
Manuel Soares de Oliveira
Acometido por maleita prolongada, passei os últimos tempos no grau máximo de mau-feitio. Resmunguei contra tudo e contra todos. Fico tão irascível que nem eu quero estar comigo, vantagem que, infelizmente, não concedo aos outros.
Segundo a senhora minha mulher, aquela a quem obedeço, a doença não alterou muito o meu temperamento. Devemos dar o devido desconto às nossas mulheres: cabe-lhes impedir que a nossa autoestima atinja níveis clinicamente saudáveis.
Os meus poucos leitores terão notado que as últimas crónicas refletiam esta disposição. Falei mal do Governo, da oposição e de várias figuras públicas que tiveram o azar de atravessar a atualidade quando eu precisava de assunto. Reconheço que me excedi. Vítimas do meu mau-feitio, perdoem-me.
Ao malhar a torto e a direito, tornei-me um cronista como outro qualquer. Os cronistas políticos dividem-se em duas categorias: os que usam óculos cor-de-rosa e descobrem estadistas onde o cidadão comum vê ministros, e os que gostariam de usar os mesmos óculos, mas nunca receberam convite para ir à ótica.
Caí na segunda categoria, não por desejar beneficiar da cornucópia do poder, mas por preguiça. Criticar é fácil. Qualquer inútil que nunca fez nada consegue explicar como deviam trabalhar os que fazem. E a crítica tem uma vantagem extraordinária: não exige soluções.
Buscando a redenção, decidi escrever uma crónica positiva.
Comecemos pelo Presidente da República. António José Seguro criticou as promessas por cumprir desde os incêndios de 2017. Louvo a coragem, embora seja um assunto fácil: todos os governos prometeram soluções e nenhum cumpriu. Nenhum se sente pessoalmente atingido por ter feito o mesmo que os anteriores. Ao fazer críticas sem consequências, Seguro continua a jogar pelo seguro. Mas já se nota que tem tentado engrossar a voz. Merece nota positiva pelo esforço.
Também o Governo merece elogios. Luís Montenegro garantiu que o ministro da Administração Interna tem feito um trabalho «absolutamente extraordinário» nos incêndios e que quem não o reconhece está desfasado da realidade. É reconfortante termos um Governo que, além de governar, nos informa sobre a realidade correta. Poupa-nos o incómodo de observar. Ainda não foi desta que o Neves derreteu.
Na oposição, André Ventura levantou suspeitas sobre a compra de três fragatas e o CDS exigiu-lhe um pedido de desculpas. É um progresso institucional: antigamente, as fragatas disparavam canhões; agora disparam comunicados.
O PS continua a praticar uma oposição tão responsável que, por vezes, temos dificuldade em localizá-la. O Dr. Carneiro fez um discurso de rentrée. O maior elogio que lhe podemos fazer é que ninguém o criticou. Para haver crítica, seria necessário haver substância.
Continuando nesta senda elogiosa, reconheço que há pouco mais a dizer. Portugal tem um número extraordinário de comentadores para uma atualidade em que quase nada acontece, e o pouco que acontece vem logo explicado pelos próprios protagonistas.
Acometido por maleita prolongada, passei os últimos tempos no grau máximo de mau-feitio. Resmunguei contra tudo e contra todos. Fico tão irascível que nem eu quero estar comigo, vantagem que, infelizmente, não concedo aos outros.
Por isso, deem algum crédito a quem consegue escrever sobre o nada todas as semanas. E ainda encontrar aspetos positivos.

Manuel Soares de Oliveira
Poderia ser pior. Poderíamos ser o país da marcha-atrás. Mas não. Somos o país que gosta de estar em ponto-morto.
O ponto-morto tem algumas vantagens. Poupa-se gasolina, não há risco de acidente e tem ainda a vantagem de qualquer nabo poder estar ao volante, dado que não é preciso saber conduzir.
O que leva um país a gostar de estar em ponto-morto? A falta de ambição, o conformismo, o medo da mudança, mas, acima de tudo, a ignorância estrutural.
Ninguém quer saber de literacia financeira, mas tem muitas opiniões sobre a política fiscal do Governo enquanto tenta pagar uma despesa sem que lhe passem fatura. Ninguém quer saber de modelos alternativos para o Serviço Nacional de Saúde, mas garante que o nosso modelo é o melhor enquanto vai a uma consulta no hospital privado. Ninguém quer saber muito sobre nenhum assunto, mas sente que tem a opinião definitiva sobre todos os assuntos.
No país do ponto-morto não é preciso estudar a fundo nenhum assunto. Basta saber mandar umas bocas e fingir que são uma opinião fundamentada. Quem fala pouco sabe, mas não há que preocupar: a audiência também é bronca.
O nosso comentariado político pouco se distingue do comentário futebolístico. No comentariado político, temos umas cabeças falantes com evidentes tendências partidárias, no futebolístico, umas cabeças falantes com evidentes tendências clubísticas. Não ganha quem demonstra ter estudado melhor o assunto. Sai em ombros quem for melhor a “mandar umas bocas”.
É triste, mas até o auto–intitulado “líder da oposição” vem desse pântano que é o comentariado desportivo. Ganhou fama por defender durante anos o presidente Luís Filipe Vieira e, a seguir, fundou um partido para combater a corrupção. Há quem tenha coerência ideológica. Ventura tem coerência de audiências.
É fácil bater no Ventura e naquele curioso elenco que conseguiu reunir à sua volta. São personagens dignas de um romance surrealista. Mas, olhando para algumas das outras personagens que nos querem liderar, ficamos ainda mais deprimidos. Temos neste momento uma coleção de condutores que não sabem ler um mapa e têm medo de passar dos 20 km/h.
E é por termos condutores destes que o país continua estacionado enquanto outros países nos ultrapassam pela direita e pela esquerda. Estamos parados porque escolhemos o condutor que grita mais alto e não aquele que melhor sabe guiar.
É esse o problema do país que escolhe o ponto-morto. Faz barulho, consome energia, incomoda toda a gente, mas o carro nunca vai a lado nenhum.

Manuel Soares de Oliveira
Aprecio imenso a atenção com que os jornalistas se referem ao empreiteiro de Barcelos. Sempre que o mencionam nas notícias, fazem questão de acrescentar: “o empreiteiro amigo do ministro”.
Acho muito querido, até fofo. O que estranho é que o ministro nunca seja apresentado como “o ministro amigo do empreiteiro”. Parece que ser amigo dos poderosos é cartão-de-visita, mas um ministro já não precisa de apresentar as suas amizades para ser identificado.
É muito nosso, muito português, haver sempre um amigo sempre que aparece um processo manhoso ou um cambalacho. Houve o amigo de Sócrates que servia de multibanco. O amigo do ministro que fazia piscinas de surpresa. O amigo do Cavaco que lhe vendia e depois recomprava acções. E o amigo do Costa, claro, que surgia como “mediador em nome do Governo” em vários processos sem que ninguém parecesse achar isso particularmente estranho.
Neste campeonato dos amigos dos políticos, o amigo do Costa destacou-se em termos emocionais, porque não era apresentado apenas como “amigo”. Era sempre “o melhor amigo”. Confesso que essa referência sempre me comoveu. Primeiro, porque significava que António Costa tinha mais do que um amigo, tinha uma classificação oficial. Depois, porque nos deixava a imaginar quem seriam o segundo melhor amigo, o terceiro e os restantes classificados da liga.
É uma característica muito portuguesa esta associação de amizades. Noutros países fala-se de redes de influência, lóbis ou organizações criminosas. Nós preferimos falar de amigos. É uma abordagem muito mais humana.
As nossas associações de amizade também nunca têm grandes ambições. Não são feitas para golpes épicos nem para assaltos monumentais ao Estado. Servem apenas para dar um jeitinho, facilitar um contrato, guardar um dinheiro, aparecer numa negociação ou resolver um pequeno problema administrativo. É uma corrupção muito pilha-galinhas, sem rasgo nem imaginação.
Houve um primeiro-ministro que teve a ambição desmedida de querer gamar em grande e para si próprio. Correu-lhe mal. O amigo que dá um jeitinho numa obra, tudo bem. Faz parte do nosso nacional-porreirismo. Mais do que isso já começamos a torcer o nariz. A ambição nunca foi muito bem vista entre nós. Até porque, em Portugal, ninguém faz nada por interesse. Faz sempre por amizade.

Manuel Soares de Oliveira
Passei a semana inteira à procura de um assunto para esta crónica. O problema é que todos os assuntos já tinham sido ocupados pelos outros cronistas. É sempre difícil resistir à tentação de escrever sobre aquilo de que toda a gente fala. A maioria dos cronistas segue a manada e tenta ser original na falta de originalidade. Forma-se então uma curiosa romaria opinativa. Se o alvo da semana é um ministro, todos escrevem sobre o ministro. O desafio já não é pensar diferente. É parecer original sem sair da mesma fila. Cada um acrescenta uma metáfora, uma citação ou um ângulo inesperado, mas todos acabam a sinalizar aos restantes cronistas que pertencem à mesma tribo. Não são crónicas de opinião. São crónicas de pertença.
Há excepções. O cronista profissionalmente indignado. Esse não escreve porque o assunto está na moda, escreve porque finalmente encontrou um pretexto para descarregar a bílis acumulada desde a infância. É um homem zangado com o Governo, com a oposição, com a meteorologia e, suspeito, consigo próprio. Convém não lhe dar demasiada importância. É apenas alguém que transformou o mau humor em género literário. É normalmente um caso de quem esqueceu de tomar a medicação.
Perante isto, qualquer cronista acaba por ter apenas dois caminhos. O primeiro é repetir os lugares comuns dos outros cronistas e assim ser aceite pela turma ou procurar ser original e fugir do óbvio.
Ao cronista que tenta ser original normalmente aponta-se alguma vaidade por tentar mostrar alguma profundidade que apenas o próprio reconhece. Nesses discursos de originalidade falha, o cronista enrola-se em argumentos tentando criar uma narrativa que crie interesse a um assunto em que não foi por acaso ninguém quis pegar. Foi porque não tem mesmo interesse algum. O cronista acaba sem que a sua pretensa originalidade seja apreciada e a escrever textos que não acrescentam nada.
Resta uma terceira via, que ninguém recomenda porque não dá para exibir em painel de comentadores: admitir que não se tem nada a dizer, e dizê-lo com o mínimo de estilo possível. Não é original, é apenas honesto, o que hoje em dia já passa por ousadia. Esta semana, por exemplo, quarenta cronistas escreveram quarenta textos a trucidar o mesmo ministro com sinónimos diferentes, cada um convencido de que a sua adjectivação era a mais certeira. Eu, que também sou cronista e também não tinha assunto, escolhi escrever sobre a fauna dos cronistas, o que prova que a originalidade também tem as suas convenções. A única vantagem de o admitir é que, pelo menos, vos poupo ao ministro.

Manuel Soares de Oliveira
Por causa do Mundial de futebol, conversava com um amigo esquerdalho que repetia o habitual lugar-comum de que os americanos são ignorantes, dando como prova o facto de eles nada saberem sobre Portugal.
É um facto incontestável que os americanos pouco ou nada sabem sobre o que se passa no nosso país. A primeira explicação é simples: vivem num país de dimensões continentais onde muitas coisas relevantes acontecem. Um país que declara guerras do outro lado do planeta, que lidera a revolução digital, que decide levar pessoas à Lua e, efectivamente, leva.
Comparado com isto, que tipo de notícias relevantes tem Portugal para apresentar ao mundo? O que aconteceu recentemente no nosso país que pudesse justificar uma abertura de telejornal nos Estados Unidos?
Somos um país sem grande interesse para os americanos e, na verdade, sem grande interesse para uma parte da população portuguesa, onde me incluo.
Reparem no que têm sido as principais notícias destas últimas semanas: o tanque do ministro que afinal é uma piscina e o atraso de alguns dias na publicação das notas escolares.
E com isto temos os canais generalistas a abrir noticiários e quatro canais de informação a falar do assunto durante vinte e quatro horas seguidas. Nesta altura, até os comentadores mais fala-barato já são especialistas em piscinas e em calendários escolares.
Vamos ser honestos: nenhum destes assuntos possui qualquer espécie de relevância mediática capaz de interessar seja quem for. Talvez interessem à oposição, mas essa escandaliza-se com pouco.
À esquerda descobriu-se um súbito interesse pela saúde mental dos coitados dos estudantes que, segundo alguns dirigentes partidários, irão viver dias de angústia insuportável. Entretanto, a esmagadora maioria desses estudantes já deve estar numa praia qualquer e, quando as notas saírem, alguém lhes enviará uma mensagem.
Já à direita mais à direita, tão à direita que acabou por dar a volta e surgir pela esquerda, o Il Duce de Mem Martins apresentou-se indignado com uma suposta frase ameaçadora que o ministro lhe terá dirigido.
E pensaríamos nós que, um líder de uma direita que se pretende musculada e viril nunca faria o ar ofendido que fez. Era vê-lo à saída de Belém, onde foi fazer queixinhas ao Presidente da República. Quando entrevistado pelos jornalistas, até uns discretos beicinhos fez. Não houve senhora idosa neste país que não se emocionasse nem sentisse vontade de abraçar o Andrézinho e protegê-lo desses malvados que o ofendem.
O Il Duce de Mem Martins parece ter percebido que dificilmente intimidará alguém, mas que poderá despertar algum instinto maternal e, com isso, arrecadar mais uns votos.
Somos, pois, um país sem grande interesse.
Foi a semana do debate sobre o Estado da Nação, ocasião em que poderíamos ter discutido os desafios que Portugal enfrenta num mundo que se prepara para grandes transformações e que inevitavelmente nos afectarão.
Mas preferimos falar de piscinas e de notas escolares.
Somos um país irrelevante por escolha própria. Um país que se recusa a discutir o que verdadeiramente importa e que se perde em conversas de que daqui a poucos meses já ninguém se lembrará.
Notícias da treta para entreter gente que não quer ter de pensar muito.
E depois admiramo-nos que os americanos não queiram saber de Portugal. Sinceramente, há semanas em que nem eu quero.

Manuel Soares de Oliveira
Ocean’s Twelve foi um filme que tinha tudo para dar certo e acabou por não ter interesse nenhum. Há filmes assim, juntam um elenco fantástico, cheio de estrelas, e acabam por ser um fracasso de bilheteira.
Num Mundial disputado na terra do cinema, podemos dizer que a nossa participação foi apenas um mau filme, arrastado no argumento, com personagens sem vida e cujo final se adivinhava desde o início. Em bom português, uma verdadeira estopada. Uma equipa cheia de estrelas que acabou por ser um flop de bilheteira.
Não fomos eliminados pela Espanha. Simplesmente saímos de cena. O filme foi retirado dos cinemas por manifesta falta de interesse do público e a sua saída não foi lamentada por ninguém.
A nossa selecção viveu este Mundial num estado de entorpecimento colectivo. Consta que a direcção da federação distribuía doses de calmantes nas sopas dos jogadores. E era evidente que, durante os jogos, nas pausas para hidratação, em vez de água, o nosso técnico mandava distribuir chá de camomila, garantia de um sono reparador.
E assim o Bruno Fernandes passou de melhor jogador da liga inglesa a turista perdido em campo, enquanto o nosso meio-campo, bicampeão europeu, decidiu fazer uma pausa técnica durante o Mundial. Voltarão todos a jogar maravilhosamente bem assim que se afastarem do ambiente entorpecente da selecção. Será como acordar de um pesadelo.
Era preciso garantir que a selecção não corresse demasiado. Tinham todos de correr por igual. Porque, se alguns corressem muito, repararíamos que lá à frente havia um jogador que não corria. Foi preciso nivelar a equipa pelo seu mínimo denominador comum: Ronaldo.
Existe uma sensação de dívida colectiva para com Ronaldo. E parece que todos temos de aceitar uma situação que já se arrasta há vários anos.
Ronaldo agraciou-nos com o seu talento. Vendemos a alma ao Diabo para ter na nossa selecção o melhor jogador do mundo. Como se antes dele não jogássemos nada.
Por mim, a melhor selecção portuguesa foi a do Europeu de 2000. E foi-o porque, para além de ter jogadores fantásticos, jogava verdadeiramente como uma equipa. Se o Figo ou o Rui Costa não estivessem a jogar bem, eram substituídos. Havia muitos craques, mas não havia vedetas. Havia prazer em jogar e vontade de ganhar.
Poderíamos, e merecíamos, ter sido campeões se não tivéssemos sido roubados pela França, no famoso lance da bola na mão de Abel Xavier. Por acaso, ou talvez não, essa foi a última grande selecção antes do aparecimento de Ronaldo.

Manuel Soares de Oliveira
O País foi surpreendido por um pequeno filme em que o líder parlamentar do PSD, o muito combativo Hugo Soares, surge ao lado de duas deputadas a recriar um diálogo sobre uma votação. A interpretação não convence e o resultado final fica muito aquém da intenção.
Ainda assim, há um mérito que merece ser reconhecido. A ousadia de tentar comunicar de forma diferente, adaptando a linguagem política ao universo das redes sociais. A nota negativa vai para quem, no fim, olhou para o produto acabado e não teve a coragem de o mandar para o caixote do lixo.
Suspeito, aliás, que a ideia estava condenada desde o início. O português não nasceu para representar espontaneamente. Mesmo os nossos actores mais celebrados raramente conseguem parecer naturais diante de uma câmara. Há sempre qualquer coisa que nos faz sentir que continuam no palco do Teatro Nacional D. Maria II a representar um clássico.
Percebo, no entanto, a tentação. Os partidos tradicionais olham para o sucesso dos populistas nas redes sociais e concluem que também precisam de fazer filmes daquele género.
Só que há um pequeno problema. Quando digo que os populistas fazem bons filmes, refiro-me apenas aos resultados. Conseguem milhares de partilhas, comentários e reacções. A qualidade é outra conversa.
Para dominar essa linguagem é preciso estar disposto a dizer disparates com absoluta convicção, simplificar assuntos complexos até à caricatura e falar sempre a partir do que se “sente”, nunca do que se estudou. Um político populista não ganha votos por parecer informado. Pelo contrário. Ganha-os por parecer igual a quem o está a ouvir.
Os seus eleitores também não andam particularmente preocupados em informar-se. Têm opiniões muito firmes sobre quase tudo e, para desespero dos comentadores políticos, agora resolveram ir todos votar. E, em democracia, isso basta.
O PSD não precisa de entrar nesse campeonato. É possível fazer filmes mais populares sem parecer um filme português dos anos 80. Pode-se ser popular sem ser populista.
Aliás, nunca foi por dominar as redes sociais ou por fazer discursos inflamados que o PSD ganhou eleições. As pessoas votam no PSD porque o vêem como um partido institucional, previsível e confiável. Durão Barroso, Passos Coelho e Luís Montenegro ganharam eleições sem recorrer ao estilo populista. Nenhum deles incendiava plateias, mas todos conseguiram convencer os eleitores.
O eleitor do PSD também não anda propriamente à procura de um líder carismático. Quer alguém que governe com competência e, sobretudo, que não transforme o país numa sucessão de crises. Que pareça interessado em fazer reformas, mas que não provoque uma crise política só porque foi impedido de as fazer. Muitas vezes basta parecer reformador. O importante é que o Governo transmita a ideia de que sabe para onde vai.
No fundo, o eleitor do PSD quer uma coisa muito portuguesa: um governo que não o chateie.

Manuel Soares de Oliveira
Como conservador que sou e defensor das nossas tradições, devo dizer que gostei muito do jogo de ontem frente à Colômbia.
Ao contrário do jogo com o Cazaquistão, em que fomos eficientes e, portanto, profundamente antiportugueses, ontem voltámos aos nossos hábitos e costumes, já testados ao longo de muitos séculos.
Como é muito nosso, entrámos em campo sem um plano de jogo. Nisso, Roberto Martínez já é mais português do que muitos portugueses. Imagino a entrevista para o cargo de selecionador. Fizeram-lhe apenas duas perguntas. A primeira: “Deixa o Ronaldo jogar sempre que quiser?” Respondeu que sim. A segunda: “Tem algum plano para a Seleção?” Respondeu que não. Ficou imediatamente contratado.
O plano de jogo é precisamente não haver plano de jogo. Isso do planeamento nunca foi muito connosco. Nós confiamos no destino e no velho princípio do “seja o que Deus quiser”. É uma enorme demonstração de fé.
Costuma dizer-se que os portugueses planearam os Descobrimentos. É falso. Um alemão nunca embarcaria numa caravela sem saber exatamente para onde ia. Já um português parte sem fazer ideia do destino. Depois, quando chega, diz que era precisamente ali que queria ir. É um método que tem funcionado surpreendentemente bem há mais de quinhentos anos.
Feita esta análise em lato sensu, passemos agora à análise em stricto sensu, centrando-nos no jogo de ontem.
Gostei particularmente do nosso meio-campo e da forma como insistia em passar a bola para os lados e para trás. Confesso que me emocionei. Foi uma extraordinária demonstração da tradicional hospitalidade portuguesa.
Se os colombianos estavam descompensados no ataque, seria de uma enorme falta de educação aproveitar essa fragilidade para lançar um contra-ataque rápido. Não somos um povo desses. Ficámos largos minutos a trocar a bola entre os nossos defesas, dando tempo ao adversário para reorganizar calmamente a sua linha defensiva.
É por estas e por outras que toda a gente gosta dos portugueses. Não temos inimigos. Quem é que consegue odiar um povo que espera pacientemente que o adversário esteja preparado antes de atacar?
Além disso, sem a ansiedade de chegar depressa à área contrária, damos tempo ao nosso estimado Ronaldo para acordar e encontrar a sua posição.
O Ronaldo representa uma das mais sólidas tradições nacionais: os direitos adquiridos. É alguém cujo lugar já não depende do rendimento nem da avaliação de desempenho. O Ronaldo é o Mário Nogueira do sindicato dos futebolistas da Seleção. Também Mário Nogueira continua a viver da fama de ter sido professor há muitos anos e ninguém parece equacionar substituí-lo.
Vamos, por isso, continuar neste fado da Seleção. Um fado que chora a geração dourada que nunca irá cumprir a promessa. Culpa do destino, evidentemente. Ou um fado que lamenta a saudade de um futuro glorioso que nunca chegará a acontecer.
Porque, para haver verdadeiro fado, é preciso que tudo acabe em tragédia. O sucesso não inspira fadistas. Precisamos de drama, de expectativas goradas e da eterna sensação de que o mundo nunca nos compreendeu. Um fado sobre felicidade seria apenas música ligeira.
Faço, por isso, votos de que continuemos nesta permanente crise da Seleção. Estar sempre em crise é profundamente português. Vivemos em crise desde a fundação do país. Quando tudo corre bem começamos imediatamente a desconfiar de que alguma coisa está errada.
Quer isto dizer que Portugal algum dia sairá da crise? Nem pensar. Muita estabilidade e deixávamos de ter assunto para conversar. E um português que não se queixa deixa imediatamente de ser português.
Viva a crise. Viva a Seleção.

Manuel Soares de Oliveira
Há um episódio da fantástica série ‘Star Trek’ em que o Capitão Kirk e o Spock vão parar a um planeta cujos habitantes tinham um poder incomum. Possuíam aquilo a que chamavam um “campo de realidade distorcida”, que lhes permitia convencer qualquer pessoa à sua volta de que aquilo que diziam era verdade. O problema é que, quando se afastavam, as pessoas voltavam à normalidade e já não conseguiam compreender como tinham acreditado em coisas tão absurdas.
Quando vejo uma entrevista com o Dr. Ventura sinto-me um pouco assim. Ele apresenta as suas propostas, explica com aparente simplicidade como irá arranjar dinheiro para as executar, e dou por mim a concordar com ele e a amaldiçoar todos os outros políticos que nunca se lembraram de soluções tão brilhantes. Felizmente, o efeito dura pouco.
Passados alguns minutos, a razão regressa e voltamos a perceber que nada daquilo faz grande sentido. Ainda assim, reconheço ao Dr. Ventura uma capacidade invulgar para nos convencer de coisas que não fazem sentido nenhum. E fá-lo sempre com um sorriso nos lábios, como quem sabe que nem ele próprio acredita em metade do que está a dizer.
Tenho uma fraqueza por esse tipo de personagens. Sempre achei graça aos fura-vidas, aos pantomineiros e aos artistas da retórica. Depois existe uma categoria ainda mais rara: a daqueles que conseguem juntar essas três qualidades e acrescentar-lhes uma extraordinária capacidade de parecerem acreditar genuinamente naquilo que dizem. O Dr. Ventura pertence a essa categoria.
Não alinho com aqueles que vêem nele um perigoso fascista. Suspeito até que o próprio se ria quando ouve tais acusações. Para se ser um perigoso fascista seria preciso ter convicções profundas. E, para nossa sorte, nunca vi no Dr. Ventura grandes sinais de convicções particularmente sólidas.
Tanto vota à direita como aparece ao lado da CGTP. Tanto denuncia o sistema como procura tirar proveito dele. A única convicção verdadeiramente inabalável que lhe conheço é a convicção de que ele é mais esperto do que todos os outros. E de que nós somos suficientemente parvos para acreditar nisso.
Também não vejo grandes fascistas na tropa-fandanga que o acompanha e à qual insistimos em chamar grupo parlamentar. Vejo por lá alguns artistas que nunca fizeram nada na vida e que, de repente, se descobriram deputados. Vejo outros que aparentam acreditar sinceramente na retórica venturosa. E vejo ainda aqueles que têm convicções a sério. Serão esses os primeiros a sair quando chegar o momento de fundar mais um partido destinado a defender os verdadeiros valores da civilização cristã e a resgatar a Nação.
Até lá, vamos assistindo aos malabarismos do entertainer Ventura e ficando com a sensação de que nada mudará neste país à beira do pasto plantado.

Manuel Soares de Oliveira
No final dos anos 50, a carreira de Frank Sinatra parecia acabada. Havia cantores mais jovens, o Rock & Roll dominava as tabelas e, mesmo como actor, os estúdios já não queriam saber dele.
Numa entrevista, Sinatra conta que, nas festas de Hollywood, as pessoas olhavam para o chão para evitarem encará-lo. Eram as mesmas pessoas que ele considerava amigas e que agora lhe viravam a cara.
Sinatra percebeu então que aquelas pessoas nunca tinham sido verdadeiros amigos. Eram apenas parceiros de negócios que achavam já não ter nada a ganhar com ele e, por isso, evitavam-no.
É a solidão de quem tem sucesso. No topo da montanha já não há multidões e o ar é rarefeito.
A carreira de Sinatra voltou a brilhar e esses “amigos” reapareceram. Mas ele nunca esqueceu a lição: quem hoje te aplaude e elogia será muitas vezes o primeiro a abandonar-te quando tropeçares.
No cume da montanha onde vive Ronaldo, a solidão é ainda maior. Sinatra não tinha televisões, redes sociais e comentadores a acompanhá-lo vinte e quatro horas por dia. Podia esconder-se. Ronaldo só se pode esconder dentro de si.
Ronaldo é como o velho actor que ganhou todos os Óscares, mas que tem dificuldade em encontrar um papel onde possa voltar a surpreender.
O público continua a gritar o seu nome, mas o velho actor sabe que parte desses aplausos já nasce mais da gratidão do que da admiração. São aplausos para o passado, para o homem que conquistou tudo. O problema é que o velho actor continua a querer aplausos pelo que faz hoje.
Esse é o drama de todos os criativos. Ninguém quer ser uma memória viva. Todos querem continuar a ser uma presença viva.
Os críticos repetem, em coro, que chegou a altura de saber sair de cena. Mas o actor acredita que ainda lhe falta uma última grande interpretação. Voltar a ouvir aplausos pelo que acabou de fazer e não apenas pelo que fez há vinte anos.
O sucesso é uma droga poderosa. A ressaca começa no dia em que deixa de haver aplausos, e todos tentam adiar esse momento o mais possível.
Ninguém chega ao nível de Ronaldo sem ser egoísta, egocêntrico e obsessivo. Foram essas características que lhe permitiram superar todos os obstáculos e alcançar uma glória que parecia impossível. Ser um “gajo porreiro” nunca foi a sua missão.
É precisamente por isso que me surpreende ver tanta gente escandalizada com aquilo que sempre esteve à vista. As qualidades que o levaram ao topo são as mesmas que hoje lhe apontam como defeitos.
Não é realista esperar que exista um momento de iluminação em que este deus desça do Olimpo e se transforme noutra pessoa. Fomos todos cúmplices enquanto o aplaudíamos e venerávamos. Fomos cúmplices quando lhe exigimos que fosse um super-herói. Agora surpreendemo-nos por ele continuar a lutar para ser exactamente aquilo que sempre lhe pedimos que fosse.
Queríamos um super-herói. Agora custa-nos aceitar a sua humanidade.
Da minha parte, não quero um Ronaldo humilde nem mais humano. Quero o Ronaldo de outro planeta. O homem épico que nos fez sonhar e admirar. Esse Ronaldo não pede desculpa por ser quem é. Se fosse diferente, não seria Ronaldo. Se fosse mais humano, não teria sido um super-herói.
Que venha essa última representação dramática e épica que ele ainda guarda dentro de si. Haverá novamente aplausos por conquistas presentes.
O que estamos a assistir é à parte do filme em que o herói está na mó de baixo, leva pancada dos vilões e parece derrotado. Mas sabemos como estes filmes acabam.
O filme Ronaldo terá um grande final.
E espero que seja ao som do velho Sinatra:
“And not the words of one who kneels. The record shows I took the blows and did it my way.”