
Francisco Gonçalves
A sociedade contemporânea vive numa estranha contradição: vive-se mais mas, quando envelhecemos, passamos a ser um incómodo.
Nada disto é novo, não faltam velhos sós – em casa, nos lares ou nos hospitais.
As causas são várias, mas este é um problema que não se combate pelas causas. Não podemos parar a tendência para o individualismo da sociedade contemporânea, que também decorre de fatores como a vida na urbe ou do capitalista, que fizeram diminuir a densidade social.
As redes que conhecíamos, que faziam o amparo no passado, não têm mais paralelo na vida atual. O Estado Social, que ocupou esse espaço, nunca foi (e certamente não será agora que irá) tão profundo, até porque é uma construção institucional, não é relacional, familiar ou íntima. Só o poder local, e as redes que constrói, pela sua lógica de proximidade, pode fazer esse papel.
A exposição “É Depois da Solidão”, que está patente até 15 de outubro no Parque dos Poetas, em Oeiras, conta as histórias desses seniores maiores, olhando-os como pessoas com vida própria, ativas, e não como estorvos ou agentes recetores de cuidados.
São, no fundo, histórias de vida de pessoas que recusaram deixar de viver. Ou, melhor, que escolheram viver até ao fim.

Francisco Gonçalves
Se há tema capaz de unir uma larga fatia dos portugueses, esse tema é o pão. Seja sobre o preço, seja sobre a qualidade, todos temos qualquer coisa a dizer sobre o pão. Nas últimas décadas, o pão perdeu qualidade e subiu no preço. Seja pelas farinhas, seja pelos fermentos, o pão, presente em todas as mesas, começou até a ser afastado da nossa dieta.
Confesso: adoro pão! Trigo, centeio, com sementes, alfarroba, girassol, etc.. importa é ser bom!
Depois de o pão ter passado por um processo de industrialização que lhe retirou qualidade, surgiu, nos últimos anos, um movimento de nicho, de padarias ditas “gourmet”, pouco acessíveis no dia-a-dia para as bolsas dos portugueses.
Não são as padarias gourmet que fazem falta (perdoem-me, sei que há lugar para todos). O que nos faz falta é a padaria de bairro, a que nos trazia o pão de cada dia, em volta do qual nos juntávamos e que nos juntava.
Pão não é apenas alimento, pão é cultura, familiaridade e amor. O partir do pão e o seu repartir tem muito de simbólico na nossa sociedade.
Encontrei esse pão recentemente em Gimonde, uma pequena aldeia ao lado de Bragança. É nesse Portugal profundo que a Elisabete Ferreira nos traz de volta a esse pão. Fá-lo como negócio, naturalmente, mas também como ato de amor à arte e à cultura do pão.
Talvez seja essa a sorte de Portugal: ter sempre uma padeira para nos recordar quem somos.

Francisco Gonçalves
Quase todos os dias faço exercício na mesma zona do Concelho de Oeiras. Quase todos os dias (de bom tempo) cruzo-me com um grupo de seniores que todo o ano fazem a sua caminhada no Passeio Marítimo de Oeiras.
Quase todos têm mais de 75/80 anos. São um exemplo do que é o envelhecimento ativo.
Durante os meses de verão, porém, há uma inveja branca que se apodera de mim: quando terminam o exercício, vejo-os na praia de Caxias. São, normalmente, os primeiros a chegar.
Este grupo é exemplar quer no que respeita às mudanças de comportamento dos tempos atuais, quer ainda na boa utilização das novas infraestruturas públicas (o passeio marítimo, que décadas antes era uma miragem) e de praias que não existiam (seja pela falta de areia quer pelas aguas que antes estavam poluídas).
A vida mudou muito. Há alguns anos, quando o verão chegava, os jovens eram os “donos da praia”. Eram eles que as usavam e eram eles quem lhes trazia alegria. Hoje há um novo grupo a tomar conta da praia: os que sabem envelhecer. Saber viver é uma arte.