade.

A lenda do bom malandro continua viva, mas já o mesmo não poderá dizer-se do carvalho maior de Sherwood. O mais amargo em tudo isto é que a árvore multisecular nem sequer morreu de velhice: feneceu sacrificada pelos próprios admiradores, que ao longo dos tempos, de tanto a visitarem, compactaram de tal modo o solo em volta que a água das chuvas deixou de chegar às raízes, privando-a de nutrientes.

Eis como, à lenda inspiradora de Robin Hood e do amor que salva, podemos hoje juntar uma moraleja prática sobre o amor que mata: a metáfora da multidão que asfixia.

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Publicado em 23 junho de 2026
Jorge Morais

A MAQUILHADORA DA PRIMEIRA DAMA

Jorge Morais

Não sei o que pensaria o Almirante Américo Thomaz se visse a manicure de Dona Gertrudes na capa do Século Ilustrado ou a modista da Menina Natália em grande entrevista à Modas & Bordados – mas adivinho que ficaria mais abesbílico do que eu fiquei ao dar com a maquilhadora da Primeira Dama feita heroína das redes sociais. É a vida: o que ontem foi esdrúxulo torna-se hoje trivial. Cada era com seu uso, cada roca com seu fuso.

Para as pessoas que nasceram e cresceram naquele tempo, a transformação da política num espetáculo de alta densidade profissional não deixa de ser um filme um bocadinho estranho. O Embaixador Franco Nogueira, que foi Ministro nos anos 60 e 70 e sobreviveu à debacle do antigo regime, continuava nos anos 90 pasmado com o arraial que perseguia governantes e dirigentes partidários nas suas caravanas automóveis – secretários, assessores, conselheiros, adidos de Imprensa, speechwriters e mandaretes – e costumava dizer, com uma secura orgulhosa, que enquanto pertenceu ao Governo o seu gabinete era ele, uma secretária e um chauffeur.

Tenho, ao longo da vida, conhecido de perto muitos desses protagonistas e assistido à evolução da indústria política, tanto na casa das máquinas como na montra. A cena da esposa de sua excelência o venerando chefe do Estado a inaugurar a quermesse das meninas de Odivelas em 1972 é certamente tirada da pré-história comunicacional. Mas a performance radical de um António Leitão Amaro, por exemplo, que comanda uma autêntica orquestra mediática e se enleva auto-filmando-se no papel de homem que não dorme só a pensar no bem comum e rói as unhas de preocupação nos briefings da Proteção Civil – talvez passe um tudo-nada das marcas.

Tinha mesmo de ser tão abissal o fosso entre dois tempos das nossas vidas de espectadores da política?

Passam seis décadas. O Presidente da República vai em visita oficial a Espanha e os vestidos das Primeiras Damas transformam-se em declarações políticas de alto coturno. Escrevem as gazetas que Letizia e Margarida “deram nas vistas com looks semelhantes, mostrando a harmonia entre os dois países” – com destaque para “vestidos midi em tons pastel”, um “em pérola” e outro “em verde-água”. Aos observadores internacionais não escaparam “as mangas a ¾”, os “decotes em canoa” e os “sapatos slingback”. Parece um comunicado no final de uma cimeira.

Se isto me elucidou, mas me elucidaria a etapa seguinte: o 10 de Junho na Ilha Terceira. Enquanto Marcelo fazia macaquices pelas ruas de Angra, tentando estragar a festa ao sucessor, e no palanque Seguro sermoneava aos peixes sobre a chuva e o bom tempo, a verdadeira cerimónia, aquela que realmente incendiou o Facebook e o Instagram, passava-se ali ao lado, no estúdio de beleza de Natália Areias. Nas mãos desta “’make up artist e consultora de cores”, Margarida Maldonado Freitas transformou-se no fulcro das celebrações do antigo Dia da Raça. Fotografias de ambas suplantaram largamente em ‘likes’ os maçadores clichés dos Benoliéis de serviço à parada oficial. Outro ponto alto da cerimónia foi Margarida a sair triunfalmente do Angra Studio Cabeleireiro onde tratara dos cabelos. Soube-se então que a Primeira Dama, quando em viagem oficial, “prescinde das assistentes pessoais que habitualmente tratam da sua imagem” e “recorre a profissionais locais”. Um grande bem-haja.

É fatal que, na era do ‘parece que’, o palco pertença – não à substância, mas à maquilhagem. Se no seu tempo conhecesse o poder mágico das “consultoras de cores” desta vida, Dona Gertrudes certamente teria ousado um nadinha mais de rouge. E o Almirante um pouco mais de selfies.

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Publicado em 16 junho de 2026
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