Mais de uma semana após a evacuação, moradores de Porto Brandão vivem entre a incerteza e o medo.
Na quarta-feira, dia 11, os moradores de Porto Brandão, no concelho de Almada, foram obrigados a abandonar as suas casas devido ao agravamento do risco de deslizamento de terras na zona. Mais de uma semana depois, muitos visitam, sempre que possível, o local onde deixaram rotinas, memórias e pertences.
A Azinhaga dos Formozinhos, situada nas arribas entre o Monte da Caparica e Porto Brandão, foi uma das áreas mais afetadas. Na chamada “parte alta”, como é conhecida entre os residentes, todas as habitações foram evacuadas por questões de segurança.
Ana Durão conhece aquela zona há cerca de 50 anos, embora só ali viva há quatro. Entre lágrimas, recorda ao 24Horas o momento em que percebeu que teria de sair.
“Estava a dormir quando a minha mãe me ligou a dizer que a Proteção Civil estava cá fora e que tínhamos de sair. Peguei em dois ou três sacos e meti lá roupa sem pensar muito. A minha prioridade foi agarrar nos meus gatos, colocá-los no carro e sair”, conta.
Ana conseguiu abrigo em casa de uma amiga, mas sublinha que nem todos tiveram a mesma sorte. Há moradores realojados em unidades temporárias que, segundo relata, enfrentam dificuldades no acesso a refeições quentes e agasalhos suficientes, pior que isso são aqueles cujo agregado familiar precisou ser realojado separado.
Não é o caso de Sara Palácios, mãe solteira de gémeos de cinco anos, está atualmente alojada no INATEL da Costa da Caparica. “Felizmente os meus filhos estão comigo, mas estão muito assustados”, afirma. A situação precária que vive deixa os filhos ansiosos, garante, e a ela ainda mais sem saber o que será o futuro.
Uma semana após estar realojada no INATEL, Sara foi infornada que teria de deixar o quarto até ao meio-dia seguinte, pois as reservas previamente feitas naquela unidade hoteleira assim obrigavam. “Às oito da manhã tentei resolver a situação com a rececionista e perguntei se não poderia ser outro agregado familiar menos vulnerável a sair, em vez de ser eu com duas crianças pequenas.” A situação acabou por ser revertida e, mais tarde, uma técnica da Câmara Municipal de Almada informou-a de que a estadia tinha sido prolongada até segunda-feira, dia 23. O que acontecerá a seguir permanece incerto.
O 24Horas contactou o Gabinete de Comunicação da Câmara Municipal de Almada para obter dados oficiais sobre o número de pessoas retiradas, mas, até à publicação desta reportagem, não obteve qualquer resposta.
Entre a incerteza e o receio, os moradores deixam um apelo claro: que o Governo apoie a Câmara Municipal de Almada na eventual declaração do estado de calamidade no município, como forma de garantir respostas mais rápidas e eficazes para quem perdeu, de um dia para o outro, o lugar a que chamava casa.